Todo homem tem um “eu” feminino


Gay ou heterossexual somos X e Y.

Fotógrafo francês Leland Bobbé com a série "Half Drag"
Fotógrafo francês Leland Bobbé com a série “Half Drag”

Fora a questão fisiológica e biológica, quando o homem carrega em seus códigos genéticos os cromossomos X (feminino) e Y (masculino), todos nós, gays ou heterossexuais temos um pouco de masculino e feminino, frutos da natural relação entre mãe e pai e das figuras masculinas e femininas que nos influenciam em toda a vida. Frutos das referências sociais que nos apropriamos e que especificamos como “coisas de homem” e “coisas de mulher”.

Gays ou heterossexuais, ao mesmo tempo, projetam e reconhecem referências masculinas e femininas de maneira muito específica e individual. Há quem acredite que fofocas são coisas de mulher. Outros já pensam que são coisas de homem. Alguns entendem que homens se dão bem com cozinha, outros já pensam que cozinha é coisa para mulher. Antigamente, a ideia de “sexo frágil” era algo tremendamente feminina. Nas últimas décadas, o homem que chora ou que se emociona em um filme não perde, necessariamente, sua importância masculina e pode apresentar sua fragilidade sem grandes paranoias.

banner_half

O ponto central desse texto é que muitos homens – gays ou heterossexuais – têm ainda dificuldades de lidar com o “eu” feminino ou, em muitas ocasiões,  lidam tanto que até extrapolam a própria identidade da mulher.

Negar o “eu” feminino – a bem da verdade – é uma bobagem.

Em termos de apresentação social, ou a maneira que queremos nos colocar perante os grupos, os que se apresentam de maneira “machão” (seja gay ou heterossexual) muitas vezes têm questões com a própria feminilidade e são diretamente proporcionais aos “bichinhas” que extrapolam na feminilidade e que por sua vez têm questões com a própria masculinidade. Em essência somos todos homens, mas, para uma perfomance e reputação social, construímos desde pequenos uma imagem ou uma projeção de imagem perante as outras pessoas. Formamos, aos poucos, nossa identidade de gênero.

As aparências sempre enganam e raríssimas vezes nos apresentamos ao mundo com a plenitude de nos colcoar por fora como somos realmente por dentro.

Isso se dá porque o exercício de autoconhecimento, do entorno psicológico e de trazer uma maior consciência de si, é pouco praticado pela maioria dos seres humanos. Raros são aqueles que – por destino (se é que existe destino) ou por propósitos – buscam olhar para dentro. Olhar para dentro, na grande maioria das vezes, é se deparar com inúmeros desagrados, desconfortos e incômodos. E esses incômodos se estabelecem pela contradição do que se é com que a sociedade, família, grupos sociais e amigos desejam de nós.

Esses desconfortos não se estabelecem somente na questão da sexualidade porque, muitas vezes, sabemos desde sempre se gostamos de homens, de mulheres ou de um pouco das duas coisas. Esses desagrados, a bem da verdade, se dão principalmente porque é a própria sociedade que – há milhões de anos –  encaixota as pessoas em gêneros duais: as condições do ser masculino e ser feminino (géneros).

Os casais (pai e mãe) de algumas tribos de aborígenes na Austrália definem o gênero do filho antes mesmo de nascer. Se nasce menino, mas os pais definiram por menina, tratarão o filho como mulher durante a vida inteira. Muitos desses filhos normalmente crescem adquirindo e absorvendo uma estética e uma apresentação mais feminina. Porém, ao contrário de uma lógica ortodoxa e machista, parte dos filhos – mesmo que de aparência feminina – são heterossexuais e casam com mulheres. Outros seguem pela homossexualidade. As mulheres, acostumadas com essa cultura de gêneros, não excluem os homens por manifestar feminilidade, seja em trejeitos, hábitos, roupas ou qualquer outra forma que alguém de fora da tribo diga que é “coisa de mulher”.

O que quero dizer com isso é que a cultura (principalmente a ocidental e latina as quais se estabelecem no Brasil) define à longa data os papéis de homem e de mulher como a conhecemos, o que não tem uma conexão direta com sexualidade. Gêneros são padrões sociais e culturais, sexualidade não.

É diante dessas normas de gêneros (como a conhecemos, ou como acreditamos, ou como são herdadas) é que existem tantos conflitos por aí com a própria sexualidade. Mas, de fato, não é a sexualidade que é um problema, mas sim, a reputação de gênero que bate dentro da gente de maneira concordante ou discordante às expectativas sociais.

Na França muitos casais heterossexuais praticam o famoso e temido “fio terra” nos homens. Nem por isso o “eu” masculino é abalado, colocado em questão ou fadado a uma possível homossexualidade. Novamente, é a cultura e os valores sociais que estabelecem o “fio terra” como algo que não irá provocar nenhum abalo sísmico na imagem do homem.

O “eu” feminino dos homens brasileiros (seja do gay ou do heterossexual) vive ainda muito em detrimento ao “eu” masculino. E, sem perceber, vivemos muito de nossas crises – de coisas de homem ou de mulher – pelo que os outros dizem, estabelecendo assim os excessos, da “macheza” ou da feminilidade.

Se assumimos a existência de níveis de homossexualidade (como apresento no post “Reflexões sobre o gay enrustido”) assumimos invariavelmente a existência de níveis de heterossexualidade, todos dependentes dos valores de gêneros que cada um, sob o aspecto da educação, crenças e formação, adquire durante a vida. Tais percepções são extremamente particulares.

A influência dos valores e identidade de gênero é inevitável mas totalmente cultural. É por isso que se justifica o movimento feminista ou até mesmo essa exaltação ao gay que vemos nos dia de hoje. O que estava estabelecido até bem pouco tempo atrás – do macho provedor e suas variantes – tem perdido bastante o sentido cultural e social, fato é a materialização desses próprios manifestos de contrariedade ou da própria briga para a tolerância à diversidade sexual. E, nesse fluxo, o significado de gênero também se modifica.

“Homens do lar” – quando outrora só existiam “mulheres do lar”, não têm nem menos nem mais reputação que a esposa que vai trabalhar todos os dias. Muito menos terá sua heterossexualidade abalada por ser a pessoa a levar os filhos para a escola. Ao mesmo tempo, gays que fogem dos antigos estereótipos estabelecidos, não tem nem menos nem mais reputação por serem “normais” ou quererem criar intesecções entre homossexualidade e família, ou religião e homossexualidade.

A verdade é que os modelos foram criados em contextos diferentes, quando os próprios padrões foram necessários para estabelecerem alguma ordem e segurança para a sociedade, ou até mesmo quando estávamos mais próximos de nossos estados mais primitivos. Mas para mim evolução é isso: um distanciamento cada vez maior dos valores primitivos e uma capacidade de desassociar padrões ultrapassados para estabelecer novos, que façam mais sentido no presente e atendam o desejo da sociedade atual. O que estava institucionalizado acaba se fragmentando justamente por causa disso: da necessidade da mudança, da transformação e da evolução. Eis meu ponto de vista.

Mudanças, para a grande maioria, causam insegurança e medo. O “eu” feminino está aí para ser explorado e desvendado pelo homem heterossexual e gay.

Para ver mais fotos de Leland Bobbé, clique aqui.

4 comentários Adicione o seu

  1. Não sei ,mas pegando o caso das Drags:

    Eu tenho uma certa “limitação” quanto a isso. Não porque eu vá me incomodar com o que os outros vão achar, ou de aparecer em público, mas eu, EU, não me identifico, pois é como se eu estivesse vestindo uma outra máscara que não representa o “Carlos”, que não ME representa.

    – Aaahhh CR, óbvio! Você estaria demonstrando seu lado feminino.

    Tá, tudo bem, mas internamente me incomodo com isso. Como disse: Não me identifico assim. Até mesmo em pensar em se vestir de mulher para ir para a marcha das vadias me incomoda.
    (Mas colocar escrito bem grande na minha barriga escrito “SOU UMA VADIA” e ter ao meu lado a sapa que eu amo e, posteriormente, escrito nela “Sou o dono dela”, aaahhh eu topo! Euihueheuheuehe!)

    Eu sou um amante do meu corpo masculino (beesha narcisista), então porque eu me teria como mulher?
    Se for pra demonstrar o meu eu feminino, mostro o meu lado mais “sentimental” da coisa: Aaahh, príncipes encantados, felizes para sempre, feminismo, de vez em quando umas purpurinas, etc, e eu não tenho nenhum problema em demonstrar esse meu lado “rosa” da vida, mas se vestir como uma mulher é outra história.

    Não tenho problema ALGUM quanto a Drags, mas não “traria” isso para mim.

    Não sei explicar, mas é mais ou menos isso.

    1. minhavidagay disse:

      Oi CR!

      Mas a ideia aqui não foi dizer que todo homem tem uma drag queen por dentro, Kkkkk… as drags, na realidade, expressam seu “eu” feminino pela estética e forma de se apresentar. Mas isso é particular.

      O que quis dizer é que todo homem tem um pouco de feminino e, cabe cada um, desenvolver (ou não). Mas que desenvolver é um pouco mais evoluído para buscar um equilíbrio interno, sem medo de ser feliz.

      Publiquei a imagem do fotógrafo pois visualmente apresenta essa dualidade que existe em cada homem. Achei interessantíssimo o trabalho nessa coisa da divisão homem/mulher.

      Mas não estou incentivando para que todo mundo vire drag queen, ahahahah.

      Abs,
      MVG

      1. Mas a questão é que não interpretei isso!
        Euheuheueh!

        Por isso no começo eu falei: “Mas pegando o caso das Drags”. Além de citar partes mais “rosas” do meu dia-a-dia.

        Sei o que vocês quis dizer, mas quis abrir um “parênteses” para as Drags e como eu me sinto quanto a isso.

        Abraços do CR!!

  2. Caio disse:

    Eu acho que expressões de gênero não estão totalmente relacionadas às orientações sexuais. Como sabemos existem homens mais delicados e afeminados e outros mais masculinizados, todos são homens e podem ser heteros, bis, homos, assexuais, etc. Também concordo com temos um pouco de feminino dentro de nós, todos, até os “machões pedra”, num gesto, num pensamento, numa brincadeira. É totalmente saudável apresentar ambos os polos para que não sejamos totalmente rígidos e nem tão pouco ultra molengas rsrs. Sério, ninguém gosta de em 100% do tempo estar com outro alguém de extremos. No entanto, isso é apenas uma parte das nossas personalidades, como o MVG disse, diferente disso, existem aqueles que apresentam um comportamento feminino cotidiano, advindo de sua natureza biológica misturado com o ambiente (ou só ambiental, não sei, eles em geral dizem que não é uma opção ser assim) de criação que o faz ser afeminado. Isso já é diferente, pois não é apenas uma pequena parte, é uma externalização de algo geral.

    No que tange os relacionamentos, aí cabe a cada um o direito de escolha das pessoas com quem vai se envolver a partir dos fatores que lhe convêm e/ou que espontaneamente os fazem se atrair por alguém: afinidade, simpatia, beleza física, química geral, personalidade, etc.

    Como disse, características mais femininas digamos “periféricas” que ajudam a equilibrar a personalidade do homem são necessárias (e também naturalmente presentes), mas para mim o cara tem que ser masculino no “jeito geral”, nas características “núcleo”, pois isso é um dos fatores indispensáveis na atração.

    Li num livro uma vez, A Fonte da Juventude, que é uma narração de um cara que ouviu ensinamentos dos lamas do Tibet de que cuidar da masculinidade é saudável ao homem. Lembro do exemplo da voz, que é recomendável treinar e sempre buscar manter a voz mais grave e alta (alta referindo-se à acústica, ou seja, bem entonada, não com volume muito alto rs), pois conforme vamos envelhecendo e a voz vai se esvaindo é sinal de problemas, o mesmo serve para mulheres. Bom, não é tudo o que eu acredito dos orientais, mas é algo interessante para se levar em conta. Ah e isso não quer dizer que os homens com voz fina, os que gostam de desmunhecar vão perecer ou coisa do tipo. Quem sou eu para afirmar isso, apenas li e estou relatando.

    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s