Relato gay – Tour da virada

Daí que resolvi passar o Reveillon desse ano com meus pais, assim como fiz no Natal. Creio que seja mais de uma década que não fazia assim e que foi oportuno, nesse momento que meu irmão está mais longe e tenho vivido um equilíbrio importante junto a minha família.

A ceia foi mais farta do que do Natal, pelo menos com uma sensação mais “colorida” (talvez pelo fato de dessa vez não ter o impacto da ausência do meu irmão, já que as festas de ano novo sempre ficaram convencionadas que cada um partia para um canto) e num ambiente novo que é o apartamento em que meus pais mudarão futuramente. A vista dos fogos foi bem interessante. Pela janela pudemos ver 180 graus de São Paulo, sem barreiras e mirado na Avenida Paulista.

Até dar meia noite, enquanto meu pai já cochilava no sofá, fiquei de prosas longas com a minha mãe, naquele clima de falar sobre a vida, expectativas e o que me tem feito feliz hoje. É um ano que gostaria de trabalhar menos e ter mais autonomia, por exemplo, de poder partir para Paraty numa sexta depois do almoço e voltar somente segunda a tarde. Enforcar alguns dias assim, sem deixar de cumprir com a parte que me cabe na empresa, é uma intenção para esse ano. São 14 anos em 2014 levando por rédeas firmes e, no momento que deixo a “casa” mais organizada, acho que poderei soltar um pouco.

Imaginava que ficaria apenas nas cervejas encorpadas e nos bons vinhos por lá e depois viria direto pra casa para me conectar no Netflix. Mas um amigo me chama para dar um pulo em sua casa para comemorar mais um pouco com ele, com sua esposa, o micro “cachorro de dondoca” (um dos poucos que eu gosto) e com os papos embriagantes dignos para a ocasião.

Curioso como ontem e hoje, ao contrário do Natal, os tais apps de relacionamento apitaram muito mais. Notei que muita gente deixou (mesmo) para última hora o momento da virada e buscava cia. Notei também combinados que descombinaram nos 45 do segundo tempo.

Logo que cheguei na casa de meus amigos, o celular apitou e o vizinho ao lado que me viu entrar, me chamava para sair. Vergonha, desconforto (rs). Estava na casa dos meus amigos para curtir a noite e idealizar alguns planos em conjunto, para 2014.

Os papos foram longe, regados a whisky Double Black, o mesmo que havia trazido de presente de NY. Estava trilili, como há tempos não ficava.

Lá pelas 4 da matina, com a cabeça menos pior para dirigir (nunca tive problema de dirigir bêbado – e isso não é papo de homem rs), resolvo me despedir da segunda parada da virada e idealizo minha cama.

Mas ao entrar no carro tive um insight: “não quero ir pra casa ainda”.

Assim, após postergar tantas vezes nesses meses meus rolês pelos guetos gays fervidos, depois que terminei meu namoro, resolvi dar uma espiada no movimento. Lembrei de ter ido uma vez para a The Week no dia do Reveillon. Mas lá não era um lugar que teria vontade.

Da última vez que procurei pela nova 269 (umas duas semanas atrás), lá no Largo do Arouche, rodei, rodei e não tinha achado. Pensei até que era um “sinal” que ainda não estava preparado para entrar na “penumbra com cheiro de eucalipto”. Hoje, pelas 5 da madrugada acontecia a mesma coisa: rodei, rodei, rodei e rodei mais um pouco e nada daquela tranqueira! Mas acho que o efeito do álcool me encorajava.

A praça ainda estava bastante movimentada e me senti seguro (também pelo efeito do álcool) de parar meu carro na rua e fazer minha busca a pé. Pergunto para um e para outro sobre o número 610 do Aurouche. Mas quem disse que as numerações do centro velho de São Paulo são organizadas? Quem disse que as pessoas sabem? Nem porteiro de prédio sabia direito.

Fiquei mais de uma hora no rodar de carro e no caminhar meio cambaleante da cachaça. De repente, “610 piscando a todo vapor”! Depois de tanta insistência era inevitável a sensação de alívio.

De praxe, troco uma ideia com o recepcionista: “Aqui cabe 350 pessoas, mas está com… deixa ver aqui… 180 pessoas. E afirmo que são bonitas!”. Poderia ser o velho truque para encher a casa. Mas eram bonitas mesmo.

Ritual: guarda-roupa, tira a roupa, toalhinha e chinelo.

Logo notei que nessa nova 269 os armários do vestiário abriam e fechavam de maneira eletrônica. Da última vez que tinha entrado em tal lugar (na antiga casa) – curiosamente no dia que apresentei uma sauna para meu ex-namorado (que na época era amigo) – tive a façanha de perder o cadeado!

Estava muito apertado precisando descarregar as cervejas, os vinhos e o whisky, depois de horas naquela busca por um pouco de “zueira”.

Logo perguntei para um dos clientes onde ficava o banheiro. Cara de uns 40 e poucos anos, magro e um pouco peludo. Ele me mostra e em seguida noto ele vindo atrás de mim. Passou alguns minutos nessa perseguição, até a hora que “saca a jeba” para fora, já no andar da pegação, e pede pra eu segurar. Primeira situação de preguiça tremenda, ainda se fosse alguém que me atraísse. Mas assim percebia que a brincadeira estava começando.

O fato do lugar estar relativamente vazio foi bom no final. Tinha espaço para andar e, como era a minha primeira vez, pude transitar por todos ambientes e conhecer em detalhes as partes. O conceito, em relação à antiga 269, continua o mesmo.

Acho que nunca entrei tão à vontade numa sauna antes. Deu um leve frio na barriga depois que o recepcionista me indicou a entrada, mas no mais foi de boa. De boa até a hora da ressaca, no calor da sauna, começar a bater. E daí, invariavelmente, vinha aquela dor de cabeça. Mas entrei num “foda-se” e comecei a circular.

Muitos caras bonitos, de corpos bonitos e pensava comigo que – mesmo sendo uma “balada” no Centro, a reputação da antiga 269 devia chamar a atenção do mesmo perfil. Achei também as pessoas bastante atiradas e animadas. Provavelmente pelo “climão” de ano novo, todo mundo querendo começar “bem” o seu ano.

Não fiquei com vontade de transar com ninguém, embora os quartos estivessem disponíveis for free. Mas, para a tal da autoestima, o único “japonês sarado” fez um certo sucesso. Não fiz muito esforço para que as possibilidades viessem até a mim, para que eu pudesse – inclusive – selecionar. E o truque foi ficar em algum ponto mais claro no puro exercício de exibicionismo de lugares como esses. #ficaadica.

Beijei e peguei alguns, talvez 10, nessa facilidade que pairou dessa vez. Não acho que seja assim sempre. Depende muito das pessoas e – principalmente – de sua própria vibe. Eu estava seguro, a vontade e tranquilo. Minha libido inclusive estava bem média (rs) o que tira aquela ansiedade nessas horas.

Duas situações ficaram na memória: a primeira de um menino de São José dos Campos que resolveu trocar ideias, perguntar “RG”, ficha técnica e “perfil do Facebook”. Preguiça um pouco grande de ter prosa séria naquele momento. Depois de uns 5 minutos não aguentei, estiquei a mão e me despedi ouvindo: “Parabéns, você é um japonês muito lindo”. Tapa no ego.

A segunda diz respeito a última ficada. Para o meu gosto, talvez fosse o rapaz mais bonito e gostoso da balada. “Cara boa”, corpo todo certo, barriga certa. Boca e beijo perfeitos, com encaixe. Uma bunda dura, de encher as mãos com prazer. Uma pele delícia, o toque e uma boca gostosa de novo. E uma pele delícia de novo. Beijamos forte alguns minutos. O encostei na parede para tal e, nisso, os “papas japas” vinham passando a mão na minha bunda – rs.

Depois dos minutos o rapaz sugere pra gente entrar na cabine. Recusei. Ele: “de boa, fica sussa”. Me tascou mais um beijo e foi, olhando pra trás e desaparecendo na escuridão do corredor. Quase romântico esse “olhar pra trás”. Quase.

Precisei tomar um ar. Estava bêbado, “ressaquento” e sem fôlego. Desci para o bar, peguei duas águas e aproveitei e troquei uma ideia com o rapaz do bar, sem interesse de xaveco, mas nessa minha coisa de querer conversar. Falávamos das horas, que estava amanhecendo e que fazia alguns bons anos que não via o sol raiar daquele jeito.

Pude ouvir de longe: “olha que japa delícia, vem cá” com aquela entonação rasgada que a gente sabe qual é. Motivo para minha graça e para a graça do bartender.

Para todos os peguetes, exceto o de São José dos Campos que preferiu me entrevistar, não quis saber de nome nem documento. Está sendo importante pra mim viver essa fase totalmente descomprometida. E, a mim, sauna tem mesmo é descomprometimento. E tem um “mito” também das orgias, da sujeira, do animalesco. Mas reafirmo porque lembrei na prática hoje: quando não se está a fim de fulano ou de algum situação de orgia, basta uma recusa que as pessoas respeitam. O quarentão foi meio insistente. Cruzava pelos corredores e ele tinha que “vir com a mão”. Mas bastou não encanar.

Ritual: guarda-roupa, põe a roupa, fila pra pagar e rua.

A luz já fazia sua presença no famoso Largo do Arouche no centro velho de São Paulo e, graças a Deus, meu carro continuava por lá!

Apesar de todos os fatos, não houve ressaca moral.

6 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Ei MVG, já vi que foram boas suas entradas. É o exercício do contraponto entre a solidão e reflexão e a saída súbita, uma dialética razão-emoção, yin-yang, bem de sabor oriental diferentemente da cultura ocidental que prega um esmagamento de um lado pelo outro e não uma harmonia dos opostos. Só lembrando, da próxima vez pega um táxi “japa sarado”. Abraço,beijo.

    1. minhavidagay disse:

      Rs rs rs… Vou pensar sobre o táxi!

  2. Caio disse:

    Ahh seu safadão. O blog está entrado na fase “contos eróticos” rs Querendo dar um pouco de inveja né rs.

    As saunas daqui são bem o oposto das daí. Pelo que vi dos vídeos que fizeram dos locais e dos comentários de quem foi, o público que as frequenta não me interessa mesmo. Fico imaginando a sensação de entrar num lugar assim. Mesmo você que já tinha frequentado e agora mesmo com um pouco de álcool nas veias teve aquela sensação de insegurança ao entrar no estabelecimento. Se soubesse que encontraria algo interessante lá sentiria isso ao mesmo tempo que teria uma sensação de prazer muito grande (o mesmo que sentimos quando damos o primeiro beijo: é insegurança, aflição e tesão ao mesmo tempo kkkkk).
    É nessas horas que vemos como é bom ser gay XD

    Aproveite mesmo!

    1. minhavidagay disse:

      Ahahahah… sei qual é da insegurança + aflição + tesão. Coisa de jovem isso, hein? Eu sou “tio” agora, ahahah.

      Espero poder contar outros “contos eróticos”, mas sem exageros…rs. Sempre com um teor “MVG” de ser…rs.

      Bjo!

  3. Vinicius disse:

    Tenho uma curiosidade imensa de ver pelo menos uma foto sua MVG rs. O Blog continua ótimo como sempre.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Vinicius, tudo bem?

      Já pensei a respeito algumas vezes, sobre colocar uma foto minha na seção “Minha Vida Gay”. Consultei uns amigos a respeito também.

      Chegamos a uma conclusão: acabar com o anonimato do Blog e trazer a imagem do “autor” – por assim dizer – pode quebrar com o próprio propósito do MVG, que é focado nos conteúdos.

      Uma foto aqui poderia trazer “adoradores” e fetichistas pela imagem e teria gente “babando ovo” não pelas ideias mas pela atração.

      Não gostaria de receber mensagem e e-mails de paqueras pelo MVG. A não ser que vindos de um “tesão intelectual” e sem compromissos.

      Por outro lado, essa mesma foto invariavelmente vai trazer “decepções” para outros que, naturalmente, perderão interesse pelo Blog por eu não corresponder a uma figura idealizada.

      Não gostaria de afastar pessoas porque não se identificariam com a minha imagem, sendo que os conteúdos aqui é o que mais valem.

      Dessa maneira, o foco fica pautado nos textos e na imaginação de cada leitor. Como quando você lê um livro mas não sabe como é o autor.

      Talvez, em algum momento, eu acabe com essa “frescura” e dê as caras. Mas ainda não acho bom.

      Ok?

      Um beijabraço,
      MVG

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