A masculinidade do gay

Com o início da página do Blog MVG no Facebook (duas semanas com mais de 800 fãs – agradecido pela fidelidade!) estou podendo mensurar a reação do público gay que chegou ao MVG pela rede social e perceber quais assuntos são mais visualizados, curtidos e compartilhados. Para minha surpresa o texto “O gay masculinizado – Desmistificado!” que foi postado em 05 de janeiro de 2012 foi sem sombra de dúvida a publicação que teve maior efeito viral até agora. Mulheres heterossexuais inclusive ajudaram a viralizar o post.

Achei interessante o conceito do gay masculinizado chamar a atenção e resolvi trazer mais alguns pensamentos a respeito.

Faz um mês que voltei na Lôca – balada gay antiga em SP – e a faixa etária do público permanece a mesma: dos 20 e poucos anos até os 30 e poucos anos. Notei um movimento curioso, nesse meu perfil de analisar meus contextos, e percebi que muitos dos “novos jovens gays” que ali se encontravam não buscavam se esteriotipar visualmente como era tão comum – por exemplo – há 6 anos atrás. Dessa vez, visualmente se apresentavam como meninos (homens) gays que passariam desapercebidos – se homossexuais ou heterossexuais – em um shopping center.

A mesma percepção eu tive no Parque Ibirapuera em São Paulo, também há aproximadamente um mês atrás: muitos dos evidentemente gays captados no tal do “gaydar” não atribuíam em movimentos, roupas ou corte de cabelo nada que pudesse simbolizar a homossexualidade. Gaydar, queridos leitores, muitas vezes se concebe pelo olhar.

Claro que existem os gays que criam aquele “jeitão de ser gay” que é amplo, estético e diverso. Mas o que quero dizer é que não são mais a maioria: está tudo misturado hoje em dia.

Não acho que seja tendência da masculinidade do gay se aflorar agora. Muito menos acho que – quem poderia ser afeminado – está deixando de ser porque, por experiência própria, nem masculinidade nem feminilidade são coisas que se mudam ou se pegam por moda. No máximo, no caso da feminilidade, se reprime por algum tempo até o momento que o indivíduo vá se entendendo e se aceitando. Em outras palavras, não sou daqueles que acham que um jovem gay seja afeminado porque precisa copiar alguém. Se copia é porque dentro dele já está pré-concebida a sua naturalidade mais feminina.

Acho que os gays masculinizados estão se expondo mais nesse fluxo geral de mais aceitação. Acho também que a homossexualidade, pelo fato de adquirir mais espaço na sociedade, está fragmentando os esteriótipos clássicos como o “Seu Peru da Escolinha do Professor Raimundo”. Os esteriótipos estão literalmente perdendo o sentido e a graça e, assim, para ser gay ninguém mais precisa entrar obrigatoriamente no modelo da mídia.

Vejo tudo isso com olhos muitos positivos. Ser gay nunca foi somente ser o “Seu Peru”. Mas antes – quando ser gay era praticamente isso – os gays que não se identificavam permaneciam “ocultos” e, provavelmente, sem saber a qual referência se prender. Hoje há diversas referências, fruto de uma diversidade muito mais aceita. Antigamente existia a “bichinha”.

Agora a sociedade no geral me parece cada vez mais esclarecida quanto à homossexualidade e estamos todos nos permitindo entender que o gay pode sim ir além do “modelo clássico” de expressão. E a ideia desse texto não é criar aquela velha rivalidade entre masculinizados e afeminados que é tão explorada e discutida pelos blogs, sites e fóruns por aí. A ideia é dizer que gay pode também gostar de futebol (do jogo e não somente das coxas dos jogadores), pode gostar de carros e qualquer outro gosto, hábito ou comportamento que, até então, era “regrinha” para caracterizar um heterossexual.

Repetindo: gays podem ter um jeito masculino e também (ou não) gostar de futebol, carros e qualquer outro costume que até hoje definiria um homem como heterossexual. Tenho um colega que é palmeirense roxo, de pular na arquibancada e se transtornar quando o time perde. Sim, gay.

Assim, que a vida seja fluida e despretensiosa para o gay masculinizado e para o gay afeminado. Não tem melhor nem pior, não tem mais nem menos. Todos somos atraídos pelo mesmo sexo e, perante a sociedade, estamos buscando o mesmo espaço de respeito e inclusão.

Tenho dito: viva e aceite essa diversidade, seja você heterossexual ou gay.

11 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Quando você mencionou o gaydar eu lembrei do processo pelo qual eu comecei a deixá-lo mais apurado hehehe. Só no final da adolescência eu comecei a ver que existiam gays por aí, até então eu nunca tinha tido contato com nenhum deles (viu só e ainda dizem que ter contato com as “más” influências é um fator para virar gay, sou a prova viva do contrário), a não ser que quando criança tive, mas não sabia disso (aliás, com certeza tive, afinal eles estão em todos os lugares rs). E não é que com o tempo naturalmente fui ficando apto em identificá-los rs, até me lembro pouco tempo atrás que na academia visualizei 8 sem brincadeira e com probabilidade de mais de 80% (eles eram mesmo rs). Não há escapatória, mesmo hoje os gays estando bem misturados com os não gays, muitos de nós sabe. Deve ser que nem os filhotes de pinguim que no meio da multidão sabem identificar sua família rs.

    E que bom que os gays “comuns”, assim quero dizer sem trejeitos femininos ou espalhafatosos estão aparecendo mais, significa que o espaço público está mais tolerante e o povo está menos neurótico em se mostrar como é para a sociedade. Lindo será quando naturalmente dois engravatados masculinizados andarem de mãos dadas e os skaitistas se abraçarem na praça, por exemplo. Mas é assim, um processo lento e que depende muito da região. Sampa é o primeiro passo, até chegar nas outras cidades grandes e depois nas médias, ainda vai um tempo…quem dirá nas miudinhas ou vilarejos, onde ainda questionam a legalidade da homossexualidade, vixi, mas sejamos otimistas, pois não custa nada :D

  2. Ódio eterno a estereotipamento. Quem me conhece sempre diz: “Você é mais gay na net do que aqui fora.”
    Aaah mano, e daí se eu sou a beesha louca que solta purpurinas na internet e sou o homenzinho normal aqui fora? Sei lá, acho totalmente desnecessário você classificar alguém de afeminado e masculinizado.

    Se analisarmos, veremos que esses estereotipamentos só geram intrigas entre esses dois “extremos”.

    É um grande porre você ver as pessoas ao seu redor tentando, algumas vezes, te dar um estereótipo, tentando definir um estereótipo para você.
    Eu achava que quando eu me assumi-se como gay pararia de existir toda essa “pressão”, pressão essa exigindo um posicionamento meu quanto a uma definição, mas não!
    Basta eu levantar uma palavrita gay sequer que já vem a sociedade: “Tá se soltando!”.

    Moçx, se eu estou soltando essa “palavrita”, é porque é intencional eu querer soltar um pouco de purpurina. Eu gosto de brincar,frescar. Posso?

    Mano, foda-se tudo isso! Prefiro levar minha “filosofia” para esses casos: Nem masculinizado, nem afeminado, apenas eu!

    Abraços do CR!!

    1. Caio disse:

      É, os estereótipos são um problema. Sempre existem aqueles, que só porque você não age como os mais populares (conhecidos), isto é, os estereotipados, aqueles que a maioria sabe que é que dizem “nossa mas você não tem nada de gay”, jamais desconfiaria se você não me contasse ou se eu não te visse com outro rapaz. Essas pessoas esquecem que para ser gay só é preciso seguir a premissa básica de ser homem e gostar de outros homens e ser mulher e gostar de outras mulheres. Ma ainda teremos que repetir e repetir isso milhões de vezes para um dia entenderem. Se ainda tem gente insistindo no homossexua”lismo”, incluindo alguns gays, imagina algo um pouquinho mais complexo…
      Muitos homossexuais utilizam este fator para reclamar da sociedade e dizer que não podem se mostrar para não serem taxados de algo que não são e ficarem mal na fita e por outro lado a sociedade deveria ser minimamente sensata e entender que existem homos de todos os tipos e que devem ser tratados como pessoas comuns sem importar suas orientações sexuais e comportamentos.
      Um dia chegaremos lá, eu espero poder ver e viver ainda num tempo de liberdade pelo menos em 80% da desejada.

  3. Gabriel disse:

    Ah, eu adoro posts otimistas como estes. Me fazem me sentir muito bem e esperançoso, felizmente, ao invés de deprimido ao pensar que todos curtem a vida menos eu. Mas gostaria de lembrar a vc, mvg, que o Brasil não e’ Sao Paulo capital. Aqui no Rio eu acho que estamos um passo atrás (ou seja, bem menos ambientes gays e nunca vi demonstrações publicas de afeto). E basta ir para o interior de qualquer estado para encontrar lugares a quilômetros de distancia no quesito aceitação. Provavelmente o número de gays em São Paulo e’ enorme porque ninguém agüenta morar naqueles lugares.

    Sinceramente, eu n acredito que irei, ao chegar a velhice, viver em um mundo onde todos os lugares aceitem a diversidade, e não sera mais necessário sair do armário sem preocupação alguma. Porém, tenho certeza que vamos poder ao menos nos beijar em publico no meio da rua. E tem algo melhor do que isso?

    Na parte dos estereótipos, acontece o seguinte comigo: ajo de forma perfeitamente adequada socialmente (detesto esta expressão, mas a verdade e’ esta) quando estou na escola, mas sozinho em casa, solto a louca que tem dentro de mim. (e claro, esta louca ja esta reservada para a cama do meu futuro namorado xD) dou pulinhos, canto musicas consideradas femininas, falo no tom de voz que eu quiser, e foda-se o resto. Não estou dizendo que eu reprima comp realmente sou. Apenas ambos os lados fazem parte da minha personalidade. N me considero masculino nem feminino, e sim, simplesmente, eu mesmo

    Mesmo assim td mundo pra quem eu ja me assumi me contou depois que ja desconfiava, e muito. Menos um professor que, ironicamente, era gay também. Ele me disse que n fazia a menor idéia, e eu acredito nele. Quanto ao gaydar, o meu so apita quando e’ muito óbvio. E eu tbm n sei se teria coragem de investir em um cara que nao desse pinta. Seria arriscado, e se ele fosse hetero e percebesse? xD

    Enfim, parabéns pelo excelente post!

    1. minhavidagay disse:

      Bom dia, Gabriel!
      Tudo bem?

      Realmente, não descarto a realidade que possa acontecer em outras partes do país, como você mesmo citou o Rio e regiões interioranas do Brasil. Acontece só que hoje – todos nós – temos a opção de vir para São Paulo se o intuito é descobrir a autonomia como homossexual, assim como existem outras capitais com uma sociedade mais esclarecida ou pelo menos grupos esclarecidos. Antes, nem isso era possível conceber.

      Também não acredito que todos os lugares aceitam a diversidade tão cedo mesmo porque o “não aceitar a diversidade” já faz parte da própria diversidade. Mas, como comentei, existem espaços para que possamos exercer nossa plenitude hoje e, ainda assim, haver surtos esparsos de agressão.

      Quanto aos esteriótipos, querido Gabriel, o que eu gostaria é que os rotulados “afeminados” e “masculinizados” refletissem mais nessa besteira que é o julgamento preconceituoso que um tem pelo outro, as restrições sociais que um gera pelo outro e parassem com essa bobagem de segregar porque um tem um aspecto mais feminino e o outro tem um aspecto mais masculino. Já existem tantas barreiras e dificuldades para que os gays se relacionem de forma fluida e livre para ficarmos com fobias de nós mesmos, gays.

      O gaydar, no final, acaba sendo um detalhe que pode se exercitar ou não. Tem muito de intuição também ou de achismo…rs.

      No mais, agradecido pelos elogios e continue a trazer seus pontos de vista para o MVG! ;)

      Abs

  4. Carlos disse:

    Olá MVG, sou Carlos, tenho 23 anos e gostaria de contribuir com a minha história. Posso? rs

    Vivo numa cidade do interior de Minas Gerais, com um pouco mais de 60 mil habitantes, nasci e cresci aqui, portanto conheço tudo e todos. Por aqui a vida é pacata, e apesar dos 42 anos de existência, minhas cidade parece que parou no tempo e continua do mesmo jeito por muitos anos.
    Acho que vocês, MVG e amigos leitores, conseguem imaginar o quanto é difícil ser um homossexual numa terra onde as pessoas não tem muito acesso a informação, onde os fundamentos religiosos ainda estão sólidos na cabeça da grande maioria e que o preconceito é caso de morte.

    Assim como todos da minha região, eu cresci dentro da igreja, numa família tradicionalmente conservadora, sendo um homossexual enrustido.
    Me recordo da adolescência, época em que eu senti, pela primeira vez, atração por alguém do mesmo sexo. Tudo estava muito confuso na minha cabeça, mas eu sabia que não estava errado de sentir o que eu sentia. Nessa mesma época, lembro-me de um homossexual do colégio onde eu estudava que havia sido espancado no final das aulas pelo simples fato de ser como ele é. Mas o pior de tudo, é que a família desse rapaz o rejeitou justamente depois dele ter levado a surra, ou seja, quando ele mais precisava de ajuda, o que resultou em sua morte.

    Portanto, para não correr riscos de ser maltratado pelas pessoas a minha volta e principalmente não causar transtornos a minha família, eu cresci sendo um falso hétero. Ninguém nunca desconfiou de mim, pois eu nunca apresentei um trejeito afeminado ou qualquer outro motivo que desse para me identificar como um gay. Apesar de aparentar uma vida estável e feliz ao lado das namoradas que eu tive, também sabia que não estava sendo verdadeiro comigo mesmo. Amei todas as quais namorei, mas só pude sentir-me completo e realizado, quando eu fiz amor com um homem pela primeira vez.

    Hoje em dia, eu assumi minha sexualidade no trabalho e na faculdade, e sempre quando eu vou contar para as pessoas que eu sou gay, elas se assustam pois eu não faço parte do modelo de homossexuais que elas imaginam. Infelizmente, continuo escondendo para a minha família e isso muito me deixa triste. Me formo no próximo ano em Publicidade e Propaganda, pretendo me mudar para São Paulo e começar uma vida diferente, sem mentiras, por lá!

    Obrigado por manter o blog MVG, pois esse muito me ajudou.
    Grato!

    1. minhavidagay disse:

      Querido Carlos,
      seu depoimento é de extrema valia para que os leitores que acessam o Blog tenham de referência. Você fala de uma realidade de contexto de de mundo bastante diferente das grandes capitais e, sim, precisamos desses depoimentos, dessas histórias e de saber que – mesmo com todas as barreiras, preconceitos e dificuldades extremas que um homossexual vive em sua cidade – você tem encontrado seu caminho para trazer um maior equilíbrio em sua vida.

      Assim, vou postar seu depoimento agora como um texto do Blog. Merece esse respaldo e atenção.

      Abraços e obrigado por deixar esse relato tão exclusivo!

      MVG

      1. Carlos disse:

        Olá MVG… Eu é quem agradeço pelo material do blog e fico feliz em poder contribuir com a minha história!

        *Desculpem-me pelos desvios no português ;)

      2. minhavidagay disse:

        Português ótimo o seu! ;)

  5. Vinicius disse:

    Olá MVG, sou o Vinícius, 15 anos.
    Sou um pouco masculinizado, meu Gaydar é péssimo, ele só apita quando a pessoa dá muita pinta. Recentemente passou por mim um garoto de uns 17 anos, nossos olhares se cruzaram duas vezes em uma semana, da segunda vez que vi ele, meu coração começou a acelerar e minhas pernas tremerem rs. ACHO que ele é gay, ainda não sei. Será um sinal? (Preciso aprimorar meu gaydar).

    1. minhavidagay disse:

      Oi Vinicius,
      tudo bem?

      Se é sinal que ele seja gay eu não sei! Mas que você está com uma paixonite por ele, com certeza! ;) :D

      Abs,
      MVG

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