“Beijo” para quem é do beijo. “Abraço” para quem é do abraço

Um título que faz bastante sentido nessa minha “última semana do ano”. Encerro o expediente agora, dia 20, e entramos em férias coletivas para pensar em trabalho somente em 2014. A partir daí virá um pouco de tudo: fuga da rotina, do entra e sai de pessoas, dos e-mails, telefonemas, projetos, planos, estratégias, discursos, vendas, entre outros. Um pouco de tudo de dormir tarde e acordar tarde. Acordar cedo e manter minhas idas na academia já que, ineditamente, passarei Natal e Reveillon em São Paulo. Terei tempo para pensar mais no blog, deixar a vida me levar e me sentir livre da agenda. Liberdade da agenda e dos compromissos compassados muda a vida! Essa é uma grande coisa para resgatar energia e voltar tudo de novo no ano que vem. Vou gastar um pouco comigo, como tenho feito desde a última semana. Só trabalhar sem fazer um autoagrado não vale a pena.

Daí que o leitor “Caio” me lembrou de um pedido que fez há alguns meses atrás. Gostaria que eu apresentasse algumas reflexõe sobre aqueles gays que se saúdam e se comprimentam com o “beijo” e daqueles outros que fazem o mesmo, só que com o “abraço”.

Seja pela escrita ou presencialmente, essa é uma realidade. Existe sim um sentido maior nessas maneiras / formas de saudações entre os gays e, normalmente, quem é do beijo é do beijo. Quem é do abraço é do abraço.

E a mim, essa diferenciação é simples de se entender, embora repleta de significados.

Caímos novamente no cantil das normatividades:

O tema “masculinidade” no meio gay é um tabu. E naturalmente rola uma grande confusão quando um homem gay se entende como tal. Cada um, de certa forma, atira para um lado para se posicionar socialmente. O desprendimento das confusões e da autocensura leva tempo e – como o se assumir, se aceitar e se resolver numa necessidade natural de um “encaixe social” são processos contínuos – é natural termos maneirismos que nos coloquem “nessa” ou “naquela caixa” para nos sentir mais confortáveis perante a própria sociedade.

Em outras palavras, o sentido do “beijo” ou do “abraço” está novamente incluso na maneira que a normatividade nos ensina: “homens no geral mandam abraço, no sentido masculino, da masculinidade”. “Mulheres mandam beijo, no sentido da liberdade de ser mulher, da delicadeza, da feminilidade”.

Daí o gay faz essa confusão (e arrisco a dizer que na mesma medida que existem os ideais mentais de “passivo” e “ativo”): “se eu sou gay mas não quero referências femininas eu saúdo com ‘abraço’. Se eu não me importo com essa masculinidade (e até mesmo quero me manter distante disso), vou exercer a função do ‘um beijo'”. Claro que tudo isso, na maioria das vezes, no plano do inconsciente. Normalmente se alguém perguntar, as pessoas responderiam: “ah, acho estranho fazer diferente”.

“Estranho”. Palavrinha muito utilizada hoje, que normalmente traduz aquele incômodo que a gente não quer pensar / não sabe traduzir.

Adoramos complicar as coisas, não é mesmo? Ou melhor, a nossa cabeça cria associações desse tipo e passamos a dividir assim. Então, estou sugerindo que o “gay do abraço” acha muito “feminino” (e tudo que em seu imaginário entende como feminino) saudar com um beijo. E, na mesma medida, sugiro que o “gay do beijo” manda beijo porque (1) se autoafirma mais feminino assim, ou (2) acha essas associações uma bobagem, ou (3) ambas alternativas. Eu fico com a “2”. O meu normal é mandar beijo, a não ser que note que o outro é “do abraço” – rs.

E sim, tenho amigos assumidos, frequentadores do meio que só são “do abraço”. #preguiça

Na mesma medida – no imaginário para quem é gay (mas por enquanto só na teoria e para si) ou para quem é heterossexual e não tem contato com gays – o gay passivo tem de ser mais feminino e o gay ativo tem de ser mais masculino. Mas para o gay que já conheceu outros gays e teve experiência no meio, sabe bem que não existe essa equação: gay másculo pode dar o cú e gay afeminado pode ser um trator. Assim como bissexuais podem gostar de ambos também.

[Legal lembrar aqui que, os gays que são gays “na teoria e para si” – aqueles que ainda estão fechados em seu universo particular – costumam achar que assumir a homossexualidade vai invariavelmente levá-los para o pacote da feminilidade. Besteira, besteira e besteira. Olha a muralha interna e pirante! O gay afeminado é como é na sua intimidade, formação e quiçá genética, seja no plano pra si, seja no plano para o assado! E certamente, na hora que cair no assado, vai soltar a manivela!]

Voltando à “Teoria do Beijo e do Abraço no Imaginário Gay” (TeBAI-Gay), claro que existem exceções mesmo na normatividade. Não frequentei apenas uma família na qual os homens heterossexuais se cumprimentam também com o beijo, mas no sentido/significado que tem o filme “O Poderoso Chefão”, por exemplo. Situações quando a cultura permite o beijo entre homens pois existe um significado “acima” do de gênero: do respeito, das hierarquias, da irmandade, da fraternidade, etc.

Então é isso minha gente. Na verdade, o recado vai mais para o “gay que é do abraço”. É gay, bicha. Manda um beijinho pra mim!

=*   :*   =3   :3

Beijo para quem é do beijo e abraço para quem é do abraço!

18 comentários Adicione o seu

  1. Thinno disse:

    Engraçado… Eu penso diferente em relação a isso. Beijo para mim significa ter mais intimidade do que abraço. Então mando beijos para os que são mais próximos e abraços para os que ainda não conheço tão bem. Mas acho o ponto de vista interessante.

    1. minhavidagay disse:

      Isso também acontece, Thinno. Mas depois que se realiza a intimidade, tem gnt que vai ficar só no beijo e outros só no abraço…

  2. J disse:

    Sou da turma do “abraço” e em alguns casos vou alem, falo “um forte abraço” hehe.

    Nao gosto do termo beijo como despedida, me incomoda e dependendo da situaçao e perante as pessoas acho constrangedor!

    O termo beijo acho muito intimo para ficar mandando para todo mundo, só mando para quem estou namorando, se a relaçao estiver boa e eu estiver de bom humor!

    Nao gosto da “melosidade” que existe da parte de alguns gays, nao gosto de ouvir um “INHAIM” (quando falo estou sendo ironico e sarcastico), um “AHAZOU”, um “AQUÉ”, “GATHENHON” ou um gay chamando o outro de “BESCHA/VIADON, sei que quem fala isso sai como algo natural da personalidade da pessoa, mas é algo que respeito, mas nao me agrada!

    Gosto dos homens gays que coçam o saco (nao curto os que ficam passando a mao no cabelo compulsivamente), que sentam com as pernas abertas em vez de cruzadas, que repetem roupa sem se importar se vao perceber, que num simples abraço voce sente malicia e virilidade, algo que nao sinto quando ouço um “beijo” acompanhado de um gesto ou sorriso forçado.

    É isso! Abraço M.V.G

    1. minhavidagay disse:

      Valeu J por seu depoimento!

      Ajudou ainda mais a referenciar minha teoria!

      Um beijo (ahaha),
      MVG

      1. Thinno disse:

        Gostei do reply pro J, hehehhehee!

    2. Wong Foo disse:

      Você se entregou no último parágrafo…

    3. JR. disse:

      J penso exatamente igual à você!
      E muitos vão chamar a gente de preconceituosos por causa disso, mas é só uma questão de gosto e atração, simples assim!

      1. minhavidagay disse:

        Olá JR!

        Obrigado por ser mais um “do abraço” a se manifestar.

        Um abraço,
        MVG

  3. Aaaahh que frescurice velho!!
    Essa história de masculinidade influencia até nisso? Nunca achei que masculinidade fosse tão frágil assim.

    Mando Abraços pra quem eu não tenho tanta intimidade, mando um Chero quando fico muito “excitado” com algo que a pessoa fez e quando geralmente conheço-a pouco tempo(” Aahh seu lindo, nem acredito! Lindão! Um chero pra ti!”) e um beijo para os mais íntimos mesmos (pra pessoas que eu tenho mania de dar carinho).

    Também mando beijo pros meus amigos héteros só pra zoar com eles mesmos. Rs

    No mais, acredito que esse tipo de frescurice não me afete tanto.

    Um Abraços do CR!!
    Um chero pro japa que escreve o blog!
    E um bjão pros lindões daqui!

    (Não mando beijo pro mvg porque eu não sei. Merece chero mesmo, rs)

    1. minhavidagay disse:

      Entendo como um elogio, CR. Ou, pelo menos, que te “excito” rs rs rs.

      Bjo,
      MVG

      1. EEUHEUHEUEHEUHUEUEH!
        Assim minha opinião (de que não me atraio por orientais) é colocada em questão e vão pensar que estou sendo hipócrita!

        Rs!

      2. minhavidagay disse:

        Nada…rs… é sempre bom rever conceitos ;)

  4. FM disse:

    o que eu mais tenho é amigo hetero que manda beijo, não só manda como da de fato! Acho que essa questão de maculinidade/feminilidade tá se desconstruindo. Por incrível que pareça, apesar de vivermos num país com um Feliciano, a mente as pessoas estão se abrindo. Eu Tbm sou desses que mando beijo pra quem eu tenho intimidade e abraço pra quem não tenho. Gosto de caras masculinos, mas acho que mandar beijo pra outro cara não tira a maculinidade de ninguém. Abraços. rs

    1. minhavidagay disse:

      Oi FM!

      O Feliciano saiu! Foi notícia ontem (ou hoje) no Estadão. Ele não precisa mais ser o bode expiatório para as nossas mazelas antievangélicas rs.

      A coisa do beijo entre homens ainda é minoria e acho realmente que está mais atrelada a uma “cultura de irmandade” que a torna possível.

      Então, “irmão”, um beijo… rs
      MVG

  5. Caio disse:

    Olá MVG, eis me aqui para expor o que penso rs. Bom, eu também vejo que essas associações que você escreveu são válidas na prática entre a discrepância entre uns gays serem do abraço e outros do beijo. Falando por mim, eu sou do beijo, sempre achei um saco desde adolescente (mesmo quando ainda não tinha formalizado para mim mesmo que sou homossexual) esse lance de só as garotas entre si ou entre garotos e garotas poderem se cumprimentar através de um beijo na bochecha. Sabe, essa visão machista de mundo impede o carinho entre homens, mesmo sem conotação sexual, o que é conhecido como bromance ou relações de homossocialidade (H+H M+M). Não vejo problema algum entre dois caras e ainda viris se abraçarem com vontade (afinal aquele abraço de héteros com tapinhas nas costas e super rápido é mais bichesco do que tudo rsrsrs) e darem um beijo. Vide o que aconteceu uma vez (das poucas que vi) na despedida de uns dos participantes do BBB6 eu acho, em que eles se beijam e se abraçam, pois são amigos.

    Como você disse, não acho que o beijo seja apenas voltado aos afeminados, afinal não sou assim e gosto. Queria poder cumprimentar meus amigos gays ou não, e até meus colegas assim sem distinção, mas não faço pois sei que muitos deles desaprovariam (não pela prática, mas por que os outros iriam ver e poderiam ser criticados) e não quero gerar transtornos. Ainda que acho ridículo alguns dizerem que isso não é bem visto, pois se alguns homens fazem coisas bem “piores” como sexo oral e anal com outros homens, por que um beijo é tão difícil, não pode, ou é coisa de mulheres? Ainda que as duas primeiras práticas sejam feitas em meio privado e a última os outros vão ver.

    Caso prático são as mensagens enviadas nos sites de relacionamentos. Sempre coloco no final “abraço” ou algo equivalente, pois não sei como será a interpretação de quem vai recebê-la e isso pode até quem sabe inviabilizar o contato, este que depois de realizado pode gerar uma boa relação, ainda que antes de me conhecer por algum detalhe o cara poderia ter me rejeitado. Afinal conhecer alguém pela net é difícil mesmo, podemos dispensar ou sermos dispensados sendo que se nos permitíssemos poderíamos ver que aquele alguém é bem diferente do que imaginávamos ser . E outro é bem o inverso do que muitos pensam. Depois de ter conhecido um cara pessoalmente numa reunião com amigos, ele me ligou para curtirmos um pouco e nas ligações feitas ele sempre terminava dizendo “beijo” (detalhe, ele é o chamado macho-alfa, ninguém sabe que é, até os gays têm dificuldade de saber) e eu fui frio, dava só um “falow” ou “tchau”, estava ainda conhecendo o mundo da homossexualidade na prática. Tempos depois eu fui perceber como fui cretino, por mentalmente defender o carinho e no fim ter feito o que fiz.

    Finalizando (todos pensam: ALELUIA rs), não vou sair beijando todos os homens por aí, principalmente aqueles héteros que eu não tenha intimidade de amizade, ou aqueles que só vejo vez ou outra (mas não vou negar que gostaria de dar um beijo nos meus colegas e instrutores na academia, apesar deles não serem meus amigos). Somente os que tenho contato, os gays como um todo que permitirem e os meus familiares íntimos. Assim como muitos italianos fazem e ninguém reclama, acham até normal demais XD.

    1. minhavidagay disse:

      Muito bacana, Caio!

      Seus pensamentos são uber interessantes para esse tema. Trouxe referências práticas que contextualizam bem essas “muralhas” que muito de nós temos por um simples gesto, uma saudação.

      Esse post está rendendo positivamente e tenho certeza que está sendo referência positiva para todos.

      Parabéns pela ideia e sinta-se a vontade para me trazer outros temas (nem sempre estou inspirado – rs).

      Um beijabra (rs),
      MVG

  6. ju disse:

    Esse blog é uma terapia. Valeu mesmo! Viciei.

    1. minhavidagay disse:

      Que bom que gostou! Mas não vicie não, Ju! ;)

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