As instituições – Família


Imaginem que eu, nesses 13 anos de vivência como gay, 11 foram destinados a “relacionamentos sérios”. Coloco entre aspas pois está implícito nesse conceito alguns valores de comum acordo, tais como a fidelidade e o respeito pelo outro, o compromisso com o namorado e, no progredir dos anos, o invariável contato com (1) amigos do namorado e (2) família. Isso é o regular, almejado por muitos (ou alguns) que ainda não viveram essas experiências.

O conceito “família” está inserido numa normatividade, subentendido naquele valor de que “família é tudo no mundo”, “porto seguro”, “refúgio para a paz”. E concordo que a minha família – basicamente meus pais e meu irmão – tem essa representatividade escrita, marcada e geneticamente inegável a mim.

Natural também – depois de mais de uma década me relacionando com as famílias de meus ex-namorados e vivendo as sensações do meu último namoro que acabou recentemente – colocar em pensamento os valores e a representatividade que a família (instituição) tem, como numa necessidade de responder “o que aconteceu que não deu certo?”.

Assim, penso que – antes de mais nada – família e homossexualidade são conceitos distintos que podem (ou não) ter intersecções, de acordo com desejos, planos e escolhas dos indivíduos que formam o relacionamento.

Ainda nessa introdução, acho importante descrever brevemente o contexto das famílias de meus ex-namorados nos períodos distintos nos quais eu os namorei:

2001 a 2002 – Um ano e 11 meses de namoro. No contexto, meu ex-namorado assumiu para seus pais durante o namoro. O pai lidou com mais naturalidade, a mãe entrou em crise e deu uma gelada com o filho. Não cheguei a conhecê-los pessoalmente na época. Mas, como meu primeiro namorado é amigo até hoje – fato é que vamos tomar uma “cerveja de final de ano” na semana que vem – conheci seus pais depois, incluindo irmã, irmão e cunhados, sogros do irmão e assim por diante. Foram 10 ou mais encontros e festinhas de família que estive presente como amigo-ex.

2003 a 2004 – Um ano e meio de namoro. Filho adotado, meu ex também expôs a sua mãe (divorciada) sua realidade homossexual enquanto namorávamos. Rolou uma grande crise e aquele “amigo” (eu) que frequentava sua casa não poderia mais entrar. Bem próximo ao fim do namoro havia recebido uma carta da mãe em tom de acusação – “você levou meu filho para o mau caminho e está indo contra a vontade de Deus”. Fiz que fiz que consegui ter uma conversa com ela. Foram horas de papos, choros daqui e dali, comida queimando no fogão (rs), mas a mãe do meu ex não arredou o pé! Anos depois, novamente, fiz uma visita para almoçar e – para a minha surpresa – a mãe tinha preparado todos os pratos que eu mais gostava (rs). Em retribuição, comprei o filme “Sonhos” (de Akira Kurosawa) que ela tinha achado incrível, na época em que eu era “amigo” e podia frequentar a sua casa (rs).

2004 a 2007 – Dois anos e 11 meses de casamento. Meu “ex-marido” tinha pais que o aceitavam antes mesmo de o conhecer. Seu pai não lidava com tanta tranquilidade. Sua mãe – pelo contrário – erguia a bandeira por nós de modo até mesmo exagerado, cansativo, grudento! Curioso que o pai se deu bem comigo e nunca, nunca mesmo, percebi nenhuma atitude de contrariedade. A família inteira sabia, cheguei a levar a minha mãe para conhecer minha sogra e foi o primeiro contato com um relacionamento normativo.

2007 a 2008 – Um ano e quatro meses de namoro. Mais um ex que assumiria para a mãe e para a irmã enquanto namorava comigo. Tinha uma insegurança de assumir para o pai e para o irmão e soube recentemente que fez somente esse ano (2013). Criei bastante afeição pelo pai e vice-versa, a ponto de escrever seu nome em “katakaná” (uma das grafias para se escrever o japonês) e ele tatuou no braço (rs). Microempresário como eu, o orientava indiretamente (por intermédio do meu ex) a organizar as finanças que – diretamente – influenciou num tipo de resgate da harmonia que estava faltando na casa.

2010 a 2013 – 3 anos e 9 meses de namoro. Foi com meu ex-recente que tive o relacionamento mais duradouro e normativo possível. Também se assumiu para a “pequena família” (uns 60 integrantes, contando pais, irmã, tios, primos e agregados) enquanto namorávamos. O “temor dos primos” era quando determinado tio – grosseiro, beberrão e “mal educado” – me conhecesse. Que nada… é um dos tios que mais me divertia. Confesso ter sido um processo “cármico” me incluir na família. Eram tantos! (São).

A história foi bastante bonita. Viramos um tipo de “padrão de relacionamento” não somente para a família como para os amigos. Recentemente soube do meu ex que duas de suas amigas ficaram estarrecidas com nosso término. Uma delas caiu ao prantos, a ponto de meu ex brincar: “a ideia era pra você me consolar. Não para eu ter que consolar você!”. A outra, num encontro que teve e que eu estaria presente se estivesse namorando, ficou embasbacada. Questionou a festa inteira se aquilo realmente era real. Realmente conseguimos ser um “casal padrão”. E detalhe: gays.

Depois desse acúmulo de experiências, convivendo com pais, irmãos e amigos, tenho me questionado sobre a normatividade envolta na instituição familiar. Confesso que por anos, muito me nutria e me satisfazia ser aceito e ter por perto os pais, irmãos e amigos dos meus “ex-relacionamentos-sérios”, tendo como ponto alto, louvável e feliz o meu último namoro. Foram festas e mais festas, todo mundo junto e misturado.

Tomei a consciência também, bem recentemente e por puro exercício de psicologia, que projetava um “encontro com meu pai” até bem pouco tempo atrás nos pais do meus ex-namorados (para quem não sabe e está passando por aqui pela primeira vez, vivi em crises absolutas anos a fio com meu pai, não porque propriamente eu era gay, mas porque nosso santo não se bicava, mesmo).

Faz apenas dois anos que encontrei meu pai nele mesmo. Quando se encontra a paz, no lugar certo, onde se deve emanar a paz, não faria mais sentido eu buscar esse sentimento fora de casa, não é mesmo?

Por essas e outras, venho me questionando sobre a instituição familiar. Até que ponto quero ter contato com a família de um futuro namorado? Até que ponto a representação desses entes influenciam positivamente e negativamente um relacionamento a dois (seja para gays ou heterossexuais)? Enquanto idealizado, do gay que precisa ser acolhido por pais e irmãos do namorado – numa prática autoafirmativa até natural para quem é gay e para aqueles que se sentem bem e “descolados” no exercício de simpatizantes – a família tem uma representatividade importante e tem um valor quase que incontestável. Mas e depois, quando já se viveu esse contato familiar de maneiras diferentes? Quando se sentiu o bem e o mal da influência de pais sob o namoro, porque pais também podem querer “meter o bedelho” onde não é chamado? Quando é lidar com essa normatividade que, em boa medida, te coloca num modelo, numa padrão que nem sempre é o seu?

Pensamentos abstratos para quem não viveu. E para quem viveu, como eu, digo que a instituição familiar, o modelo “família margarina” (da propaganda) é sim questionável. Como qualquer instituição, tem a necessidade de cristalizar valores e tradições, num contexto social – que sabemos – é cada vez mais orgânico, cada vez mais desapegado das grandes instituições. Aliás, grandes instituições como igreja, governo e família estão em conteste faz um tempo, não é?

Antes de abdicarmos de nosso último namoro (eu e meu ex), eu trazia as vezes para a minha consciência essas questões a respeito do núcleo familiar. E, a fundo, depois de um tempo, quando não se precisa mais da autoafirmação para se sentir querido (o gay incluso na família do namorado e vice-versa), é a outra pessoa, o próprio namorado e a relação em si – a dois – o sentido maior, mais íntegro, sincero e autêntico do próprio relacionamento. No mais, arrisco a dizer hoje que é tudo alegoria.

O texto aqui não é para repúdio. Mas para revisão… estou assumindo aqui, ou começando a entender que família mais atrapalha do que ajuda.

6 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Interessante essa nossa vida gay. Por nos sentirmos excluídos entramos numa verdadeira campanha pra conquistar corações e mentes, sermos queridos pelos outros…Você conquistou tudo isso e agora percebe que há algo além. Explica melhor o negócio da alegoria,não entendi. Gostei da ordem cronológica em que elencou os relacionamentos, estou escrevendo meu relato via e-mail e temia ser visto cometendo tais rigores mas agora vejo que posso.

    1. minhavidagay disse:

      Oi LeBeadle!

      A ordem cronológica e o rigor é para tornar o assunto mais didático e, não tem como negar, é uma leve fase de autoafirmação…

      Mas, sobre a alegoria, é exatamente o que deixei a entender: talvez família seja menos importante para a concepção e para a integridade de um relacionamento.

      Como gays, em certa medida, precisamos da aceitação geral para a própria afirmação do gay querido no contexto normativo e social (essa é a nossa busca quando começamos a vivência e pode ser nossa busca “eternamente” enquanto não nos resolvemos).

      O contexto família foi um idealizado, numa tentativa de vivenciar a normatividade e me sentir incluso.

      Mas depois que vivemos a prática e nos sentimos resolvidos com a aceitação do externo, o próprio externo perde o sentido e passamos a enxergar o contexto familiar sobre outro ponto de vista. Passamos a compreender desejos mais profundos e desprendidos da aceitação alheia.

      Isso refere-se a mudanças. Mudanças que estou passando, de uma aceitação cada vez maior d’eu comigo mesmo. E é muito particular. Não quer dizer que todos nós passaremos pelas mesmas fases que estou passando, entende?

      E o momento reflexivo não quer dizer que não vá entrar de novo num contexto normativo como já vivenciei. Mas a diferença agora é que estou trazendo a instituição familiar para um plano de consciência e de questionamento como jamais fiz antes. O que pode mudar meu “padrão” de busca.

      Veja se me fiz entender e obrigado por me ajudar a desenvolver a ideia! Me faz crescer!

      Um abraço,
      MVG

  2. Rodrigo disse:

    Muito interessante o post. Levantar os questionamentos a respeito de aceitação ( na vida do outro ) é normatividade. Lendo o seu post, fiquei me questionando como você conseguiu transpor as barreiras do termino do relacionamento e partir para outro. Estou em meio de um processo de termino, e não está sendo fácil.
    Quero agradecer pelo blog e por todas as postagens. Sucesso !

    Um abraço !

    1. minhavidagay disse:

      Oi Rodrigo,
      a melhor maneira de partir para outro é antes se encontrar sem o compromisso de outro relacionamento ou uma substituição (com outra pessoa) que nos impede de viver o luto de uma forma plena e digna.

      Veja se me fiz entender e quelquer coisa me pergunte.

      Um abraço,
      MVG

      1. Rodrigo disse:

        Oi, MVG

        Se fez entender sim. Quanto ao luto, existe um tempo ? É algo muito pessoal, relativo. Concorda ?

        Obrigado pela resposta.

        Abraços

      2. minhavidagay disse:

        Oi Rodrigo!

        Existe um tempo sim. E é bastante pessoal.
        Alguns levam meses. Outros, anos.

        Um abraço,
        MVG

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