A vida gay no interior

Dando continuidade ao post “Relato de Carlos – A dificuldade de assumir a homossexualidade em cidades pequenas”, Bruno deixa um outro sincero comentário sobre sua realidade gay numa cidade do interior com aproximadamente 20 mil habitantes.

Realmente, Bruno, havia uma lacuna no MVG pois nasci e cresci em um centro urbano, São Paulo e não poderia trazer honestidade no meu relato de como seria a vida para quem mora em pequenas cidades espalhadas pelo Brasil. Quando o Carlos trouxe seu relato, rapidamente me manifestei para transformar em um post pois sabia que esse assunto ainda não tinha sido pautado com franqueza por aqui. Assim, como você mesmo concluiu e além, trouxe a mim um outro relato sincero de um gay que vive no interior. Posto aqui seu depoimento para formar mais referências para os leitores que moram nos centros urbanos ou fora deles.

Relato de Bruno:

Sou leitor assíduo desse excelente blog. Contudo, sentia que existia uma lacuna. Ora, alguns tópicos dialogavam muito mais com os homossexuais que vivem em grandes urbes como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Agora, este relato vem preencher este vazio. Simples, preciso e real!

Moro no interior de São Paulo, na última cidade do estado. A população da minha cidade não chega nem a 20 mil habitantes. Asseguro que a situação descrita pelo Caio e pelos demais leitores é quase que a mesma. Aliás, o relato é uma radiografia do viver do homossexual no interior do país. É claro que há espaço para especificidades, o modo como cada um lida com a situação, etc. Mas no geral é bem isso mesmo.

Como é a realidade de um gay que vive no interior, numa cidade de 20 mil habitantes?
Como é a realidade de um gay que vive no interior, numa cidade de 20 mil habitantes?

Aqui (interior) a questão da assunção da homossexualidade é um pouco mais complicada. Em São Paulo, para ficar no exemplo mais significativo, existe a dificuldade de contar aos pais, amigos e por extensão às pessoas do ambiente do trabalho. Fora isso, há certa liberdade espacial de você gozar o anonimato, ser apenas mais um entre a multidão. Numa cidade pequena não existe isso. Precisamos enfrentar pais, amigos, colegas de trabalho e a cidade toda! Num espaço reduzido, o olhar de terceiros sobre a vida alheia se torna mais intenso, controlador e cruel. Às vezes, a sensação é a de estar dentro de um Reality show!

Eu também poderia dizer que ninguém desconfia que eu sou gay. Não é bem assim. Vejo diferente essa questão de ” não notam que eu sou gay”. Quando alcançamos certa idade, os rumores são inevitáveis. Já tenho 27 anos, tenho todos os membros do corpo, não sou exatamente um Godzilla e nunca namorei. Impossível não haver questionamentos sobre minha sexualidade! E é aí que entra o jogo estranho. Existe uma espécie de pacto entre nós e o restante da sociedade: “Se você não contar, tudo bem. Nós vamos fingir que não está acontecendo nada. Apenas não diga, ok? ”. Algumas vezes eu me sinto mal, pois é como se eu tivesse dentro de uma salão de festa cheio de pessoas, gritando, mas sem ser ouvido.

E como escapamos disso ou tornamos nossa realidade mais leve? Percebo que nós, caipiras gays, vivemos um pouco na clandestinidade. De um jeito ou de outro, passamos o tempo tentando encontrar modos de escapar dos olhares alheios e viver a vida do jeito que nós realmente somos. Eu, por exemplo, nunca namorei mulheres, mas sempre dei meu jeito de ” fugir ”. É incrível! Fazemos muitas loucuras (pelo menos eu as fiz) para escapar um pouco das nossas cidades. A facilidade do mundo virtual, os contatos feitos e que viraram amizades me deram a oportunidade de ir algumas vezes para São Paulo. É nessas ocasiões que eu penso: ” Não pertenço à cidade onde eu resido. Eu não deveria estar lá ”. Pode parecer bobo e ingênuo. Mas acreditem: essa é uma questão frequente na mente dos homossexuais que moram em cidades interioranas.

12 comentários Adicione o seu

  1. Matheus disse:

    Acrescento que viver numa nascer e crescer numa cidade do interior faz com que você se sinta “deixado pra trás”. Há a época de descobertas da sexualidade, do primeiro beijo, namorinhos, conhecer gente nas festas da cidade etc, mas os indivíduos gays não estão inseridos nesses eventos, marginalizados seria um bom adjetivo. Esse aspecto do desenvolvimento geralmente irá acontecer tardiamente, dando uma sensação de frustração e de tempo perdido.
    Além disso, vale dizer que nas cidades pequenas, por todo mundo conhecer todo mundo ou saber que alguém é filho-de-fulano/primo-de-fulana/outros, assumir-se homossexual implica estar ciente da caricaturização que a população fará, infelizmente. Foi como vi e ainda vejo.

    1. Matheus disse:

      *Correção: “Acrescento que nascer e crescer…”

  2. Caio disse:

    Viver numa cidade do interior, ainda mais dessas como o Bruno citou de 20.000 habitantes para mim seria um horror, sendo gay ou hetero. Eu não consigo viver num ambiente paradão, com poucos atrativos, diversão e pessoas para conhecer rsrs. Eu amo a natureza, mas nestes locais só passando alguns dias de férias e nada mais. Além disso, o povo como todos já sabemos é daquele jeitão e não muda. Infelizmente se quisermos ter um mínimo de liberdade e de prazer na vida temos que sair de lugares assim, pelo menos é minha visão.
    E será que há alguma diferença significativa entre uma cidade com 20.000 para uma com até 2.000? Pelos relatos parece-me que não, afinal mesmo com 20.000 e até com 50.000 a maioria se conhece e sabe um da vida do outro. Então, não seria pior ainda viver num local com tão pouca gente, daria na mesma.

  3. Giovany de Oliveira Silva disse:

    É muito difícil ser gay no interior. Venho do interior de Minas Gerais e nunca tive a oportunidade de querer ser quem realmente era e acreditava que aquilo iria mudar depois que me mudasse. Pois bem, eu me mudei, mas para outra cidade do interior, Ouro Preto, quando decidi ingressar no ensino superior na Universidade Federal instalada aqui. Percebi que o preconceito que sofro aqui é maior do que o que sofria na minha cidade, afinal, sou agora um homossexual residente numa cidade do interior, muito católica, conservadora e de mais de 300 anos; mas com um agravante, agora uso saias e vestidos. Na minha cidade, apesar de tudo estava protegido por ser filho de fulano ou beltrano, agora não; sou um viado escroto das artes cênicas.

  4. bellini disse:

    Sou gay assumido aqui no interior de Minas, as pessoas sabem e estou me lixando para a opinião delas. Vou muito a bh, mas tenho relacionamentos aqui também, não faço nada contra e lei, sou honesto, bom professor, meus alunos todos sabem, e não me retiro dos lugares,e festas da cidade : eu os obrigo, quando estou presente em um evento local, a me aturar e hoje, a mentalidade aqui da cidade de 70000 habitantes mudou, porque se eu morasse numa cidade que fosse um rua apenas e não me desse ao respeito seria tão discriminado como em uma cidade grande. As vezes beijo na praça, mas acredito que a mentalidade no interior ainda é rudimentar sim e que há segregação, como também acredito que o esclarecimento ligado ao cuidado com quem se relaciona melhora as relações sim, e vou sim a outras cidade , porque o lixo cultural não é somente feito para mim, é ruim pra todo mundo , então saio fora mesmo,mas no meu calo ninguém pisa., por aqui também namoro e aciono a policia quando há algo que poderia estar errado.

  5. Clark de Smallville disse:

    Num comentário bem seco de quem já viveu os dois lados da moeda, caras que estão no armário ou até mesmo aquele gay que já se aceitou, mas é bem masculino, caso resida em cidades de até uns 50/100 mil (chute) deve o quanto antes tentar migrar.

    Cidades pequenas só “aceitam” os gays cabeleireiros, maquiadores, promoters e todo aquele que não se enquadrar nestes perfis vai passar sua vida sentindo-se acuado, salvo quando não desenvolve algum tipo de transtorno psicológico.

    Se você que estiver lendo isto se encontra nesta posição, vai por mim: “foge de casa”. Vai ser difícil pra c@ral3o começar do zero, mas nada paga a sensação de sentir-se em casa. Lar nem sempre é onde nascemos, mas onde pertencemos.

    Putz, lembrei do meu tempo em Smallville em que me sentia um E.T. e era apaixonada por um Lano Lang: http://youtu.be/5hjqlQxSHA4

  6. Dionisio disse:

    A vida em cidades muito pequenas pode ser difícil ou boa também. Tudo bem que a grande maioria de homoafetivos prefere a badalação dos grandes centros e seus atrativos, mas é bem possível viver altas aventuras e até uma vida prazeirosa no interior. Morei a vida toda em cidades minúsculas, e passei num concurso de uma cidade no MS de 7.000 habitantes com os distritos, vivi quatro anos lá e pude perceber como a vida homossexual era agitada e que havia espaço social pra todos tipo de gay, apesar de bem pequena a cidade as pessoas haviam se acostumado com manifestações de outras sexualidades que não a heterossexual.
    Pude perceber que esta cidade era mais evoluída do que muitos lugares nos grandes centros, ainda é muito comum ver pessoas maltratando homossexuais na cidade de São Paulo. E mesmo para os nascidos e criados nessa cidade ainda era mais fácil, pois eu até pensei que fosse pela minha condição de forasteiros, mas o que vi foi a maior expressão de respeito de múltiplas sexualidades que um lugar poderia oferecer. O nome dessa cidade é um romance da literatura brasileira.

  7. Augusto disse:

    Eu moro no interior de São Paulo. População? Cerca de 10 mil. Isso, 10 mil. Não sou daqui, mas por problemas familiares, tive que ‘migrar’. Talvez a pior besteira…
    Era um dia comum, cerca das 13hrs, fazia 6 meses que residia aqui. Conheci ele, me apaixonei, fui correspondido. Segredo, muita descrição, até desconfiarem e abrirem a boca. Família mostrou o lado que não conhecia: Homofobia e “”ortodoxia”” às ideias conservadoras. No fim, fui separado dele, como “não tenho outro lugar para ficar” estou preso a minha casa. Sair para a padaria? Só se eu estiver louco. Vida controlada plenos 19 anos de idade!
    O que aprendi? Silêncio. Lutar e permanecer no local o quanto você PRECISAR. Por que continuo aqui? Necessidade, estudos, carreira. Para ai sim, sair de um lugar onde querem que você ESCONDA E DESTRUA aquilo que é chamado de essência.
    Por experiência própria, descrição numa cidade pequena não é suficiente. Aos que passam por tal, desejo muito foco, força e fé !

  8. Júlio Luz disse:

    A vida gay no interior… não sei como é na capital, nem mesmo sei como é numa cidade grande, vez que a maior cidade da minha região tem 40 mil habitantes, mas enfim.

    http://gaydeinterior.blogspot.com

  9. William disse:

    Nasci no interior de MG, passei a infância e a adolescência lá. Sempre todos souberam que eu sou gay. Nunca me importei, se me perguntavam já mandava cuidar da vida deles. E tinha família ligado a religião e política. Acredito que devemos buscar realizações para si mesmo e não importando com que os outros vão falar.

  10. pedro disse:

    Eu deixei BH para ir morar numa cidade com 8 mil habitantes, QUASE MORRI ! eu com meus 32 anos amava a cidade grande e derrepente por motivo de força maior tive que ir para nesse vilarejo, entrei em depressao profunda, nao sabia lidar com aquilo, todos eram religiosas e tudo era pecado ou endemonizado, fiquei doente, foi um processo muito doloroso, me sentia vigiado, paracia um, Reality Show e tinha sempre os borburinhos; ” dizem que é bicha “, ou ” é o filho bicha da dona maria da venda ” , ou, ” mais um baitola na cidade”, gente, imagina isso em suas vidas ? sem contar as indiretas que davam para mim, nunca revidei pois seria uma perdfa de tempo e enrgia, chorava muito pelos cantos sozinho, nem sabia que um ser humano pudece sofrer tanto, e depois graças a deus me mudei para uma cidade de 130 mil e com praia, nao é o ideal mas é muito mais leve para mim pois tem muito turista e muito trabalhador de fora pois é uma cidade pretrolifera, hoje consigo me diluir na na cidade e ter uma vida melhor, nao desejo a ninguem o que passei, quando assiti o filme, O DESPERTAR DA ADOLESCENCIA que conta a historia de um garoto de 15 anos que mora na zona rual e é homossexual chorei horrores com o sofrimento desse garoto devido ao preconceito e a religiao, esse filme é lindo porem perturbador, profundo e mostra a vida de um rapaz no interior, se vc for um gay forte assista, mas se tiver passando pela vida de gay no inteiror e estiver sofrendo nao assista, desejo força aos coraçoes de todos os gys do inteirior, queridos amigos, sei o que vcs passam, nunca desistam de seus sonhos, traçam um plano para ir embora para um lugar maior caso nao se sintam bem ai, nao desistam, uma luzinha no final do tunel sempre aparece como um milagre, força a todos.

  11. Afonsofreitas disse:

    Eu tenho 19anos,desde criança eu sentia atração por homens,já fiquei com 3 homens + ñ teve penetração(so sacanagem e sexo oral)eu sempre odiei penetração,e por isso q no começo d 2014 descobri por acaso o termo g0y me identifiquei muitoo.mas o pior é q eu moro numa pequena cidade do interior d minas gerais com apenas 14 000mil habitantes,é muitooo difícil encontra alguém pra me relacionar,so pra ter uma idéia aqui tem +ou- 8 gays assumido(afeminados) e se tem machoes gays(ativos,ñ afeminado)eu ainda ñ encontrei. Tem quase 3anos q eu ñ tenho relações sexual com ninguém,so masturbação apenas,Tô carente!!! Tem algum g0y interessado numa relação sem penetração? Abraçooooos bjãooo a tds g0y’s :-*

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