Relato de Carlos – A dificuldade de assumir a homossexualidade em cidades pequenas


O leitor Carlos apresentou hoje seu relato que é de grande valia para o Blog Minha Vida Gay: com 23 anos, retrata um pouco do que é ser gay numa cidade afastada, pequena e interiorana cujos valores são ainda muito tradicionais e de como tem conseguido buscar um equilíbrio em sua vida dando mais espaço para sua homossexualidade.

O relato é material real que desmistifica a ideia de que o Brasil já é menos retrógrado. Poderíamos falar assim das grandes capitais onde as tendências e a diversidade são absorvidas de maneira mais fluida. Mas em pequenas cidades – para quem não é da pequena cidade pode até imaginar – os valores tradicionais e religiosos encapsulam ainda muito dos modos e costumes das pessoas.

Afinal, como pode ser a vida gay fora dos grandes centros urbanos?
Afinal, como pode ser a vida gay fora dos grandes centros urbanos?

Relato de Carlos: ser gay numa cidade pequena do interior de Minas Gerais

Olá MVG, sou Carlos, tenho 23 anos e gostaria de contribuir com a minha história. Posso? rs

Vivo numa cidade do interior de Minas Gerais, com um pouco mais de 60 mil habitantes, nasci e cresci aqui, portanto conheço tudo e todos. Por aqui a vida é pacata e, apesar dos 42 anos de existência, minha cidade parece que parou no tempo e continua do mesmo jeito por muitos anos.

Acho que vocês, MVG e amigos leitores, conseguem imaginar o quanto é difícil ser um homossexual numa terra onde as pessoas não tem muito acesso à informação, onde os fundamentos religiosos ainda estão sólidos na cabeça da grande maioria e que o preconceito é caso de morte.

Assim como todos da minha região, eu cresci dentro da igreja, numa família tradicionalmente conservadora, sendo um homossexual enrustido.

Me recordo da adolescência, época em que eu senti, pela primeira vez, atração por alguém do mesmo sexo. Tudo estava muito confuso na minha cabeça, mas eu sabia que não estava errado de sentir o que eu sentia. Nessa mesma época, lembro-me de um homossexual do colégio onde eu estudava que havia sido espancado no final das aulas pelo simples fato de ser como ele é. Mas o pior de tudo, é que a família desse rapaz o rejeitou justamente depois dele ter levado a surra, ou seja, quando ele mais precisava de ajuda, o que resultou em sua morte.

Portanto, para não correr riscos de ser maltratado pelas pessoas a minha volta e principalmente não causar transtornos a minha família, eu cresci sendo um falso hétero. Ninguém nunca desconfiou de mim, pois eu nunca apresentei um trejeito afeminado ou qualquer outro motivo que desse para me identificar como um gay. Apesar de aparentar uma vida estável e feliz ao lado das namoradas que eu tive, também sabia que não estava sendo verdadeiro comigo mesmo. Amei todas as quais namorei, mas só pude sentir-me completo e realizado quando eu fiz amor com um homem pela primeira vez.

Hoje em dia, eu assumi minha sexualidade no trabalho e na faculdade e sempre quando eu vou contar para as pessoas que eu sou gay, elas se assustam pois eu não faço parte do modelo de homossexuais que elas imaginam. Infelizmente, continuo escondendo para a minha família e isso muito me deixa triste. Me formo no próximo ano em Publicidade e Propaganda, pretendo me mudar para São Paulo e começar uma vida diferente, sem mentiras, por lá!

Obrigado por manter o Blog MVG, pois esse muito me ajudou.

Grato!

MVG: chega a ser emocionante a abrangência que o MVG tem e saber que, de alguma maneira, tem trazido mais lucidez ou pelo menos referências para gays como você. Boa sorte na vida, em seus caminhos e suas escolhas. Muita paciência com seus pais pois eles não são propriamente culpados pelo contexto social em que nasceram e que devem viver para o resto da vida. Positivo como sou, no final tudo tende a dar certo!

4 comentários Adicione o seu

  1. Mochileiro disse:

    Sem querer acabar com a esperança daqueles que moram em cidades interioranas… mas… não tem jeito, terão que alçar voo para A Cidade Grande ou ficarem surdos e cegos caso permaneçam onde estão. Não que na vida numa metrópole tudo será como você sempre sonhou, mas pelo menos o ar será mais tragável que aquele da vida no campo – que irônico, não?.

    1. Caio disse:

      Tenho que concordar com você, pois assim infelizmente é a realidade. Claro que alguns não ligam muito para a discriminação e conseguem viver no meio de tanta adversidade, mas são poucos. E bem colocado a ironia das diferenças de ambiente entre as metrópoles e as cidadadezinhas.

      Bom, fiquei uma vez com um cara que disse que as cidades do interior, aquelas de médio porte com mais de 50.000 habitantes são boas para quem é casado, pois estando numa união estável você vive mais tranquilo sem dar satisfação para ninguém, contrário quando se é solteiro, que você vive caçando alguém, tendo que mentir o tempo todo, ainda é jovem sem experiência etc. Bem, são palavras dele que já teve a oportunidade de sentir isso, eu ainda não compactuo tanto da ideia.

  2. Marcus disse:

    Bem, eu moro numa cidade do interior (por coincidência em MG tbm)…rs
    Aqui as coisas rolam no segredo e para os gays mais jovens é muito dificil, pois para “viver” sua sexualidade acabem ficando com caras casados que os usam e depois descartam…Felizmente, eu comecei a trabalhar cedo e minha cidade é perto da capital. Assim, quando estava solteiro quase todo fim de semana “fugia” daqui e ia viver minha vida, sem precisar dar satisfações aos fofoqueiros da minha cidade…
    Infelizmente, tenho que concordar com o Caio e o Mochileiro, para viver uma “vida gay plena” com tranquilidade temos que recorrer as metrópoles.

  3. Bruno disse:

    Sou leitor assíduo desse excelente blog. Contudo, sentia que existia uma lacuna. Ora, alguns tópicos dialogavam muito mais com os homossexuais que vivem em grandes urbes como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Agora, este relato vem preencher este vazio. Simples, preciso e real!
    Moro no interior de São Paulo, na última cidade do estado. A população da minha cidade não chega nem a 20 mil habitantes. Asseguro que a situação descrita pelo Caio e pelos demais leitores é quase que a mesma. Aliás, o relato é uma radiografia do viver do homossexual no interior do país. É claro que há espaço para especificidades, o modo como cada um lida com a situação, etc. Mas no geral é bem isso mesmo.
    Aqui (interior) a questão da assunção da homossexualidade é um pouco mais complicada. Em São Paulo, para ficar no exemplo mais significativo, existe a dificuldade de contar aos pais, amigos e por extensão às pessoas do ambiente do trabalho. Fora isso, há certa liberdade espacial de você gozar o anonimato, ser apenas mais um entre a multidão. Numa cidade pequena não existe isso. Precisamos enfrentar pais, amigos, colegas de trabalho e a cidade toda! Num espaço reduzido, o olhar de terceiros sobre a vida alheia se torna mais intenso, controlador e cruel. Às vezes, a sensação é a de estar dentro de um Reality show!
    Eu também poderia dizer que ninguém desconfia que eu sou gay. Não é bem assim. Vejo diferente essa questão de ” não notam que eu sou gay”. Quando alcançamos certa idade, os rumores são inevitáveis. Já tenho 27 anos, tenho todos os membros do corpo, não sou exatamente um Godzilla e nunca namorei. Impossível não haver questionamentos sobre minha sexualidade! E é aí que entra o jogo estranho. Existe uma espécie de pacto entre nós e o restante da sociedade: “Se você não contar, tudo bem. Nós vamos fingir que não está acontecendo nada. Apenas não diga, ok? ”. Algumas vezes eu me sinto mal, pois é como se eu tivesse dentro de uma salão de festa cheio de pessoas, gritando, mas sem ser ouvido.
    E como escapamos disso ou tornamos nossa realidade mais leve? Percebo que nós, caipiras gays, vivemos um pouco na clandestinidade. De um jeito ou de outro, passamos o tempo tentando encontrar modos de escapar dos olhares alheios e viver a vida do jeito que nós realmente somos. Eu, por exemplo, nunca namorei mulheres, mas sempre dei meu jeito de ” fugir ”. É incrível! Fazemos muitas loucuras (pelo menos eu as fiz) para escapar um pouco das nossas cidades. A facilidade do mundo virtual, os contatos feitos e que viraram amizades me deram a oportunidade de ir algumas vezes para São Paulo. É nessas ocasiões que eu penso: ” Não pertenço à cidade onde eu resido. Eu não deveria estar lá ”. Pode parecer bobo e ingênuo. Mas acreditem: essa é uma questão frequente na mente dos homossexuais que moram em cidades interioranas.

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