Homo ou heteronormativo?


Estive hoje a tarde inteira em uma empresa prestando consultoria de gestão e marketing. Startup, com gente descolada e cujo negócio web tem ampla possibilidade de trilhar boas reputações no mercado. Detalhe que de gay somente eu, em meio a uma turma jovem de homens, com seus 27 anos em média e cheios de energia para decolar.

No meio da concentração elaborando cronogramas e relatórios, toca meu celular: papai querendo alguma coisa. Nesses dias o ajudei a usar um app do torrent para baixar coletâneas via Pirate Bay. Imaginei que ele tinha mais uma dezena de dúvidas de como transferir os arquivos para um pendrive…

Porque nem sempre a coisa que termina em pizza tem aquele jeito de ironia
Porque nem sempre a coisa que termina em pizza tem aquele jeito de ironia

Meu pai: “O pai da ‘Lana’ (minha futura cunhada) está chamando a gente para comer pizza no sítio amanhã. Vamos?”.

Eu: “Ah sim, pai. Gostei da ideia. Vou falar com o ‘Binho’ (meu namorado) e te respondo”.

Ele: “Legal. Chama ele e depois me confirma. Se vocês forem, passa aqui para dar uma carona”.

Desliguei o telefone e foi aí que me dei conta naqueles milésimos de segundos das sinapses: “eu falando assim com meu pai e incluindo meu namorado? Ele respondendo tranquilamente como se fosse a coisa mais natural do mundo?”.

Foi aí que parei um minuto e lembrei que ontem, durante o almoço meu pai já havia falado algo do ‘Binho’, da gente marcar de comer algo qualquer dia desses…

Foram 10 ou 11 anos para que meu pai aceitasse a minha condição e mais algum tempo para que ele entendesse que – como homossexual – eu invariavelmente me relacionaria com um homem, com pênis, barba, músculos e qualquer outro atributo que caracterizaria um indivíduo homem em seu imaginário. Confesso que a naturalidade de tratar da minha relação com meu pai me soou estranho…

Melhor dizendo, curioso foi a maneira natural que falamos sobre meu namorado, ter passado batido e me dar conta do tom que o assunto se fez nesses dois diálogos.

(Escrevendo esse texto vem uma mistura de constrangimento com um baita orgulho).

Meu velho tem 71 anos (faz 72 esse ano) e vem daquela cultura tradicional, meio “militar”, de educação na qual o homem teria que constituir uma família fortemente paternalista (embora o contexto do meu pai fosse de família maternalista). Daí assim, num aparente “click” a minha homossexualidade é tão tranquila como comprar pão de queijo na padoca da esquina, de chinelo e bermuda velha. (RISOS)

Parece até que eu estava acostumado com a negação, com a rejeição e com o nariz torto de meu pai quando lembrava que era gay. Claro que não era nada confortável. Mas o padrão comportamental era tão aquele e parecia que nunca iria mudar que – me acostumar fortemente – era a condição.

E agora que tinha acostumado, o velho resolveu virar o jogo! (Quantos são os filhos, na verdade, que viram esse jogo, hein?)

Dúvida: hétero ou homonormativo essa relação da família comendo pizza e um dos filhos com o namorado estarem juntos dando garfadas, presentes na mesa redonda, compartilhando a garrafa de refrigerante e pedindo para servir mais um pedaço?

Foda-se, não é mesmo? Agora, quem vem na minha carona é meu pai…

5 comentários Adicione o seu

  1. Colaboração disse:

    Renato Russo falando de hetero e homonormatividade em 1993 com uma ONG gay

  2. Colaboração disse:

    Existe um desafio para normatividade que é o da igualdade e diferença.
    Veja o vídeo e reflita de acordo com a sua linha.

  3. Caio disse:

    Pois é, as vezes quando menos esperamos situações como esta acontecem. Mesmo que já tivéssemos nos acostumados com a problemática, de repente tudo fica azul, normal e tranquilo. Acho que finalmente ele percebeu que ser gay é só algo como a cor do cabelo e não interfere em nada negativamente na relação familiar.
    Que muitos outros pais possam ter essa mesma visão e se entender numa boa com seus filhos.

    Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Pois é, Caio… e ontem foi totalmente tranquilo. Meu pai está extremamente sossegado com a minha realidade. E foi assim, num “click”. Mas é muito bom as energias fluírem assim, sem barreiras por causa de limitações pessoais ou imaginário.

      Abs,
      MVG

  4. Colaboração disse:

    Olha o casal trans, mas hetero, na filmagem do the Sun.
    Mandei antes só em reportagem e fotos.

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