Amores possíveis

Já vivi o amor adolescente. Da descoberta de trocar flores, cartas e presentes fora de hora. Era o amor sem compromisso, da pura vontade de estar junto a toda hora. Que teve muito ciúmes e quando não tinha motivo, arranjava algum para fazer valer. Era amor com jeito de paixão, ingênuo, anestésico, que preenchia aquele buraco da solidão que, até então, foi o companheiro de todas as horas.

Já vivi o amor a distância. Eram quilômetros a percorrer todos os finais de semana e só dava para ser no final de semana mesmo. Era um amor inconsequente, quando as vezes me sentia mais pai do que namorado. Tive que gostar de Sandy & Junior. Imagine eu: Sandy & Junior! Repertório tão distante, se é que dá pra chamar de repertório (rs). Era amor de temporada, que vinha no pacote de descanso nos finais de semana.

Já vivi o amor do mesmo teto. Dividir espaço, dividir tarefas, obrigações e responsabilidades. Amor de ciúme doentio, de pirações e fantasias. Amor de intensidade, oito ou ointenta. Amor que tanto bateu na mesma tecla que partiu. Amor “Whitney Houston”, dramático.

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Já vivi o amor da omissão. Que deixei de ser eu por inteiro para ser a parte boa de mim para o outro. Daquele amor que se termina ainda gostando e se arrepende de não ter ido até o fim. Me apresentei só pela metade e, assim, é de um amor que não foi por inteiro que estou falando.

Já vivi o amor da plenitude. Que trouxe amizade e companheirsmo, além do afeto e do sexo. Do casal gay que era referência, até mesmo para heterossexual. Mas que a gente sabe – imagem é só uma parte – e por dentro tinha também as dificuldades, as diferenças e as expectativas que não se cumpriam. O amor normativo, que incluiu família de todos os lados. O amor que foi até o limite.

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Já vivi todos esses amores e hei de viver outros, mais um pouco. E estou falando de homem. Homem que gosta de homem. Gay. Afetividade. Que não termina só em sexo. Mas para virar história, precisei me revirar por dentro. Precisei rever a ideia da homossexualidade, das barreiras, dos bloqueios, da cabeça que confunde para proteger, para protelar.

Hoje eu me calo um pouco. Sossego fisicamente, embora inquieto mentalmente. Olho para o lado e me vejo. Por hora, sozinho.

Não é de um novo amor que preciso agora. Mas preciso das pessoas que hão de ser novas. Porque embora sem amor, estou cansado do velho. Cansado de parte do passado que não quero trazer para o presente. Encontrar algumas pessoas nas mesmas baladas, nos mesmos bares, nas mesmas questões é encontrar parte de mim que não mais me alimenta.

Para onde ir? Calma. Não tenha pressa. Desmanche o molde, se esparrame. Deixa que tua alma te orienta.

10 comentários Adicione o seu

  1. Rogério BittencourtRogério Bittencourt disse:

    Um texto gratificante e que demonstra o arcenal cultural do autor com delicadeza e sutilezas que somente a humildade sabe expressar. Fazia um tempo não lia as mensagens, não estava bem comigo mesmo ou talvez o autor e diversas interpretações. Muito belas essas palavras, onbrigado.

    1. minhavidagay disse:

      Bem-vindo de novo, Rogerio :)

  2. Caio disse:

    O texto está em prosa, mas ao lê-lo deu uma impressão de que eu estava diante de uma poesia de superação rs.
    Você já passou por um bocado de experiências quantos aos relacionamentos, está mais treinado nisso do que muitos por aí, então, já sabe lidar com o que vier. Espero também saber lidar quando chegar minha vez.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caio, na verdade cada amor que passa pela nossa vida é uma nova história. Dizem que a gente perde aquele sentimento adolescente, anestesiado pelo começo. Mas não sei. Para mim não é assim ou pelo menos até agora não foi…

      O que vier… sempre é uma surpresa para desvendar. Acho que o grande segredo é não querer lidar, não racionalizar. Deixar rolar e fluir. No momento não cabe espaço para isso pois estou precisando mesmo é racionalizar. Mas uma hora a tendência é o “tanque” da emoção ficar vazio, de novo, e aí naturalmente a balança vai pender… e quem sabe não cabe uma nova história?

      But not today!

      PS: Lancei o post cujo tema você tinha me pedido. Já estão rolando comentários! Quero saber de você, que é meio do abraço e meio do beijo…rs.

      Bjo,
      MVG

  3. lebeadle disse:

    Oi MVG querido,

    C momento do recolhimento e da reflexão, lembrando de tudo que aconteceu no relacionamento (principalmente o lado bom) é algo essencial neste instante. Esse seu texto me lembrou daquele samba de Martinho da Vila, “Já tive mulheres…”; onze anos de vivências com pessoas que nos refletem, complementam, criticam. Como foram essas reflexões, complementações e críticas? Como te melhoraram? Pensa nisso

    Abraços

    1. minhavidagay disse:

      Penso todos os dias, a todo momento. O que sou hoje é fruto (também) de todas essas experiências vividas com essas pessoas importantes, na prática. Algumas relações mais profundas, outras menos, mas todas bastante significativas!

      Abraços, LeBeadle.

  4. Marina disse:

    Gostei do q li!
    Te admiro e respeito.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Marina! :)

      E bem-vinda! Faltam mulheres se expressando mais por aqui. :)

      Bjo,
      MVG

  5. Diego disse:

    Adorei a forma que você se expressa, e um dos seus “amores possíveis” me vi como espectador… O parte mais difícil é a escolha, qual decisão tomar quando você vê que já chegou no fim da jornada com aquela pessoa…Parece Óbvio, mais é difícil, é doloroso.
    Lembrei de uma texto que fala o seguinte:
    “Dentro de cada escolha cabe uma renuncia. Dei pra contar quantas coisas boas perdi pelo caminho ao me prender onde não era meu lugar, insistir nos mesmos erros, ficar ao lado de pessoas que não foram feitas para se encaixar na minha vida. E a gente sabe, a gente sempre sabe o que é e o que não é pra ser. Mas permanecemos estáticos onde não somos mais felizes por medo do desconhecido. O tempo passa, a vida muda, as pessoas se transformam. Na maturidade tenho aprendido que meu tempo é ouro, e só o divido com quem estiver na mesma vibração, na mesma sintonia, dividindo os mesmos sonhos reais. Descobri que o desconhecido pode ser algo maravilhoso se nos permitir-mos. Não tenho tempo para ilusões, meu saldo se esgotou por dez vidas! Quero a verdade, a realidade, os pés no chão. Quero sentir que estou no caminho certo. E se os dias não me apontarem nessa direção, mudo a rota, sem medo. E até que pegue o atalho certo, o meu nome é recomeço…”

    Vou continuar lendo seus textos, Adorei.
    Forte abraço!

  6. MK disse:

    Ola! Tenho 20 anos e sou de MG. Parabens pelos seus textos, relatos, temas e etc.. Tudo muito bem escrito, prazerozo de se ler e interessantissimo e sempre que possivel ainda com uma pitada de humor que eu adoro e me vejo rindo sozinho com o celular na mao ahaha
    Em relacao a este texto em especial gostei muito pois ando bem desiludido quando se trata de relacionamento, acredito que por eu criar muita expectativa desnecessaria ao invez de deixar rolar tudo naturalmente ou simplesmente nao rolar ne rs
    Ou talvez eu q esteja com o dedo meio podre msm pra escolher meus pretendentes q nunca se encaixam em mim.. Mas ja aprendi a ter paciencia e tentar n criar tantas expectativas mas as vezes eh automatico, sabe? Enfim, parabens pelo blog e continue a escrever sempre q puder, pois ja me ajudou com varios assuntos aqui que eu tinha curiosidade e vc conseguiu me esclarecer muito bem, pq apesar de ser uma opiniao sua, faz muito sentido e com alguem tao experiente(e n digo na idade) e sim no quanto se permitiu e viveu um pouco de tudo.
    Pode ter certeza que ja sou um fa do blog!
    Xoxoxo rs

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