Achei uma palhaçada


Sou fã de videogame desde que me entendo como uma pessoa capaz de controlar um joystick. Joystick, na época em que me iniciei era do Atari. Hoje a gente fala controle. Controle do PS3 ou do XBox 360.

Deu hoje em dezenas de portais de informação a notícia-bomba: O PS4 da Sony custará R$ 4.000,00 no Brasil. Um tiro no peito, uma facada de desrespeito, uma atitude muito insana dessa “grife”, Sony, em achar que o consumidor é ignorante a ponto de se sujeitar a esses valores.

Claro que uma turminha diminuta A+ vai motivar seus pais milionários a adquirir tal aparelho em solo brasileiro, embora muitos desses possam estalar os dedos, ir para os Estados Unidos e comprar um exemplar por lá a honestos U$ 400,00.

PS4 - Explode gostoso porque nenhum brasileiro te merece.
PS – Explode gostoso porque nenhum brasileiro te merece.

Existe nesse contexto um sério problema social que aparentemente é invisível: aquele indivíduo brasileiro que se sujeita a comprar um aparelho desses a R$ 4.000,00, praticamente o dobro do concorrente que inclusive sai U$ 100,00 a mais lá fora, vai colaborar diretamente a favor de nossa cultura classista. O PS4 aqui no Brasil será um produto de luxo, tal qual um cristal Swarovski, um Mini Cooper ou uma grife como Dolce & Gabbana. Quem comprar um videogame por esse preço, nada mais, nada menos, estará alimentando o modelo que segrega a nossa sociedade em castas.

Obviamente não estou fazendo aqui a linha contra o consumo dos ricos do país. Quem pode e quem quer tem toda a liberdade de adquirir tal videogame por esse absurdo, mesmo sabendo que nos EUA, contando as taxas, não passe dos R$ 1.000,00. Mesmo sabendo que um vôo de ida e volta para Miami não saia mais de R$ 2.500,00 e que em um bate-e-volta por lá traria ainda R$ 500,00 de volta, no mínimo.

Por um lado, a compra de um aparelho desses no Brasil é um atestado de ignorância já que, quem pode dar um pulinho nas gringas com autonomia e facilidade economizaria dinheiro. Por outro, comprar o PS4 por aqui é assinar o atestado de poder, classista, mas que nós brasileiros gostamos tanto de praticar.

Tenho percebido que alguns colegas bibas, por intermédio das redes sociais, têm postado de clara estampa a marca de roupa John John. Tem um boné aí que está meio que na moda no meio gay e que confirma essa necessidade de “diferenciação” porque John John não é barato. Eis aí um exemplo desse nosso prazer ignorante de comprar um boné com letras garrafais “só” para se sentir acima.

Fico inconformado com tudo isso. Porque essa realidade funciona muito bem em nossa bolha. Caímos no jogo e, no contexto, ou nos sentimos inferiorizados ou soberanos, mas raras vezes de igual para igual.

E o problema não está nas marcas em si, em usá-las por apreciação, mas no querer mostrar, no querer dizer, na mentalidade e no comportamento. Na necessidade da ostentação, da diferenciação que, em outras palavras, corrobora diretamente a desigualdade.

Desculpem, queridos amigos, mas sou uma pessoa elegante. Na altura dos meus 36 anos tenho um razoável poder de compra, que incluiu o tal PS4 de preço brasileiro. Mas a medida que vou ficando velho (e talvez mais elegante ainda) não posso vivenciar esse modelo classista sem me mostrar contrariado.

Somos bastante ignorantes. Ignorantes, principalmente aqueles que se acham mais por ostentar determinadas grifes ou menos por não utilizar. Porque o problema não está somente naqueles que ostentam, mas naqueles que, no fundo, se recentem por não poder.

Era hora de estourar essa bolha. Era hora de todos, ricaços, classe média e menos privilegiados boicotarem a aquisição do tal videogame. Nem pensar em comprar a vista para quem pode ou parcelar em 24 vezes para quem não pode e quer muito.

Permitimos essa situação, queremos diferenciação pelos produtos que consumimos. Isso é coisa da mentalidade, da cultura subdesenvolvida.

A gente não é mais ou menos pelo o que se consome. Mas parece que vamos levar mais um século para aprender.

1 comentário Adicione o seu

  1. Rod disse:

    Longe de mim ser clichê, mas é aquela questão de que o “ter”, tem prevalecido sobre o “ser”.
    Isso me lembra um fato vivenciado em 2009, aos 16. Observe como o “ter” atua como capital social.

    Tinha acabado de ganhar da minha mãe um desejado blusão xadrez comprado na Renner.
    Num dia de frio, contrariando as regras do colégio de freiras em que estudava, fui todo pimpão com meu novo moletom. Num momento x, uma amiga chegou e comentou: “Gostei da sua blusa! Se estivesse escrito Billabong, todos iam comentar.”
    Era febre dessas blusas de marca, num clássico exemplo do efeito rebanho.

    Hoje, seria incapaz de ligar pra uma bobeira dessas, mas naquela época, com minha homossexualidade em processo de autoaceitação e com todos os outros fantasmas da adolescência, tudo o que eu menos queria, era destoar. Confesso ter sentido um incômodo.

    Não compro roupas caras, mesmo porque sou estudante e não tenho poder de compra, mas mesmo que tivesse, não ousaria comprar qualquer peça com escritos John John, Billabong ou de qualquer outra marca. Acredito que seria ferir a unicidade que tanto busco!

    Quanto ao blusão, ele está meio surrado e quase curto, mas ainda costumo usá-lo. Juro que se algum dia alguém ainda elogiá-lo, direi que é Renner com um sorrisão no rosto!

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