Gay e solteiro


Não ter alguém é estranho. Eu que sempre fui tão namorador, acabava um relacionamento e entrava rapidamente em outro para afugentar aquele sentimento de solidão. Claro que não somente por isso, mas também por isso.

O sentimento de solidão, bastante comum na vida de um gay, é aquele mesmo que habitava a minha vida antes de ter me assumido como homossexual. Aquele que me acompanhava horas a fio na minha compulsão de 20 e poucos anos por assistir filmes um depois do outro, ouvir centenas de música ou passar horas na frente da Internet, quando ainda era via modem. Madrugadas a dentro. Eu e a solidão.

A solidão só passou a se tornar um “monstro” depois que descobri – no meu primeiro namoro – que a companhia de um cara poderia ser infinitamente mais prazeroso que a cia da própria solidão. Até então era a única referência que tinha e na minha ingenuidade de mundo, não era lá assim tão pavorosa.

Alguns gays, na mesmíssima medida, trocam a solidão pelas baladas, pelo sexo casual, relacionamentos de migalhas ou por muitos amigos. Em certa medida, tudo é relativamente válido para dar um xispa na solidão. Cada um no seu quadrado (embora tenha minhas críticas para cada um – rs).

Eis que pela primeira vez na vida, quase na borda dos 40 anos, estou sentido a presença da “assombrosa” solidão sem mais aquele pavor de antes. Muito desse medo – e eu que falo tanto da superação de nossos medos – está controlado e não me impulsiona com aquela agressividade para minhas compulsões e excessos. Efeito do tempo, dos “séculos” vividos e também de uma necessidade pessoal bastante grande de não repetir o que não se sustenta mais. O que era alicerce pra mim já não é mais.

O habitual, agora que terminei, seria me afundar nas baladas, beber de monte e radicalizar comigo mesmo, misturando todas as minhas angústias num liquidificador psicológico, para que eu pudesse maquiar o vazio, deixar de viver o “luto” do término, tentar esquecer os problemas e entrar naquela toada alucinante de “se joga”.

Já me joguei tanto. Já tive que recolher meus cacos tantas vezes e depois me jogar mais um pouco. Resolvi fazer diferente.

É bastante difícil mudar de padrão, mas está sendo diferente.

Gay e solteiro. Meu universo particular anda muito em paz. Não preciso contabilizar amigos ou convites para ir para a rua. Poderia retomar contato com um punhado de amigos que estão “no mesmo lugar”, amizades que formei nas minhas épocas infernais. Mas teria que assumir muito do que eu era e não sou mais, aquele tipo de cara-provedor, aquele que um grande amigo intitulava de “ONG”, de conseguir juntar pessoas tão diferentes no mesmo grupo, um pouco para celebrar a própria amizade e muito para celebrar o meu próprio ego.

Faz um tempo que estou querendo assumir um papel menos principal, de expoente, de “cabeça” ou líder. Não é a toa que nesse ritmo que vivo hoje, tenho ensinado e passado responsabilidades e um senso de autonomia para meu sócio e para a minha futura sócia. Não quero ser mais “o cara” da empresa. Me soa muito mais interessante que a empresa tenha muitas caras. Outrora ser “o cara” para os namorados, perante os funcionários e para os amigos me preenchia. Hoje chega até a ser um peso.

Claro que mudar tudo é utopia. Teria que renascer (rs). Não há como brigar contra minha personalidade, defeitos ou talentos. Mas posso ser muito menos, muito mais coadjuvante. Posso ser muito menos ego.

E estou tão cheio e pleno dessa vibração que alcancei que – para aqueles que buscam por esse equilíbrio, que talvez tenha brotado pela maturidade ou espiritualidade – estou abrindo as portas para compartilhar. Naturalmente a vibração atrai pessoas, pessoas realmente do bem, que precisam dessa vibe. E claro que preciso delas na vida pois, assim como diz a máxima do filme “Natureza Selvagem”, “felicidade só faz sentido quando é compartilhada”.

Assim, solidão vira solitude (procure no dicionário).

Hoje, conto nos dedos os amigos. Antes, precisava acreditar – até mesmo contrariando meu pai – que eu tinha dezenas de amigos e que todos me amavam muito. Agora, se tiver 3 ou 4, daqueles que são para sempre, já são suficientes.

Antes, num término de namoro, a angústia e o vazio eram tão fortes dentro de mim, e aquele sentimento de desperdício ou de ter sido usado era tanto que eu repetia o mesmo “catando” gente que me via como um “Deus”. Enchia-os de expectativas, mas no final “usava” para tentar tapar meus sóis com as minhas peneiras.

Antes, as crises com meu pai, o afastamento, as encrencas e as diferenças me assolavam. Poderia até dizer “foda-se” pra fora, mas por dentro queria estar em paz com ele, queria poder sentir o amor por ele sem a barreira do orgulho ou de qualquer outro sentimento que ofuscasse o amor. Poderia seguir no modelo de discórdia para todo sempre. Mas preferi batalhar, suar a camisa para conquistar a paz entre nós. Demorado, conflituoso, paciente, mas feito.

Antes, o fato de ser japonês na “supremacia” ocidental me encheria de energia para querer provar minha capacidade. Hoje me questiono o que eu precisaria provar.

Não vou dizer que cheguei numa plenitude com quase 37 anos porque o homem que deixa de sonhar está morto. Mas na plenitude dos meus 37 anos posso desfrutar de uma colheita que está mais farta do que vazia e, inclusive, compartilhar da sabedoria e da paz adquirida com aqueles que gostariam. Tenho feito isso com meus sócios e com um punhado de amigos. E está bom pra mim. Tem bastante combustível para uma próxima jornada.

A máquina social, o Facebook, as pessoas fervidas, vivem nos provocando para ser diferente. Para cultuarmos o excesso, para termos muitas curtidas, para sermos agitados, ver e ser visto. Poutz! Foda-se tudo isso.

E nesse fluxo todo que também inclui os espinhos, os altos e baixos de um rompimento recente, os “dragões” para matar todos os dias na empresa e as crises normais de qualquer vida (esses dias tive que dar um help intenso para a mamãe que estava chateada com o outro filho), onde se encaixa o amor?

Boa pergunta. Me dou o direito de não saber no momento.

A gente precisa sonhar todos os dias e acreditar todos os dias que tem como atravessar nossos “séculos” de vida.

Pé no chão e cabeça nas estrelas.

(Dedico esse post para o Sammy e para o “Jão”).

18 comentários Adicione o seu

  1. Sammy disse:

    Lindo post! Transmite parte da paz interior que você vem sentindo apesar de o momento não ser exatamente o mais feliz da vida. Fica bem claro aqui que mais importante do que lutar contra os “demônios” interiores é conscientizar-se deles e compreendê-los na medida do possível.

    Obrigado pela dedicatória! ;)

    1. minhavidagay disse:

      De nada, Sammy!

      Obrigado pelos ouvidos e olhos para os meus desabafos, necessários nesse momento…rs :P

  2. Murilo disse:

    Sábio seu pai sobre as amizades. Começamos com poucos e bons amigos, temos um pico e depois retornamos pra casa, para os amigos de infância e familiares.

    Hétero também sofre com isto. E muito. Meu irmão mais velho está na sua faixa etária e o vejo triste todos os dias por a vida não ser mais como antes. Os “amigos” casaram, procriaram, se mudaram… todo mundo cresceu e foi cuidar da sua própria vida – aquela mesma que um dia foi nossa.

    Se tivéssemos a chance de viver a mesma vida uma segunda vez, cometeríamos os mesmos erros?

    Abraço, MVG.
    Tá no Lulu? heheh

    1. minhavidagay disse:

      Ahahahah… não sei ainda o que é esse Lulu… sei que é um app aí de “classificação de machos” rs.

      Acho que temos a chance de viver essa “única” vida buscando superar os erros vividos. Sempre é tempo enquanto estamos vivos.

      Abraço, Murilo!

  3. Wong Foo disse:

    Ótimo post, estou gostando muito do blog.
    É muito bom ver um ponto de vista semelhante, mesmo que eu ainda tenha 18 esse “mundo fervido” nunca me encheu os olhos, talvez morar no interior ajude a reforçar isso…

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado Wong!
      E satisfação ter a presença de outro oriental manifestando opiniões por aqui!

      Um abraço,
      MVG

  4. Sérgio disse:

    Olá Japagay! rsrs eu sempre chamava um amigo meu dos tempos de colegial assim de zueira…. tenho lido seus posts nos últimos dias e resolvi comentar neste pq estou vivendo um momento bastante parecido. É um desafio ficar só, mas algo me diz que é a melhor opção no momento e acho que isso serve para que eu aprenda mais sobre eu mesmo. Tenho dado mais importância a quem realmente importa (família, amigos e eu mesmo) e também aos planos que de alguma forma ficaram adormecidos. Enfim, creio que fases como essas são necessárias para colocarmos sentimentos e pensamentos em ordem e assim seguirmos em frente com mais consciência do que queremos.

    Parabéns pelos ótimos posts!

    abs,

    Sérgio

    1. minhavidagay disse:

      Oi Sérgio!

      Obrigado pelo breve comentário. Nada como a paz no coração para seguir em frente.

      Abs,
      MVG

  5. Ali disse:

    Oi MVG!
    Poxa,eu até senti a sua leveza de agora transparecida no texto,Muito Bom!

    ” Efeito do tempo, dos “séculos” vividos e também de uma necessidade pessoal bastante grande de não repetir o que não se sustenta mais. O que era alicerce pra mim já não é mais.”
    Se você diz isso,então quem sou eu pra discordar,rsrs.

    O que seria da felicidade e dos relacionamentos se não houvessem também a solidão e a tristeza??

    Eu respondo,não significariam NADA.
    Bom final de semana,aproveite do jeito que você achar mais cabível,mas aproveite SEM MODERAÇÃO!
    Fica na paz,como diria um “sábio” do funk: “solteiro sim,sozinho nunca” kkkkkk

    PS. Você disse que assitia bastante filmes,você já fez alguma vez aqui no blog uma lista dos seus (filmes) favoritos?
    Se a resposta for NÃO,faz uma listinha aí! Vamos trocar figurinhas hehe

    Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Muito boa, Ali!

      Farei um posto dedicado aos meus filmes favoritos.

      Valeu pela força! ;)

      Um abraço,
      MVG

  6. Caio disse:

    Pois é. E eu acho que já sou o contrário. Eu sempre fui “acostumado” com a solidão, pois sempre vivi sozinho (claro, com minha família e amigos de infância, mas ao mesmo tempo no meu mundinho que só eu entendia, no qual só existia eu mesmo e mais ninguém). Quase nunca compartilhei meus pensamentos e visões sobre a sexualidade e até outros assuntos que em parte estejam relacionados a ela. Então, não consigo me ver no futuro assim como você se sente, que ao acabar uma relação de compromisso já parte para outra como forma de sentir pleno. Claro, eu acho que se eu amasse muito um cara sofreria ao ter que terminar. Mas eu sinceramente não consigo ver isso como algo desastroso ou uma perda gigantesca rs. Talvez só mesmo passando pela prática para ter certeza né rs.

    Bom, fique tranquilo quanto a encontrar um novo par para preencher o posto do anterior (não apenas por puro preenchimento para constar, mas com sentimento como nos amores anteriores), pois você têm boas qualidades e digo até que vantajosas, devido estarem em escassez no mercado XD.

    Não vou desejar boa sorte, pois como numa prova para a qual você estudou, você não precisa de sorte devido já ter o preparo. E como você já tem o preparo para a vida conjugal, então, simplesmente deixe acontecer.

    Até.

    1. minhavidagay disse:

      Sim, amigo Caio!
      O negócio é deixar fluir.

      Abraço,
      MVG

  7. lebeadle disse:

    Li o post e me despertou o que vc falou sobre os verdadeiros amigos. Questiono agora sobre a possibilidade de amizade entre os gays sem a interferência do apelo sexual. Digo isso porque comecei, um tempo atrás, a procurar me aproximar de pessoas que tivessem a mesma orientação mas no sentido de compartilhar opiniões, de conviver com quem sente o mesmo que você. A vida toda vivi em meio hetero então o universo homo era (e ainda è) um tanto distante; me aventurei. Entretanto, após indas e vindas, notei que a pessoa de quem eu me aproximei estava querendo não apenas conversar, sair, mas algo de natureza mais íntima. Fico pensando, será que no meio gay a coisa é tipo “atirar primeiro e perguntar depois” ou seja, toda amizade supõe alguma transa prévia. Me parece fortemente que sim e talvez só ache amigos gays sem sexo pelo meio se for amigo de casal ou de lésbicas. Bem, você foi falar em amizade e despertou as minhas reflexões.

    1. Sergio disse:

      Está ai um aspecto no mundo gay que me assusta, a amizade. Quem tem amigos heteros sabe o quão tranquilo é fazer e manter uma amizade, sem falsidade, na camaradagem mesmo. O mesmo definitivamente nao acontece no mundo gay. Assim como vc, ja tentei varias vezes fazer amigos mas sempre existe o componente sexual. Ja estou achando que é utopia minha ter grandes amizades com gays. Que pena.

      Abs.

      1. minhavidagay disse:

        Pensando bem… posso dizer que o Sammy, que é leitor do Blog, é um amigo que não traz segundas intenções nem despertam as minhas…

        Mas, sim, é caso raro.

        Abs,
        MVG

    2. minhavidagay disse:

      Bem levantado, Le Beadle.

      Realmente questiono se a amizade gay só se estabelece quando antes é testado um vínculo íntimo. Eu, particularmente, não consegui formar uma amizade íntegra no meio gay ainda.

      Aquele com quem achava que seria possível, acabou criando diferenças comigo e vice-versa.

      Abs,
      MVG

  8. Kaique disse:

    Quero um namo japa =(

  9. Rodrigo disse:

    Essa solidão não m assusta ja vivo assim. Abraços

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