Pai, eu sou gay


Não é regra mas boa parte dos gays costumam ter maiores dificuldades de relacionamento ou um distanciamento do pai, a figura masculina da família. Por que será que essa ocorrência é mais comum entre os homossexuais?

Os motivos são diversos e, no meu ponto de vista, raras são as vezes que o pai tem uma responsabilidade direta. Acontece que nesses casos, quando filho e pai têm mais distanciamento um do outro, existe uma outra relação que se já se estabeleceu desde o princípio: o tipo de envolvimento entre mãe e filho que – normalmente – se forma muito antes da criança ter uma consciência, assim como acontece com o pai. Em outras palavras, é comum que níveis de complexo de édipo se estabeleçam em algumas relações entre mãe, filho e pai e que, por consequência ou não dessa relação, alguns filhos orientem-se pela homossexualidade.

A boa relação com o pai, por mais que a gente contrarie, é fundamental para nos estabelecer como indivíduos resolvidos.
A boa relação com o pai, por mais que a gente contrarie, é fundamental para nos estabelecer como indivíduos resolvidos.

É importante reforçar: isso não é regra. Mas pare um pouco e pense: você se dá melhor – desde sempre – com a sua mãe e não com seu pai? Se sim, saiba que esse padrão comportamental é até comum entre os gays, mas não nos definem homossexuais por isso.

No meu caso realmente houve esse modelo de relação dentro da casa dos meus pais. Após alguns anos de terapia, busquei entender o complexo de édipo que se estabeleceu com minha mãe (afinidade) e com meu pai (discordância) e percebi que, ao contrário de alguns casos, minha mãe nunca provocou, mesmo que inconscientemente, uma percepção contra meu pai. O que acontecia de fato é que percebia que os valores de compreendimento de mundo e de vida que vinham da minha mãe correspondiam às minhas expectativas e minha maneira de ser, ao contrário do meu pai.

Como relatei em alguns posts, minha mãe foi filha de sete irmãos e teve uma educação mais livre, no interior de São Paulo. Meus avós maternais, na dificuldade de estabelecer uma “posse” perante tantos filhos, transmitiram seus valores pautados na importância da educação e da cultura, mas não haviam “braços” suficientes para ficarem em cima, cobrando para que todos praticassem essas importâncias. Dessa maneira, a única entre os irmãos que se formou em”tempo certo”, seguindo o fluxo social de estudo e formação foi a minha mãe. Segundo ela: “eu tinha prazer em estudar. Percorria quilômetros de bicicleta em estrada de terra porque aquilo me dava um grande prazer”.

Ao contrário de meu pai que nasceu numa família pequena, com apenas um irmão e fora “temporão”, aquele que nasce muitos anos depois e que acaba sendo muito mais mimado, paparicado ou controlado.

Meus avós paternais eram extremamente preocupados com estudos, com renda, com economias e com o futuro. Ficavam em cima. Minha avó, pelos relatos que tenho já que falecera quando eu era ainda pequeno, fora muito firme nas questões de educação, conduta e trabalho. Tão firme que, muitas vezes, não dava muita brecha para que meu pai desenvolvesse suas vontades e referências próprias. A vontade era a dela pois seria mais “seguro” fazer aquilo que ela já tinha passado e vivido e não ao contrário.

Como filho, fui percebendo meu pai e minha mãe e, totalmente inconsciente percebia mais afinidade com os princípios da minha mãe de “faça as coisas que tem vontade, estude e construa sua vida sobre as bases que te despertam atenção ou curiosidade”. Já o discurso do meu pai era praticamente a antítese: “faça as coisas que eu te digo para fazer. Do contrário você pode se dar mal. O adulto sou eu aqui e sei o que estou dizendo”.

A princípio o leitor pode dizer: “Ah, é muito mais natural seguir o caminho da sua mãe que te deu mais liberdade”. Afirmo que não. Meu irmão se identificou e ainda se identifica muito mais com as “teses” do meu pai. Seguiu muito mais a cartilha ditada por papai na escolha da profissão, na faculdade a fazer e foi muito menos pela influência do meu próprio pai (já que ambos, eu e meu irmão, tivemos a mesma influência) e muito mais pela própria natureza, personalidade, genótipo de precisar que alguém o conduzisse. Eu, pelas mesma natureza, personalidade e genótipo me identifiquei com as referências vindas da minha mãe e, como sempre digo, o cardápio de referências que temos, oferecidas por família, amigos, grupos e pelo mundo estão aí, para serem seguidas ou não, de acordo com o que nos sentimos provocados.

Hoje reconheço com satisfação que, não fosse a influência do meu pai de me colocar “na linha”, talvez eu me tornasse um bont vivant ou um “porra louca” (como diria no passado meu pai) muito desapegado e ainda sob “as asas” dele. Não fosse a referência “negativa” que ele impunha com bastante força, eu não veria o mundo e a vida com essa positividade que os leitores hão de concordar que é emanado pelo Blog.

Hoje, na harmonia que me encontro com ambos, mãe e principalmente pai (que outrora estabelecíamos uma relação de muitas brigas, conflitos e desentendimentos) o Dia dos Pais tem uma representatividade importante para mim. Definitivamente eu e meu pai demos uma “virada” na maneira de nos reconhecer. Foi necessário esforço, muito esforço, para esse reconhecimento. Superamos a grande maioria dos sentimentos mal resolvidos, contidos ou de amargura que muitos filhos preservam com seus pais em alguma medida. Meu pai deixou de impor a si mesmo a condição “militar”, de ser o soberano a ser seguido, forçadamente querido. Eu deixei de o idealizar com o pai “amigão” e companheiro de todas as horas.

Nos permitimos sair das “caixinhas” que nos impusemos e que normalmente estabelecemos “para sempre”.

E foi aí, quando afrouxamos, que conseguimos ser os ideais que tínhamos um pelo outro. Tenho uma tremenda felicidade de ser filho desse pai e dessa mãe. De valores paradoxais, mas referências fundamentais para o indivíduo que sou hoje, incluindo orgulhosamente a minha homossexualidade.

Que seja feliz, sim, esse dia dos pais!

3 comentários Adicione o seu

  1. junior38 disse:

    Republicou isso em É Difícil Ser Gay no Armárioe comentado:
    Mais um posto do MVG.

    Tenho passado a admirar muito a fomra de escrever desse cara! O jogo de palavras, e a inteligência, musturada à clareza de pensamento, me encantam em seus textos!

    Até fiquei motivado a pensar que poderia escrever sobre a minha relação com meu pai. Mas, acho que preciso elaborar melhor as ideias antes de escrever.

    Enquanto isso, fiquem com esse post e o anterior, com a matéria do Mundo Mais.

    Feliz dia dos pais a todos: aos que tem pai, e aos que são pais!

  2. Gabriel disse:

    MVG, parabéns novamente pelo excelente post. Porém, eu não acho que ter uma maior afinidade com a mãe seja um fator importante para definir um homossexual. Este pensamento esta relacionado a teorias freudianas, que já foram descartadas com o tempo. E além disso, vou ter que dizer uma coisa triste, porém verdadeira: a maioria dos homens, heteros ou gays, n possuem um bom relacionamento com o pai. Em geral, o pai protege e faz todas as vontades das filhas, mas exige e cobra muito dos filhos. Além de esperar deles uma perpetuação de seu “nome” , de sua masculinidade. Pra mim, esta ai o fato dos pais tenderem a rejeitar um filho gay mais do que as mães.

    Além disto, muitos pais são ausentes, obrigados pela sociedade a trabalhar o dia inteiro e ver seus filhos apenas durante a noite, com conversas de poucos minutos. Isso quando não e’ divorciado, e sua participação esta restrita aos fins de semana. A falta de influência paterna na vida leva os filhos a valorizarem e gostarem mais de suas mães, e por isso o dia das mães e’ mais celebrado e discutido que sua contrapartida masculina. N digo que concordo com esta situação, mas a constato no meu dia a dia. Podemos colocar a culpa na cultura machista, que torna difícil para os homens se abrirem emocionalmente com seus filhos. Afinal, vários estudos já mostraram que ter um pai presente, e’, sim, importante. Os filhos de mães solteiras tem chances maiores de sofrerem depressão ou se envolverem com drogas.

    Eu ainda n sou assumido para o meu velho, e n planejo ser até pelo menos o ano que vem, quando ja estarei na faculdade. N gosto da pressão excessiva para sair do armário, o farei quando estiver preparado para tanto. Meu pai sempre foi duro comigo e com minha família em geral, exigindo uma maturidade que eu n alcancei até hoje e ferindo minha auto estima de tal forma que n me recuperei até hoje. Felizmente, ele tem melhorado de um ano para cá, desde que voltou a viver em sua terra Natal e perdeu o emprego. Ele esta sempre a espera de um próximo, mas agora que fica mais tempo em casa, pode conversar mais com a família, e isso o deixa mais feliz e carinhoso. De certa forma, ele tomou a escolha certa, mesmo com as dificuldades que passa devido ao mau estado da economia. Como aqui no rio ta dificil conseguir emprego, há uma boa chance de morarmos em Sampa nos próximos anos.

    A loca que me aguarde ;-)

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gabriel!
      Bom dia.

      Concordo que a linha freudiana é antiquada hoje em dia. Mas confesso que algumas de suas teorias, como o complexo de édipo me parece fazer sentido ainda em muitos casos, nas relações de pais e filhos. Carl Jung também teve influência nessa ideia, do apego dos filhos pelas mães e níveis de distanciamento ou aversão dos pais.

      Não diria que a maioria dos filhos, gays ou heterossexuais, tem distanciamento dos pais. Muitos dos meus amigos homens e heterossexuais têm mais proximidade ou afinidade com os pais do que com suas mães.

      O modelo de ausência paterna também está mudando. Nos dias de hoje, tanto pais como mães me parecem ausentes por causa do trabalho e “largando” seus filhos a semana inteira para serem educados em instituições: escola de inglês, natação, judô, cursos aqui e ali. Me parece que as novas gerações de pais se sentem “obrigados” a seguir a tradição de terem filhos mas, pelo tempo destinado ao trabalho de ambos os lados, são as instituições ou babás que educam as crianças.

      Ehehehe… que seja benvindo à São Paulo e que a Alôca traga boa diversão! :)

      Abs,
      MVG

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