Relato gay – Conversas entre amigos 3


Ontem fui assistir “O Hobbit – A desolação de Smaug” com meu ex-namorado. Após um mês e meio, aproximadamente, tivemos nosso primeiro encontro.

Antes e depois do filme trocamos algumas ideias, dentre elas, a maneira que a “sociedade” tem reagido, principalmente sabendo que em Janeiro de 2014 temos uma viagem marcada (desde 6 meses atrás) e que a forma que estamos lidando foge bastante das normas comportamentais.

Terminamos há um mês e meio. Mas não vamos abrir mão da viagem para o Caribe. Está marcada, “sacramentada”. E aí, sociedade?

A heteronormatividade e os modelos de relacionamento para antes, durante e depois de um namoro existem para serem seguidos. Nem sempre. Como bem disse meu ex-namorado: “as pessoas não precisam de explicações. Elas precisam aceitar e ponto”.

Curioso que até um casal gay, por parte dele, e um casal hétero, por minha parte, lançaram a mesma afirmação: “olha, não sou tão evoluído assim”.

Não sei realmente se a questão é a evolução. Não existe uma necessidade de provação social, mas as pessoas perguntam, questionam e querem saber como estamos. E, nisso, revelamos a maneira que estamos lidando com tudo e – consequentemente – gera esse tipo de “espanto”, da contrariedade com as normas, do que é normativo.

Dezenas entram naquele processo: “Ah, mas vocês vão voltar. É muito recente”.

Não, a ideia não é voltar. Mas a ideia não é perder o contato, deixar evaporar a amizade e o companheirismo que foram alicerces do próprio relacionamento.

Ontem pudemos ensaiar o início da amizade e posso afirmar aqui – por mim e por ele – que será possível. Fizemos juntos um breve balanço dos “por quês” que nos conduziram ao término, não com o objetivo de “arrumar”, mas para buscar ser melhores no futuro.

Concordamos que hoje em dia, nessa sociedade moderna, poderíamos ter seguido por dois caminhos:

1 – Ter buscado reciclar a relação através do tempo. O que não conseguimos. O namoro estagnou, parou e não foi nem a viagem para NY que conseguiu oxigenar. Concordamos que relacionamentos que não se reciclam perdem o sentido;

2 – Ter assumido o comodismo. Muitos casais, na “preguiça” ou na insegurança do rompimento, do estar sozinho de novo, ou na dependência de algo específico no próprio relacionamento, preferem continuar juntos pelo puro exercício do comodismo, do que é confortável. Apesar dessa sociedade ser “a tal da moderna”, tantos pares se rendem a esse estado. Não está sob o meu julgamento, mas é uma recorrência.

Então, nessa equação na qual não somos mais namorados, mas queremos preservar valores que se estabeleceram entre nós, da amizade e do companheirismo, como fazer?

Estamos fazendo assim, desse jeito que tento traduzir por aqui.

Reforço que, nessa situação, o cuidado maior e definitivo para que as partes não se machuquem e não se ofendam é de não escancarar as situações e pessoas que nos substituam. Claro que, racionalmente, quando solteiros de novo vamos buscar coisas para fazer para superar e resolver, para “compensar” a ausência. Mas, somos dotados das fantasias também, do sentimento de que determinada pessoa não mais nos “pertence” e qualquer brecha pode virar um drama. Ainda mais com a existência dessas redes sociais onde tudo se vê ou se espia. Onde todos são as pessoas mais felizes do mundo!

Converter o amor de namorado para o amor fraterno leva tempo. E depende muito menos de propósitos racionais e muito mais de uma fé, de um sentimento de que as coisas vão se ajeitar e que não vamos nos contaminar com as expectativas sociais.

Por isso digo que relacionamento se contrói junto. Isso faz sentido para a maioria. Digo também que relacionamento se destrói junto e, na maioria das vezes, queremos acreditar que quem “destruiu” foi o outro. Por fim, relacionamento se transforma junto. E esses são outros quinhentos.

Não sei mesmo que nome dar para tudo isso. O que sei é que nesse tempo longe, meu ex-namorado esteve em algumas festas e “coincidentemente” reencontrou alguns de meus amigos do passado. Estavam lá, no mesmo lugar, no mesmo ritmo e na mesma vibe de 4 anos atrás. Me dá uma certa tristeza perceber tudo isso, de que as pessoas (por opção), estagnaram no tempo, vivendo aquele modelo de felicidade e “desbunde” que dura apenas uma noite.

As pessoas preferem deixar de “pensar na vida” para evitar sofrimentos e desconfortos. Se apegam a determinados modelos num vício pelo prazer externo e momentâneo. Outros, já pensam e teorizam bastante mas sentem a maior dificuldade de colocar em prática.

Sou favorável a reinvenções, a mudanças e – como bem disse meu amigo – eu tenho mesmo uma inquietação, uma busca pelo autoconhecimento vivendo novas experiências. Pois isso é uma verdade, que não lanço aqui com a exclusiva vontade de me autoafirmar ou de me achar superior. Mas eu me permito desgrudar dos modelos, buscar consciência dos contextos e tentar fazer diferente, com mais autonomia, questionando as instituições, os rótulos, questionando os padrões comportamentais que tanto nos cercam e nem se quer nos damos conta do por quê ter que ser assim ou assado.

É fundamental dar movimento na vida. É fundamental expandir-se. E na maioria das vezes é um “FODA-SE” garrafal para o que os outro vão pensar. Porque os outros reagem, de certo, em cima do velho e bom quadrado.

5 comentários Adicione o seu

  1. Gustavo disse:

    Po… to ficando repetitivo! Acho que vou parar de comentar… kkkk
    Mas que texto bacana cara!
    De fato, “pensar sobre a vida” pode ser um exercício foda, difícil, pq nos obriga a enxergar tudo aquilo que às vezes lutamos muito pra esconder… mas concordo com vc que é fundamental fazer disso um exercício; e claro, não se deixar perder nos devaneios! Pois não basta pensar, tem que agir! E assumir as consequências, sejam elas boas ou ruins! (e, eventualmente, usar o FODA-SE que vc sugeriu… pq sem ele, em alguns casos, não de faz muita coisa! rsrsrs).
    Afinal, não há receita nessa vida pra ser feliz! Cada um faz a sua, experimentando, caindo, levantando e tentando de novo!
    E ser feliz de verdade, não a felicidade de facebook! rs

  2. Caio disse:

    Que bacana vocês estarem numa boa e vivenciando todo o companheirismo que foi criado e que não acabou só porque vocês disseram um para o outro: “a partir de agora não somos mais nós”. Isso é raro e portanto, valioso (nesse caso). Você, além do fenótipo tem mesmo uma “alma” de japa, é tão zen XD.

    Quanto ao que você disse dos seus amigos de noitadas que seu ex reviu, eu também tenho estes questionamentos de como será na prática a relação estável e quando vou conseguir vivenciá-la. No momento presente parece um pouco distante, mas a vida nos prega tantas peças, não é?! Então, vamos dirigindo e de repente quando notarmos, a estrada muda e passamos a conhecer algo diferente.

    Aproveite agora que vocês serão parceiros de viagem e tramem estratégias de como dar uns pegas nos nativos gostosos que têm por lá, um pode ajudar o outro a se dar bem kkkkkkkkkkkkk
    Só cuidado, pois têm alguns países que proíbem os nossos amassos e como não sei para qual ou quais você vai dê uma checada antes para evitar problemas. Divirta-se rs.

    1. Caio disse:

      Ah, agora que lembrei, é fora do contexto do post, mas me recordo que você faria um dia um texto sobre aquele lance que eu comentei há um tempinho sobre os gays do beijo e os do abraço. Quando você tiver um tempo, gostaria de ver suas ideias a respeito.

      Valeu :)
      bjo hahaha

      1. minhavidagay disse:

        É verdade!

        Prometo me inspirar sobre o tema e postar em breve.

        Bjo rs

    2. minhavidagay disse:

      Ahahaha, muito bom o seu comentário, Caio.

      Mas nem sou tão zen assim. Quer dizer, apesar de ariano explosivo, até que aguento bem os trancos e tenho paciência…rs.

      Quanto aos nativos… bem, acho que nem eu, nem ele estaremos ainda preparados para empurrar um nativo para o outro! rs Mas, quem sabe até lá…

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