Relato gay – Reflexões sobre o domingo

Momento que é diferente. Parte de mim gostaria de estar na rua, criando situações com pessoas, buscando rechear a agenda de compromissos sociais gays, até excessivamente gays – no sentido de estar em lugares frequentados por esse público – para o exercício de ver e ser visto, exercício do ego. Por outro lado, tem uma parte que me “bloqueia” que não é o físico em si, já que os anos de exercícios permitem diversos movimentos (rs).

A coisa é mental mesmo.

Estou solteiro, desempedido. A parte agitada sugeriu ir hoje na Lôca, sem fazer alarde, sozinho, para não ter cúmplices dos ocorridos que lá possam acontecer. Já a outra parte nunca foi tão resistente ou presente. Nunca antes foi tão difícil tomar essa decisão de simplesmente curtir um pouco da esbórnia. Esbórnia até bem merecida depois de 12 meses de trabalho e de uma devoção ao namoro que passou.

Hoje é domingo e muito de nós – para não ter aquela sensação de que está perdendo o tempo da vida – estarão acordando agora e em breve partindo para a rua para propósitos bem parecidos a “minha metade fervida”.

Gays fervidos serão eternamente fervidos? Alguns sim, outros não e existe essa dubiedade em meus próprios pensamentos.

Visitei recentemente os tais dos aplicativos de relacionamento. Grindr, Scruff e Hornet são os caminhos mais práticos, rápidos e pouco custosos para criar o mínimo de vínculo com pessoas e chegar direto ao que interessa para a maioria d0s gays que os utilizam: ficada e sexo. Achei que essa mania poderia realmente virar mania mas, para minha surpresa, estão lá “piscando” todos os dias sem que eu cumpra com a minha parte.

As possibilidades mais piscam do que se efetivam. E não é porque a coisa não funciona (funciona é muito bem!) mas porque aquela parte de mim que diz para ficar quieto, no meu canto, tem sugerido coisas para a “outra fervida” que, para supresa geral, está acatando!

Esses apps me serviram de um ótimo termômetro. Faz pouco tempo atrás que eu – cara de quase 37 anos, recém saído de um namoro gay de quase quatro – precisava saber se ainda tinha chances na “pixta”. Não demorou para ter as respostas.

Daí que nesse vai-não-vão de ir pra rua, fiquei e resolvi cozinhar pra mim. Hobby que sempre tive para fazer para os outros, poderia me parecer estranho. “Cozinhar para quem?”. “Para mim mesmo, ué!” – e vale o pleonasmo.

A cervejinha saiu da geladeira junto com lascas de queijo, só para abrir o apetite. Levemente embriagado.

Dá até um tesãozinho sutil por isso tudo.

Me parece que os tempos são outros. Minha dog velhota dorme no quintal e quando acorda e faz seus barulhos é gostoso de ouvir. O sol entra pela janela. Ouço os aposentados do bairro se entretendo no bar aqui perto de casa e algum vizinho resolveu colocar o som alto e – para minha contemplação – está tocando hits dos anos 80!

O Blog Minha Vida Gay, nesse exato momento em que escrevo, reforça um dos papéis que tem a mim: o terapêutico, de organizar as ideias e me ajudar entender, as vezes, o que se passa por dentro. Desculpem se parece autoafirmação. Mas isso aqui é também um “diário aberto”.

Não sabia que as coisas poderiam ser levadas dessa maneira. Tem um convite para tomar uma cerveja na Dida ou no Gourmet no final do dia. Coisa que só vou saber se vai dar química depois do cochilo. Se vier cochilho, se vier Dida ou Gourmet e, ainda, se vier Lôca. Tanto faz, desde que seja por vontade e não pela minha “parte agitada” me empurrando sabe-se lá o por quê! (RISOS)

Talvez, e repito – talvez – isso seja o começo do meu exercício de autosuficiência. Ser “velho” é isso? Que se estabeleça assim por um tempo, por favor.

Um recado para a minha parte inquieta: “sossega que seu domingo está bom demais”.

8 comentários Adicione o seu

  1. Wong Foo disse:

    Fico muito grato sempre que leio esse tipo de relato por aqui :]

  2. minhavidagay disse:

    O que te chamou a atenção nesse, Wong Foo?

    Só para complementar: acordei do cochilo como uma “bela adormecida” (rs) com meu amigo combinando o horário do boteco. Estou partindo para curtir um pouco da rua (rs).

    O que vier depois fica para as cenas dos próximos capítulos! :P

    1. Wong Foo disse:

      Aprecio bastante o jeito como escreve, assim como relatos e outros pontos de vista. Moro no interior do sul bahiano e confesso ter bastante curiosidade pela vida gay metropolitana hahaha

      1. minhavidagay disse:

        Entendi… nas metrópoles você tem algumas possibilidades a mais, uma maior abertura e aceitação.

  3. Caio disse:

    Ahh meu filho vai curtir a vida se você pode. Aproveite, isso não vai acabar com você, é só saber equilibrar o que com certeza você sabe :)
    Mas já que você preferiu cozinhar para si mesmo, confesso que isso é ótimo. Certa vez fiquei sozinho em casa a noite e fiz o mesmo, escutei músicas que gosto e até abri um vinho rs. Senti-me como um jovem financeiramente e emocionalmente emancipado da família e posso dizer que foi muito bom rs.

    Mas já que você citou os aplicativos de relacionamento para gays, tenho que dizer que temo que eles se popularizem tanto a ponto de por em xeque a busca por relacionamentos via encontros pessoais. Isto porque buscar caras só pela net não é bom, afinal é um meio “pobre” para conhecer alguém. Muitas vezes recebemos mensagens e ignoramos pois pelas fotos não dá para ter noção da pessoa e as vezes aceitamos quem não agrada pelo mesmo motivo. Ao passo que ao vivo poderemos ver a pessoa da cabeça aos pés, ter uma leve noção da personalidade pelos gestos, modo de falar, podemos talvez perceber as intenções mais facilmente, fora que tem todo o lance do cheiro e da visão do corpo como um todo sem truques; veremos a real idade pelo seu semblante e por aí vai. É assim que percebo que possamos observar um cara que até então não chamava a atenção, mas aí olhamos de novo e o mesmo homem parece ser diferente, mais interessante rs. O que não aconteceria se fosse pela internet. É dessa forma, que como eu disse em outro comentário, que acabamos gostando de alguém fora do perfil idealizado.

    Veja só, quem sabe esse não se torna mais tema para sua lista?
    Caso não for escrever mais posts até amanhã, lhe desejo um ótimo feriado
    bjo.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caio… mais um bom tema para falar, sobre a influência desses aplicativos na socialização das pessoas…

      Gostei. Vou escrever a respeito.

      Bom feriado!

      Bjo,
      MVG

  4. lebeadle disse:

    Esse é o texto do sossego, se lê como uma oração

    1. Roberto disse:

      o domingo é pra mim um dia depressivo.
      muitos vão achar estranho minha opinião por parte desse dia, sou bem caseiro assim como o MVG, tenho meus ROBS, minhas vontades e manias, e ligar um som na voz da ALCIONE, para contar a minha historia, já basta, ali abraço-me com a solidão e chamo a famosa cervejinha para me acompanhar. minutos depois as lagrimas comessam a cair e nesse momento comessa a minha maior angustia e medo desse tal dia:^Domingo.
      já fui de tentar amenizar a minha tristeza em boates e bares, mais sempre que saia de casa com aquele vazio, voltava para casa com o vazio ainda maior… e isso me deixou mal e com depressão há muito tempo, dai resolvi viver, resolvi acreditar que um dia apareceria em minha vida o CARA. Rsrsrsrsrsrrs. AINDA NÃO APARECEU, muitos dos meus colegas falam que sou exigente, mais não me considero assim, ah … digamos que jamais vou me envolver com qualquer um, nunca deixei a minha carencia me empurrar, para o primeiro que me aparecesse, tenho a minha opinião propria . UM DIA QUEM SABE LOGO , APARECERÁ MINHA CARA METADE E EU VOLTE A GOSTAR DO DOMINGO…

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