Gay e oriental

Agora que me assumi japonês, a ideia aqui não é ficar vangloriando a raça nem fazer nenhum tipo de distinção. Os posts dedicados aos gays orientais servirão também de referência para todos que se interessem em saber um pouco mais da cultura e das impressões que tive ou tenho por ser descendente de japonês, gay e brasileiro.

Pela autocensura que comentei no primeiro post dedicado aos orientais, muitos gays japoneses, chineses, coreanos (etc.) sentem-se impulsionados para chamar atenção ou se destacar de alguma forma pela influência autoafirmativa, de um tipo de compensação por ser oriental. Não é diferente do gay que, para se sentir aceito, muitas vezes é o ouvido para os amigos, o conselheiro, o querido da turma, o inteligente, o aplicado nos estudos e assim por diante.

Na mesma proporção que ser gay é ainda o próprio tabu para quem é e não se aceita, ser oriental em meio a predominância ocidental também é tabu para muitos orientais.

Mas a responsabilidade disso não é somente do “exterior”, da sociedade que historicamente criou as piadas, os esteriótipos e que – diretamente – forma a diferenciação. Eu desde pequeno (e agora muitíssimo menos) sempre ouvia as piadas de japonês, as comparações com pasteleiros, tintureiros, o foco na ideia do pau pequeno, do CDF (não sei se as pessoas usam esse terno ainda, mas CDF – “Cú de Ferro” – era o nome dado para os alunos viciados nos estudos, e assim por diante). Mas ao mesmo tempo, vindo de uma família japonesa mais atípica mas com avós próximos e tradicionais, percebia o “interior”, o quanto a representação familiar fechada e voltada a própria raça – e por consequência preconceituosa – colaborou também para tudo isso.

Assim, reforço aqui que o preconceito é de mão dupla: da sociedade para o oriental e do oriental para a sociedade. Assim como para qualquer outra minoria.

Que as piadinhas infantis e os esteriótipos existem todo mundo já sabe. Mas do lado de dentro, na minha família japa, o que já pegou de preconceito pelos ocidentais?

Meu avô paterno, originário do Japão – Hiroshima – onde caiu a bomba na Segunda Guerra Mundial e a minha avó, também da mesma cidade, trouxeram o lado tradicional e fechado para a minha cultura. Ambos vieram com valores mais conservadores e foi assim que criaram meu pai e meu tio.

Quantas vezes não ouvia meu avô falar para mim assim: “Quando você escolher uma menina, não pode ser gaijin (ocidental). Você precisa casar com uma japonesa porque andar com um tamanco no pé e um chinelo no outro não dá certo”. No mesmo nível de restrições e preconceito, meu tio se apaixonou pela minha tia (ocidental, descendente de portugueses). Para quê?! Minha avó, segundo diz a lenda – já que eu não era nascido – ameaçou tomar veneno e se matar caso meu tio casasse com a minha tia. Foram anos a fio, um sofrimento tremendo a minha tia e meu tio. Rejeições extremas. Casaram e tudo ficou um pouco mais tranquilo quando meu primo nasceu.

Imagine se meu avô soubesse hoje (já falecido) que além de ocidental, meu negócio é homem? rs

Dessa educação voltada para os valores tradicionais japoneses nascia meu pai. Papai, agora com 72 anos e cheio de manias da idade, entra todos os dias em processos de exaltação a raça e ao Japão. Durante a minha formação, graças a Deus ele não foi um pai que me restringiu a convivência com ocidentais e nem me educou colocando diferenciações entre culturas. Mesmo assim, entendo o fato de ter demorado 10 anos para me aceitar como gay e – se conseguiu no contexto rigoroso que foi educado – tem méritos grandiosos. E sim, o mérito é dele.

Por outro lado, meus avós maternos eram de Tóquio e, apesar de tempos longínquos do passado, um centro urbano sempre foi mais moderno. Não casaram por obrigação e sim por paixão, situação bem avessa à tradição da época. Tiveram muitos filhos, sete no total, e na dificuldade de educar todos, orientavam a necessidade dos estudos, mas ensinavam muito sobre o livre arbítrio. Meu avô materno era poeta e pintor. Aqui no Brasil, como muitos imigrantes, trabalhou a vida inteira na roça.

Não tive tanta influência desses avós já que faleceram mais cedo. Mas tive muita influência da minha mãe que sem dizer, dizia: “vá atrás de tudo que você tem vontade. Mas tenha uma consciência dos seus limites”.

Daí, veio eu – filho mais velho – que os leitores já puderam conhecer um pouco melhor em tantos relatos espalhados no MVG.

Meu irmão seguiu um pouco mais a cartilha ditada pelo meu pai e, embora não tenha tido forte influência sobre que tipo de amizade formar, tem bons e grandes amigos descendentes de japoneses. É casado hoje com uma gaijin, descendente de uma grande famiglia italiana! Funicuni-Funicula!

Ele ter seguido mais por esse caminho não é mérito nem demérito, mesmo porque as coisas aconteceram assim sem uma consciência, mas por fruto autêntico de personalidade e visão de mundo de cada um. Detalhe que dos amigos mais próximos, ele é o único que casou com ocidental.

Assim, meu Brasil varonil, leitores do MVG, vou relatando aos poucos as influências que tive da cultura japonesa perante o ocidente, nessa interesecção de ser gay e japonês. Hoje, com quase 37 anos estou mais acentado – o que pode parecer que estou mais japonês (bobagem; estou mais tranquilo porque simplesmente tenho quase 37 anos!). Mas até os 20 e poucos anos fui bem fundo na cultura brasileira por vontade de desmistificar e romper com essa barreira do oriente VS. ocidente. Antenas ligadas. Já fui frequentador de forró, quando essa história não era “Universitário”, era Gonzagão e Dominguinhos. Sou fã da Tropicália, de Secos e Molhados e dos incríveis Mutantes. Adoro arroz com feijão e a diversidade ocidental. Não é à toa que já “provei” do negro ao aloirado. rs

E quando ingenuamente me perguntam se eu como sushi e sashimi todos os dias, eu dou uma bela risada e digo: não viaja! rs

Para um pouco de autoafirmação nesse caso (rs), segue aí uma música bonitinha, criada por Caetano Veloso, cantada por mim e pela minha professora de canto, nas minhas épocas mais musicais:

Oriental gay: não tenha medo de ser brasileiro. Não morde, quer dizer… as vezes morde! ;)

10 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Esse lance dos orientais se familiarizarem mais com outros parecidos tanto na aparência, mas mais pela cultura é bem comum mesmo. Minha irmã fez amizade com uma descendente de japonês igual a você, e por coincidência os avós dela são japoneses natos também. Lembro que antes quando éramos adolescentes a maioria dos amigos e pessoas de convívio dela eram de traços orientais, mesmo que a família não fosse do tipo dos seus avós que desejavam evitar o contato com os ocidentais. Hoje o leque de pessoas está mais ampliado. Inclusive esta garota não curte muito comida japonesa rs. Que bom que em ambas situações foi possível se conectar a outras pessoas e ser acolhido por elas.

    E acabei esquecendo de dizer no post anterior, que por mais que pareça clichê, eu acho que uma parte do porquê você ser assim tão sábio nas palavras e, creio eu, na vida em geral, seja pelo fato de ser descendente oriental. Têm um pouco a ver com a cultura, criação e até com o genótipo hehehe.

    ps: você tem uma voz linda ;)

  2. minhavidagay disse:

    Oi Caio,
    as coisas estão mudando aos poucos. Os orientais estão deixando de ser mais fechados a medida que a nova geração vai surgindo no mundo.

    Para entrarmos na cultura ocidental, nós japas precisamos mudar o jeito de enxergar as coisas, romper com barreiras culturais e alguns valores. Dá certo, mas digamos que não é uma coisa fluida. Exige esforço. Pelo menos, eu tive que me esforçar! rs

    Abs e obrigado pelo elogio,
    MVG

  3. Sammy disse:

    Só para deixar mais um depoimento, vou copiar um trecho de um e-mail que te enviei há mais de um ano, mas acho legal deixar aqui pro pessoal poder entender um pouco o que é ser gay e oriental.

    Existe uma cobrança muito grande para o japonês se manter na linha. Isso vem diminuindo a cada geração (ainda bem), mas é um dos motivos para, por exemplo, os japoneses terem fama de CDFs. No meu caso, não considero que tenha sido inteligência simplesmente, mas muito esforço mesmo. Minha mãe não aceitava de jeito nenhum uma nota abaixo de 8,0 (essa nota, aliás, era ruim, mas ainda aceitável).

    Lembro que uma vez eu estava conversando com o meu avô e ele estava contando das famílias dos irmãos dele. Todas tiveram algum motivo de desonra à família. Ele falou, por exemplo, de um dos irmãos que não tem uma filha que preste, inclusive porque uma se divorciou depois que descobriu que estava sendo traída pelo marido. E aí ele começou a falar como tem orgulho dos nove netos dele, porque todos estão indo no caminho certo, fizeram ou estão fazendo faculdade, não são de ficar namorando gente que não presta, tem uma que até já casou e está terminando o doutorado, enfim… são todos gente do bem. Aí lembrei do caso do irmão mais novo dele. Descobriram na cidade que esse tio, com mais de 60 anos e quase 40 de casado, teve três filhos fora do casamento. Até a esposa dele perdoou, mas não meu avô. Meu avô o excluiu da família, cortou totalmente as relações, porque ele foi uma vergonha pro sobrenome da família. Enfim, a gente foi conversando e eu comecei a me sentir muito mal. Terminei meu mestrado, tenho um bom emprego, mas sou gay. Na família, apesar de grande, ainda não teve nenhum caso (pelo menos assumido). Começou a me dar uma sensação de que eu vou ser o responsável por “sujar” o nome da família, fui pro banheiro jogar uma água no rosto, mas não conseguia nem me olhar no espelho. Aquela sensação de que eu vou estragar a família toda. Eu vou ser a mancha dessa família… É uma sensação realmente desesperadora. Teve um primo da minha mãe que se casou com uma “gaijin” e isso já foi motivo para ele deixar de ser convidado para várias festas. Imagina eu casado com UM “gaijin”? Vou ser realmente excluído da família que eu tanto amo.

    Enfim, ainda não me assumi pra ninguém da minha família, mas já estou começando a preparar o terreno. Cada vez com mais esperança de que entendam que ser gay não é nenhum tipo de traição ou desonra ao nome da família. Mesmo que demorem 10 anos para começar a aceitar, igual o seu pai.

    Bjo

    1. minhavidagay disse:

      É Sammy… por um lado a nossa cultura, ou pelo menos a cultura original, é profundamente apegada aos valores, aos “códigos de honra” e etc.

      Mas sabe que isso é aqui no Brasil, com aqueles que vieram para cá em décadas atrás e pelo puro instinto de preservação, mantêm os valores em solo brasileiro.

      O próprio japonês do Japão está muito mais desapegado pois viveu, no próprio solo, as mudanças culturais e sociais.

      Aqui, para preservar em meio as diferenças, nossos antepassados preferiram resguardar determinados valores para manter a tradição original que trouxeram.

      Bem, coragem meu amigo… e vc já sabe a opinião que tenho sobre a percepção dos seus pais. MAS não carregue a família inteira nas costas! Não faz sentido isso.

      Quer dizer, tem um sentido, mas não é justo. Não é justo você carregar valores subjetivos em detrimento às necessidades pessoais que não tem nada de subjetivo.

      Bjo,
      MVG

  4. Kaique disse:

    pazarini94@gmail.com quero namo japa

  5. L.Jun disse:

    Texto muito bom! identifiquei-me muito, pois também estou no mesmo barco… Assumi minha homossexualidade faz pouco tempo (final de outubro de 2013), e até agora, já contei isso apenas aos meus 3 irmãos e amigos mais próximos. Talvez por sorte ou evidência dos tempos modernos, todos aceitaram de maneira acolhedora, apoiando, caso necessitasse, nas horas mais difíceis. O próximo passo é contar aos meus pais, e talvez, a um número maior de familiares. Não saberei a reação deles, mas de certa forma estarei satisfeito comigo mesmo… Após ter lido esse texto, veio um grande alívio, pois (não sei se é desconhecimento meu; acredito que sim) é difícil encontrar um oriental, que seja qualquer um, homossexual, assumido ou não.

  6. Israel disse:

    Quero um namorado com traços orientais por favor se alguém quiser me conhecer mande email: israel.zackheri@hotmail.com

  7. Masashi disse:

    Sou descendente de japoneses e gay, nunca tive problemas com preconceitos . Sou mestiço fato, mas todos meus relacionamentos (namoros) foram com japoneses e chineses…. mas vou casar com um brasileiro ;)

    #MasashiShoji #Esperto # Apaixonado

  8. Masashi disse:

    Os Nikkeis de plantão que quiser me add no whats para fazer amizade estamos ai… 21973000216 Arigato! :B

  9. Junior japinha disse:

    Sou neto de japoneses e estou em busca de novas amizades….

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