Relato gay – Tempo de despertar

Final de semana foi regado de amor, do exercício do amor fraterno. Ofereci conselhos distintos para os amigos Fernando Lima e Sammy, os quais me recorreram com seus casos também distintos. E assim, veio a necessidade de deixar esse post em homenagem a eles, meu amigos.

Cheguei numa fase da vida quando algumas questões estão mais resolvidas do que indefinidas:

– Se o assunto é relacionamento afetivo, namoro ou casamento, o acúmulo de experiência é de 11 anos. Como mamãe ressaltou, foram pessoas de contextos de vida bastante diferentes, de níveis de aceitação e assunção quanto a homossexualidade e perante pais e irmãos também diferentes. Famílias grandes, pequenas, filhos de sangue e até, um deles, adotado;

– Quando o assunto é a vida profissional, tenho uma empresa relativamente consolidada que levo há mais de 12 anos. Já tive uma escola de música e uma produtora de áudio, ambas em pleno funcionamento. Já me realizei como designer e hoje me realizo como empreendedor. Nesse quesito, 2014 está aí para que eu abra mais portas e mantenha aquelas que estão abertas e que me sustentam;

– Materialmente existe uma estabilidade. Longe de ser um milionário, tenho um padrão de vida e uma autonomia financeira daquelas que não me faltam nada. Claro que não posso esbanjar a todo momento mas, as vezes, posso me dar ao luxo de fazer algumas extravagâncias;

– O relacionamento com meu pai, que sempre foi uma questão a ser esclarecida ou resolvida, está sob a luz. São dois anos que prevalece a paz de espírito, arduamente batalhada, para que nos próximos 10 ou 15 anos eu possa curtir meu velho como sempre quis;

– O fato de ser gay, de precisar viver uma autoafirmação frequente e ter essa questão a frente para me estabilizar já não mais faz sentido. Não preciso hoje fazer nada a mais ou a menos que já faço para me sentir feliz assim, querido pelos outros ou aceito. O que vier de novo ou diferente posso colocar na categoria dos “lucros”. Mas não existe mais uma busca.

Estou bem próximo do lugar da vida que gostaria de estar. Pelo menos no ideal daquele jovem que já teve 20 e poucos anos.

Só que a vida não para aqui, com quase 37 anos. Tenho deixado a intuição me levar pelas correntes, não tão à deriva assim como achava, para poder transmitir ao outro esse sentido de que todos – sem exceção – podem chegar onde se quer. Essa é umas das mensagens principais.

Assim existe o Blog Minha Vida Gay, que começou sem propósito e que assumiu esse objetivo de trazer alguma luz, algum ponto de vista ou alguma referência de um gay que “deu certo”. Um gay que faz parte do grupo e que é aceito pela sociedade. De um gay que não precisa conviver exclusivamente com outros gays para se sentir incluído ou viver armado porque em algum nível social (família, amigos, igreja ou trabalho) pode ser ofendido ou mal tratado. Ser gay 360 graus é uma vitória e leva-se tempo, quando se quer ser pleno.

Desejo, do fundo do meu coração, que todos os gays possam ser plenos e esse é o propósito do MVG. Não porque quero contrariar os valores daqueles que pensam “estou bem assim e acho um absurdo ter que falar para todos que sou gay”, mas para quem é infeliz, ou triste ou deprimido por sua condição como homossexual e gostaria de ir além. Para mim é inconcebível a própria homossexualidade levar uma carga de infelicidade, de limitações ou tristeza. Ser gay não é subtrair ou excluir.

Assim, precisamos sim estar preparados e abertos ao enfrentamento, às críticas e talvez as ofensas pois esse mundo – e falo da Terra Brasil – não está preparado (ou evoluído) suficientemente para aceitar aquilo que foge das doutrinas, das instituições ou o que é normativo.

As doutrinas e as instituições estão cheio de falhas e a pior delas é quando se constituem sob o alicerce do poder de poucos perante a humildade de muitos. Longe de mim incitar o anarquismo ou o socialismo marxista (que a bem da verdade são utópicos). Mas quero incitar sim a conscientização individual de que tudo que é construído pelos homens é falho e pode ser irradiador de preconceito, miopia e desigualdade.

Tudo que é instituído pelo homem está sujeito ao questionamento e a indagação. A ser rompido, desconstruído e reconstruído. Estamos sim formando cada vez mais uma identidade, que não da heterossexualidade, na sociedade. Não há skinhead, religioso ou machão de plantão (que usa da força ou do discurso) que possa fazer mudar esse fluxo.

Acima dos rótulos sexuais – pode parecer piegas – existem necessidades humanas e, quando aceitamos assim, somos todos quase iguais. O amor que aproxima, que cria laços e inebria é uma necessidade geral. Precisamos de acolhimento, precisamos de amigos, precisamos da família ou de camaradas que possuam ideais semelhantes as nossas. O ser humano se agrupou em sociedade por necessidades básica e vital.

O Sammy hoje, no meu papel de cupido (rs), teve seu primeiro encontro regado de paixão, vontade e reciprocidade. A possibilidade do primeiro namoro está cada vez mais concreta. Era seu sonho.

O Fernando Lima, ontem, pôde – de repente – enxergar que algumas pessoas de seu convívio diário (de sua normatividade) estão mais receptivas a sua condição de homossexual do que ele mesmo imagina.

Já falaram, outrora, para estudar psicologia e atuar como tal. Mas, como bem disse a minha própria psicóloga, construir essa carreira seria me colocar dentro da classe desses profissionais, da instituição, e isso tiraria totalmente a minha espontaneidade. Outros já falaram para seguir algum centro espírita e exercer a função de conselheiro. Mas teria que lidar com uma doutrina.

Assim, aqui e lá fora, prefiro ser simplesmente o “MVG”, de espírito livre, como sugeriu meu ex-namorado.

6 comentários Adicione o seu

  1. Wong Foo disse:

    Estou gostando muito do blog, porém as vezes parece que você está continuamente se auto-afirmando, talvez seja só impressão minha.

    1. minhavidagay disse:

      Talvez seja um momento mais autoafirmativo mesmo…

      Mas nesse caso foi para contextualizar. Quando se atinge muitos dos objetivos e realiza seus sonhos, o que vem pela frente?

      O que poderia ser meramente autoafirmativo é contexto para justificar a existência do blog, minha atual situação de vida e quais são meus anseios mais imediatos.

      Tenho mais escrito sobre mim hoje, como num diário aberto, do que sobre temas gerais do universo homossexual.

      Talvez mantenha esse ritmo por um tempo.

      Um abraço,
      MVG

      1. Wong Foo disse:

        Sim, descobri o blog graças a temática do universo lgbt, porém entendo que seja normal desfocar da mesma com o passar do tempo.

        Aprecio muito a forma como o blog escrito, e seu ponto de vista com os anos. Obrigado por compartilhar :)

  2. lebeadle disse:

    Sentir a sua estabilidade em um momento tão difícil me dá esperanças. Sendo apenas quatro anos mais novo e tão ainda distante dessa maturidade me angustia. Gostaria de ser menos reprimido e mais seguro. Sobre essa coisa de namorado, é estranho,quero escrever algum dia pra o e-mail que você disponibiliza, uma história apenas que durou um ano e já faz quase uma década…vou criar coragem pra isso, breve.

    1. minhavidagay disse:

      Sinta-se a vontade Lebeadle. E sugiro até você proveitar esse meu momento que estou tão naturalmente aberto as demandas das pessoas.

      Um abraço,
      MVG

  3. Gustavo disse:

    Caramba! Que texto bacana cara! Putz… que sensação boa ler algo assim!
    Obrigado!

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