Minha Vida Gay – Dois lados da mesma moeda

Recentemente reencontrei um amigo gay, alguém que não via há aproximadamente 3 anos. Nos conhecemos quando ele tinha 17 e eu 23 e foi uma aproximação de balada por intermédio de uma amiga.

A amizade perdurou até hoje, mais de 11 anos que se passaram, ele hoje com 30 e eu com 36. Diria que as nossas realidades e compreendimento de mundo seriam opostos: ele, extremamente conectado ao meio LGBT, bastante preocupado com roupas, corte de cabelo, estilo e aparência. Necessitado de, nas horas vagas, frequentar as baladas e os restaurantes. No aspecto familiar, omite até hoje (ou deixa subentendido) sua realidade homossexual para seus pais. Prefere levar aquele sentimento de que todos já sabem, mas que não se fala sobre o assunto.

Sobre relacionamentos, vive casos “malucos” sob o meu ponto de vista: conhece um homem de seu interesse, vive um caso de dois meses, passa três sem reencontrá-lo. No meio dessa situação assume um namoro com outra pessoa, termina, reencontra aquele de seu interesse inicial, vive momentos de paixões tórridas e passageiras e depois ambos se desligam para outros reencontros, em outros momentos.

Comportamento gay - as faces da mesma moeda
Comportamento gay – as faces da mesma moeda

É também bastante perdulário. Fazia anos que eu não gastava 250 reais numa conta de restaurante. E foi assim com ele, nesse reencontro. Curioso que mora ainda com a mãe (de pais recém separados), mas não se preocupa em poupar um pouco para constituir seu canto. Sendo assim, já passou por fases críticas de financiamentos e empréstimos. Mas isso não abala sua imagem.

Nesse mesmo universo, sob o ponto de vista da amizade e da homossexualidade em comum, existe eu: “abandonei” a rotina no meio LGBT principalmente porque assumi um namoro (a mim, continuar frequentando muito o meio e namoro são coisas que não “combinam”). Recentemente estive na Lôca com meu namorado para comemorar um aniversário, mas estar no meio ou em lugares com alta frequência de gays não é mais um hábito para as horas livres. A carne é fraca, gente, e não tem como não dizer que uma paquera aqui e ali não desperta o “lado B” dentro da gente (dentro do homem?).

Meu namoro, da forma talvez “quadradinha”, chega em agosto a três anos e meio (meu recorde! risos). Para diversão, passamos mais tempo com familiares e os amigos, não necessariamente gays. Família mesmo em ambientes para gays ou não.

Meus pais assumem a minha homossexualidade, assim como os pais do meu namorado. Todos sabem. Pais são pessoas importantes para a vida dos filhos, invariavelmente. Mas no caso de filhos gays, sabemos que incluir a nossa realidade homossexual é um processo, não é natural ainda e, sim, temos um monte de bloqueios para isso.

Financiei uma casa, tenho meu carro e logo mais farei uma viagem para NY com meu namorado. Serão 15 dias em Manhattan com direito a muitas compras, mas tudo planejado. Não penso em passar necessidades por lá, muito menos quando voltar. Não sei o quanto ser planejado ou organizado, as vistas dos leitores, pode ser considerado “coxinha”, quadrado ou tradicional. Mas depois de 36 anos a gente costuma “tomar um rumo” e tende a querer mais organizar a vida do que bagunçá-la, principalmente depois que se vive “infernos e céus”, como fiz.

Longe também de julgar meu amigo negativamente, como seu eu fosse o lado “céu rosado” da moeda e ele a face “em chamas”. Não tenho a intenção de gerar esse tipo de julgamento, muito menos de me auto-afirmar nas costas dele. O que levanto, novamente, é esse relato sob o ponto de vista dos tais padrões comportamentais dos gays e sugiro novamente uma reflexão.

O perfil do meu amigo é bastante comum. Não é só ele que desenvolve esses tipos de hábitos e, nos anos que vivi intensamente o meio gay, pude me deparar com muitos que cultuassem esse “estilo de vida”, dos luxos, da luxúria, dos casos tórridos, da alta frequência no meio, da estética, das caras e das bocas. Não nego que busco preservar o shape ainda, mas é menos para os outros.

Por outro lado, vivo também um tipo de padrão comportamental que até se intersecciona com hábitos heterossexuais. Posso dizer que “sou família”, gosto de cultuar os parentes e programas intimistas entre casais, em casa ou na casa de amigos. Esses hábitos tem sido uma constância nesses últimos anos. Meu amigo em questão, seguindo seu discurso, preferiria levar o namorado para a balada e, trazê-lo para família, não lhe pareceria algo que combinasse ou funcionasse. Geraria, sim, um incômodo.

O ponto da homonormatividade VS. heteronormatividade exige referências, experiências e não dá para se resumir na teoria. Confesso que esse tema tem batido na minha cabeça pois, apontar para os “males” da heteronormatividade conseguimos facilmente. Como seres humanos somos hábeis a dizer o que não gostamos mediante as normas. Mas como seres humanos também, devemos ser hábeis para tentar conduzir e formar as normas que ainda não existem, para tentar estabelecer um ritmo mais equivalente de coexistência. Não é essa a nossa briga?

Assim, estou pressupondo aqui – para a reflexão – que a tal da homonormatividade tende a se dividir em duas vertentes principais: a dos gays que levarão sua realidade homossexual para família e amigos – estabelecendo conexões entre ser gay e viver em família (trazer o comportamento gay para o contexto heterossexual) – e a dos gays que preferirão dividir a vida gay da vida normativa.

Agora que meu pai aceitou “meu amigo íntimo” (namorado), confesso uma certa estranheza, com uma mistura de orgulho. É como se eu estivesse conformado a jamais meu pai incluir minha realidade homossexual por intermédio da existência de um namorado homem. Ele mudou, está permitindo e – além da pizzada em família que aconteceu ontem (tema do post anterior) – meus pais, minha cunhada e meu irmão estarão em casa hoje para que eu prepare uma bela iguaria de inverno para todos. Não seria isso o exemplo da minha condição homossexual, representada evidentemente pela existência do meu namorado homem, sendo inclusa no contexto das relações heterossexuais? Há intersecções aí, sem a necessidade de máscaras ou fingimentos.

Por outro lado, meu amigo assim como milhares de homens gays, não conseguem estabelecer essas intersecções entre sua realidade homossexual com a família (representação da heteronormatividade). Mas precisam viver, precisam se relacionar e precisam estabelecer conexões com outros. Vão criar e modelar seus hábitos, do culto a estética, das roupas, dos lugares, das gírias e das normas “restritas” que estabelecem no meio. Isso também me parece algo do homonormativo, não é mesmo?

A pesquisa que se encontra na seção “HOMONORMATIVIDADE” do Blog MVG ainda não se concluiu. Mas já aponta para essas duas condições de praticamente mesmo peso: dos homens gays que querem trazer sua realidade para a família e ter a naturalidade de viver assim e dos homens gays que vivem sua homossexualidade mas não querem trazer essa realidade para o núcleo familiar (representação que subentende a heteronormatividade, os costumes familiares, religião, comportamentos e hábitos).

Acho que o Blog MVG é um espaço propício para a construção da tal normatividade do homossexual. Vamos então desenvolver e construir ideias ao invés de apenas criticar o que é estabelecido?

Não é hora de sair do limbo?

Bom domingo ensolarado a todos! =]

4 comentários Adicione o seu

  1. The Beadle disse:

    Gostei muito do texto, algo bem diferente do que rola pela net. Uma mistura de experiências mas sem descuidar da questão filosófica, algo que sempre sonhei encontrar: o Journal de Gide em pleno século XXI!

    1. minhavidagay disse:

      Oi “The Beadle”!
      Não conheço o Journal de Gide. Pode falar mais a respeito?

      De qualquer forma, deixo aqui meus agradecimentos pela satisfação do texto! E seja benvindo ao Blog MVG.

      Abs!

      1. The Beadle disse:

        O Journal foi um diário que o francês André Gide escreveu durante boa parte de sua vida tratando abertamente entre outros da questão da homossexualidade ( e da sua própria) numa época em que tal condição era tida como doença, perversão procurando se situar para além destes conceitos, vislumbrando uma percepção de mundo a partir da experiência e especulação do sujeito gay (avant la lettre).

      2. minhavidagay disse:

        Legal, The Beadle…

        Creio que o MVG tenha esse interesse sim de tirar um pouco o gay do “quadradinho”, dos hábitos comuns, dos vícios comportamentais.

        Assim, busco trazer aqui diversas reflexões que circundam a nossa realidade, mas indo um pouco além da “caixinha”.

        Obrigado pela referência!

        Abs,
        MVG

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