Então é Natal. E o que a gente faz com isso?


Natal é aquele tipo de coisa que a gente ama ou odeia. Quem ama não costuma ficar vangloriando o momento, embora sempre tem aqueles que fazem uma ode pelo Facebook, mais no sentido dos bons modos cristãos, dos desejos, da reunião familiar. Já os que odeiam costumam sempre despejar a repulsa na hipocrisia latente, dos parentes que nunca se encontram, nunca se falam e que se reúnem entre os dias 24 e 25 para celebrar um “espírito de união”.

Natal a mim sempre representou positividade, novidade e diversão, desde muito pequeno. Muito menos no sentido cristão que é sua origem.

Ao contrário da grande maioria, por questões de conflitos e crises do meu pai com meus tios e primos – desde que me entendo por gente – Natal, durante 10 ou 12 anos, foi celebrado na casa de praia entre três famílias amigas com nenhum parentesco. Essa “diferenciação” me enchia de entusiasmo!

As sensações e percepções dessas reuniões, de Natal e ano novo sempre com as três famílias, vêm num tom de ritual com bom humor e alegria. Bebedeira, carinho entre os amigos, entre outras coisas mais. É o que ficou.

Nessas épocas do ano não tive a tia, avó ou parente fazendo aquela pergunta mais normativa e tradicional possível: “Você está sem namorada? Cadê a namorada? Quando vai trazer para apresentar para a família?”

Por essas e outras, e especificamente para os gays, talvez o Natal seja aquela coisa “chata”, na qual a gente deposita o tom de tédio e lança a “culpa” em cima da hipocrisia da reunião.

Meu pai vendeu a casa da praia há alguns bons anos. De lá pra cá sempre passei esse momento com meus pais e meu irmão. No almoço do dia seguinte, normalmente estava na casa de algum parente dos meus ex-namorados – todos – seguindo também com a tal celebração, ou, solteiro, passava novamente com meus pais, amigos ou um tio.

Esse ano será um pouco diferente: meu irmão casou e resolveu passar com a esposa em Minas Gerais, somente os dois, ou os dois com mais alguns amigos, nem sei. Desde ontem senti um “climão” na casa de meus pais, talvez por perceberem que – a coisa da vontade de querer passar com a família se estabelece de dentro para fora – e, meus pais, sem aquela energia tradicional da cobrança, não exigiram nem fizeram nenhuma chantagem emocional para que meu irmão estivesse presente esse ano.

Não tenho propriamente dó dos meus pais pois, a mim, estarmos nós três já tem representatividade suficiente. A mim, não é a quantidade de pessoas que vai dar sentido para a celebração, mas a intenção – como disse – de dentro para fora. Além disso, sou aquele que transita bem na relação com meus tios e primos. Bastava puxar o telefone e avisar minha tia que passaria o Natal com eles que – invariavelmente – seria bem recebido. O mesmo com dois ou três amigos que fizeram o convite esse ano.

Porque no final é isso: onde, em qual casa ou qual canto há de se estabelecer essa reunião pela simplicidade nela mesma contida? Fora das normatividades, nos padrões de discursos, das manias alheias que se repetem em todo “santo encontro” natalino?

Talvez esse sentido esteja dentro de mim, ou talvez foi a maneira que sempre busquei enxergar. Não me importo mais se meu pai é mal resolvido com todos e no final nos resumimos a três pessoas (essa sempre foi a sua normatividade). Não me importo se meu irmão “viajou” e passará longe dos meus pais esse ano. Não me importo com os hábitos repetitivos daquele tio ou tia que, num modus operandi, fará os mesmo discurso, perguntará as mesmas coisas e – sem querer – colaborará para que o encontro seja, de novo, massante.

A mim, o espírito de Natal, sempre teve um ar de novidade, daquela primeira porta de entrada para um ano novo e que não seguiu um padrão tradicional de reunião familiar. A mim, o Natal não diz respeito a quantidade de pessoas mas, sim, a qualidade de envolvimento dessas pessoas. Que sejam poucas ou muitas.

Natal é um momento de revisão. São aquelas horas sentados a mesa quando temos a oportunidade de rever o que passou com as pessoas que tem uma representatividade a nós, trazer boas lembranças com saudade e ver que o presente pode ser melhor ainda.

Natal traz também aquela carga do ano que passou e, se tem fartura, é porque no final tudo deu certo.

Nesse Natal provavelmente ouvirei do meu pai algumas lamúrias e frustrações por “meu irmão ser do jeito que é”. E verei minha mãe calada, consentindo com suas palavras. Ouvirei meu pai até a hora que também deixarei minha opinião: “Ele sempre foi assim. Não vai ser agora que, ‘encantado’ pela esposa, fazendo todas as vontades, seria diferente. Mas se ele tem que aprender algo com isso a própria vida vai ensinar. Os toques e a educação foram dados e é importante não pesar com isso. E outra, se é ruim assim, vocês deviam ter cobrado a presença”.

O que penso sobre tudo isso é bastante simples: Natal, para mim, não é para ser massante. Não é para ser mais uma das obrigações dentre tantas normas que devemos cumprir durante a vida. Natal tem que cheirar a novidade, a vontade, a rompimento de paradigmas e a crescimento – seja material (recebendo os presentres – rs), seja espiritual. Natal tem que ser bom. Tem que ser gostoso. Tem que ser querido.

Nascemos numa sociedade fortemente cristã. E o que você vai fazer com isso?

Para esse momento, vale aqui o “Panis et Circenses” dos Mutantes para reflexão:


Mas vale também o John Lennon, meu queridão, representando essa história todos os anos:

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    É isso mesmo. Assim é o Natal. Comemoração, revisão, reflexão. Belo texto sobre a solidão e sobre os tesouros que se extraem de momentos tão fortes e puros.

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