Relato gay – Transei um bissexual

Em 1910 (ou há uns 2 ou 3 anos atrás – rs) achava que bissexualidade era um estado de transição, da indefinição do gay que não conseguia se assumir como tal. Ainda acredito que existem gays que se apresentam assim, no puro e inconsciente exercício de segurança para a aceitação. Foi assim comigo, com Ricky Martin, com Elton John, com um punhado de amigos e ex-namorados. E imagino até que Cazuza, que se dizia bissexual, se estivesse vivo hoje seria um velho e bom gay frustrado pelos caminhos que o rock nacional e a MPB tomaram.

Mas depois desses 2 ou 3 anos, inicialmente pelos relatos obtidos de alguns bissexuais que aqui já se expressaram e mais recentemente por intermédio de um contato real pelo Grindr, tive a experência de transar com um jovem “que curte buceta, mas adora a pegada de um cara”. Foi assim que se definiu e foi assim que consenti.

“Não gosto de pensar em rótulos” – frase que ouvi dele também, muito comum e até clichê para quem vive nesse trânsito de homens e mulheres.

Nos pegamos, beijamos, transamos e – numa situação que eu ainda não queria penetrar em ninguém (sabe-se lá Deus o por quê, mas não me cobrei) – ficava a promessa de eu ser o primeiro cara a fazê-lo de passivo. Em seu imaginário, a ideia é que eu o pegasse em todos os cômodos da minha casa (rs).

Antes e depois da transa pude ter momentos de conversas. Principalmente depois. Algo que ele havia exclamado antes de deitarmos era que não gostaria que só rolasse o sexo, houvesse o gozo e tudo acabasse com um “passar bem”. Achei sua colocação interessante já que, pela minha inexperiência desses contatos por apps de relacionamento, jamais seria a minha ideia de rolar a foda e abrir a porta de casa em seguida para o despacho. Não saberia fazer assim.

Nesse momento, o menino comenta que suas experiências sempre foram muito frias nesse sentido. Rolava o sexo e “os caras” queriam logo ir embora.

O rapaz faz o perfil típico do “boy do Itaim”: topete, camisa polo, calça jeans e sapato moderno. Mas definí-lo como “boy do Itaim” apenas com esses atributos seria preconceito. Mora na Vila Olímpia, é filho único, se dá bem com o pai (que considera como “amigão”) e mãe, vive nos rolês naquela região, curte os encontros cachaçantes nos casarões dos amigos, estuda na Anhembi Morumbi, faz engenharia civil, não usa drogas, curte as loironas da praia, vai para Maresias e valoriza o Sirena. E, acima de tudo, se considera do perfil “boy do Itaim” – rs.

Disse que sempre teve um problema: namorar sempre com mulher grudenta. Logo perguntei se estava namorando e a resposta foi firme: “Agora não mais!”.

Tinha um jeito doce e gentil, apesar de uma voz grossa “de macho” e de um físico corpulento.

Sobre o sexo com as mulheres, apesar de gostar muito da tal buceta, acha o sexo muito suave e delicado demais, cheio de frescuras. Nos homens procura a pegada.

Ficamos umas 4 horas na cama, deitando e rolando por assim dizer.

Ao final, deitei na transversal e ele ficou sentado ao meu lado com a cabeça baixa meio que pensando na vida. Começamos alguns papos.

Ele: “Caralho, meu celular não pára de apitar!”

Eu: “Vê aí quem é. Vai ver que é a sua mãe te procurando”.

Ele: “Não. Disse a ela que iria na casa de ‘X’, que é quase seu vizinho aqui”.

Eu: “Ah, tá certo”.

Ele: “Quem tá chamando aqui é uma mulher que eu pego. É mãe de um dos meus melhores amigos e ele nem sabe”.

Eu: “Caralho…rs. E ela é casada?”.

Ele: “É… é um figurão da ‘emissora x’ e nunca está com ela. Quer ver a foto dela?”.

Eu: “Quero… nossa, mas é a típica ‘Susana Vieira’, velha feia mas montada – rs”.

Ele: “É… ela é conservadona. Tava me chamando pra gente transar. Era pra estar com ela hoje e estou aqui – rs”.

Eu: “Puta que pariu… seu pau anda sujo de buceta velha, então?!”

RISADA GERAL

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Sim, eu acredito que nem todos os bissexuais são gays enrustidos. Cada vez mais.

8 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Interessante ver como cada um em seu nível próprio de evolução tem uma porção de coisas a aprender/viver. Pelo menos vejo que não sou tão estranho… Sobre o bissexual, acredito que exista, seria o indivíduo intermediário da escala de Kinsey, entre o completamente hetero e o completamente gay. Acredito que a confusão que se dá em relação à orientação bissexual ocorre pelo fato de muitos gays devido ao estigma da homossexualidade e à homofobia internalizada começarem se declarando bissexuais para só depois chegar a a se assumir gays. Apesar disso, como vemos, o bissexual é um ser real e deve ser bem complicado se perceber dessa forma, principalmente para quem tem projetos de casal. Imagina um bissexual plenamente assumido e resolvendo namorar tanto um homem quanto uma mulher…nó cego…

    1. minhavidagay disse:

      Não deve ser tão simples… ou até é para quem é bissexual… vai saber, Le Beadle.

      Falo isso porque a dificuldade da dualidade talvez esteja mais para quem vê a orientação como algo unilateral. Como uma pessoa que nasce cega: a referência pra ela é aquela desde que nasceu. Não consegue se sentir com privilégios (ou não) de fato.

      Quem qualifica somos nós, que enxergamos.

      O mesmo para gays: sofremos por conta de uma pressão social que define a heterossexualidade como norma. Mas se não existisse essa norma, não haveria sofrimento.

      PS: Li seu e-mail, o texto em anexo e vou comentar em breve. Creio que você aguarda por comentários, correto?

      1. lebeadle disse:

        Correto. Aguardo mesmo MVG. Gosto de suas palavras, acompanho o espírito do pensamento.

  2. Gabriel disse:

    Nossa, 1910? Demorou tanto tempo assim para mudar de opinião? Você poderia ter aproveitado para pedir a opinião do pequeno Oscar niemeyer, ou contado a ele que a capital que ele um dia projetaria ferraria com 99% da população brasileira rs

    Eu acredito na bissexualidade. Tenho 2 amigos, um americano e um brasileiro, que são assumidos como bissexuais para amigos íntimos, e como um deles já transou e namorou com garotas, mas também já me pegou de jeito, eu acredito rs

    Depois de namorar uma menina por um mês, em 1909, mas algum tempo depois ter certeza que sentia desejo apenas por homens, contei a um amigo gay que talvez eu fosse bissexual. Mas felizmente está fase durou pouco, e logo tive certeza d minha natureza “viada”. Hj tds me conhecem como gay, e até se espantam quando, como já aconteceu algumas vezes, fico com garotas em festas. Eles não sabem que eu só faço isso quando n consigo arranjar nenhum homem (já tentei pegar alguns heterossexuais nas mesmas festas e sai com vida rs), mas eu prefiro ficar com uma menina a sair de festas me sentindo solitário. Beijar é’ sempre bom. Mesmo assim, jamais me verei como bissexual.

    Muita gente acha que a vida de um bissexual e’ fácil e cheia de oportunidades, mas na verdade é’ cheia de obstáculos, pois encontram preconceitos dos dois lados. Muita gente não se relacionaria com eles, em especial com os masculinos. Veja bem, o boy que transou com você não revelava essa parte para as namoradas. E quanto mais gays se assumirem como bi inicialmente, mais difícil a vida dos verdadeiros bi fica, pois todos, homens e mulheres, acham que eles são só gays no armário.

    Simpático o rapaz. Se eu morasse aí em Sampa já tava pedindo número rs então existem homens heterossexuais q gostam de mulheres mas velhas fora das novelas das 8. Bom saber rs

  3. Caio disse:

    Sinceramente, acharia um saco o cara estar ali com você num momento de intimidade, ainda que casual e dizer que já está de saída para ir pegar nada menos que uma mulher (não importando a idade rs). Como quem quer dizer “agora que acabei com você tô indo ali sair com o próximo ou próxima da fila”. Desculpe, mas achei ridícula a atuação do boy. Afinal não precisamos saber o que ele fará e com quem fará o que depois (falando por mim).
    Pode parecer preconceito e pode até ser mesmo, afinal não estive presente no momento em que a situação aconteceu, mas ele faz o tipo genérico do homem bissexual, aquele que só se envolve com outros homens para o prazer momentâneo, sejam eles gays ou também bissexuais (ou héteros né…sóquenão rs). Aí muitos depois reclamam que gays não curtem algo a mais do que a pegação, sendo que muitas vezes eles se limitam e não se deixam se envolver mais profundamente com os homens, deixando a relação de compromisso voltada somente para as mulheres. E o mais interessante é que os bissexuais masculinos muito dificilmente poderão ficar um longo tempo sem se pegar com outros homens (é como um gay ser casto, coitadinho XD). Então, ou a mulher libera ou vai ser complicado ou ele se casa com um homem.

    Ah meu caro, que tal hoje evoluirmos de um beijo para umas mordidinhas
    kkkkkkkkkkkkkkkk

  4. Caetano disse:

    Achei muito legal esse post, espero que vc se encontre com mais bissexuais MVG.

    Deve ser estranho transar com alguem que logo depois irá beber de outra fonte mas ao mesmo tempo deve ser uma ótima experiência para entender o comportamento sexual do homem ou de ‘individuos indecidos”.

    Se não me engano voce foi só passivo MVG? Caindo por terra a minha tese de que os bis gostam mais de serem passivos já que com suas mulheres eles ja fazem a penetração – apesar de que homem é homem, mulher é mulher – mas a IMPRESSÃO que dá é que eles preferem ser acarinhados, dominados por que é uma postura que não estão acostumados a adotarem.

    Mas pelo visto….:D

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caetano!

      Engano seu! rs… não tivemos penetração. Ele queria ser passivo comigo, mas não estava “preparado” ainda.

      De certa forma fui mais ativo na cama, mas não teve penetração.

      Sobre as preferências dos bissexuais, não há uma regra. Existem os que preferem ser ativos e outros passivos e isso também pode variar muito em relação a como se idealiza o outro parceiro.

      Abraço,
      MVG

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