Relato gay – Conversas entre amigos

Como relato num dos posts anteriores, no sábado estive com Fernando Lima. Vez ou outra extendo a relação que se estabelece no Minha Vida Gay para fora e, de certa forma, assim se concebeu esse encontro.

Claro que o propósito, pela informalidade, não foi apenas esse. Mas há um tempo que queria sentar para uma conversa somente eu e ele.

Fernando Lima, para recapitular, é um pseudônimo. Com 45 anos hoje, filho único, entregue à religião cristã desde os 14, por volta dos 20 anos viveu as “tensões hormonais” que o colocariam de frente a sua realidade homossexual, mesmo sabendo de sua atração desde os 8. Reprimiu e buscou seus meios para encontrar um equilíbrio na religião. Mas o tempo passou e o alicerce cristão parece não ser mais suficiente para apaziguar.

Teve contato com o Blog há quase 2 anos atrás, o que formalizou nosso encontro. Não é assumido para ninguém de seu círculo de relacionamentos.

No sábado pudemos passar boas horas em conversas intimistas. E foi quando, pescando uma informação aqui e ali, intui que suas “muralhas” poderiam ser maiores do que a realidade. Digo realidade, aquela que há anos – dentro de casa morando com seus pais, exercendo fortemente uma função religiosa (quase virou padre) e a faculdade que leciona – formam seu universo normativo.

Na conversa, narrou um episódio bastante interessante e que não se deu conta: em passeio ao shopping com sua mãe, de 82 anos, se depararam com dois homens, um mais velho e um mais novo levando um bebê no carrinho. De súbito sua mãe questiona – “será que eles são um casal?”.

Diante tantos assuntos que sua mãe poderia levantar, questionei o por quê dela puxar exatamente aquele assunto. A princípio ele achou natural. Mas foi aí que desenvolvemos a conversa e mostrei a ele que sua mãe estava trazendo, sutilmente, o tema da homossexualidade para a conversa. Assunto bastante específico e condizente ao seu momento de, também sutilmente, levar um “movimento pró-gray” em seus discursos para dentro de casa, para pais já envelhecidos. Será que sua mãe, na situação do passeio no shopping, não estava retribuindo ou jogando aquele velho e conhecido “verde” para trazer o assunto? A mim sim e poderia ser uma porta para um primeiro diálogo, mesmo que breve.

Outra situação curiosa foi com um de seus amigos de trabalho. Senhor que na sua juventude, aparentemente, experimentava diversas “modalidades sexuais mais criativas” incluindo o sadomasoquismo, certa vez vem em tom de brincadeira e o questiona: “Você não é urso não, né?”.

Primeiro que “urso” – que caracteriza um grupo conhecido de gays, “cultuadores do excesso de pêlos” – não faz parte do vocabulário ou conhecimento da maioria dos heterossexuais, principalmente para um senhor para lá dos 60 anos. A mim foi uma indireta bem dada que representaria assim: “Fernando, já te saquei faz tempo. Estou abrindo essa questão porque a mim não há impedimentos sobre sexualidade. Só espero que você não seja urso! (ironia)”.

Suposições aqui e ali, Fernando assumiu um perfil muito “rígido e ríspido” quando as pessoas se aproximam para trazer assuntos mais íntimos. Por um autopreconceito (e até punição) deixa de frequentar festas e confraternizações entre os colegas de trabalho, gente que o percebe assim “frio e sozinho”, desde as épocas de faculdade.

Sugeri a ele que começasse a enxergar aquelas pessoas todas, de seu convívio diário, por outro ponto de vista. Que mentalizasse aqueles que – conhecidos pela postura e conduta – fossem pessoas de confiança para compartilhar sua realidade.

Daí ele me questiona: “Você acha que isso é importante?”.

Respondi: “Nos apresentar plenos para pessoas que temos confiança, respeitamos e consideramos amigos muda a nossa vida”.

Posso estar enganado, mas em determinado momento vi seus olhos marejarem. E isso não é um mero detalhe. É como se diz: “tirar leite de pedra” (rs). Exercemos naquelas horas uma função extremamente espiritualizada (que até prefiro que ele confirme para não parecer um exercício autoafirmativo).

7 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Rapaz, sei o que é isso. A dificuldade de se colocar como homossexual quando o mundo em que você foi criado, a própria forma de ver a vida não tem nada a ver com essa condição. Entendo o que vive esse homem, vivo isso também na pele. Como superar-se, não sei. Terapia tem sido há oito anos e tanto uma saída…Seus conselhos parecem com o do meu analista, mas são conselhos (será que ele ouviu, será que ele se ouve?). Como você bem demostrou, as oportunidades passam na frente dele e ele as deixa passar. Acredito que pessoas como nós (eu,ele) seja a categoria de gay que mais sofre, a minoria da minoria, pois acima de tudo você tem que lutar contra uma força estranha dentro de você que quer lhe destruir (como se já não bastasse o mundo a enfrentar).

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lebeadle,
      tudo bem?

      Não vejo como uma destruição, mas um excesso de privação. Poderia fazer uma analogia com o autoflagelo devido a um senso de moral extremamente alto. Mais senso moral do que propriamente uma não identificação com o meio. Mais conflito com o que está dentro, do que realmente parece o que está lá fora.

      Não diria que vocês são os que mais sofrem pois, ao mesmo tempo, para resistir a essa situação é necessário ser também muito, mas muito forte. O que me faz crer que “o pior problema sempre é o próprio problema”.

      Um abraço,
      MVG

    2. Fernando Lima disse:

      Oi Lebeadle,

      Bom saber que não estou sozinho no mundo! rs
      Foi, de fato, muito difícil me aceitar, o que só aconteceu depois dos 30…
      Nunca fiz terapia, mas alcancei um equilíbrio, ainda que precário, por meio da religião. Contudo, como o MVG mencionou, ela não está mais sendo suficiente. Estou cansado, muito cansado.
      Cansado da fachada, das besteiras que tenho de ouvir com cara de paisagem, dos colegas homofóbicos, dos evangélicos que nos perseguem, e por ai vai.
      Você pergunta se ouvi e se me ouço.rs
      Sim, ouvi. Sim, me ouço, desde pequeno, senão teria ficado maluco, mas sempre arrumei desculpas para não seguir o que sentia, sinto e continuarei sentindo…
      Entendo a sua visão, mas não acho que uma força interna queira nos destruir, talvez haja homofobia internalizada, em variados níveis, que nem sempre conseguimos discernir.
      Concordo com o MVG, quando fala que o exagero no senso moral atrapalha e pode levar a um excesso de privações. Creio que isso nem sempre é consciente, nos enganamos, achando que é autoproteção…, mas na realidade acabamos nos privando de experiências que poderiam ser muito enriquecedoras e trariam significativo crescimento pessoal.

      Abraços,

      Fernando

  2. Fernando Lima disse:

    Querido amigo MVG,

    Nossa longa conversa foi realmente ótima!
    Você sintetizou muito bem a troca de ideias, que foi bastante espiritualizada mesmo.
    Estou refletindo sobre as suas observações e conselhos.
    Vamos ver o que consigo mudar na minha rotina petrificada, rsrs
    Fico muito honrado com a sua amizade!

    Abraços,

    Fernando

    1. minhavidagay disse:

      Na torcida para amolecer a pedra, amigo Fernando! :)

      Forte abraço,
      MVG

  3. FM disse:

    Entendo perfeitamente o que o Fernando passa. Essa luta interna é a pior, a que mais machuca, justamente pq o medo, o preconceito, a insegurança vem de você e não dos outros. Eu resolvi dar um basta nisso, assumi pra alguns amigos, resolvi tentar me soltar mais, mas o principal eu não consegui: me desprender de mim mesmo. É mais difícil do que eu imaginava. Não consigo me identificar com quem eu sou, é uma espécie de bloqueio. Só espero que consigamos encontrar a felicidade e vencer as lutas diárias para vivermos a nossa realidade. Abraços.

  4. junior38 disse:

    Oi, me vejo nessas histórias!
    E, de fato, meu maior inimigo sou eu mesmo. Abandonei a religião, não a Deus. Em parte a deus, sim. A religião (doutrina) não aceita o homossexualismo. Como fazer parte desse grupo, então? Como o Fernando, também já fui muito atuante. Mas, dei um basta. ninguém entendeu. Mas, pra quê entrar nessa briga, se não vão mesmo entender? Se o véu da doutrina cobre qualquer possibilidade de abertura de horizontes?
    Também já fiz terapia, mas confesso que tenho preguiça de falar dos mesmo assuntos. Também comecei um blog (li num outro post, alguém falando sobre blog-terapia ou algo do tipo…., rs!) mas, se esgotaram os assuntos. não quero ficar me lamuriando. Só não consigo entender, por que não posso ser somente um homem que gosta de outro homem?
    Se fosse simples assim….

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