Assumir a homossexualidade para os pais resolve todos nossos problemas?

Muitos gays assumidos a si mas não assumidos a seus grupos sociais principalmente aos pais acham que trazer à tona a realidade homossexual pode resolver todos os problemas. Outros se sentem tão assustados e temerosos com a reprovação geral e piadas que preferem viver o estado velado e contido para evitar o desconforto.

Ambas percepções são um pouco extremistas pois “resolver todos os problemas” ou “o mundo vai acabar” quando revelamos a nossa homossexualidade são sentimentos de tempo limitado e muito fruto do imaginário individual. Quando eu me assumi o mundo ficou mais colorido, me sentia flutuante, mais leve e preparado para auto-afirmar minha realidade com a liberdade de me vestir como quisesse, o corte de cabelo, os lugares e a fluidez da paquera, de poder olhar sem temer. Já um outro amigo, que assumia a homossexualidade ao mesmo tempo, sentia uma carga negativa muito grande de que se pudesse “virar a chave” preferiria ser heterossexual.

Não é hoje que um casal heterossexual vai tolerar que o filho seja também heterossexual ou homossexual. Não podemos esperar que nossos pais aceitem com a maior naturalidade possível, com algum tipo de comemoração ou com aquela referência do amigo cuja mãe expressou todo carinho, aceitação e reciprocidade com a homossexualidade do filho. Os valores têm mudado mas, a priori, a educação geral que foi herdada às famílias não coloca a ideia do filho ser gay como algo que mereça reciprocidade imediata. Fato é que muitos de nós, ainda enrustidos para pais e grupos mais próximos, nos incomodamos com as piadas, com o medo dos amigos nos colocarem naquela “caixinha gay” de hábitos e comportamentos e de termos que conviver exclusivamente com nossos semelhantes.

De qualquer forma, a dependência da reação alheia, do medo do que está por vir, será a nossa eterna desculpa até quando?

Para sair do armário depende mais da maneira como percebemos e lidamos com o mundo e menos com a aceitação alheia propriamente.
Para sair do armário depende mais da maneira como percebemos e lidamos com o mundo e menos com a aceitação alheia propriamente.

Tudo isso e mais um pouco faz parte do imaginário de quem não se assumiu para o mundo, apesar do primeiro passo é assumir a si mesmo.

Por outro lado, vejo alguns amigos idealizando o “sair o armário” para os pais como se essa atitude resolvesse todos nossos problemas. Em certa medida é verdade pois, a sensação de liberdade quando assumimos para os progenitores funciona para alguns casos. Acaba sendo um pouco indiferente se o apoio demora ou vem rápido pois a sensação do peso que carregamos nas costas é tão perturbador que vale mais a pena sentir a vida sem essa carga do que ter, propriamente, uma aprovação alheia imediata.

Mas afirmo: assim como existem resistências e temores daqueles que não percebem o “sair do armário” com bons olhos em seu imaginário, sair e achar que tudo ficará cor-de-rosa é também uma percepção de tempo limitado. Assumir geral não vai trazer um namorado, não vai ajudar a pagar as contas, não vai garantir as resoluções de problemas de relacionamento que não dizem respeito propriamente à homossexualidade, não vai ajudar a ser melhor nos estudos nem ajudar a enriquecer e garantir um futuro estável na vida!

Vamos notar que nossos esforços para o desenvolvimento dessas partes não tem uma influência direta do assumir, embora psicologicamente dê um empurrãozinho para que esses aspectos tornem-se mais fluidos; para aqueles que não aguentam mais olhar apenas pela fechadura.

Em outras palavras, muitos gays conseguem viver uma cisão entre orientação sexual e a atuação social. Se fazem “héteros” perante os grupos e contêm no íntimo a realidade com o temor das piadas, do afastamento, das rejeições e do próprio medo de achar que assumir a homossexualidade é ter que cair num pote de pó de arroz. Outros acham que liberar a homossexualidade a todos vai mudar a vida, praticamente uma metamorfose. Em partes, ambos têm razão pois normalmente as reações são percebidas como acreditamos. A palavra “normalmente” só amortiza a situação pois a vida, de fato, acontece da maneira que enxergamos: no primeiro caso, do gay que acha que vai ser um desastre assumir, ao praticar o ato vai naturalmente valorizar os gestos reativos, negativos e não vai se prender as reações positivas que possam acontecer. No segundo caso, o sentimento de liberdade acaba servindo como uma proteção para a reatividade e o gay se deixa abalar menos pela natural reação negativa mesmo estando presente.

Sabe aquele dia que você já acordou estranho e tudo de ruim que acontece parece se intensificar? E quando você acorda muito bem e acaba valorizando somente as coisas boas do seu dia? É assim que funcionamos e não tem jeito: se a gente valoriza os pontos negativos eles se acentuam e vice-versa. Como repito algumas vezes por aí: o mundo é da maneira que acreditamos. Se não somos gays felizes com a própria condição, não seremos realizados mesmo saindo do armário.

No final, queridos leitores, aqueles gays que vivem nos últimos tempos o limiar entre assumir e guardar consigo a realidade homossexual, transitam entre expectativas e percepções do próprio imaginário, tudo muito mais fruto da cabeça, das referências que nos apegamos. Tem gay enrustido que acha uma simples piada com “a bicha” um tremendo incômodo. Outros, lidam com “a bicha” que há em cada um com boa desenvoltura.

A verdade, doa a quem doer, é que somos todos bichas. Alguns bichinhas, outros bichonas e mais um punhado simplesmente bichas (e de acordo com o que cada um interpreta desses nomes). A maneira que o mundo se apresenta é muito fruto da maneira que queremos perceber. Eis um efeito Matrix, minha gente. E é aqui e agora.

7 comentários Adicione o seu

  1. Aloka esse final!
    Liberemos nossas purpurinas! Uuuuhhh!!

    Não vejo problema algum em soltar umas purpurinas só pra frescar de vez em quando, até porque acho que gay que evita isso, com certeza, tem limitações quanto a isso.
    É no entanto que não é apenas homo que solta suas purpurinas, há héteros que de vez em quando soltam suas purpurinas.
    Foda-se, todo mundo tem um pouco de purpurina dentro de si! Rs!

    Engraçado, pois estava falando essa parte do se é “totalmente positivo ou totalmente negativo assumir-se para os pais” no fim do post em que eu me assumo para minha mãe.
    De qualquer forma vou considerar essa sua postagem como um recado mesmo. Estava precisando da parte do “A maneira que o mundo se apresenta é muito fruto da maneira que queremos perceber.”.

    Não tenho o que comentar, é bem isso mesmo que você falou.

    Abraços do CR!!

  2. Rodrigo disse:

    Que texto ÓTIMO!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Rodrigo! :)

  3. Caio disse:

    Isso é verdade, pelo menos para mim. Depois de ter contado aos meus pais, quase nada mudou. É aquele lance: eles sabem, mas não falamos sobre o assunto. E boa parte disso por minha causa mesmo. Meus pais são do tipo super protetores e gostam de saber de tudo da minha vida. As vezes chega a ser um saco. As vezes quero “dar uns perdidos” rsrs sem avisar aonde vou, de ter meus momentos próprios sem que eles saibam de tudo, minhas particularidades. Aí tenho receio de ficar constrangido de começar a falar algo do assunto e aí vierem perguntas íntimas que não se compartilham com pais, talvez no máximo com amigos íntimos hehehe. Mas vendo pelo lado positivo, eles já sabem e aceitam na boa, não mudou nada o amor e a relação familiar e quando aparecer um namorado, ficante ou amigos íntimos que sejam gays não será uma surpresa.

    O problema é que ainda não me sinto totalmente livre, o resto de minha família não sabe e nem os meus “amigos”. E considero estes últimos não como amigos, pois não sou tão íntimo com eles, mas também não são somente meus colegas, pois temos uma relação mais próxima, é um intermediário. Bom, sinto que eles aceitariam numa boa, são todos tranquilos com isso, pelo menos com quem não é da família como é o meu caso. Mas sei lá ainda não tive o impulso para falar. Meu desejo era em algum encontro que tivesse com eles eu chegasse com um ficante ou namorado e aí eles perguntassem quem é o garoto e eu dissesse com a maior naturalidade quem é. Isso porque se os héteros chegam assim nos encontros e ninguém acha estranho ou questiona, por que para os homos têm que ser diferente? Mas assim como meu planejamento para contar aos meus falhou, aliás se eu não tivesse sido arrancado do armário rsrs provavelmente até hoje estaria nele, devido até hoje não ter conseguido realizar o que queria para então sair.

    Mas passado o momento inicial da revelação que é chatinho, hoje estou bem e daqui a pouco terei minha total independência e seguirei meu rumo de maneira mais livre, aí será melhor. Digo isso, pois apesar de ter um relacionamento normal e bom com minha família, minha mãe não acharia muito interessante que eu dissesse: oh vou dar uma saída, vou numa festa (já dando a entender que provavelmente ficaria com um cara lá), ou vou até pior, mão eu vou na sauna hahahahahaha. Isso é algo para nossa vida privada e os demais não precisam saber. Mas como eles querem saber de tudo, tenho que mentir ou enrolar e não gosto de fazer isso com meus pais. Aí mandar no meu próprio nariz totalmente vou me desgrudar um pouco de casa e aí não precisarei dar muitos detalhes.

    Abraços.

    1. Caio disse:

      Isso que dá não revisar o texto antes de postar. Ficou um horror. Foi por causa da pressa hehehe. Ah só complementando, na parte onde eu disse que meus pais aceitam e depois eu disse que minha mãe acharia não interessante saber que eu fui numa festa com outra finalidade que não seja apenas dançar, pode ter parecido controverso, afinal ela aceita ou não? É que na cabeça dela seria bom se eu estivesse num relacionamento de compromisso, ela não gosta da ideia de “ficar” e como tem medo do preconceito social e da violência ela não deseja que outros saibam, pelo menos por agora.

      É isso.

      1. minhavidagay disse:

        Sua questão, Caio, acaba sendo como da maioria dos jovens que precisam um pouco de liberdade independentemente da sexualidade: sair das asas dos pais para ter um pouco mais de autonomia. Tive um pai ultra protetor também, que projetava um monte dos seus medos do mundo em cima dos filhos. Até o dia que me “rebelei” e sai de casa. Não só sai como “casei” e talvez inconscientemente fechei o cerco para que ele não mais interferisse tanto. Foi bom para ambos. Hoje nos reconhecemos melhores um para o outro. Mas tudo ao seu tempo, certo?

        Abs, MVG

  4. Danilo Bitencourt disse:

    Gostei muito do texto, e concordo, principalmente no ponto que o efeito de “sair do armário” vai depender da subjetividade de cada um..
    No meu caso, sempre fui independente (psicologicamente apenas, pois tenho pais muito protetores) e persistente em minhas opiniões, sendo assim, quando eu comecei meu primeiro namoro achei que era o momento certo para falar com meus pais e dar-lhes o direito de participar disso..
    Deixei bem claro que independente da reação deles, em nada iria interferir na minha relação. Foi um momento difícil mas eu não me permiti chorar ou demonstrar qualquer tipo de fraqueza para que eles soubessem que eu tinha certeza do que estava dizendo e como posso lhe dar com isso. Eu não podia esperar outra coisa..
    Minha família, unida como sempre foi (e me conhecendo bem), aceitou sem questionamentos.. Meu pai ficou em estado de choque e não conseguiu falar comigo no mesmo dias (risos), minha mãe chorou, mas depois disso ambos disseram que me amam do mesmo jeito, que tem muito orgulho de mim e que eu me cuide..
    Realmente foi uma limpeza mental e tirei um peso enorme de mim, me sentia livre para fazer, assistir, falar, usar e ouvir o que bem intendesse.
    Eles nunca mais me perguntaram coisas como: – E as meninas?, Está namorando?
    Sei o porque disso, mas não me importo, é mais fácil ser você mesmo e não poder falar disso com a família, do que mentir para a família e ficar perdido, sem poder contar nem com você mesmo.
    Ótimo site..

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