Relato gay – Conversas entre amigos 2

Dando continuidade ao post anterior “Relato gay – Conversas entre amigos”, achei válido apresentar a minha própria vivência (de novo e atualizada) para trazer mais referências para os leitores, que assim como o Fernando Lima, teve as muralhas “por dentro”.

Comecei a me assumir em 2001 e entendo que “assumir” seja um processo. Não acontece de maneira imediata. Dos 13 anos para cá, muita coisa mudou, o que está bem resumido em claro no post “Relato gay – Tempo de despertar”.

Mas antes desse divisor de águas em minha vida, minha autoaceitação passou por sentimentos semelhantes ao do amigo Fernando. Sempre tive amigos heterossexuais e homens e só fui descobrir as nuances das amizades gays durante meu processo de aceitação. No contexto hetetonormativo, na época do ginásio (talvez com 15 ou 16 anos), cheguei a “zoar” (o que talvez fosse considerado bullying hoje) uma vez um amigo que – no ato – foi defendido por outro amigo. O motivo do “bullying” nem foi a homossexualidade, mas sim o excesso de espinhas na época (rs).

Anos depois, soube que ambos eram gays. O que maltratei virou colega de balada durante uma fase da minha vida. O que defendeu mora fora do país há alguns anos e nunca tive um contato mais próximo.

Depois, no ginásio, acabei formando grupo com aquela turma de meninos e meninas mais “desconectados” das vontades sexuais. Preservávamos uma certa ingenuidade, um estado pueril e, não sei em qual medida, acabei me aproximando desse perfil de jovens para dar mais leveza para o estigma da minha homossexualidade que – na época com 17 ou 18 anos – ainda não era muito claro a mim (ou pelo menos, era um tanto reprimido).

Na faculdade “o bicho” pegou. Foi uma época que todos estavam liberando as vontades hormonais e havia um certo tipo de cobrança para que nos autoafirmassem sexualmente. Foi aí que diante daquele fluxo intenso de exteriorização eu me voltei para dentro: assumi um perfil nipo-hipponga-assexuado. Minha “religião” foram os filmes, as músicas, textos, poesias, meu piano, maconha e prosas filosóficas com os amigos heterossexuais que conflitavam também com aquele tumulto hormonal e geral (não são todos os héteros que seguem os padrões normativos do “macho”). ESPM, apesar de faculdade de comunicação, é conservadora. Não me recordo de nenhum colega gay assumindo durante aquele período. Somente depois, em encontros nos “bares da vida”.

Dentro de mim havia um gosto amargo. Uma inquietação e um conflito comigo mesmo. Não queria aceitar aquela possibilidade de ser gay e temia o repúdio generalizado. A gente tem pouquíssimas referências de sucesso. E, na minha adolescência, para tornar o cenário mais tenso, Cazuza, Freddie Mercury e Renato Russo eram gays (ou bissexuais) de visibilidade que estavam morrendo pela AIDS. AIDS, naquela época, era o castigo divino para quem seguisse pela homossexualidade.

Os professores gays da ESPM eram as “bichinhas”. Alvo das piadas em alguns momentos e únicas referências a mim que não condiziam com a minha natureza, não havia identificação. Me sentia um fodido, forçadamente assexuado e que – para mascarar ainda mais minha realidade – assumia uma condição platônica por uma menina da faculdade.

Reli recentemente a carta de uma das amigas, como relatado no post “Parte do que somos hoje não mais será amanhã”. Me coloquei a ela e a outro amigo como “bissexual”. Pura mentira. Mentira vinda da paúra que tinha em me assumir para os amigos da faculdade! Mas, quando me assumi, a reciprocidade foi bem diferente do que imaginava, o que revelou a minha “muralha interna” ser mais ampla do que a realidade.

Comecei a assunção inicialmente para mim. Sim, meus amigos, de nada adianta pais, irmãos e amigos trazerem a aceitação se não somos felizes com a gente mesmo. De nada adianta a aceitação externa se colocamos o nome “homossexualidade” ou “gay” em patamares de dificuldades, barreiras, resignação extrema ou contradições. “Ser gay” pode significar para alguns uma imperfeição, uma “doença” como vitiligo ou síndrome de down. Para alguns homossexuais, “ser gay” é como um defeito que nos colocaria abaixo das capacidades de uma maioria.

Em algum momento da minha vida eu chegava a agir como se fosse tudo isso mesmo. Lembrei que era assim quando reli a carta da minha amiga e, da minha memória, veio parte daquele sentimento do ser estranho e indefinido que eu era. Mas foi uma lembrança passageira pois, como os leitores mais assíduos podem ver, aquele “MVG” foi num período de tempo, foi uma fase, quase que numa outra dimensão.

Vivo alguns anos a superação, a mudança. Em certa medida, me sinto capaz de transmitir por aqui todos os ônus e ganhos estabelecidos durante minhas vivências. Porque mesmo depois de “aceito a mim” vieram também outras dificuldades. Porque isso, de vir dificuldades pela frente, faz parte da vida no geral e não da partícula exclusiva da homossexualidade.

O post anterior foi muito produtivo, pelos comentários e por e-mails recebidos. Muitos homens, gays, vivem o mesmo período – com idades diferentes – no qual o Fernando Lima tem passado. São pessoas de 18, 20, 30 ou 40 anos que têm aquela (estranha) sensação que o tempo está passando (ou já passou) e até agora nada se concretizou, no sentido de fragmentar as muralhas. As vezes, perde-se até a esperança.

Tenho que revelar a vocês que isso é uma grande bobagem, isso de perder a esperança. Sinto muito, mas é uma grande bobagem mesmo. O tempo tem uma forte influência na vida de todos nós. Na grande maioria das vezes funciona como uma bálsamo milagroso, como para curar a ferida de relacionamentos partidos. Em outras situações, nos parece um objeto rígido, preso as nossas pernas que nos dificultam o caminhar. Mas o fato é que não existe um tempo certo para o despertar de cada um, seja para a própria homossexualidade ou para o despertar de outras consciências que nós – seres humanos – estamos sempre sujeitos a passar.

Não existe o “estou velho” para isso ou para aquilo e, normalmente, sabemos disso quando acalentamos a tristeza alheia, de um amigo querido, ou quando assistimos aqueles documentários de senhores na maior idade vivendo a plena jovialidade em suas motos estrada a fora.

Seja com 18 anos ou 40, pensamos no “tempo perdido” até o momento que nos sujeitamos à condição que nos suprime. O efeito negativo do tempo é proporcional ao tamanho de nossas muralhas. Quando vencidas, acreditem, o sentimento de autonomia muda a vida.

Minha autonomia começou aos 23 anos. Do ponto de vista do que a sociedade nos cobra fui tardio. Do ponto de vista das raízes que nos fincam com o tempo (das raízes que acreditava existir), mesma coisa. Causa até espanto dos jovens que com 20, desde os 14 já brincam de homosexo!

Mas e daí? E daí que foda-se. E daí que temos que dar risadas com tudo isso. Trazer leveza, leveza a si mesmo. Leveza e um pouco mais de abertura com as pessoas que se aproximam da gente para tentar uma intimidade. Compartilhar, expandir. Ser menos crítico ou moralista de si mesmo. Meu pai está com 72 anos e faz apenas dois que chegamos numa serenidade, amizade e respeito no relacionamento que nos permite o puro ato de se relacionar. Vou chorar os 40 anos que se passaram ou vou usar dos 10 ou 15 que ainda nos restam para aproveita-lo?

A mente nos cria armadilhas terríveis, abismos. Mas também nos oferece a luz, suavidade.

Como diriam os seguidores de Buda (que não é o meu caso, mas me apropriei dessa ideia): “Posso apontar para as portas. Mas atravessá-las é tarefa de cada um”.

Não faça de sua homossexualidade uma justificativa para sua reclusão. Não culpe o tempo pelas coisas que deixou de fazer.

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Uma é a vida em que se vive a norma sem perceber que se está no exercício da mesma, a vida do hetero em geral. Outra é a vida do desviante, do transviado, daquele que sai do caminho, que está à margem. Onde, a partir do instante em que se reconhece como gay tem necessidade de fundar os princípios e as normas que partirão deles. Uma é a porta do se jogar outra a do medo de se perder. Vejo a vida gay como uma tentativa de fundar princípios a partir de um prisma que não é o da maioria. Começo a entender que esses princípios não são algo de caráter aristótélico, criacionista, como se nos investíssemos no papel de um deus que fundasse uma realidade e a mantivesse de per si, algo de caráter religioso/institucional mas que pode ser algo mais leve, bem humorado e esperançoso.
    Importante essa observação acerca de que nem todo hetero faz o tipo machão. A gente é que às vezes se prende a essa coisa de querer ser o tipo machão. Tem os heteros legais, como aqueles que nossos amigos que a gente até confunde com gays de tão legais que eles são.
    É antes não tinha esse negócio de bullyng, esse nome agora pegou. E não tinha aids era AIDS e era um terror total, o povo tinha medo de pegar com beijo, aperto de mão, talheres, sanitário. Tive um primo que morreu em 1987 aos 50 anos, acho que uma das primeiras vítimas da Paraíba. O cara era uma estrela, procurador federal, falava sete idiomas. Deve ter pego com um algum garoto de programa da zona portuária. Essa história é maldita na família e só sei porque minha alma de historiador e minha diplomacia me ajudaram a tirar isso do obscuro.

  2. Caio disse:

    Sendo curto e grosso: viva sua vida do momento que está em diante. O passado serve apenas para demonstrar o que você fez de modo a fazê-lo(a) evoluir como um todo num processo contínuo :)
    bjo.

  3. Gustavo disse:

    Sensacional o texto cara!

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