Minha Vida Gay – Preces cósmicas para 2014

Estamos aí, na virada. Nos mercados já tem peru, tender, lombo, panetone e derivados faz um tempo. Sinal de Natal e sinal de tempos novos. Um ano novo para mim parece séculos, no sentido de que é tempo para fazer, realizar e agir para muita coisa. Ainda mais pelo estilo de vida que optei, no qual se eu parar, tudo pára.

Gostaria de lembrar algo importante para todos que passaram por aqui esses meses: em 2001 (há 12 anos atrás), quando comecei meu processo de assunção a partir da aceitação da minha própria homossexualidade, os gays não andavam de mãos dadas nas ruas, não trocavam selinhos e abraços. Não havia lugares amplos como a Vila Madalena, a região total da Paulista e o Parque do Ibirapuera para manifestarmos afetividade, paqueras e sexo.

Os Grindr’s e Scruff’s da vida não fariam sentido pois não haveria público aberto em quantidade, se expondo como acontece hoje em qualquer canto desse país.

Não tínhamos nenhum representante no governo, batalhando para causas mais igualitárias. No máximo teríamos Clodovil apresentando seus programetes e traduzindo apenas uma partícula de nossa identidade.

Não tínhamos gays midiáticos – homens e mulheres – revelando sua totalidade como fazem hoje.

Não havia a Internet, as redes sociais e os Blogs (como esse) manifestando interesses em comum.

Tudo era sim muito mais árido e inseguro. Não quer acreditar? Então você tem um grande problema nas mãos: o pessimismo.

Se as coisas são como hoje, efetivamente mais abertas e igualitárias, é porque alguns de nós em 2001 (e muito antes disso – Milk que o diga) foram aqueles que se infriltaram por aí – nessa tal de sociedade – e levaram consigo a consciência, a emoção e a ideologia. Nada do que é hoje para nós e o que vai se tornar amanhã é resultado de inércia ou comodismo. É resultado de luta, de conscientização coletiva. De diálogo, de necessidade de influenciar.

De qualquer forma, nas grandes capitais reside hoje muito mais tolerância. E se temos casos mais esparsos de intolerância é porque temos também mais visibilidade. A briga continua, mas tem gente suficiente a nosso favor agora. Suficiente para estabelecermos uma normatividade em nossa vida em congruência com a homossexualidade. E eu, humildemente, sou um exemplar. E não sou o único.

Arrisco em dizer que – hoje – só não é gay feliz quem não quer. Temos espaços, lugares e pessoas para exercer e compartilhar nossa totalidade. Temos pessoas ao nosso redor, abertas a diversidade sexual. Tem espaço para quem quer curtir baladas e paqueras. Tem espaço para quem prefere relacionamento, namoro ou casamento.

Tem também a normatividade, nos influenciando em amplos aspectos a viver dentro de uma caixinha comportamental. Mas arrisco a dizer, de novo, que as barreiras estão muito mais dentro da nossa cabeça – no tal autopreconceito, autopunição e autodepreciação – do que no mundo lá fora.

Não é à toa que “está na moda” questionar e criticar as instituições. Família, escola, igreja, governo são unidades que estão cada vez mais em conteste porque, os ar tradicionalesco e até mesmo hierárquico, não tem funcionado mais para as novas gerações que estão surgindo. E isso, das gerações Y, Z e Alpha já é estudo de gente que pensa. Psicólogos, filósofos, antropólogos. Tem muita gente sabendo que o mundo está mudando porque nossa cabeça também está seguindo esse fluxo, que é novo.

A grande dádiva de tudo isso é querer enxergar. Enxergar diferente do que a gente pensa, do que estamos apegados ou daquilo que nos “protege”. Buscar consciência, consciência inclusive de que na maioria das vezes nos prendemos ou nos acomodamos por puro costume das sinapses. Esquecemos que nosso cérebro, essa massa cinzenta que faz parte da gente por toda a vida, é capaz de se reorganizar e se recombinar durante a vida toda. Esquecemos de nossa espiritualidade, que não tem que ter vínculo nenhum com doutrinas!

Vamos mexer em nossos pensamentos cada vez mais. Que tal? Vamos pensar um pouco mais, ao invés de ser simplesmente puxados pelos modismos. Vamos fazer um pouco diferente a cada dia, como sugeriu a Clarice Lispector no texto “Mudança” que postei tão recentemente. E olha que essa nasceu em 1920 e morreu em 1977, quando a grande maioria dos leitores do MVG nem se quer era espermatozóide! Que exemplo de ideologia, não é mesmo? Como faz sentido… pelo menos, a mim faz.

É uma daquelas que é abençoada pelo olhar no futuro, pela positividade, pelo rever a própria vida e agir. Agir.

E se eterniza por isso.

2014 é momento para que mais alguns como nós, gays, deixemos de ser reféns de nossos pensamentos excludentes, depreciativos, bloqueados. É hora para que mais alguns lancem seus valores em outros modelos, assumam outros pontos de vista. É hora sim para fazer o cérebro mexer de um jeito diferente.

Sou fruto genuíno de uma inquietação, de um estado de espírito que não estagna e está aberto para o novo. Falo isso com toda a humildade, mas consciente de que sou assim, assumidamente, o que não é um mérito nem um demérito. Mas é uma coisa suficiente para estar aqui, alimentando esse blog por exemplo, sem fins lucrativos, sem medo da exposição, sem me importar com o que os outros vão pensar.

Agora, para 2014, tiro as minhas palavras da frente e deixo o recado da Clarice que define todas as minhas expectativas para o novo ano:

“Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!”.

Eis aqui a minha prece.

1 comentário Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Ótimo texto. Sinto mesmo que a maioria que não consegue alcançar nenhum pouco de plenitude na vida sendo bi ou homossexual é muito por causa de sua própria limitação, ou seja, eles se autodepreciam muito e além das barreiras existentes que podem ser superadas eles mesmos criam outras dificultando mais ainda o processo de sair dessa vida sem emoções positivas. Porém, analisando o outro lado, o problema é quando você já superou tudo isso, leva sua vida na boa sabendo quem você é e se gostando, mas ainda não encontrou amigos bacanas, não tem din din para sair com eles ou viajar e curtir e não encontra regularmente caras que valham a pena para desfrutar de contatos íntimos (ui rs). Esse sou eu XD. Estou com um delicioso queijo comigo, mas não tenho a faca para cortá-lo rsrs. Que saco. Mudando para um emprego melhor acho que vou poder ir me realizando aos poucos. Esforço é o que não falta.

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