Relato gay – Encontro com ex-namorado


No sábado reencontrei meu ex-namorado. Passamos uma tarde muito boa, com direito a passeios pela Paulista para ver os videogames da nova geração, um sorvete no Bacio di Latte na Oscar Freire e horas de conversa em sua casa depois de tudo. Algo como uma despedida de 2013.

A sensação de poder estar ao lado dele como amigo ou “brother” como ele vem intitulando no momento (rs) é boa. Reflete um pouco da ideologia – que foge da normatividade comportamental quando os casais gays ou heterossexuais separam – e do simples desejo de não perder um contato estabelecido há 4 anos, quando prevalecem os bons sentimentos formados na relação. Sei que é difícil, sei que uma grande maioria não entende o por quê de fazer assim ou vão buscar por quês psicológicos para justificar essas minhas atitudes. Eu prefiro compreender como uma tentativa e uma escolha, não pela necessidade de diferenciação do modelo, mas por algo que vem da vontade.

Nessas horas e como comentei em posts anteriores, não dar brecha agora para situações ou pessoas que passem a sensação de substituição é necessário até que ambos já estejam preparados para, naturalmente, lidar com a realidade de que, com o fim do namoro, outras situações e pessoas possam entrar em nossas vidas.

Toda conversa estava muito fluida e gostosa. Amistosa. Sei que ele iria para o Rio passar o Reveillon, em convite de última hora.

Em certo momento ouvi uma frase que poderia ser chocante em outra circunstância. Muito sério e convincente me diz: “hoje não sinto a mesma coisa por você. Não ficaria mais com você”. Confesso que fora estranho ouvir isso, mas ao mesmo tempo, um tipo de alívio pairou dentro de mim, no sentido de que estava superando e poderia dar sequência a vida sem ficar preso ao idealizado de nossa relação que terminara.

Esse e outros argumentos me deixavam a vontade. Em determinado momento resolvi perguntar se ele já tinha ficado com alguém, contrariando a minha própria “máxima da substituição”, mas iniciando a partir daquele instante um exercício maior de desapego. Queria saber se ele estava resgatando sua autoestima, porque a mim é sabido que términos sempre mexem com isso.

Queria saber se estava superando.

A pergunta foi a “porta” necessária para que ele começasse a contar dos encontros, desventuras e experiências que estava se permitindo. Da busca de rever sua autoestima.

De novo, achei um pouco estranho. Mas pouco. O que prevaleceu foi um sentimento de carinho muito grande que me fez pensar: “ele vai poder crescer ainda mais”. Mais uma vez: desapego.

Naquele momento que falava, de suas histórias, tentativas, questões e “riscos” por meio de contato de amigos gays, na balada, na sauna, no Grindr, vinha em minha memória algo que eu ouvira há pouco tempo do namorado do Sammy sobre um dos valores cultuados na igreja Messiânica. Sobre a ideia do amor incondicional que “solta” o outro, que reconhece que esse “soltar” – de fato – aproxima de maneira muito mais autêntica ou espiritualizada. De um tipo de “amor superior” que exerce o desapego.

Não seria essa a minha busca atual – e cada vez maior – de um autoconhecimento, seja material ou espiritual? A conversa sobre esse valor em específico da religião messiânica veio em boa hora.

Foi aí que depois de alguns minutos ele levanta a mim os mesmos questionamentos, sobre as minhas aventuras. De imediato eu falo: “Não sei se você está preparado para ouvir dos meus ‘pulos’. O que acha?”. Ele reforça com firmeza (e muito sóbrio já que quem estava levemente bêbado era eu): “Eu acabei de te falar que não ficaria mais com você. Que não sinto mais nada por você”.

Aquela reafirmação, a mim, me deixou seguro para então falar das minhas desventuras.

Contei um pouco de tudo, sem a intenção de comparar ou quantificar. Sem a ideia de competir ou jogar na cara. Tive até hoje o extremo cuidado de até aqui, no MVG, não passar detalhes sobre as novas situações ou pessoas na minha vida solteira. Tudo pela intenção de poupá-lo das “substituições” por enquanto.

Quantas não foram as vezes que ouvi casos de ex-namorados pegarem essas informações para provocar o outro? Recentemente uma amiga sentiu – tristemente – tudo isso quando a ex escancarava pelas redes sociais o “bem estar” pelo término. Outrora, um antigo namorado sentava na mesa de bar com o “recém-namoradinho” e um amigo meu para também mostrar sua “felicidade”, pouco tempo depois que havíamos terminado. Na grande maioria das vezes fazemos assim. Queremos mostrar que somos “felizes pelo término” por meio de “indiretas” e que o outro já não mais nos importa.

Mas essa é uma grande merda mundana. Um “foda-se” regado de mentira.

Tudo parecia muito bem até a hora que fomos jantar. No restaurante, de súbito, seus olhos começaram a marejar e rapidamente fugiu para o banheiro. Naquele momento eu percebia que, tristemente, ele ainda não estava pronto e que o discurso “não ficaria mais com você e não sinto mais o mesmo” era uma peça que ele mesmo estava se pregando, um “teste”. Fiquei triste, meus olhos encheram de lágrimas também, mas não havia mais o que fazer: as “substituições” deixaram de ser hipóteses e tornaram-se fatos.

Eis a peça, o teste que tantos se fazem quando a gente busca “cavocar” informações na vida do outro num ímpeto de curiosidade estúpida, da comparação, do controle que não controla, mas que são reações autenticamente humanas. Não é muito diferente daquela curiosidade quando há um acidente de trânsito a sua frente e as pessoas diminuem a velocidade para ver o que incomoda, o que não faz bem. O masoquismo existe, um pouco, dentro de muitos nessas horas.

Assumimos assuntos aleatórios a partir de então, o deixei em sua casa e parti para minha.

Claro que fiquei incomodado. Liguei e, de praxe, ele é bom para se expressar por mensagem. Desliguei e falamos mais alguns minutos por SMS.

Ele achou melhor me bloquear das redes sociais por um tempo e não me coloquei contra. Achei essa postura um pouco radical, principalmente da maneira que as pessoas entendem a influência das redes sociais na vida. Mas não acho que nem eu, nem ninguém deve criar caso por isso. É uma postura de respeito.

No dia seguinte, teria visita da minha ex-sócia, o marido e o filhote. Tive que conviver com aquele sentimento ruim e ainda cozinhar para meus amigos, como havia combinado há algumas semanas. Mas isso não é “mimimi”. Apenas um detalhe.

Infezlimente, não via a hora para que eles fossem embora e eu pudesse conviver com aquele sentimento, para entender melhor daquele desconforto dentro de mim. Convivi com aquilo algumas horas, até o anoitecer. E foi passando. Veio culpa, agonia, ansiedade. Um pouco de desespero e uma tristeza muito grande de magoar ou decepcionar a pessoa que me fez tão bem durante 4 anos. Um arrependimento de não ter seguido a intuição que disse: “não fale nada ainda”.

Sabia que quem pregou a peça foi ele a ele mesmo. Mesmo assim, difícil não se sentir também responsável. A situação, invariavelmente, pede para isso. Mas também, como ele comentou posteriormente, se não fosse isso, provavelmente haveria um outro motivo para gerar essa “crise”. Talvez.

Agora, sinto que o momento é de respeito e silêncio. E o Blog MVG mais uma vez me ajuda a organizar minhas ideias nesse “curva” difícil que entramos em nosso caminho em prol da amizade.

A mim, o mais ruim na situação é a sua decepção: “o MVG que foi meu namorado não é esse MVG catando ninfetos”. Não é fácil ouvir isso. Não é fácil se tornar, sem querer, o motivo de dor para uma pessoa que se tem tanto afeto.

Sigo firme em alguns sentimentos: “Sobre a ideia do amor incondicional que ‘solta’ o outro, que reconhece que esse ‘soltar’ – de fato – aproxima de maneira muito mais autêntica. De um tipo de ‘amor superior’ que exerce o desapego”.

Torço por nós, felizes, mesmo. Quem disse que felicidade vem sempre por caminhos esperados?

8 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    É muita luta essa do viver. Caindo, levantando. Sempre! Momento difícil, de luto mesmo. Uma palavra fora do lugar, lembranças e lágrimas. E o tempo, só ele pra curar, apaziguar e tranquilizar ambas as partes. Que fique e reste sempre a amizade entre os dois, fruto de uma bela história que não tem porque acabar e tenho dito.

  2. Caio disse:

    Por que será que ao ler sobre o que o seu ex disse, eu já meio que sabia que não era bem verdade na prática antes de terminar de ler o post rs?! Eu entendo como seja. Fico imaginando vocês se abraçando por um momento para consolar a situação, não como sendo um pulo para voltarem a serem namorados. Seria uma prova concreta da superação do fim da relação de compromisso, mas também uma afirmação do “estou aqui se precisar e boa sorte no(s) seu(s) próximo(s) relacionamento(s)” rs.

    Um ótimo Reveillon. Nossa, e fiquei me lembrando agora dos seus textos de final de ano escritos em 2012, tudo passou rápido demais. Enfim, que venha 2014 com mais mudanças positivas.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Caio!
      (está fazendo sucesso por aqui, hein? Rs)

      Tudo de bom em 2014 e trocamos mais ideias em breve!

    2. minhavidagay disse:

      Ah, e vc compreendeu sensivelmente minha postura. Espero que meu ex perceba isso depois de suas “tempestades”. It’s not easy….

  3. Caio disse:

    Eu fazendo sucesso? Imagina, quem sou eu…hehehe

  4. Sergio disse:

    Encontro com ex é sempre complexo………. confesso que lendo seu relato estava achando estranho e até estava invejando a naturalidade e a isonomia de ambos qdo falaram de suas vidas pós namoro, já que meus términos de namoro sempre foram com lágrimas, reflexões, vai e vem, dúvidas e até mesmo sentimento de pena. Quando você falou sobre os olhos do seu ex encher de lágrimas ai sim me senti até um pouco aliviado, pensei comigo: “realmente não é fácil pra ninguém”. O melhor remédio pra mim é não ter contato algum, nem por fumaça, pelo menos por um bom tempo (bom tempo mesmo, não é 1 ou 2 semanas), senão a coisa se arrasta e quando vc vê passaram-se meses e o dilema continua. É difícil para ambos, o que quer terminar e o que não quer (sim acho que são minoria os casos em que ambos concordam que não dá mais), mas tem que ser forte.

    Bom ano para todos que acompanham o blog!

    abs,

    Sérgio

    1. minhavidagay disse:

      Oi Sergio,
      penso o seguinte: o começo de um relacionamento é um processo e o término também. O “se arrastar” as vezes é necessário e vai depender exclusivamente das partes envolvidas, de como entendem isso, se é que entendem como “se arrastar”. Os dilemas as vezes parecem continuar pois é assim que o casal prefere fazer pelo simples fato de não entenderem como um dilema.

      Já tive um bom punhado de relacionamentos longos e, consequentemente, terminei algumas vezes. Cada um teve um jeito diferente de terminar pois os envolvidos fizeram histórias diferentes no começo, durante e no fim.

      Hoje, tenho contato com alguns deles e com outros não. Mas depois de ter passado por essas experiências, afirmo que não é o jeito que se termina que vai garantir um recontato ou não. Mesmo porque términos são doloridos de qualquer jeito.

      Os relatos colocados aqui refletem a vibe de um casal, sob o ponto de vista de um deles (eu – rs), mas traduz em certa medida o ideal de ambos, a intenção de formar uma amizade, preservar a parceria, o companheirismo e o afeto. Isso foi conversado algumas vezes e ficou claro que ninguém queria “se abandonar” até então.

      A sensação de arrastar e protelar não é propriamente um erro. Mas é a maneira que naturalmente resolvemos fazer agora, até que se entenda como “arrastar”. Pode ter um pouco de esperança, de falta de jeito ou pouca racionalidade. Mas acima de tudo isso, tem o timming ou o jeitão do casal, até no término. Tem a experiência de descobrir partes da gente que a gente não gosta sempre de reconhecer.

      Outrora pensaria como você. Hoje não mais pois mesmo dando o tal “corte seco sem sinal de fumaça” a gente não tem o controle sobre as atitudes do outro.

      Acho que não existe uma regra: cortar, sumir por um longo tempo vai garantir o quê? Ou melhor, o que se quer garantir? Depende muito do compasso dado por ambos, das intenções de ambos e não tem propriamente um erro.

      Tem o idealizado do que era que tem que se desfazer, o exercício do desapego, o aceitar, viver o luto, o se conformar e se abrir para o mundo sem mais a companhia que era garantida. Nisso, são tantos sentimentos, tantas maneiras de lidar…

      Tenho certeza que se o corte viesse abruptamente, como você faria, o sofrimento nesse caso seria muito maior. Do jeito que estávamos fazendo foi um acordo, até o ocorrido, que também veio natural ou sem o propósito de machucar. Cair a ficha é bastante duro, mas também é o que nos fortalece depois. Para quem passou por isso, sabe bem como é. Antes cair a ficha no olho no olho do que falado com viés por outros. Tenho um certo bode dos outros se envolvendo nesses momentos.

      Términos nunca serão plenamente amigáveis e nunca será desse modo ideal de ambos estarem entendendo o término do mesmo jeito. As pessoas são diferentes. Mas cada relacionamento cria sua dinâmica e, para se “desrelacionar” o jeito também é bastante particular.

      Mas sem fórmulas, sem regras. “Corte seco”, pra mim hoje, é só uma opção para levar um término. “Corte seco” parece ser um lance racional demais para algo que não funciona bem com racionalidade. “Corte seco” tira a humanidade da história e arrisco a dizer que nos enrijece.

      Por isso digo: quem constrói um relacionamento é um casal. Quem destrói são ambos também. Mas como fazer, não se limita a apenas uma única fórmula mágica.

      No final, vale o tempo e as intenções mais profundas. O difícil é ter clareza das intenções quando há um “teste” e o desapego de um gera a amargura do outro. Mas aí, o tempo de novo dá um jeito.

      Hoje a mim, ser forte num término não é racionalizar. Ser forte é aceitar, assumir a dor, vivê-la e entender que essa dor não nos diminuiu perante ao outro ou perante a sociedade que, de alguma maneira, vai cobrar que você esteja radiante!

      Abraço,
      MVG

  5. Pablo disse:

    Estou passando por isso agora. Na verdade já acabou há 4 meses, mas é muito difícil superar, é um luto! tivemos alguns encontros, geralmente com outras pessoas junto e não foram muito bons. Aí tem a questão financeira, que não agradou a ele, pois tínhamos coisas em comum, temos uma cachorrinha também, que ficou com ele. Essas pendências estão atrapalhando ainda mais a aproximação. Ele parece estar melhor do que quando estava comigo, mais bonito, mais alegre, com mais amigos. Fico feliz por isso e quero estar perto dele, fazer parte dessa nova vida como amigo ou continuar pelo menos a parceria. Mas estamos nos afastando cada vez mais. Fico muito triste por isso, não consigo e não quero aceitar a ideia de ter de apagá-lo da minha vida. Ele é uma pessoa muito seca comigo. Desde quando ainda estávamos juntos e ele não gostava mais. Aí como tínhamos de resolver coisas do interesse dele, ele me tratava bem. Totalmente bipolar, ou interesseiro. Mas enfim, amor incondicional! Não quero voltar com ele, apenas manter a amizade e parceria.

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