Para fazer valer o amor

Me incluíram gentilmente numa “comunidade oculta” do Facebook chamada “Rice Queen”. Comunidade essa voltada para orientais gays e adoradores destes.

Lá existem posts curiosos e uma dinâmica descomprometida entre os seguidores. E foi aí que passando o olho na imensa timeline, de assuntos lançados por lá,  notei que existem alguns padrões de temas, e um deles é a dificuldade de se construir um relacionamento afetivo.

Alguns justificam essa letargia pelo fato de gays cansarem rápido, ou estarem mais atentos ao próximo da fila depois que rola de ficar ou até mesmo transar. Isso não deixa de ser uma verdade, mas não acho que seja argumento suficiente para justificar tantas pessoas idealizando relações afetivas, mas poucos conseguindo construir.

Já comentei anteirormente que a juventude de hoje (principalmente a partir da classe média) anda suficientemente descompromissada e ancorada às comodidades estruturais que os pais oferecem. Os aspectos bons de tudo isso a gente imagina e até mesmo vive: podemos nos formar, assumir carreiras, fazer viagens, intercâmbios e ter a garantia da estrutura material e emocional dentro de casa por longos e longos anos.

Para o crescimento individual, todo esse cenário funciona muito bem. Mas em muitos aspectos nos torna acomodados. Fica até bastante evidente que boa parte dos gays assumem uma postura mais passiva, da espera, do cara atitudinal que vai corresponder a boa parte das demandas e expectativas.

Já falei em alguns dos primeiros posts do “Minha Vida Gay” que, tanto no cenário gay como heterossexual, existe uma maioria no estado de espera e curtição. Mexemos um palito ou dois pelo outro e já achamos que estamos fazendo muito. Esse é um pensamento errado, que pode ter vindo de frustração ou de uma natural falta de estímulo.

Nesse mesmo contexto, um amigo (gay) lançou ontem suas “preces para 2014” na timeline, intitulando o post como “A gente quer amar”. Extraí um trecho como exemplo:

“A gente quer que alguém nos chame pra tomar um sorvete no domingo à tarde. E não importa onde, porque no final a gente só quer receber um convite.

A gente quer um curtir na foto do Insta, mas quer um comentário também, só pra mostrar que tem uma saudade gritando ali.

A gente quer receber uma dedicatória em forma de música, daquelas meio indiretas, mas que a gente tem certeza de que foi feita pra gente”.

Vivemos um estado de espera, aguardado que o outro se manifeste de múltiplas formas (isso porque extraí apenas um pequeno trecho de suas “esperanças”). Nos colocamos numa posição de passividade, aguardando que o outro faça alguma coisa.

Diante desse texto que teve mais de 120 curtidas e só reafirma a impressão que tenho de que gays e heterossexuais mais aguardam do que agem, eu quase comentei assim: “Desculpe querer gongar sua declaração de ano novo. Mas desse jeito, se você assumir apenas esse papel de ‘princesa’, vai ter que esperar o ‘príncipe’ sentado. É um tipo de filme que – se bobear – não vai durar nem as 2 horas de projeção”.

Mas resolvi não amargurar o rapaz – rs.

Será que somos tão especiais assim a ponto de afirmar o dever do outro em nos servir? As expectativas estão muito acima das realidades.

Estou bem longe de estar aberto para novos relacionamentos afetivos e (idealmente) duradouros. Mas digamos que já “varri” desse chão que é o ato de se relacionar por longa data e sei que essa postura passiva não dá liga. E o pensamento é bem lógico: no momento que a grande maioria está esperando, aguardando o outro correr atrás, realizar os desejos e “servir”, as chances de duas pessoas – nessa mesma expectativa – se encontrarem é enorme. Duas esperando algo que nem uma, nem outra conseguirão oferecer uma a outra.

A matemática é essa: não existe amor sem esforço, numa situação que se idealize privilégios de apenas uma das partes, num tipo de estado de acomodação e serventia. E se prevalecer o pensamento “eu já faço muito pelo outro”, se a mente entra nessa toada, as chances da soma se subtrair é total.

1 + 1 = 0.

Falo isso por experiências vividas. Para um relacionamento ser bem sucedido precisamos nos doar / dar ao máximo e – sim – esperar que o outro retribua. A construção de relacionamentos é de trocas frequentes. Quando uma das partes se acomoda, a chance de desandar é bastante grande.

Quando um espera que o outro supra as necessidades, demandas e carências, sinto muito, não tem nem como pensar em amor.

Como já falei, príncipes e princesas só funcionam bem nos filmes. O mundo real progride com atitudes. Tentativas, tombos e tentativas de novo. Desistências e acomodação não cabem nessa coisa do amor.

12 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Lima disse:

    Oi MVG,

    Fantástico!!!!
    Você, mais uma vez, mostrou-nos o caminho das pedras.
    Só falta pegar a picareta (no bom sentido rsrsr) e começar a quebrar o comodismo petrificado.
    Antes que você fale qualquer coisa, estou tentando, estou tentando.rs
    Abraços,
    Fernando

    1. minhavidagay disse:

      Muito bem, Fernando!
      E está tentando sim… pude ver recentemente…rs.

      Abraços,
      MVG

  2. Wicked disse:

    Acho que a dica dada se aplica não só a essa área no meu ver. Pretendo levar a dica pra outras regiões. Estava precisando dessas palavras, obrigado.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Wicked!
      Quanto tempo, mas não esquecido…

      Sim, essas reflexões devem ser levadas para mais de um campo da vida. Estudo, trabalho, amizades, relacionamentos afetivos, relacionamentos com pais, etc.

      Muito bem lembrado.

      Um abraço,
      MVG

  3. Gabriel disse:

    Concordo com o Fernando Lima. Estou tentando, e nos últimos tempos, parece que o processo para iniciar um relacionamento e até uma ficada não e’ tão grotescamente difícil como eu imaginava (ou seja, vc ser aquele que inicia e demonstra o interesse primeiro). Porém, confesso possuir este defeito mais grotesco ainda: a passividade. Desde que me assumi como gay, lá por 2011, o que antes era uma pequena solidão tornou-se uma angústia imensa. Senti que morria por dentro quando lia sobre casais gays da minha idade ou mais novos já namorando e transando, e me perguntava (e ainda pergunto) porque o universo e’ injusto e nunca me ofereceu um amor ou um carinho da maneira como vejo em histórias “reais” contadas em contos eroticos: sem esforço algum. Na minha opinião, o que gera a passividade não é’ a situação social, e sim a forma como todos nós, quando passamos a namorar, projetamos uma imagem para os outros de extrema facilidade, sem brigas e conflitos e pondo a beleza como o principal fator de atração. Ou seja, basta ser belo fisicamente, que dezenas de pretendentes cairão aos seus pés. Era o que eu pensava. E por isso, ninguém vinha. Você disse que já teve bastante sexo casual, mas não o teria se não tivesse ido a bares e locais gays ou usado a internet. Aliás, outro grande problema e’ que eu, um rapaz de 19 anos, ao ler o seu blog e os de outros gays mais velhos, quero ter a mesma experiência afetiva e sexual de vocês, com metade do tempo de vida. Nunca parei pra pensar no: “o MVG perdeu a virgindade com 22 anos, e eu aqui reclamando aos 17”. E isso gera uma angústia sem fim.

    Foi só quando comecei a sair um pouco mais e me arriscar mais na vida virtual, que a “bicharada” começou a aparecer. E agora, tem até mesmo uma que se diz apaixonada por mim. E eu, que sempre achei um fardo o esforço, ao invés de ficar feliz, não sei mais como reagir rs.

    E’, as coisas do amor são sempre complicadas, em qualquer idade. Mas a vida segue enfrente sempre, então não adianta ficar preso ao passado e reclamando. Vai demorar e ainda tenho recaídas, mas já estou aprendendo isso.

    1. minhavidagay disse:

      O mais bonito de tudo, Gabriel (recebi seu e-mail e vou te responder) é que você está TEN-TAN-DO! Saindo de sua zona de conforto e indo atrás do seus desejos.

      A velocidade para que as coisas aconteçam rapidamente é típica da sua geração. Vocês querem se sentir com uma sapiência extrema no menor tempo possível e o mais “gostoso”: não queriam ter muito trabalho! Rs. Tudo normal. Sua ansiedade / angústia é normal. A geração de seus pais produzem filhos muito parecidos nesse sentido, ou seja, todos vocês (ou muitos) são assim: “vamos ser donos do mundo porque nossas expectativas são altas”.

      Vocês se sentem especiais! ;)

      A grande crise acontece quando o olhar da realidade VS. olhar das expectativas não batem. Rola frustração e chateação. Normal também que, inclusive, faz parte da própria aquisição da sabedoria.

      Eu já nasci num contexto onde “a vida real” e “expectativas” caminhavam mais próximas. Diferente dos meus pais, quando as expectativas estavam abaixo (até) da realidade.

      Fazendo uma analogia boba, mas didática: para a geração de vocês, o “trailer” (teoria) é fantástico. Mas assistir o filme (prática) é mais “chato” ou “complicado” do que vocês imaginavam. Para a geração dos meus pais o “trailer” (teoria) era sempre médio ou ruim. Mas ao assistir o filme, muitas vezes saíam surpreendidos (prática).

      Bjo,
      MVG

      1. Wong Foo disse:

        Acho que nem todos estão na zona de conforto e sim sendo quem são.
        Não gosto de aplicativos de encontro e a sensação de “vender meu peixe”, gostaria de conhecer ambientes lgbts apenas por ser uma zona sem homofobia. O problema é que tudo gira em torno do sexo casual e rápido, e quem é simplesmente mais fechado acaba sobrando, pois hoje em dia o encontro espontâneo vem ficando cada vez mais difícil.

      2. minhavidagay disse:

        E Wong Foo, pra você, por que tudo tem girado em torno do sexo casual e rápido?

    2. Caio disse:

      O Gabriel disse tudo.

  4. Caio disse:

    Eu já fui um pouco destes “passivos” rs, que projetava na mente a espera por alguém bacana e que queria deixar ser levado. Mas hoje já mudei bastante e também procuro eu mesmo ir atrás e não deixar todo o trabalho para os outros, até mesmo porque muitos homens são lentos demais e sempre precisam de um empurrãozinho, caso contrário a situação não se desenrola rs.

    Ah MVG, desculpe se pareço chato, mas é que já estou meio incomodado com a demasiada exposição do termo “mesmo” que as pessoas vem usando de maneira inadequada, o que posso dizer que já virou até “meme” rs. E como você é um cara gente boa quero lhe propor esta correção XD. É que não se usa o advérbio “mesmo” para se referir ao sujeito na oração, mas sim os pronomes: deste, desse, daquele(s), daquela(s), -a, as,-o,-os, etc. E no caso do texto ficaria “…orientais gays e adoradores ‘destes’.”

    bjo

    1. minhavidagay disse:

      Ooook! Texto corrigido! ;)

      Valeu, Caio!

  5. Paulo disse:

    é um blog super bacana e com textos decontraídos e com linguagem de fácil entendimento… acredito que temos que agir e reagir se queremos algo e ver se aquilo se alinha ao que realmente queremos…

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