O que é ser gay – Reflexões para além da sexualidade

O que todo mundo anda aprendendo é que ser gay nada mais é do que a atração sexual pelo mesmo sexo (homossexualidade). A homoafetividade pode caracterizar o gay, embora – no meu ponto de vista – entenda que heterossexuais podem também desenvolver afetividade por amigos homens e gays e mesmo assim serem héteros.

Mas no contexto em que vivemos existem padrões comportamentais para gays?

Esse post começa dedicado a uma constatação de meu namorado: “você reparou que pouquíssimos casais gays com outros casais gays saem juntos para almoçar, viajar, ir ao cinema, etc?”. Tenho que concordar e creio que, ao contrário dos hábitos dos heterossexuais, existem ainda muitas restrições no comportamento normativo entre gays, pelo menos em solo brasileiro. Quando existem festas de família, com os casais heterossexuais acontece normalmente dos homens se juntarem em um canto e das mulheres se juntarem em outro. Os assuntos desses dois universos tendem a ser os mesmos para a maioria dos grupos; homens falam das dezenas das coisas de homens e mulheres, no outro canto, falam das dezenas das coisas das mulheres. E o texto aqui não vai levantar bola para julgar o que é legal ou não, se é cafona ou tradicional e o que pode ser ser mais simpático ou prazeroso para cada um. Isso é o que a gente vê acontecer na maioria das reuniões familiares, são hábitos e comportamentos regulares da tal heteronormatividade.

Casais heterossexuais tem facilidade de socialização entre si. Por que entre casais gays não funciona assim?
Casais heterossexuais tem a natural facilidade de socialização entre si. Por que entre casais gays não funciona assim?

Casais de amigos heterossexuais, não raro, inventam viagens juntos, saem para jantar, assistir um cinema ou uma peça de teatro. Os filhos crescem juntos e viram amigos por longos anos ou por determinado período de tempo. Mas o mesmo não se aplica com tanta nitidez no universo gay e dá a impressão que assim o casal gay precisa sempre viver a dois, grudados, incluindo um ou outro amigo solteiro aqui ou ali, amigas heterossexuais e nada mais.

De modo prático, não foi raro também eu vivenciar situações nas quais ex-namorados evitavam a ir ao cinema, restaurantes mais tradicionais ou tinham algum tipo de bloqueio em frequentar determinados espaços públicos que não fossem dentro ou muito próximo do circuito. Hoje, esse circuito na capital paulista está realmente amplificado, mas não era assim há 10 anos atrás.

E quando o gay quer mandar flores para o pretendente ou escrever uma carta de amor e – estranhamente – a reação é negativa? Por que será tudo isso? Onde no idealizado do indivíduo a representação de flores e cartas de amor não caem bem?

Parte das respostas podem vir imediatamente: os gays se sentem mais arredios para frequentar todos os lugares pela aura do preconceito e têm dificuldade de assumir alguns hábitos por um hipotético constrangimento de homem para homem. Dúvida: preconceito ou falta de normas comportamentais que acabam por deixar os gays perdidos?

No meu ponto de vista acontece ainda (e muito aqui no Brasil, até mesmo em São Paulo que é tida como mais moderna e de tendências) a normatividade fechada ao gênero masculino e o que da cartilha hétero se define por assumir esse gênero. Assim os gays em geral sentem-se muito sem jeito para saber o que dá ou não para fazer com um companheiro ou até mesmo entre casais. Será isso mais um dos motivos dos gays terem tanta dificuldade de virar a página três de um relacionamento sério?

A cartilha comportamental hétero, suas normas e sub-normas, está escrita há milênios e, com exceção de algumas revisões ou ajustes, tem seguido o mesmo fluxo por todo esse tempo. Por ser norma, por ser cartilha, qualquer mudança comportamental já gera suspeitas quanto ao gênero e o sexo. Se um homem é um pouco mais delicado, pronto! Tem de ser gay, tanto sob o olhar desconfiado do hétero ou do homossexual.

Sabemos que feminilidade não é pré-requisito absoluto que caracterize homossexualidade. Tenho dois amigos que são “moças” e plenamente resolvidos com a sua heterossexualidade, casados e com filhos. Mas as normas comportamentais (que invariavelmente vem das regras heterossexuais) fazem de um indivíduo delicado ser alvo da desconfiança. E lá estamos nós devorando a cartilha. Todos nós.

Heterossexuais e gays tem como referência esse “manual” desde os primeiros anos de vida e – na medida de cada um – por não existir um referencial de normas e condutas para ser gay, cada homossexual pega para si ou rejeita aquilo que vem da “carta magna” dos comportamentos do heterossexual. Assim, “ser gay”, amigos leitores, além da simples e natural atração sexual por um indivíduo do mesmo sexo, passa a ser tudo o que você já conhece e um pouco mais por puro exercício de refração ao modelo vigente.

Nesse contexto, sentimentos antagônicos de gay para gay não são difíceis de ver, tais como:

– O gay que adora receber flores e cartas VS. o gay que abomina esses gestos românticos;

– O gay que não namoraria com a bichinha, mas que “não tem nada contra” VS. o gay que é bichinha e acha estranho o outro ser tão masculinizado;

– O gay que só convive entre amigos gays e homens VS. o gay que tem vivência preferencialmente com amizades do sexo feminino;

– O gay que assume o relacionamento em qualquer ambiente que seja VS. o gay que tem diversas limitações a lugares e pessoas para apresentar seu relacionamento;

– O gay que odeia o meio gay VS. o gay que bate cartão e bolsa;

– O gay da The Week VS. o gay do Clube Glória;

– O gay que naturalmente inclui o namorado na família VS. o gay que quer manter família e parentes bem distante da relação;

– O gay que é promíscuo e vive uma alta rotatividade sexual VS. o gay que pode até ficar muito, mas faz sexo de maneira ultra selecionada.

Vejo que é um momento oportuno na qual os padrões comportamentais do gay precisam ser mais bem definidos. Em certa medida odiamos pensar em “caixinhas” justamente porque passamos boa parte da nossa vida conflitando, fugindo e se esquivando da caixinha da heteronormatividade. Mas, ao mesmo tempo, não posso me dar por satisfeito que “ser gay” é somente a reação ao modelo geral da heterossexualidade e que faz cada um atirar para um lado. Viver só de refração é também dar margem para que os normativos pincem comportamentos esparsos e instituam como geral. E não é o que acontece a todo momento?

No áudio do Flávio Gikovate upado no texto “Ideias sobre a homossexualidade – Flávio Gikovate viajou…”, o psicoterapeuta se apropria de uma visão “Baby Boomer” temporal e coloca o “gay real” como aquele cara eternamente solitário, noturno e com fortes desejos promíscuos, por paus enormes e ambientes sujos. E posso até concordar que durante um período da história existia um potencial para gays que se comportassem ou vivessem assim com a finalidade de poder exercer suas vontades sexuais. Mas será mesmo que nos dias mais atuais essa norma de aplica, ou hoje podemos dizer que é uma mera opção dentre outras?

Falamos tanto em heteronormatividade de maneira fortemente reacionária. Mas alguém está interessado e pensando realmente no que envolve e o que se define de homonormatividade?

A gaiola das loucas está aberta há muito tempo, mas ninguém se preocupou até hoje em fechar.

6 comentários Adicione o seu

  1. junior38 disse:

    Cara,

    Muito interessante o que você escreveu. Mas, na verdade, esse código de conduta a que você chama de heteronormatividade, precisa ser construído. Mesmo que vivamos num país dito sem preconceitos, é óbvio que isso não é verdade!
    Assim, sempre houve os que viveram sua sexualidade sem se importar com os outros, mas também sempre houveram os irrustidos, tipo eu.
    Penso que, com a liberação do casamento gay, a sociedade, ainda que à força, vai começar a ter que aceitar e conviver com os casais gays.
    Isso vai provocar essa construção desse código de conduta. A bola está nos nossos pés. Somos nós que vamos construir isso.
    Na verdade, a coisa já existe, pois você mesmo já pontuou alguns padrões de comportamento dos casais gays.
    Engraçado, que uma vez conversando com um amigo hétero, sobre homossexualidade, eu falava sobre o mundo gay. Ele achou estranho e me perguntou que história era essa de mundo gay.
    Eu tentei explicar e ele me disse que era preconceito meu. Talvez ele que esteja num grau muito avançado de não preconceito e aceitação. Na opinião dele, e eu sempre pensei que eu deveria ser assim, o fato de ser gay não deveria influenciar na minha maneira de viver a vida. Afinal, sou trabalhador. Não sou pago para produzir nada como gay, mas apenas para produzir resultados. Sou contribuinte. Não pago impostos como gay. Sou telespectador, mas não importa se sou gay ou não. Enfim, deveria ser assim. Mas, em geral, não é. Enfim, esse assunto ainda precisa ser muito discutido….
    Valeu o post!
    Um abraço.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Junior!
      Você quis dizer heteronormatividade ou homonormatividade no começo do seu comentário? Fiquei confuso…rs. Realmente, se for homonormatividade, a coisa está se construindo mesmo. E tem muito chão pela frente pois ainda estamos numa fase muito afirmativa de “ser gay”. A auto-afirmação e o orgulho gay devem se manifestar durante décadas como expressão pessoal e política ainda até que se estabeleçam padrões comportamentais mais reconhecidos. E por mais que padrões comportamentais soem restritivos, entendo que sejam necessários para estabelecermos conexões como gays.

      Abs e valeu,
      MVG

      1. junior38 disse:

        Oi MVG,

        Realmente escrevi errado. Me referia a homonormatividade. Essas palavras são muito novas para mim. Não sou ativista e nem me envolvo muito com essas questões. Por questões muito particulares, e que não estão disponíveis ao julgamento de ninguém, estou no armário, não posso me expor.
        Mas, concordo que essa é uma construção e que a fase de autoafirmação ainda vai precisar gastar alguns anos, até esses códigos se estabeleçam e se tornem parte da cultura do nosso povo brasileiro, e também de nós gays.
        Mas, as vezes, penso que nós mesmos nos colocamos muito preconceituosos com os héteros, e alguns, até gostariam que todos fossem gays, mas, tá valendo, faz parte da diversidade de opiniões. Gostaria que as coisas caminhassem para o meio termo consensual, e que todos pudessem ter a liberdade de viver sua sexualidade sem ter que se justificar, como os héteros já o fazem, e sem ter que enfrentar preconceitos.
        Um abraço,

  2. junior38 disse:

    Republicou isso em É Difícil Ser Gay no Armárioe comentado:
    Bem, essa foi a resposta que escrevi a mais um post do MVG. Achei muito interessante o que ele escreveu e resolvi reblogar. Assim, talvez a ordem das coisas ao reblogar fiquem meio inversas. Sugiro ler debaixo para cima para facilitar…. Na verdade, esse código de conduta a que você chama de heteronormatividade, precisa ser construído. Mesmo que vivamos num país dito sem preconceitos, é óbvio que isso não é verdade!
    Assim, sempre houve os que viveram sua sexualidade sem se importar com os outros, mas também sempre houveram os irrustidos, tipo eu.
    Penso que, com a liberação do casamento gay, a sociedade, ainda que à força, vai começar a ter que aceitar e conviver com os casais gays.
    Isso vai provocar essa construção desse código de conduta. A bola está nos nossos pés. Somos nós que vamos construir isso.
    Na verdade, a coisa já existe, pois você mesmo já pontuou alguns padrões de comportamento dos casais gays.
    Engraçado, que uma vez conversando com um amigo hétero, sobre homossexualidade, eu falava sobre o mundo gay. Ele achou estranho e me perguntou que história era essa de mundo gay.
    Eu tentei explicar e ele me disse que era preconceito meu. Talvez ele que esteja num grau muito avançado de não preconceito e aceitação. Na opinião dele, e eu sempre pensei que eu deveria ser assim, o fato de ser gay não deveria influenciar na minha maneira de viver a vida. Afinal, sou trabalhador. Não sou pago para produzir nada como gay, mas apenas para produzir resultados. Sou contribuinte. Não pago impostos como gay. Sou telespectador, mas não importa se sou gay ou não. Enfim, deveria ser assim. Mas, em geral, não é. Enfim, esse assunto ainda precisa ser muito discutido….
    Valeu o post!
    Um abraço.

  3. Aqui discutimos bastante sobre homossexualidade e isso é um fato.
    Homossexualidade já deixou de ser um tabu e uma prova disso é que já estamos na fase de analisar o que vai além da atração sexual, a convivência.

    Durante todo o texto você discutiu sobre heteronormatividade, e que vê que não damos uma atenção maior a homonormatividade, ou melhor, que ela não existe.
    Apesar disso, lembro que há alguns post’s atrás você postou um vídeo onde se discutia sobre as relações gays e como ter uma boa relação na mesma. No desenvolver do vídeo eles comentaram sobre a norma heterossexual, a divisão de papéis, e que isso também não existe na homossexualidade, mas os mesmos ressaltaram em um ponto interessante: Temos mania de seguir uma norma, uma regra, e se não há, criamos para que os outros sigam.
    No vídeo eles contestaram isso, pois os mesmos afirmaram que para uma boa relação funcionar ( seja hétero ou homo ), o casal deve se adaptar a si mesmo e não a uma norma universal. Pode funcionar com um, mas quem garante que funcione com você?

    Daí eu fiquei confuso: MVG você é a favor de uma normatividade ou não?

    Li o texto pelo cel e foi uma leitura rápida, perdoe-me se eu tiver interpretado erroneamente (ler teus textos rapidamente não funfa, tenho que dar uma atenção maior para todos os detalhes que tu citas).

    Abraços do CR!!

    1. minhavidagay disse:

      Oi CR!
      Você foi bem no ponto, adorei mesmo você ter levantando essas questões e espero que as pessoas leiam essa troca de comentários. Afinal, devemos ou não instituir uma homonormatividade? Isso é bom ou ruim?

      Vou dizer o que realmente penso, já que o objetivo desse post foi instigar as pessoas para a reflexão: particularmente sou contra a homonormatividade, assim como tenho sérios bodes com alguns padrões comportamentais héteros, como homens terem que metodicamente falar de mulheres, carros, futebol e – sair desses temas e falar de moda, por exemplo – dá margem para aquelas dezenas de piadas clichês de sempre. Praticamente me dá vontade de vomitar (risos). Tem coisa mais banal e óbvia?

      Porém, no âmbito ideológico, se a heteronormatividade incomoda tanto ao gay e é sempre motivo para as diferentes refrações que influenciam o comportamento dos homossexuais, creio que instituir com o tempo uma homonormatividade seja uma necessidade para o próprio gay. Continuo achando as diferenças entre os gays algo bastante rico, embora existam tantas disparidades comportamentais. Acho rico e corresponde às minhas expectativas da diversidade. Pessoalmente, me saio muito bem nesse caldo, conseguindo coexistir com os mais diferentes tipos, gostos e idades. Porém, as normas de conduta e comportamento – de maneira geral – auxiliam inclusive na formação de uma sociedade mais íntegra e definida. Trará também as obviedades e as banalidades, mas será que não é um mal necessário? Ideologicamente talvez sim: um mal necessário para se estabelecer uma visão mais clara do que é ser gay, para pararmos de patinar tanto entre nós e para apresentar a cartilha a sociedade e dizer “é assim que funciona”. Contexto.

      O que me consola é que as normas se formam por intermédio de necessidades. As normas se formam não pelo intermédio de um único indivíduo que tem necessidade de aplicá-las mas sim diante das expectativas e carências das pessoas. Dizer que as divisões de papéis entre gays não existem é uma homonormatividade ou uma negação a heteronormatividade? Pois o ponto que a mim incomoda é esse: somos reacionários a heteronormatividade e a negamos sobre os mais diferentes aspectos, o que não quer dizer que se instituiu uma homonormatividade. Podemos dizer que estamos num “limbo”, tentando ainda entender as nossas próprias normas.

      E a bem da verdade é que realmente vivemos esse “limbo”. Tenho muitas experiências dentro do meio, no centro mais infernal do meio e bem fora dele, em meio aos hábitos tradicionais da família do meu namorado (por exemplo). Sei o que é transitar livremente entre as mais tradicionais altarquias que praticam as normas heterossexuais e o que há de mais cabeludo no que pode se dizer de conduta gay (tipo sujo e promíscuo, como citou o Gikovate). As normas de vivência heterossexuais são tão claras que chegam a ser pálidas. Do contrário vem toda essa atmosfera de negação, de “liberdade” e de que para o gay não tem norma. Ou seja, é um limbo pois ideologicamente falando uma sociedade estabelece as normas para se constituir como uma própria sociedade.

      Posso quase que afirmar ainda que essa TREMENDA dificuldade dos gays de constituírem namoros sérios não vem apenas dessa realidade social mais desapegada e individualista, ou dos preconceitos e inseguranças que internalizamos. Vem também da existência desse limbo, da falta de uma cartilha que nos conduza. Veja que entre gays ainda se discute ser ativo, ser passivo, afeminado, masculinizado, gay que só anda com gay, gay que só anda com mulher (…) e, assim, vivemos bloqueios, conflitos e divergências entre nós mesmos dificultando a fluidez de nossos próprios relacionamentos.

      Seria interessante pensar a respeito, CR. Eis um post que está longe de se concluir aqui e acaba por denunciar as dezenas de problemáticas que é também ser gay e que, ao meu ver, mais nos limita do que nos liberta.

      Abs,
      MVG

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