Minha Vida Gay – O medo de sair do armário

É muito mais feliz que os pais se conformem com a situação de filhos gays, do que os filhos gays se conformem que jamais poderão ser plenos para seus pais.

Tem aqueles que não querem sair do armário. Preferem se preservar no “canto” seguro para não ter que enfrentar as adversidades que é encarar o julgamento e os sentimentos contrários que vêm das pessoas. Tem que enfrentar o tempo também porque, na maioria dos casos a aceitação não é imediata.

Eu já passei por isso também e não fazia planos objetivos de assumir para meus pais. Aconteceu por acidente, para pai e mãe de maneiras diferentes, como relato por aí detalhadamente pelo Blog Minha Vida Gay. Se eu dependesse do tempo que meu pai levou para aceitar a minha relialidade como gay o tom de otimismo (ou realismo) contido em meus textos talvez não fossem tão presentes. O bom é que eu decidi não depender desse tempo que ele precisou, que não foram dias, semanas ou meses. Meu pai demorou uma década para me aceitar como homossexual e nem por isso, ou nem por qualquer outro motivo, deixei de tocar a minha vida, sempre respeitando com muito cuidado os limites os quais ele atingia.

Uma década depois, outras acertos entre nossas diferenças aconteceram. Tudo meio junto e misturado. A minha homossexualidade, em si, foi difícil para ele compreender pelo mesmo motivo da grande maioria das pessoas que não têm acesso à informação: temia as companhias, os esteriótipos, o tipo de vida, as doenças, a má impressão que poderia causar perante os diversos grupos sociais próximos e tudo que faz parte do imaginário dos indivíduos que desconhecem a realidade gay, ou que melhor, nos encaixotam num punhado de hábitos e comportamentos, como se “ser gay” tivesse algum tipo de diferenciação (negativa).

Claro que alguns gays buscam essa diferenciação (positiva), que são inclusive os causadores da própria impressão preconceituosa perante a sociedade geral que é meio míope. Mas essa parte a gente pula, ou melhor, já faço minhas reflexões em outros posts.

Meu pai não aceita com a naturalidade plena. Mas nessa uma década ele teve seu tempo para elaborar essa questão, dentre outras preocupações que tinha comigo e posso dizer que hoje ele está conformado. Não somente conformado, mas as fobias que tinha – fruto de seu imaginário – caíram por terra e ele passou a enxergar a realidade da homossexualidade com outros olhos. Eu não me esteriotipei, nenhum de seus colegas e amigos que sabem da minha sexualidade jamais me excluíram, meu irmão e minha cunhada se relacionam de maneira fluida comigo e, possivelmente, muitos dos monstros que existiam na mente de meu pai foram se tornando diminutos a ponto de causar apenas cócegas. Ponto predominante também, embora de maneira sutil – conta a gotas – deve ter sido a participação da minha mãe no processo. Devagar e sempre, como o ritmo dele pedia.

Foi definitivo respeitar o ritmo do meu pai. Para a grande maioria dos leitores, 10 anos parecem um tempo interminável. Mas digo que depende. Depende da maneira que cada um lida com esse tempo. Eu aboli qualquer tipo de ansiedade, cobrança ou expectativa. Tirei as cismas de meu pai do foco e, quando nos encontrávamos, erámos pai e filho somente. Não entrei em nenhum processo de urgência para aceitação por ser filho ou qualquer outra exigência auto-afirmativa. Assim, o tempo passou e, quando dei por mim, estava lá meu pai convidando meu namorado a jantar conosco.

Assumir para os pais faz diferença?
Assumir a homossexualidade para os pais faz diferença?

Alguns desses encontros aconteceram e nesse próximo sábado, amanhã, vamos almoçar somente eu, meu namorado e meus pais numa churrascaria nova que abriu perto de casa. Detalhe que a convite de meu pai.

Não posso deixar de citar que o meu namorado teve papel importante nesse processo. Deixou meu pai sempre muito a vontade, sem demonstrar medo, insegurança ou a tal necessidade auto-afirmativa que poderia trazer algum tipo de constrangimento, ou aquele silêncio que a grande maioria abomina a existência. Ou aquele comentário de viés que serviria para cutucar uma das partes. Nada disso aconteceu e, assim, respeitamos novamente o ritmo e a sintonia de meu pai.

Dez anos tem de ser uma boa referência para qualquer gay. Inclusive, muitos são assumidos a si e para o meio, frequentadores frenéticos, mas ocultam a realidade de ser gay para a família.

Eu tenho que dizer, como li recentemente no post de um amigo, algo do tipo: “construir a aceitação com os pais muda a vida”.

E muda mesmo.

6 comentários Adicione o seu

  1. Henrique disse:

    Ola, primeiramente quero parabenizar o autor, pelo excelentíssimo blog, que é o MVG, estou em um relacionamento de 2 meses e estou adorando dividir minha vida a 2, tenho 17 anos e meu namorado 20, eu o amo muito por sinal, apesar de 2 meses de namoro o conheço a mais tempo, e ja temos planos de casar e constituir nossa família, sou aceito por meus pais, e creio que isso é fundamental na vida de um gay, pois a aceitação vinda dos pais é de grande importância para nós! Bom nem sei como parei aqui só sei que adorei e a partir de hoje serei um visitante diário, parabéns pela iniciativa! se puder gostaria de dicas por e-mail de como melhorar e aproveitar o namoro! um forte abraço!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Henrique,
      tudo bem?

      Mande suas dúvidas para o queroumtoque@gmail.com. Como viajei estou com um grande acúmulo de e-mails não respondidos. Talvez seja melhor você perguntar por aqui mesmo!

      Abraço,
      MVG

  2. CPM disse:

    Pretendo falar a verdade para pessoas próximas à mim ano que vem , estarei no 1° colegial :) , sempre tentei evitar de pensar que sou gay , sempre tentei contornar e falar para mim mesmo que era uma fase e que passa , mas nunca passou , a cada dia que passa sou decididamente homossexual , tentei de tudo para ter atrações por meninas , mas nunca deu em nada , e começava a ter mais atração por meninos.
    Para muitos 15/16 anos parecem muito pouco para já se assumir , mas para mim já estou ciente de que sou homossexual , idade não tem nada a ver com mente decidida :)
    Primeiro contarei a minha mãe e depois para amigos mais próximos e só depois para meu pai (ele é daqueles pais que moravam na roça , e gay é uma pessoa doente , por isso um receio de ser ignorado , porque moro com minha mãe , ou até de apanhar mesmo…) minha mãe é psicologa formada então espero que ela saiba o que eu passei e passo.
    Um grande abraço para todos da comunidade do site e um muito obrigado ao autor desse site que me deixa super à vontade para falar tudo sobre “Minha vida gay” :)

  3. Lavoisier disse:

    Parabéns pelo relato. É isso ai! Temos que respeitar os limites dos pais. Sou assumido para a minha mãe e vivo muito em paz por isso. Que nosso exemplo sirva de estímulo e decisão para muitos que sofrem a incerteza do assumir para os pais, que nos amam tanto!

  4. Caio disse:

    Ainda bem que meus pais souberam lidar com a questão de uma maneira amena e bem rápida. O grande amor e cuidado que eles sempre tiveram comigo, digamos até mesmo de maneira exagerada, foi decisivo para isso. Após a revelação, que ocorreu aos mesmos moldes que o MVG, levou apenas uma semana para que eles digerissem a novidade e meio que se “conformassem”. Ainda não consegui determinar se eles aceitaram com total naturalidade o tema, pois de um lado nunca fui repreendido, ou questionado sobre minha orientação sexual, e de outro, eles apenas vivem dizendo e orientando o de praxe: para se cuidar, não exagerar em nada, etc. Ou seja, sinto que seria o mesmo se eu fosse heterossexual. Aliás, pelo fato de não haver possibilidade de engravidar nenhuma mulher, acho que foi até mais tranquilo rsrs.
    Não conversamos quase nada sobre o assunto específico, apesar de nos demais termos muita intimidade. Mas isso é mais por minha causa, que não tenho muito interesse em compartilhar. Eles só querem minha felicidade e assim vamos indo.

  5. Willian disse:

    Bem, as vezes nem todos tem a “sorte” de pais tão mente aberta, principalmente aqueles que tem pais divorciados, ou tbm pais extremamente religiosos(neuróticos possessivos que acreditam que ser homossexual é do lado sombrio ou das trevas), no meu caso foi combo, recebi as duas, já tenho 18, porém, vivo ainda com minha mãe(divorcio), creio que so conseguirei revelar depois de me mudar de casa,(n gosto da palavra “assumir”, dá a impressão que cometi algum crime),mas é mais por receio de que se eu contar agora, é capaz, dela me por na rua,sem uma peça no corpo, e se eu pensar em morar com meu pai, é capaz dele querer me dar uma coça para me fazer virar “homem”(hetero), sei desde pequetuxo a minha sexualidade(n gosto de “opção sexual”, da a ideia que eu escolhi, tive uma “opção” e decidi ser gay), enfim, sei o quanto é complicado, e creio q sim, quanto mais cedo melhor, pois, como dizem, é necessário dar tempo ao tempo, e como tu disse para eles se “conformarem” pode até mesmo levar anos ou décadas(no pior dos casos, NUNCA), só espero que quando eu informar a eles, n seja tarde demais.

    Post-Scriptum: Foi pelo o acaso que descobri teu blog, e estou admirado, vc ja pode acrescentar mais um FÃnatico na tua lista de seguidores uhauhuahua’ abraços.
    BY: Will s2

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