Relato – Judeu, religioso, pai e gay!

Durante essa semana recebi aqui no Blog MVG um breve relato de Israel Heborovich: judeu, ex-seguidor assíduo do judaísmo, atual seguidor de uma linha cristã inclusiva, pai, ex-marido, professor e gay. Apesar de uma troca rápida de mensagens, Israel manifesta-se sobre sua necessidade profunda em preservar fortes conexões entre religiosidade e homossexualidade. Em outras palavras, encontrou um caminho de equilíbrio entre sua devoção à Deus e sua realidade sexual.

estrela-de-davi

Relato de Israel – Judeu religioso, professor e gay:

Bem, meu nome é Israel, e como ele sugere, sim eu sou judeu.

Como judeu minha maior dificuldade era conciliar todo rito religioso e tradição judaica, com minha condição sexual.

Meu maior medo era ser condenado por Deus, e isso me limitou muitíssimo durante muitos anos e a religião ao invés de me trazer paz e calma, me deixava cada vez mais perdido e confuso.

Mas ao formar-me em filosofia, pude compreender melhor como se formou a ideia das éticas e morais religiosas e por fim pude me libertar de preconceitos que eu mesmo tinha sobre mim.

Eu sou religioso, e amo sê-lo, e estando hoje em um igreja Inclusiva entre meus iguais, definitivamente me reconciliei com o sagrado.

Tenho 44 anos, sou pai e avô, professor, e feliz por ser quem sou, com toda dor e delicia que isso possa trazer.

Grande abraços, meu sincero Shalom!

MVG:

Oi Israel!

Muitíssimo obrigado pela seu breve relato e por trazer mais uma referência. Fiquei apenas com duas dúvidas: quando você fala em “igreja inclusiva” é uma que aceita os homossexuais como seguidores?

A outra pergunta é, você é pai, avô e hoje assumiu sua homossexualidade? Ou conseguiu seguir o caminho da heterossexualidade com paz de espírito?

Seria muito útil que você respondesse essas minhas dúvidas. Sempre acreditei que um indivíduo que siga fortemente suas crenças religiosas possa encontrar intersecções com a homossexualidade.

De qualquer forma, agradecido pelo seu relato!

Abs,
MVG

Heborovich:

Olá!

Bem vamos por partes: sim me refiro a igrejas cristã onde se prega uma teologia inclusiva, em todo Brasil e principalmente nas grandes regiões metropolitanas elas surgem a granel.

Você terá desde igrejas mais tradicionais como a ICM de cunho anglicano, ou mais neopentecostais, como Nova esperança, Cidade de Refugio, Igreja contemporânea, entre outras. A grande maioria de homossexuais, que frequentam essas igrejas, deixaram suas igrejas de origem por serem discriminados, ou por não se ajustarem as “doutrinas”, ou ainda por ofenderem a moral religiosa vigente. Hoje podem tranquilamente expressarem sua fé, sem que tenham que “mutilar-se” espiritualmente.

Sim, fui casado durante dez anos, e embora soubesse da minha condição, queria acreditar que um dia Deus iria me libertar de todos aqueles sentimentos que me atordoavam e que por mais que me esforçasse não conseguia abandoná-los. Foram anos difíceis, pois nunca abandonei a minha conduta ética para com minha companheira, jamais a trai, apenas traia a eu mesmo…

Por fim depois de uma viajem a Israel, decidi por tudo as claras, com esposa, filho, mãe e irmãos. Foi a decisão mais difícil pois sempre me olharam como modelo de pai e professor, mas foi a mais acertada.

Hoje sigo amigo de minha ex-esposa e seu atual marido , e meu filho e meu neto são minhas maiores alegrias. A propósito tenho 45 anos.

Grande abraço, meu sincero agradecimento pela leitura.

Shalom.

14 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Eu realmente não entendo como o Israel pode ajustar a sua vida em total sintonia com sua natureza sexual com a religião que segue, afinal foi escrito que ele é um seguidor assíduo do judaísmo. Digo isso porque seguir a doutrina (religião formal) é seguir todos os seus princípios e se eles são contrários a sua (nossa) natureza humana, aí há um grande conflito e portanto impossibilidade se segui-los por completo. Lembrando que ter um entendimento (interpretação) diferente da(s) corrente(s) primárias é criar nova(s) doutrinas, mesmo que baseadas na religião tradicional, ou seja, já não faz mais parte da “original”.

    Eu vejo que qualquer um pode ter sua espiritualidade e até seguir novas correntes, mas se dizer seguidor da corrente tradicional é dar coro a quem nos menosprezam, infelizmente. Para mim não há esta possibilidade. Se eu dissesse o contrário apenas para o contentamento alheio, estaria fingindo.

    1. The Beadle disse:

      É de fato há um equívoco no texto. O correto é que ele foi seguidor do judaísmo estando agora à procura de outra prática religiosa que compreenda sua condição homoafetiva e a associe positivamente com a religiosidade.

      1. minhavidagay disse:

        Realmente! Me equivoquei na introdução do texto. Desculpem, amigos. Vou corrigir agora…

      2. minhavidagay disse:

        Corrigido, com uma ressalva: ele continua judeu, só não segue mais o judaísmo. Sua grande questão era preservar sua conexão com Deus mesmo sendo homossexual. E conseguiu esse equilíbrio, como relata no post.

    2. minhavidagay disse:

      Oi Caio!
      O começo do texto ficou com uma interpretação ambígua e por isso essa falta de sentido. Ele é judeu, mas foi seguidor do judaísmo. Atualmente segue uma linha cristã inclusiva.

      A grande preocupação do Israel foi poder conciliar sua homossexualidade e sua forte ligação com Deus.

      Espero ter esclarecido! Já corrigi a introdução do texto!

      Abs,
      MVG

    3. israel heborovich disse:

      Ola Caio!
      Fico feliz por ter de algum modo tê-lo feito ler meu relato, era esse o objetivo primário.
      Mas deixe-me dizer algo: Vivi durante 24 anos o judaísmo em sua essência, e fui sincero ao faze-lo. Criei meu filho no judaísmo e de maneira ética o ensinei a respeitar outras ideias religiosas.
      Hoje sou cristão, mas jamais deixarei de ser um filho de Israel e tenho orgulho de sê-lo e guardar todas as nossas tradições culturais.
      O que quero dizer é: Podemos sim amar a D’us (Eelohim) independente de nossa condição sexual dentro de uma ética compatível, pois Ele nos aceita como somos, pois fomos criados por Ele Caso não creia na divindade não há problema, ha espaço para todos na vida.
      Um abraço, sincero Shalom.

  2. Bem interessante!

    Mas só uma dúvida: O que significa “Shalom”?

    1. minhavidagay disse:

      Eu sei que é um cumprimento judeu… olha o que encontrei na Wikipedia: Shalom (em hebraico שָׁלוֹם) significa paz entre duas entidades (geralmente duas nações) ou a paz interior de um indivíduo. Também é utilizada como cumprimento dentro da comunidade judaica à semelhança do salaam árabe.

    2. israel heborovich disse:

      Ola Carlos!!!

      A palavra SHALOM, significa literalmente : PAZ, em Israel a usamos como um cumprimento para todas as horas.
      AL SHALOm MALECH! ( que você tenha a Paz!)

  3. israel heborovich disse:

    Alguns esclarecimentos: JUDEUS, JUDAISMO ,ISRAELITAS e ISRAELENSES.
    judeu é um termo para designar todo descendente de Abraão quer seja ele seguidor do judaísmo (religião) ou não.
    Todo filho de uma mulher judia será um judeu, mesmo que o pai não o seja, já o filho de um homem judeu e uma mulher não judia não é considerado judeu pela maioria dos religiosos do judaísmo.
    Você pode ser judeu: observante, praticante, modernista, hassidico, reformador,messiânico, ortodoxo ou ainda ultra-ortodoxo.,
    Todos nascidos em Israel, são israelenses, mas não são todos judeus religiosamente falando, na verdade o estado é laico, mas neste caso a conotação como identificativo de povo permanece.
    O termo JUDEU vem da tribo de Judá, única das 12 tribos que permanece no poder, as outras 10 desaparecem e seus remanescentes se integram a tribo maior (Judá).
    Na idade média o termo foi usado de modo perjorativo,como identidade de algo ruim, pela igreja católica, como: usura, mesquinhez, feitiçaria, entre outras. A frase “pérfidos judeus” fazia parte do catecismo católico.
    O estado de Israel surge pelo movimento sionista em abril de 1948 pelas mãos de David Bem Guríon, como uma resolução da Liga das Nações (atual ONU).

    1. Fernando Lima disse:

      Oi Israel,

      Muito interessante o seu relato!
      Gostaria de fazer somente uma observação, como gay “católico” que sou…rsrs
      O Catecismo da Igreja Católica é um compêndio com os principais pontos da doutrina e da fé da Igreja. A expressão “pérfidos judeus” estava na oração feita na Sexta-Feira Santa, que dizia: “oremos pelos pérfidos judeus”, não no Catecismo. Esta expressão foi suprimida pelo Papa João XXIII com uma carta da Sagrada Congregação dos Ritos, de 19 de Março de 1959. A partir de então, a liturgia convidava a rezar pelos judeus eliminando todo adjetivo.
      No Catecismo, entre muitas outras referências, podemos citar o parágrafo 597: “Não se pode imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus de nosso tempo, o que na sua Paixão se perpetrou”.
      Com relação ao que o Caio falou: “seguir a doutrina (religião formal) é seguir todos os seus princípios e se eles são contrários a sua (nossa) natureza humana, aí há um grande conflito e portanto impossibilidade se segui-los por completo. Lembrando que ter um entendimento (interpretação) diferente da(s) corrente(s) primárias é criar nova(s) doutrinas, mesmo que baseadas na religião tradicional, ou seja, já não faz mais parte da “original”.
      Acho uma opinião muito radical ! rsrs
      Nenhuma religião é monolítica, com uma única interpretação válida das fontes originais. Assim sendo, sempre há margem para progressos.
      Claro que há conflito entre alguns princípios e a nossa natureza de gays, mas atribuo isso mais a uma incompreensão dos textos originais (falta de perspectiva histórico-crítica e equívocos na tradução) do que à mensagem em si. Nem sempre uma nova interpretação é nova doutrina, também pode-se trabalhar, partindo do lado de dentro, para que sejamos aceitos.
      Quanto a seguir todos os princípios….bem, creio que nenhuma pessoa consegue cumprir (ou mesmo aceitar) todos os preceitos de sua religião, nem por isso deixa de pertencer a ela. Creio que é possível uma solução intermediária!

      Abraços,

      Fernando

      1. Caio disse:

        Aí é que está meu caro Fernando. As religiões são doutrinas que se fazem presentes nas vidas de seus fiéis (seguidores) por meio de instituições mediadoras, chamadas igrejas ou instituições religiosas, as quais dizem ter o poder de interpretar as “sagradas” escrituras e transmitir sua mensagem e ensinamentos aos tais seguidores. E como sabemos, tais instituições possuem seus dogmas (típicas regras pétreas), que são baseados nos tidos princípios sagrados. É claro, segundo a interpretação dos líderes religiosos que comandam as instituições religiosas.

        Seguindo o princípio formal de religião, não há como se dizer religioso e buscar por si próprio a interpretação das escrituras e do entendimento da doutrina, sem passar pelo intermediário (as instituições religiosas). Afinal, se alguém faz isso, já está fugindo de um princípio básico para ser denominado como um religioso, portanto, já não pode se considerar um religioso cristão, por exemplo. O que acontece é alguém ser crente nas escrituras, na entidade superior, mas não seguir a doutrina, aí é um típico caso de areligioso crente ou também deísta (depende do caso).

        Já para ser considerado seguidor e praticante, como popularmente ouvimos falar é preciso seguir os princípios da doutrina e aí sim é chamado de religioso.

        E como para as religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo a homossexualidade é pecado e portanto inadequada, isso faz com que não haja coerência um homossexual seguir a doutrina, entende? Mesmo que localmente na paróquia, na sinagoga, na mesquita ou no templo o padre, bispo, reverendo, sacerdote, etc aceite, bem como os demais frequentadores, a instituição maior não o faz. e pior mantém seu posicionamento contra e muitas vezes excitando o ódio e/ou repúdio. Assim, na minha visão não vejo como adequado apoiar instituições bem como doutrinas que me condenam sendo que não há nada de errado comigo. Como eu disse: isso é dar coro a quem nos menosprezam.

        Fiz este comentário apenas para esclarecer meu posicionamento sobre o assunto e não para impor meu pensamento.

        Abraços e bom fim de semana a todos.

      2. minhavidagay disse:

        Oi Fernando e Israel,
        fico bastante contente pelo Fernando Lima ter se expressado nesse post. Quando o publiquei, além da preocupação da diversificação dos temas que enriquecem o Blog, lembrei imediatamente do Fernando que tem sim uma ligação bastante devota com o sagrado cristão e também é gay.

        Acho muito rica essa troca. Coincidências na devoção religiosa, na vocação, na idade e na homossexualidade.

        Espero que esse debate traga boas referências para todos.

        Abs,
        MVG

  4. israel heborovich disse:

    Ola!
    Gostei muito do comentário do Fernando, e do Caio também, que bom que bom que o conhecimento não para, que sempre se modifica e traz novas interpretações e posições.
    Cada individuo na sua percepção do sagrado seja ele qual for, e se tornando melhor para si e para o próximo.
    Um grande abraço,
    Mazal!
    Toda raba!

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