Família trata de homossexualidade do filho em novela


Saideira ou bem-vinda segunda-feira no MVG: rápido diálogo entre Fernando Lima e MVG.

Fernando Lima:

Oi MVG,
na semana passada, saiu na Veja uma matéria sobre a novela – conversa do Fagundes com o filho gay.

Você acha que o tal personagem gay (meio vilão) e esse tipo de papo ajuda a mudar alguma coisa na cabeça de quem acompanha a novela?

Achei legal a postura da Globo, vi o capítulo no youtube e o papo com a mãe dele coloca muitas ideias interessantes…

cesar-tenso-filho-gay

MVG:

Oi Fernando!

Tudo bem?

Sobre a questão, se um papo entre integrantes familiares (personagens) – no meio de uma novela em horário nobre – contribui para mudar a cabeça de quem assiste eu não sei. Não sei se provoca grandes mudanças. Mas no mínimo, traz a discussão para dentro de casa um pouco mais, mesmo que de maneira resumida. Traz também alguma reflexão ou referência para aqueles que possam desconfiar do filho ou tem algum contato com um gay. Mas de qualquer forma, essa situação (também li na Veja na semana passada) entendo que seja refluxo de todo movimento que estamos sentido, movimento “pró-gay”. Está dando audiência envolver situações que tenham gays, no caso, um filho gay. Minha mãe comentou e diz ter gostado muito da atuação do “gay-vilão”, filho do Antonio Fagundes na novela.

O autor, segundo a nota, quer ainda mostrar para as pessoas que existe discriminação e preconceito de gays para com outros gays; cita as “barbies” e as “pão com ovo”. Acho isso bastante importante e já “sobe um degrau” no tema homossexualidade – do ponto de vista social – que não mais falar se temos ou não os tais direitos. Para quem já vive a homossexualidade há algum tempo, as questões passam a ser outras mesmo. A medida que vamos resolvendo as “etapas” que envolvem a nossa homossexualidade e se ainda nos dispomos a refletir sobre as questões quanto a formação da homossexualidade perante a sociedade (meu caso), vamos nos deparando com dezenas de outras nuances.

Vire e mexe deixo minhas opiniões sobre o que acho das diferenças e preconceitos que existem entre os gays (masculinizados VS. afeminados, bicha fina VS. bicha pobre, ativo VS. passivo, relacionamento monogâmico VS. relacionamento aberto, gay que não se considera gay VS. ativistas, etc.) e penso que seja muito bom levar essas divergências de maneira mais popular, fazer a sociedade (no geral) tomar conhecimento que gays têm conflitos entre si. Ser gay não nos isenta de preconceitos e discriminação. Sabe que estou cansado de carregar essa imagem de que ser gay é “incrível” ou “coitado”, não é? rs

Resolvida as fases de sair do armário, a euforia de viver um pouco o universo “livre” da homossexualidade, namorar sério (ou não), envelhecer como gay e se estabelecer como homossexual sem aquela energia auto-afirmativa natural (que no meu caso durou anos – rs) vemos que as mesmas problemáticas que existem no universo hétero também existem no universo gay, o que me faz crer (de novo) que o problema é dessa nossa humanidade no geral! rs

Bem, me prolonguei um pouco na resposta. Mas achei pertinente mostrar meu ponto e vou postar no Blog!

Abs,

MVG

4 comentários Adicione o seu

  1. Carlos disse:

    Olá… sou Carlos, já escrevi uma vez num post e agora estou de volta!
    Eu juro a todos vocês que eu estava mesmo pensando em voltar aqui no blog para comentar sobre a novela Amor à Vida, em especial sobre o que aconteceu com o personagem gay, Félix. Felizmente, outras pessoas se adiantaram e também trouxeram essa discussão para o MVG.

    Como eu relatei da última vez, contando a minha história, eu sou do interior de Minas Gerais, tenho 23 anos e não sou assumido para a família. Gostaria de relatar dessa vez, o que eu tenho percebido em relação ao comportamento das pessoas daqui sobre a cena em que o Pai do personagem Félix descobre que o seu filho é gay.

    Bem… segundo o que eu pesquisei, pois não assisto a novela, a intenção do autor é de retratar o que muito de nós já passou ou ainda passará algum dia. Assumir para os pais a nossa condição. Fazendo com o que as comunidades reflitam sobre o assunto em questão. A princípio eu imaginei que seria muito bom para as pessoas que eu conheço começarem a enxergarem tal realidade, mas o que eu percebi, até dentro da minha casa, é que muitas dessas pessoas, conservadoras como são, tiveram uma interpretação diferente daquela que eu imaginei.

    O que eu ouvi a respeito da cena foi: “Coitado do pai que tem um filho assim!”

    “O pai está certo, ter um filho gay é uma desonra.”

    “Se fosse eu, teria matado meu filho gay… o sofrimento da morte é menor do que eu ter que aturar o resto da vida um veado na minha casa!”

    “Coitado daquele pai. Ele deveria levar o filho para a igreja.”

    “A cena é chocante, mas o pai está coberto de razão!”

    Mas o pior foi ouvir do meu pai: “Se acontecesse comigo, eu não iria suportar a dor de ter um filho assim, acho que eu morreria ou nunca mais olharia na cara dele!”

    O que eu fiz nessa hora? Engoli um seco, senti um nó na garganta e uma dor muito forte no peito. Mas fiquei calado segurando para não dizer nada a ele.

    Meu pai percebeu a minha reação e completou dizendo: “Ainda bem que você é meu orgulho e eu tenho certeza que não terei esse problema aqui!”

    Não sabia o que fazer nesse instante… eu só sentia uma dor muito forte no peito e não queria desapontar meu pai. Fiquei pensando nos dias seguintes como será daqui pra frente?

    Por isso, feito o desabado, eu queria perguntar a vocês leitores.
    O efeito dessa cena, especificamente, da novela Amor à Vida, nas pessoas ao seu redor foi positivo ou negativo?

    Grande abraços a todos!

    1. Fernando Lima disse:

      Oi Carlos,

      O meu temor se concretizou com a sua análise, parece que não importa o que se faça para tentar esclarecer as pessoas, elas sempre dão um jeito de torcer as coisas e reforçar a sua própria ideologia primitiva.
      Isso é o que posso concluir das reações que você mencionou.
      Claro que alguém deve ter se questionado e mudado um pouco, mas acho que ainda temos uma longa jornada pela frente…
      Queria dizer também que seu post me emocionou bastante, fiquei indignado com a reação e os comentários do seu pai.
      O que poderia sugerir?
      Como o MVG sempre fala, tenha paciência com seus pais, porque eles são, em parte, produto do meio em que nasceram e replicam um modelo cultural que parece dar sentido à vida deles.
      Contudo, creio que também é responsabilidade de todo ser humano estar atento à realidade que o cerca e progredir na sua compreensão do mundo e das pessoas, aprendendo a respeitar a diversidade.
      Por esses motivos, a postura de seu pai me causou tanta revolta.
      Você tem a minha total solidariedade!
      Não desista! Conquiste a sua independência econômica e, talvez em uma cidade grande, como BH, você possa viver a sua vida em plenitude.

      Abraços,

      Fernando

  2. Dodi disse:

    Caramba, Carlos!
    Também fiquei angustiado com seu sofrimento. Acredito que muitos gays passam por esse dilema. A cultura do nosso país é essencialmente religiosa – cristianismo – ainda mais no interior, a evolução educacional e social é morosa.
    Talvez a novela seja mais uma forma de levantar um “tabu” nos lares, evidenciando assuntos que raramente seriam tocados. E claro, os pais querem “o melhor” para seus filhos, dentro daquilo que lhes foram concebidos como sendo “certo”, pela Igreja, pelo Sistema.
    Mas meu caro, o mundo não se resume no pensamento ignorante do seu velho, não se resume à sua cidade, ao seu estado, país… O mundo pensa diferente. Você não é obrigado a viver o que não quer. E se tem algo que os fiéis devotos do cristianismo deveriam escrever mil vezes no quadro-negro é “Amai-vos uns aos outros assim como vos amei.”
    Como diz a música do Coldplay, Everything’s Not Lost (nem tudo está perdido).
    Como o Fernando disse: conquiste sua independência econômica. O resto você já sabe. Abs.

  3. Carlos disse:

    Olá amigos… obrigado, de coração, pelo o que me escreveram!
    É incrível sentir o carinho de vocês e todo esse apoio de pessoas as quais eu não conheço.

    Paciência será meu segundo nome a partir de agora, pois será preciso muita para aturar o meio onde eu vivo. Por isso, quando eu me formar no ano que vem, pretendo me mudar e começar do zero uma vida nova em alguma capital brasileira que me ofereça condições de sentir esse mesmo acolhimento.

    Grande abraço a todos!

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