Minha Vida Gay – Voltei com reflexões sobre New York!


Minhas férias em NYC

Queridos leitores,

depois de um “longo e adorável inverno” voltei ao MVG. Minhas últimas férias foram em 2011 e esse ano parti com meu namorado e um casal de amigos heterossexuais para Nova York, ou New York, ou Nova Iorque, como preferirem.

Sobre a vida gay, no bairro de Hell’s Kitchen em Manhattan (onde nos hospedamos) se concentram dezenas de bares, restaurantes e baladas totalmente simpatizantes, fato que se percebe pelas bandeiras do arco-íris expostas claramente: “sim, aqui é gay friendly”. Não pintou propriamente vontade de curtir um desses lugares, a não ser ao acaso. Assim, o que posso dizer é que – quem estiver a fim de viver uma vibe de baladinhas e tentar conquistar um gringo – frequente diariamente a 7a, 8a e 9a avenidas na altura da 49 Street. Bomba de gays “all the time”.

Nova York é uma grande metrópole e é incrível. Provavelmente porque a cidade se acostuma com a gente antes mesmo da gente se acostumar com ela. Por lá não dá só brasileiro como normalmente pensamos. São americanos de outras cidades, europeus do oeste e do leste, judeus, chineses, latinos, africanos, japoneses, indianos e, óbvio, brasileiros. Não existe uma fisionomia étnica que não seja possível por lá: dos brancos e loiros nórdicos (que o brasileiro costuma pagar pau) ao latino meio índio do México ou da Colômbia.

Com a nossa mentalidade brasileira, a gente acha que ir para NY é coisa chique. Maior bobagem da pura mentalidade “latrina”. Imagine uma cidade cuja média salarial é de U$ 2.000,00 e que roupas e carros não são produtos que retalham as pessoas em classes como é por aqui?

Pois bem, hoje passei no shopping para almoçar com meus pais e fui dar uma espiada para saber quanto sai uma blusa da Calvin Klein (ok, que não é super grife – que aliás por aqui entre os gays é famosa pelas cuecas e o perfume CK One – mas serve de referência). Algo semelhante com o que comprei por lá está R$ 390,00. Eu paguei U$ 19,00 ou, convertendo rapidamente, R$ 44,00. Nem moletom da Hering a gente paga esse preço por aqui, não é verdade?

Um Jaguar, que vi no comercial da tevê, sai U$ 30.000,00, o preço de um Ecosport. Os jovens americanos que completam 16 anos (idade que a molecada pode dirigir nos EUA) sonham em ter um Honda Civic ou um Toyota Corolla que custam uma média de U$ 15.000,00 ou R$ 34.500,00, que por aqui a gente consegue comprar um Gol praticamente pelado, certo?

A conversa começa por aí: em NYC ninguém classifica o outro pelas etiquetas que carrega na nuca ou o carro que ostenta pois, a bem da verdade, é que até o Jaguar nas 24 parcelas com juros baxíssimos, quem ganha U$ 2.000,00 faz um esforço mas pode comprar.

Como carro não é símbolo forte de status na cidade e o trânsito por lá é também complicado, a maioria maciça, do alto executivo à faxineira, anda de metrô, side-by-side. Com o sistema de transporte público de NY é possível percorrer a cidade inteira na maior facilidade.

Numa passagem rápida por uma loja de departamento chamada Best Buy, o equivalente a uma Fast Shop no Brasil, conversei com um vendedor americano, de pais brasileiros (ES) e cujos irmãos nasceram todos no Brasil. O menino, com seus 20 e poucos anos, tinha comprado um notebook da Apple top de linha e turbinado, no total de U$ 6.000,00, duas vezes mais caro que o top default. Tinha ainda um Playstation 3, um WiiU e um 3DS. Falávamos obviamente dos nossos interesses eletrônicos. Fiquei imaginado que, um vendedor da idade dele aqui no Brasil teria no máximo um PS3 comprado em parcelas. Só o notebook dele sairia aqui no Brasil R$ 24.000,00 já que o default top custa por aqui R$ 12.000,00.

A cultura de consumo é “for all” e isso faz uma tremenda diferença para o fortalecimento de uma sociedade.

Foto que tirei da famigerada Times Square, centrão de Manhattan.
Foto que tirei da famigerada Times Square, centrão de Manhattan.

Outro ponto que achei interessantíssimo é que as pessoas por lá não encaram. Descobri que o brasileiro gosta de encarar sabe-se lá por quais das dezenas de motivos. Entre gays, a de interesses libidinosos, claro. É uma cidade que todos vivem o seu quadrado, o que a mim me foi extremamente confortável. A sensação dos limites do espaço público/privado se faz valer, ao notar inclusive alguns banheiros.

Imagine ainda nesse contexto uma cidade cheia como São Paulo, diversa e amplamente segura? Em NYC pude andar com a paz e a tranquilidade, sem precisar olhar para o lado, para a pessoa que cruzou a minha frente ou para o grupo que estava vindo atrás. Segurança numa metrópole muda literalmente a vida. Pense em andar em frente ao Teatro Municipal as 2 da manhã sem receio. É isso.

Pensei em lançar aqui as dicas de como comprar na cidade, se é interessante ou não ir aos Outlets, quais lugares visitar, o que fazer e onde comer. Mas, de fato, para isso a nossa cultura classista sabe bem como fazer.

NYC poderia ser uma verdadeira e caótica Babel, quando as mais diversas etnias não conseguissem se comunicar ou tivessem evidentes animosidades. Mas lá eles têm o inglês, numa grande maioria bilingue, cada qual com seu sotaque local. Babel mesmo é o Brasil que vive em bolhas de classes.

A desigualdade e a nossa cultura de castas nos fodem.

Quando voltei, tive que lembrar disso aqui:

Trânsito no sábado e essa cena foram as coisas que senti ao voltar para Sampa.
Trânsito no sábado e essa cena foram as coisas que senti ao voltar para Sampa.

8 comentários Adicione o seu

  1. Seiá disse:

    Cara, que bom que voltou. Faz muita falta, mesmo!

    Comentário solto:
    Como tem gente neste Brasil que vive para etiqueta e ostentação.
    Dia desses teclando com uma cara na internet, ele muda o rumo da conversa e foca-se 100% na inauguração da loja da GAP no Brasil. O indivíduo tratava aquilo como um acontecimento histórico e exaltava o nome da marca como se ela fosse um deus que acabara de desembarcar no país para mudar o destino de milhões de brasileiros. Pena que o infeliz mal deu-se ao trabalho de pesquisar as origens e o perfil da loja para saber que a “grife de luxo” que tanto ostenta é na verdade roupa de supermercado.

    Se algum cara ler isto e não conhecer ou não saber escrever ou não saber pronunciar nomes de “grifes”, favor deixar um comentário abaixo. Ultimamente só tenho me envolvido com pessoas que em vez de iniciarem uma conversa perguntando meu nome, perguntam qual roupa estou vestindo.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Seiá!
      Tudo bom?

      GAP, Starbucks, Sephora são tão populares e espalhadas pela cidade como MacDonald’s. Não sei onde esse rapaz aí viu luxo nessa marca. É a Hering dos americanos, a roupa do dia-a-dia. Aliás, a excessão de algumas marcas como Armani, Valentino, Michael Kors, Hugo Boss, etc. a grande maioria delas é de acesso a todos. Enquanto a gente por aqui se acha uber porque consegue comprar e usar determinadas marcas (para se destacar ou diferenciar), por lá eles pensam diferente: dão acesso a grande maioria delas para todos com o objetivo de estimular o consumo e dar a sensação de que todos podem. Isso é poderoso para uma sociedade.

      Aqui é ao contrário, o falso poder de uma marca (falso porque é tudo questão de mentalidade) nos torna “diferentes” perante os outros e assim acabamos provocando as desigualdades entre as pessoas, nos sentimos diferentes ou “privilegiados”. Como gays, batalhamos por igualdade mas nesse contexto que é oco.

      Isso tem que mudar para sermos algo um pouco mais perto do que tratamos, inclusive, de primeiro mundo.

      Abs,
      MVG

    2. Caio disse:

      Isso comigo nunca aconteceu, deve ser frustante alguém só se importar com as roupas. Tudo bem, que alguém bem vestido deixa o visual melhor, mas este “bem vestido” pode ser perfeitamente com roupas populares. Bom mesmo é ter dinheiro no bolso para quando quiser comer algo diferente que seja mais caro, para fazer viagens, não passar sufoco e até fazer doações a entes e entidades que precisem. Não gosto de luxo e não vejo necessidade das pessoas tanto ostentarem a riqueza material, é tão banal.

      Quanto aos preços dos produtos, lá é uma maravilha, tudo justo e como aqui conhecemos por “em conta”. No Brasilsão é tudo exorbitante, por causa dos impostos, da corrupção e dessa falsa sensação de poder que o MVG discorreu no texto. Vai ser difícil mudar isso com o cenário político atual, é viver para ver.

  2. Caio disse:

    Muito bem, aproveitando o melhor da vida, um dia eu também vou dar uma relaxada assim e esquecer da vida rotineira que levo. Achei que estivesse com muito trabalho na empresa e por isso não estava mais postando. Pelo jeito, você não foi ver de perto aqueles clubes noturnos um “pouco” fora do comum rsrsrs para presenciar as cenas antes só imaginadas com os próprios olhos :p.

    É, Nova Iorque é mesmo um encanto, deve ser muito bom estar lá, se livrar um tanto desta atmosfera da república das bananas \o/. Ah, você viu a Lady Gaga? kakakakakakakakaka

    Até mais….

  3. Gabriel disse:

    Oi MVG! Bem-vindo de volta, já estava sentindo falta das postagens! Que bom saber que você estava se divertindo em NY, ao invés de estar doente ou com problemas no trabalho que impossibilitavam escrever aqui. Já fui para la uma única vez, e apenas por um dia, mas mesmo assim me apaixonei, e só n estou disposto a voltar a qualquer custo pq sei que tenho a vida toda pela frente.

    N esperava que você fosse falar tanto do preço das coisas. Cade a broadway, os restaurantes, os bairros de várias culturas diferentes, etc. N vou negar que comprei muitas coisas em nova york, a um bom preço, mas como já estava morando nos EUA isto já n era novidade, e de qualquer maneira eu n estava ali para consumir. Na próxima vez, as únicas coisas que vão ser prioridades serão ir a um bar gay, óbvio, e a um show da regina spektor, minha paixão eterna

    Mas eu reparei uma coisa neste post q me deixou de queixo caído: me parece, MVG, que você possui um profundo desprezo pelo Brasil. N digo contra os problemas sociais que enfrentamos, mas sim em relação a própria cultura e ao modo de ser do brasileiro. (Ou será hispânico?) Sim, reconheço que possuímos muitos defeitos em nossa maioria, mas após morar fora senti que os americanos também não são um mar de rosas quanto a forma de pensar e agir. E de qualquer forma, toda cultura tem o seu valor. Eu sei que o Brasil tem mazelas sociais que nunca serão resolvidas (e se forem, vai ser de forma tão lenta que eu já estarei morto a muito tempo, e meus netos também), por estarem presentes na estrutura colonial desde Cabral. Uma triste consequência de ter excelentes aulas de história e’ deprimir-se cada vez mais com a impossibilidade de evitar certos problemas.

    Porém, também temos aspectos positivos, e quanto ao consumismo, vale lembrar que até 2 décadas atrás a maioria da população passava a mais pura e completa FOME. Também detesto o pensamento elitista daqueles que sempre foram abastados, mas se a “nova classe média” quer comprar roupas de marca, ou qq coisa para mostrar que ascenderam socialmente, e’ um direito deles. Oq me impressiona e’ ver pessoas reclamando da desigualdade social brasileira, mas quando vêem milhares de “pobres” viajando de avião ou comprando em um shopping, sentem repulsa e procuram ao máximo impedir que isto aconteça. E n se engane, o povo americano, assim como o inglês, francês, etc, e’ extremamente preconceituoso. Nova York e’ uma cidade global, mas o mesmo não pode ser dito das demais metrópoles, onde a maioria dos cidadãos nunca teve interesse em viajar para fora do pais. Alias, me parece que, quanto isto acontece, enaltecem muito mais o modo de vida brasileiro do que nós mesmos. Tenho uma amiga gringa que passou 6 meses no rio, e mesmo conhecendo plenamente nossos problemas, se apaixonou pelo Brasil. Então n esta correta esta teoria que a única coisa que temos a oferecer para estrangeiros e’ o turismo sexual.

    Para finalizar, sinto muito se tiver te ofendido com este post. Sei que vc tem muito mais experiência de vida e deve saber muito mais do que eu. Mas já tive uma fase de pura e completa rejeição ao lugar de onde nasci, até sair dele. E n consigo explicar as saudades que senti com a ausência da antiga forma brasileira de ver o mundo. Por isso me entristece quando falam de nos como se fossemos lixo. Outro problema brasileiro, que aliás até vc destacou, e’ a mentalidade colonial.

    1. minhavidagay disse:

      Oi amigo Gabriel,
      tudo bem?

      Tenho certeza que qualquer sociedade tem lá seus grupos de problemas. Seja nos EUA, no Japão ou na República-Tcheca.

      Não sinto total repulsa pelo nosso Brasil, muito pelo contrário. Voltei, retomei as atividades com minha empresa e sei que vou tocar o barco sem pensar em fazer diferente ou fora daqui.

      Apesar de 36 anos, vi tanta abertura e possibilidade para crescimento e reconhecimento em NYC que, se eu realmente desgostasse demais de nosso canto tupiniquim, estaria passando a liderança da minha empresa para meu sócio, venderia meu carro, minha casa, juntaria minhas economias e partiria direto e reto para me aventurar por Manhattan.

      Acontece que, apesar dos grandes pesares e dificuldades nesse solo brasileiro, não me dou por vencido, mas cheguei em um nível bom, autônomo, assumido, realizado com família, namorado e etc.

      A principal referência que me impressionou profundamente e ainda ressoa dentro de mim é que o meu mesmo esforço durante 12 anos como dono de empresa, seria 5, 6, 7 ou mais vezes reconhecido se fosse numa metrópole como NYC. Meu poder de compra seria muito maior e, fatalmente, minha empresa talvez estivesse muito mais consolidada.

      Não falei da alta mendicância que existe por lá, dos loucos que andam pelas ruas, dos guetos culturais porque temos tudo disso por aqui também. Problemas, até uma república com três integrantes têm. Isso faz parte do convívio social.

      Agora, saber que uma sociedade foi muito além ou fez diferente desde o princípio e que resultou numa sociedade mais igualitária, segura e acessível acaba mexendo com a gente. São seres humanos iguaizinhos a qualquer brasileiro mas que, por intermédio de cultura, educação e valores específicos, distribuem renda de maneira mais uniforme e dão poder capital para a grande maioria. Isso é meio assustador, no sentido de que temos muito pasto para carpir ou que pessoas fizeram diferente e chegaram em condições sociais muito mais justas.

      Mas está aí a potencialidade do Brasil. Potencialidade diz respeito aquelas características ou coisas que podem vir, podem se tornar.

      O que eu posso fazer e já estou fazendo, é trazer as boas referências daquela cidade para dentro de mim, para minha empresa e para as pessoas que querem saber.

      As boas referências nos estimulam para sermos melhores como indivíduos, mas SIM, aqui no nosso Brasil. Não aidanta eu fugir para NYC. Mas de alguma maneira eu preciso plantar algo que aprendi lá por aqui.

      Poder comprar, no final, é só consequência de uma consciência muito diferente de sociedade. Aqui, dá impressão que as pessoas batalham para se diferenciar. Lá a sociedade estimula as pessoas a se equalizarem.

      Abs,
      MVG

  4. Huuueeee!! Olha quem foi pra NY (um dos lugares que ainda desejo ir, mas preciso aprender inglês ;.;)

    Que bom que está de volta!!

    Aaahh, a sua de foto capa está perfeita! Amei mano!

    Whatever…

    Abraços do CR!!

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