Vida gay – Amigo de ex-namorado


Fica então socialmente convencionado que “ex bom é ex morto”. Não há obrigatoriedade nenhuma mesmo de manter contato com ex-namorados, embora, quem convencione assim raramente explica bem o por quê de ser assim. Normalmente, resume-se a conversa no sentimento de repulsa e não se toca muito no assunto, numa política polida entre amigos de não trazer à tona os maus sentimentos. “A ideia é esquecer”.

O negócio de achar os por quês das coisas é coisa de filósofo. E para quem ainda não precebeu, o MVG é cheio disso, mesmo que seja informal, de botequim (rs).

Será que todos os grandes e belos relacionamentos terminam em crises, desentendimentos, rancores e repulsa? Será que teremos que projetar e autoafirmar sempre os problemas, os males e as dificuldades na outra pessoa quando um relacionamento se finda? Esse é o processo geral, normativo. Terminamos e aquele indivíduo que foi o motivo de alegria, prazer e companheirismo torna-se o infeliz, o esquisito, o ser repugnante. Como se nosso ego precisasse passar longe de qualquer responsabilidade da coisa não ter dado certo. Como se precisássemos “sair por cima”. Esquecemos, nessas horas, que relacionamento se contrói em par mas se destrói em par também. Difícil assumir a mea culpa, não é verdade?

Dos meus 5 relacionamentos que posso colocar no pacote dos “sérios”, foi apenas com um deles que um laço post mortem não se estabeleceu e hoje, se não aconteceu assim, reconheço que foi mais porque eu me ausentei, neguei a proximidade e me afastei – por puro exercício do orgulho ferido – do que outra coisa. Mas não vou ficar aqui chorando as pitangas, como diria a mamãe. Águas passadas não movem moinhos e, pelo menos uma vez, tive que cumprir a máxima do ex morto.

Meu ex-atual (e não tive termo melhor para me fazer entender aqui) é uma pessoa muito querida, assim como sua irmã, seu cunhado e seus pais. Como relato nos posts espalhados por aí, findamos a relação sem aquele motivo categórico, que caracteriza um término: traição, excesso de ciúmes, brigas intensas e etc.

Certo. Então se é assim, um final tranquilo e pacífico, como dar forma para o tal do “ex morto”? Ficaria até uma forçação de barra querer enfiar na normatividade! De onde vou buscar energia para fazer assim, se não há orgulho ou ressentimento? Poderia sim, como a maioria faria, puxar da memória uma crise acontecida, um desentendimento do passado ou algo do tipo para dar razão para um afastamento “cruel”. Poderia stalkear meu ex nas redes sociais e num post ou numa foto lançados por ele, buscar argumentos ou justificativas para criar teorias fantásticas para alimentar meu monstro. Muita gente faz assim. Muita gente se provoca assim.

Mas não comigo. Tem coisas que não precisam se repetir mais de uma vez. Tenho direito de não cair no modelo padronizado que me coloca numa caixinha comportamental.

Tenho falado com ele e, diferentemente de tudo que já vivi, tenho sido uma das pessoas que tem o incentivado a se libertar, a cair na vida, curtir outras pessoas e buscar outras referências de vida. A priori, a grande frustração quando se termina um namoro é notar por aí (e com redes sociais é praticamente impossível não saber)  as situações e as pessoas que nos substituem depois que o namoro termina. Essa é a brecha para se criar os monstros, os abismos, a raiva e o “ódio eterno” que nos faz querer o ex-morto e enterrado.

Daí eu decidi não ser assim dessa vez.

Pode-se supor o óbvio: “Ah, então você não gostava mais dele mesmo”. Então, quer dizer que nesse tipo de situação, para afirmar meu gostar eu teria que ficar arrancando os cabelos ou acumular frustração ou raiva? Sinto muito, mas essa teoria é furada. Eu quero preservar o carinho, o respeito e a consciência de que, se não deu entre a gente, temos a liberdade para cair no mundo para nos tornar maiores.

Compreensão: fui seu primeiro namorado e começamos o namoro quando ele estava desvendando sua homossexualidade. Passaram-se 4 anos e, o “rodado” aqui sou eu. Sempre entreguei, na base da amizade na relação, os conselhos para que meu ex superasse seus medos, sua baixa auto estima. Conquistamos juntos sendo assim.

Quando um relacionamento se finda, o chão abre para os dois. Nem mais para um, nem mais para o outro, independentemente da maneira ou forma que cada um passa a lidar. O duro é reconhecer isso pois, quando terminamos, achamos normalmente que só em nosso chão abriu o buraco e se vemos o outro aparentemente feliz, pronto. O abismo fica mais fundo ou vamos lá com uma pá, tentar abrir o abismo do outro!

É a primeiríssima vez que meu ex sentiu a força desse “abismo”. Não acho que ele não tenha que cair porque senão não se vive o término, o luto, a perda. Assim, não quero protegê-lo das dores e da estranheza que fica depois que se acaba. Mas sim, tenho dado um empurrãozinho porque – bem ou mal – já passei por tudo isso. Bem ou mal, eu me aproximando como o amigo que o aconselha a se jogar, passo a sacramentar o fim (ou a própria amizade que fica).

Posso dizer que a relação com meu ex-namorado foi aproveitada até o limite, até onde realmente era possível chegar. Eu, pelo menos, fico com a sensação de ter ido até o fim. Esforço meu e esforço dele. Superamos nossos medos, nossas barreiras e atingimos um nível de compreensão de onde a relação chegou de maneira amadurecida. Quando uma relação se abre assim – sem a projeção de nossas inseguranças no outro – raiva, rancor e ressentimento se subtraem da equação.

Cresci demais com esse namoro. Cresci assim. O que não quer dizer que em outras experiências volte a ser tudo ao contrário. Mas, a príncipio, não penso em retroagir.

5 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    É muito bom mesmo não guardar mágoas ou ressentimentos e pior ainda, ódio de alguém, pois tudo isso fará mal para nós mesmos, nos sufocando. E não podemos nos sentir livres desses sentimentos apenas da boca para fora, mas sim, como dizem no popular, de “coração aberto”. Que bom que contigo é assim. Ainda que em alguns casos é bem mais difícil, pois a quebra da relação pode ter se dado por motivos terríveis. O que na minha opinião da mesma forma se faz necessário buscar alguma forma de esquecer e não deixar que isso abale nosso presente e futuro.

  2. MVG, muito legal o post. Eu confesso que sempre que acabo o namoro fico com ressalvas de ex e normalmente acabo me afastando um pouco, pelo menos em princípio. Mas acho que por um motivo diferente de rancor, ódio ou personificação de ex em monstro :p Se me permite, gostaria de tentar explicar um pouco :)

    Bem, pelo menos comigo, sempre que acabei um namoro, esse término nunca se revelou igual para as duas pessoas. Sempre uma saía mais magoada do que a outra, magoada no sentido de, pelo menos naquele momento, não desejar o fim do relacionamento. E, como já estive várias vezes nas duas posições (de quem termina e de quem é deixada), comecei a perceber algumas coisas.

    Primeiro, quando eu fui a pessoa que não desejou o fim, a outra tendeu normalmente a manter uma amizade, por achar que iria doer menos em mim ou qualquer outro motivo. E, pra mim que ainda estava ligada àquela pessoa, também achei aquela situação perfeita, afinal, algumas vezes migalhas de amor é o que interessa :p Só que convenhamos, para quem termina o namoro, é bem mais cômodo ter a outra pessoa por perto, se afastando aos poucos. Depois de um bom tempo foi que percebi que isso me fazia mal, que não era nada saudável.

    Já num segundo momento, quando eu dei o ponto final, percebi que a pessoa tentou manter a amizade (como eu tb quis no outro) e vi também, que era pelo motivo de não conseguir se libertar ainda. Apesar de para mim, a situação me parecer muito cômoda – como percebi que era para a pessoa na primeira posição – vi que seria egoísmo da minha parte alimentar a amizade, sabendo que no fundo, a pessoa alimentava outra coisa e só se magoava. Motivo esse pelo qual me afastei, mesmo que eu sentisse muito em ter que fazer isso.

    Então é isso, depois de estar nos dois lugares, percebi que, pelo menos pra mim, emendar amizade com fim do namoro não dava muito certo e, desde então, sempre me afasto mesmo, pelo menos por um bom tempo… (Nossa não é um comentário, é um tratado :p)

  3. lebeadle disse:

    Muita força aos dois nesta travessia. Sei o quanto é doloroso esse primeiro instante (para o ex é a primeira separação!), principalmente quando havia entre ambos uma afinidade e compreensão espiritual. A força da espiritualidade é importante para ambos neste momento. Recolhimento, reflexão, trabalho e amigos são importantes nessa hora. Acho que se houve um comum acordo pra terminar então é possível ficar amigo, só não sei como se dá na prática, pois pra mim não houve acordo. Já vi um caso assim (único) entre heteros, eles são pra espanto geral,os melhores amigos.
    A sociedade é foda, quando vc começa a pensar bem, pois estimulam o ódio e a repulsa entre os que se amam, quando eles terminaram era um e terror os comentários que se faziam, porque o casal se separou. E haja o povo tentar instilar ódio principalmente porque neste caso foi a mulher que terminou e então ficaram criando toda espécie de história difamante. Essa nornatividade que produz os estereótipos tem um quê de teatralidade; por certo o povo/senso comum fica induzindo a gente a isso porque precisem de espetáculo “cena de sangue e de morte na avenida S. João”.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado LeBeadle!

      Concordo com isso e mais um pouco rs. Nos vemos cercados de normas de conduta e, sim, a sociedade critica, acha estranho, nos tenta colocar nas caixinhas “seguras” dos padrões de conduta.

      Mas se estamos fazendo diferente, não é para provação social. É por vontade única e exclusiva do “ex-casal” que está buscando, de comum acordo, seguir da maneira que nos parece o mais louvável e feliz para ambos.

      Um abraço,
      MVG

  4. Marcos disse:

    Nossa! Ler seus posts é uma terapia pra mim. Muito Bom !

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