MVG fala sobre sua crenças religiosas – Parte 4

Entrevista realizada pelo leitor Caio

Caio: Você cresceu numa família mais tradicional e religiosa (conservadora) ou mais liberal e não praticante de nenhuma doutrina? Se sim para a primeira opção, você se considerou religioso por causa da influência dos seus pais ou também por uma convicção própria?

MVG: Sinto que nasci numa família moderada quanto as religiosidades. Meu pai raríssimas vezes (se é que recordo de alguma) trouxe ideias voltadas a dogmas religiosos. Minha mãe teve formação católica mas não praticante, no mais puro sentido de não trazer valores restritamente religiosos (se é que dá para fechar religião em um quadrado), mas me educando sobre respeito ao próximo, a olhar para o social que vai além de nosso núcleo familiar, de compreender e perceber as diferenças e aprender a respeitá-las. Existe isso na religião, não é mesmo? Mas não aprendi desses valores sobre as asas do cristianismo.

Do pré até a oitava séria do ginásio estudei em um colegial de freira americanas. Tive aula de religião, líamos a bíblia, mas naquele tempo embora meu corpo estivesse presente nas salas de aula, minha mente pairava em ínumeras dimensões da minha imaginação, coisa que uma terapeuta chamaria de dispersão, mas que a mim – relembrando agora – me parecia uma preparação espiritual para enxergar a terra.

Traduzindo: da minha infância até a sétima série o mundo imagético dentro da minha cabeça era extremamente poderoso e não me permitia enxergar com clareza a materialidade da sala de aula, dos professores, do que era dito e dos colegas de classe. Fato é que fiquei de recuperação da primeira a sétima série (risos), vivendo em um tipo de altismo, que não era altismo e que hoje eu chamaria de “processo espiritual de reconhecimento de terreno”, já que estamos falando de religiosidade nessa questão. O meu mundo particular era muito mais cativante!

Caio: Se você tinha uma convicção religiosa, isto te atrapalhou ou causou algum impacto negativo na descoberta da sua sexualidade? De que maneira?

MVG: Nunca fiz intersecções entre religiosidade e sexualidade e – a bem da verdade – acredito com convicção que religião e sexualidade só se deve misturar na hora de instruir as pessoas quanto ao controle de natalidade! Meus pais também não impuseram condições com base em religiosidades e me senti sempre muito livre para tecer meus próprios valores sobre fé, espiritualidade e mediunidade. Sim, acredito em fé, espiritualidade e mediunidade.

Caio: Você acha um contrasenso pessoas homossexuais serem seguidoras do judaísmo, cristianismo e islamismo, devido ao fato delas serem contra o livre exercício de suas sexualidades? Aqui eu quero falar apenas das doutrinas, não o fato deles terem suas espiritualidades, pois sabemos que não é necessariamente preciso crer em religiões para ser espiritual.

MVG: Exato, Caio. Concordo que não existe ligação direta entre religiosidade e espiritualidade, embora as pessoas misturem muito esses dois conceitos, fruto de falta de esclarecimento de valores, da manipulação e da imposição de algumas instituições. Fé e espiritualidade não fazem intersecções diretas com religião que, por sua vez, não deve ditar aos homossexuais o que devem ou não fazer com seus sentimentos reais, íntimos e pessoais em relação a outras pessoas do mesmo sexo. Sexualidade tange o universo da intimidade, da particularidade e é bastante delicado transferir a responsabilidade que se deve ter com o que é íntimo para instituições que falam sobre verdades absolutas sobre determinados temas. Não existe verdade absoluta sobre sentimentos e desejos individuais. A sociedade, por intermédio das instituições – seja o núcleo familiar, a igreja, a escola, etc. – dizem a nós o que podemos ou não trazer para a nossa realidade social. Porém, essa mesma sociedade está constantemente revendo o que pode ou não colocar dentro do “pacote” e, em alguns períodos, existem rupturas e constantes revisões. O contexto de hoje para a homossexualidade – ao meu ver – não é mais de ruptura social. Essa ruptura se deu nos anos 70 e hoje vivemos as reformas e revisões dos movimentos daquela época. Mas, obviamente, nem todos querem ou concordam com essa frequência pois, novamente, mexe com poder, reputação e valores de extratos ditos “dominantes”.

Caio: Você segue alguma doutrina religiosa atualmente? E o que acha das igrejas ditas inclusivas, aquelas evangélicas que aceitam homossexuais e até são conduzidas por eles?

MVG: Não sigo nenhuma doutrina e talvez nunca siga pois acredito que a nossa conexão com Deus não dependa de templos, ícones, intermediários e livros que me revelem as palavras de Deus. Não sigo nenhuma doutrina pois tenho a consciência que optar por uma delas é saber que em alguma medida, em algum momento alguém pronunciará uma palavra que diminua a doutrina alheia e direta ou indiretamente diminua por consequência outro indivíduo. Não sigo nenhuma doutrina porque por trás de todas existem políticas e politicagens feitas por homens; existem interesses que nem sempre visam o bem estar coletivo mas sim, da mesma maneira, uma reputação, um status e um poder para poucos.

Acho parcialmente válido as instituições evangélicas de inclusão do homossexual ou os homossexuais que conduzem algumas dessas igrejas sob o crivo das ideias acima.

Acredito na espiritualidade que incentive as pessoas para um status de mais consciência de si, que é aquilo que não é somente material, mas sim intuitivo, sensitivo e, para alguns que o desenvolvem ou adquirem, mediúnico (mas não exclusivo do espiritismo ou da umbanda). Tenho fé em Deus, mas que não tem nome e não se materializa propriamente na figura humana.

Caio: Na sua visão, se a religião fosse reduzida quanto a sua expressividade, tanto em número de seguidores quanto na influência que elas ainda têm na vida pública, a homossexualidade seria mais respeitada?

MVG: De maneira útopica, aplicando meus ideais, sim. Mas na prática o homem utiliza-se de instituições religiosas (e outras intituições) também para excluir pelas diferenças e agregar aqueles que consideram iguais. Em outras palavras, são essencialmente excludentes a não ser que você “jogue” com as regras do jogo. A redução das religiosidades não implica necessariamente na inclusão da homossexualidade. As instituições se formaram como instrumentos para algumas hierarquias expressarem seus valores, ditarem suas regras e acolherem aqueles que de maneira direta ou indireta corroboram a favor. O problema da exclusão do que não é normativo ou maioria não está nos instrumentos mas dentro das pessoas. Com a redução da religião, criariam-se outros instrumentos de negação ao homossexual nesse estágio de consciência espiritual que vivemos hoje.

Estamos vivendo processos evolutivos racionais e espirituais ao mesmo tempo e acredito que passamos hoje por um momento de revisões mais expressivas, principalmente das espirituais. As crises dos modelos por todo mundo, tal como da igreja católica, das estruturas políticas do Egito, do Brasil, da Europa generalizada com altíssimo desemprego, apontam por mudanças necessárias que envolve o olhar que um indivíduo tem pelo outro.

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  1. junior38 disse:

    Republicou isso em É Difícil Ser Gay no Armárioe
    comentado: Segue a parte 4. Queria deixar claro que tenho minhas
    próprias opiniões sobre religião, religiosidade e a influência
    delas no ser gay. Algumas são discordantes do que mvg escreve, mas,
    aqui, está publicada a opinião dele.

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