Parte do que somos hoje não mais será amanhã

Recebi hoje um e-mail de uma grande amiga, com cópia para outro grande amigo. Ambos fizeram ESPM comigo e, apesar de cada um estar num canto ou numa vibe (ela, recém grávida morando em Goiás; ele, já carecão, pai de dois filhos e casado há alguns bons anos) mantemos uma intimidade construída.

Ela está de mudança e no ímpeto de ajeitar as coisas achou uma carta (aquelas de papel que antigamente a gente recebia de pessoas queridas pelo correio, com histórias, textos românticos de paixões distantes – rs) que enviei há “séculos” atrás, provavelmente quando tinha 23 anos e estava me assumindo. Naquela carta, na qual meu amigo deixa umas breves palavras para aproveitar a “carona”, eu me assumo inicialmente como bissexual.

Imagine! Eu, bisssexual, sendo que até hoje nunca senti o cheiro de uma vulva! Mas claro, falei assim provavelmente com o medo da rejeição e para amortizar a situação (que na minha cabeça poderia ser uma bomba a ela). Resolvi me manisfetar como tal, bissexual (RISOS).

Estava almoçando sozinho, de volta de uma reunião, quando li os PDF’s da carta anexos no e-mail. Revi minha letra (que está mais bonita hoje – rs) e me senti naquele túnel do tempo. Me sulgou fortemente.

Aquele “MVG” já mudou algumas vezes e – para conjugar esse post com o anterior – a vida é bem assim: quem se atreve e se permite vira e se revira e, durante a vida, passa a ser um acúmulo das pessoas que já foi com a pessoa que é hoje. Acreditem: funciona assim para a maioria.

Parafraseando Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Depois dessa visita ao passado, respondi assim:

“Genteee!
Fiquei com vergonha alheia de mim mesmo! Ahahahahah.

Impressionante que não lembrava que havia assumido assim, como ‘bissexual’ para vocês (para ver o tamanho da mentira! rs).

É muito interessante ver o quanto mudei. E até o conceito de bissexualidade, hoje, é diferente para mim. Existem bissexuais sim; não é apenas uma indefinição.

Nossa… que viajada no tempo. Tinha esquecido desse ‘MVG’ que um dia teve essas questões e me fez lembrar como tinha insegurança para assumir para o povo da ESPM.

No olhar para trás, tiro do baú da memória as lembranças e percebo quantos ciclos de vida já vivi de lá até aqui, que me faz praticante uma outra pessoa hoje.

Na verdade, todos nós nos reinventamos de tempos em tempos. Não é verdade?

Confesso que desse tempo da carta não tenho as melhores lembranças. Claro que não me refiro a nossa amizade que até é case nas aulas do ‘Ma’ (rs). Mas era uma fase em que vivia uma forte repressão interna, uma confusão sobre a minha sexualidade que me deixava constantemente num estado aflito. Pobre ‘MVG’ dessa época, como sofria, rs.

E isso tudo nem é ‘mimimi’. Inevitável não receber essa cópia original e não fazer um balanço do que fui e do que sou.

Me afundava nesses discos e CD’s, vivia quase um autismo.

E isso não é um choramingo ou drama para levar um tapinha no ego, mas a constatação de que muitas, mas muitas águas rolaram e, se a gente tem uma missão aqui na Terra, é a de se reinventar.

Essa carta, acima de tudo, é uma referência do exercício da superação que todos nós passamos em alguma medida. Porque sim, meus dois amados amigos: estamos vivos!

Beijo grande,
MVG”

Feliz por receber tal carta nessa fase da vida.

1 comentário Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Uma das coisas mais belas da vida é’ saber que, por maiores que sejam as dificuldades a serem enfrentadas, e as derrotas sofridas, a vida sempre continua. Hoje eu tive uma boa conversa com a minha avô sobre as memórias de épocas melhores da vida, e cheguei a conclusão que o passado é’ bom para ser lembrado, mas não revivido. Nossa tarefa, enquanto estivermos vivos, e’ pegar o que deu certo no passado, ou até o que deu errado, e aprender com tudo isso. Também não sinto que sou, hoje, a mesma pessoa que eu era há apenas um ano e meio, quando vivia em outro país e sofria diariamente com a solidão. Creio quem em parte por ter me assumido e em parte por ter amadurecido devido a maiores responsabilidades do que antes, aprendi que, para as coisas darem certo, vamos ter que lutar por elas. Sabia que namorado não vai cair do céu, então oque eu fiz? Abri uma conta em um aplicativo, e consegui seduzir um cara e conseguir com que ele se interessasse por mim. E o mesmo se deu quanto a faculdade, e nos relacionamentos com pais e amigos.

    Então você pensou em Raul Seixas MVG. No meu caso, pensei em Kid Abelha enquanto li este post.

    “Vou errando enquanto o tempo… Me deixar!”

    Um abraço!

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