Minha Vida Gay – Daqui a pouco, 37

Não saber as vezes é bom. Não ter convicções particulares que nos tornam as vezes rígidos ou demasiadamente argumentativos. Chato, sem aquele deslumbre pelo inusitado, pelo imprevisto ou por aquilo que ainda não foi vivido.

Sei de praticamente quase tudo que já foi, que virou passado e que forma a minha alma, a mente e o físico. Tenho certo orgulho de saber, talvez, por até o presente momento ter chegado lá, onde gostaria de estar quando lá ainda era o futuro. A partir de agora não sei como será daqui pra frente, daqui há 10 anos como o Enzo sugeriu em seu último post.

Para lá levo na bagagem aquele punhado de pessoas, histórias, discos e livros e um pouco mais do que nada mais. Mas onde que é eu não sei.

Eis o prazer do inusitado batendo a minha porta todos os anos, os anos de todos. Vem sutil, vem pequeno, dividindo o espaço entre o saber que já é e o não saber que será.

O que sei é que, não fosse o equilíbrio terno conquistado entre eu e meu pai, haveria uma âncora que me manteria preso a algumas questões menores. Menores, mas suficientemente grandes para fazer brotar a ressaca na minha alma, aquele tipo de inquietação que incomoda. Hoje tenho uma paz conquistada e, se há conquista, há a valorização pois, como sugiro por aí, sem esforço não se dá o devido valor a realidade palpável, dimensionável.

Como num conto de fadas, queria meu pai como amigo, herói, símbolo de uma postura idealizada, da noite para o dia. Improvável. Estava me enganando, me confundindo, assim como a gente faz quando a gente sonha com algo que reside apenas – e simplesmente apenas – em nossa imaginação. Gostamos de sonhar e idealizar cenários, nosso mundo a favor do que somos, de como somos, esperando que as pessoas reajam a nós com pleno querer bem.

Não acontece assim, meus amigos, e se acontece uma ou duas vezes na vida normalmente não damos o devido valor, se é que enxergamos. Por que somos burros? Não, amigos. Porque tendemos a valorizar apenas quando se está no plano dos sonhos.

A âncora partiu quando, ao contrário das histórias fantásticas, aceitei a realidade. Não como uma condição imexível, mas que se eu continuasse a insistir no sonho, a realidade continuaria dura. Percebi aos poucos que notar o real sem medo e modificar a mim antes do pai-herói chegar com toda sua postura austera idealizada, era o verdadeiro passe de mágica. Muito fácil e cômodo esperar que os outros mudem ao nosso favor. Difícil mesmo, áspero e real é modificar a si para transformar o outro.

Foi aí que descobri esse segredo, escondido num canto distante dos sonhos: “mudar a si é a possibilidade de transformar os outros”. Nem Jesus, nem Gandalf ou quiçá Harry Potter pronunciaram essas palavras de maneira tão representativa. Mas acredito sim que foi Deus que tenha dado a dica.

Foi aí que, dos meus 35 para 36 anos passou a reinar uma paz de espírito tremenda. Suficientemente grande para me gerar forças para rever de maneira definitiva todas as relações ao meu redor. Questões que eram tão importantes passaram a ficar infantis. Pessoas que faziam sentido deixaram de fazer. Todas as mudanças, que não são poucas, não vieram como fruto de orgulho ou de impulsividade. Vieram pela paz de espírito e isso passou a ser novo faz muito pouco tempo.

Há quem diga que eu virei homem e, no canto da minha intimidade mental, poderia dizer que sim. Estou mais sereno embora continue ariano. Homem, desprendido das normas sociais. Homem, mulher, do indivíduo que amadurece.

Os efeitos do tempo, embora o culto à estética diga ao contrário, não é de todo ruim. Mas concordo que seja difícil ou inseguro romper com o ideal do belo, das marcas e do status. Ainda mais nós, bichas. Eu creio que tenho aceitado cada etapa.

Não sabia que viver a paz com meu pai me traria tantos benefícios. Não sabia que passar firmemente pelas mudanças que me propus faria enxergar dimensões tão mais afáveis. Não sabia, acima de tudo, que viver a minha realidade me possibilitaria sonhar muito mais amplo.

Estou longe de ser milionário, estou longe de ser um modelo. Sou apenas excessivamente resiliente.

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Coloque um ideal na cabeça e vai. Se pensar muito, se muitos opinarem, tem muita chance de você desistir. A vida não pode ser uma quantidade infinda de variáveis, pessoas e opiniões. A vida tem de ser simples.

Mas não coloque um amor como propósito. Amor é diferente de metas de trabalho ou metas pessoais. Amor depende de uma sinergia e uma integração entre pessoas. Amor depende de concessões mútuas e, sinto em dizer: amor está contido da parte real da vida e não nos sonhos porque “sapos” somos todos nós.

Dedico esse post ao Sammy ;)

4 comentários Adicione o seu

  1. Rod disse:

    MVG sempre inspirador. Com todas as inseguranças dos meus juvenis 21 anos, sinto-me menos aflito ao ler suas reflexões tão ricas.
    Meus sinceros agradecimentos.

  2. Henrique disse:

    adorei esse post!
    parabéns MVG como sempre nos surpreendendo!
    queria deixar uma dica para post, creio que seria ótimo, algo relacionado
    com programas para se fazer no namoro ou até mesmo no casamento gay!
    fica a dica, um forte abraço do seu fã! rs’

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Henrique!
      Existem posts que já falam sobre o assunto, espalhados por aí no MVG. Mas vou pensar em algumas ideias sim.

      Abraço,
      MVG

  3. Caio disse:

    Eu também, apesar de mais jovem que você estou começando a entrar nessa vibe de aceitação da vida como ela é e também me conformando para evitar a frustração. Como um exemplo, eu queria ser um pouco mais alto do que era e que sou hoje. Sonhei, desejei muito e tentei fazer o possível para que isso acontecesse, mas no fim não deu. Me senti muito mal por um tempo, mas hoje me conformei para a situação não ficar pior. Além disso, criei e crio muitos outros desejos, uns que vejo como sendo bem possíveis de alcançar e outros nem tanto, já pensando que terei que desistir destes últimos. Queria de alguma forma gerar algum tipo de transformação social com meu trabalho e ideias, mas no momento vejo como muito difícil este processo e já estou aceitando viver numa boa, buscando minhas realizações próprias e na medida do possível ajudar um pouco ali e aqui. Antes me preocupava muito com os problemas dos outros e com a dificuldades alheias e quase nem olhava para mim mesmo. E claro, sofria muito com isso. Hoje, não que eu diga aos outros: “danem-se, quero é curtir a minha vida”, mas estou bem mais tranquilo e mais “pé no chão”. Afinal, adianta ficar uma pilha de nervos pelas mazelas que se alastram pelo mundo e no fim das contas não poder fazer muito para mudar, estando sozinho nessa missão? Com certeza não, eu apenas estava me prejudicando assim.

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