Jovens gays e especiais querem namorar!


Esse post saiu num Blog das gringas e foi traduzido: “Porque os jovens profissionais da geração Y estão infelizes“. A ênfase é dada no âmbito profissional mas, a mim, é tranquilo fazer um paralelo quando as expectativas são relacionamentos e, mais especificamente, entre os jovens gays, respondendo um pouco mais a pergunta: “por que anda tão difícil encontrar um namorado?”.

Se o leitor do MVG estiver interessado no ponto de vista profissional, leia o texto que vale bastante a pena.

Nasci em 1977 e posso dizer que estou no “limiar” entre a geração anterior, a “X”. Mas invariavelmente tenho um pouco de “Y”.

Foi esse mesmo conteúdo que me embasou para escrever o post “Pra fazer valer o amor”, quando cito a relação entre “expectativa” e “realidade”. E achei interessante dar um pouco mais de ênfase sobre o assunto, abordando o universo do jovem gay e dessa percepção de sentirem-se “tão especiais” (como vocês vão encontrar no texto).

Não existe nenhum demérito ou comparação de uma geração a outra que faça uma ser melhor. Mas existem características e contexto de espaço e tempo que fazem o processo de formação e educação das pessoas serem bastante diferentes. Os jovens da geração Y se sentem especiais e essa ideia fica muito simples, avaliando a reflexão que colocarei abaixo ou lendo o texto sugerido. Vamos lá:

Meus pais (e os pais nascidos nos anos 50 e 60) são os Baby Boomers. Em sua grande maioria são filhos diretos de descendentes que chegaram ao Brasil e tiveram uma infância humilde. Meus avós, sejam os paternos ou maternos, não tinham estudos avançados nem formação (que não fosse técnico) e batalhavam severamente para dar o que hoje consideramos o mínimo: alimentação, vestuário, saúde e estudo.

Jovens que nasceram nesse contexto tinham, naturalmente, uma expectativa de crescimento material e intelectual mais baixa. Tudo era muito difícil, pouco acessível e se – as duras penas – conseguissem estudar e ter uma formação, já seria uma grande coisa.

E foi assim com meus pais, mãe e pai, que batalharam sob a responsabilidades de meus avós para conquistar uma formação. As expectativas ficavam sempre mais abaixo de um contexto real de possibilidades. O sentido de superação, resiliência, esforço e luta – para sair do que era básico (alimentação, vestuário, saúde e estudo) – era enorme. Viviam a ideia de que “cada ganho exigia um sacrifício” (ainda mais vivendo numa família de cultura japonesa, quando lembro claramente meu avô paterno falar sobre moral e sacrifícios na vida para conquistas). Parte de mim foi educada assim, mas isso é somente um detalhe para o post.

Os jovens de hoje nascem num contexto de mundo muito, mas muito mais acessível. E os acessos chegam até eles. Desde pequenos os jovens (gays ou heterossexuais) vivenciam um senso de poder maior, muito mais distante do que é básico. Com a abertura econômica que rolou no Brasil (pasmem) apenas a partir do governo do presidente Collor, passamos a ter uma diversidade de produtos muito mais ao nosso alcance: celulares, notebooks, tablets, tipos sem fim de calçados, marcas variadas de roupas, perfumes, carros, motos, televisores, alimentos, etc. Cursos de inglês, francês, espanhol, mandarim, alemão; aulas de natação, judô, musculação; MacDonald’s, Burger King, Bob’s, Spoleto, Girafa’s, e assim por diante. Imaginem que na década de 80 essas variedades não existiam em nosso país.

Sabia que um filme lançado nos EUA, tipo “O Hobbit”, chegava a demorar um ano para passar no Brasil?

E a grande maioria dos pais hoje, principalmente da classe média para cima, busca dar um pouco de tudo isso para seus filhos, num senso de contextualizá-los perante os “coleguinhas” (adequação social mesmo) e sobre um “tabuleiro de jogo da vida” que inclui essa diversidade de acesso.

Assim, os jovens de hoje nascem munidos de recursos muito além da alimentação, do vestuário, da saúde e do estudo. Ainda pequenos, praticam esportes, fazem cursos de línguas, ganham celulares, tablets ou notebooks; tem acesso intenso ao mundo gigante da Internet, viajam para a Disney, podem reservar pousadas na praia com amigos e alguns, de pais mais apoderados, com 18 anos, obtém seus carros, podem fazer intercâmbios e desenvolver especialidades profissionais num “mar” cada vez maior. Na época dos meus pais – quando jovens – as opções de formação eram poucas: engenheiro, médico, advogado e professor. Basicamente.

Nesse contexto, onde há tantas oportunidades que os pais, escolas e instituições entregam para seus filhos, desde pequenos, os jovens se sentem “poderosos” quando tudo isso (e mais um pouco) chega com certa facilidade. São “treinamentos”, cursos, intercâmbios, diplomas, títulos, presentes… o ego do jovem vai crescendo e acaba se sentindo, porque não, ESPECIAL.

Porém, passivos quando o assunto são os realcionamentos. Quando tudo isso e mais um pouco chega e não existe propriamente a necessidade de se batalhar para a conquista (no máximo, algum tipo de negociação intimista com os pais provedores), não há propriamente um senso de “sacrifício”. E amor, minha gente, exige bastante daquilo que a gente não aprendeu até então.

Daí vem a pergunta básica: no contexto que um jovem gay deseja outro jovem gay para algo mais sério, como faz?

Se espera. Mais se espera do que se corre atrás. E quando se corre um pouco atrás, se percebe o trabalho que há para seduzir, para conquistar, num tipo de vivência que não se aprende em cursos, escolas, intercâmbios ou pós-graduação. Num tipo de experiência que raramente os pais terão as respostas certas (principalmente se o filho é homossexual). Fora as relações emocionais envolvidas, os sentimentos e as expectativas que nos tiram um pouco da razão e que foge totalmente do modelo.

É nesse contexto que digo, novamente, que o ato de amar alguém – para se formar um par sólido – exige esforço e mais: não se ensina em sala de aula. Ninguém (nem pais) vai chegar com o método pronto, com os módulos detalhados e, muito menos, chegará como um presente que – basta desempacotar – e sair jogando. Não haverá ninguém para dar nota e qualificar o desempenho.

Sob esse ponto de vista está aí um pouco mais do por quê das pessoas terem tantas dificuldades para construirem um relacionamento mais duradouro hoje em dia. No post “Pra fazer o amor valer” eu lancei reflexões que chegaram numa natureza mais passiva. Nesse, reflito um pouco do por quê de ser assim: passivo em relacionamentos.

Criamos sempre mais expectativas no outro em servir. Afinal, somos educados desde crianças que as pessoas (pais, escolas e demais instituições) estão lá para vir até nós e nos preencher de alguma forma.

Bem ou mal, a sociedade hoje (principalmente os pais) entrega na mão dos jovens um senso de poder que, ao meu ver, não é lá sempre tão bom assim.

Nos sentimos muito poderosos e especiais mas individualizados.

Para aqueles que querem construir um relacionamento duradouro e efetivo, estão aí as dicas. É necessário praticar, se esforçar, batalhar. Mas sem esperar que um “instrutor” venha dar dicas e notas. O senso de “desempenho”, por assim dizer, deverá ser contruído com você e você mesmo.

7 comentários Adicione o seu

  1. junior38 disse:

    O problema é que esse mesmo sentimento invadiu a geração X tbém, meu amigo…Pq tá difícil de achar alguém que queira mesmo algo sério, viu? Tenho 39. Desde os 32 na busca, mas….. Com certeza há outra teoria que explique esse fenômeno!

  2. L.Jun disse:

    “Porém, passivos quando o assunto são os relacionamentos. Quando tudo isso e mais um pouco chega e não existe propriamente a necessidade de se batalhar para a conquista (no máximo, algum tipo de negociação intimista com os pais provedores), não há propriamente um senso de “sacrifício”. E amor, minha gente, exige bastante daquilo que a gente não aprendeu até então.” (…) ” Se espera. Mais se espera do que se corre atrás. E quando se corre um pouco atrás, se percebe o trabalho que há para seduzir, para conquistar, num tipo de vivência que não se aprende em cursos, escolas, intercâmbios ou pós-graduação. Num tipo de experiência que raramente os pais terão as respostas certas (principalmente se o filho é homossexual). Fora as relações emocionais envolvidas, os sentimentos e as expectativas que nos tiram um pouco da razão e que foge totalmente do modelo.”

    A partir desses trechos, gostaria de tirar algumas dúvidas sobre relacionamentos, sejam eles firmes ou passageiros. Acabei de assumir que sou gay. Com isso, venho o desejo de experimentar novas sensações e experiências. Uma delas é beijar vários caras “no escurinho do cinema”, até porque gosto de ir em baladas. No entanto, acompanhado a isso, está a insegurança para a realização disso: talvez seja porque não sigo o padrão de beleza que a maioria dos gays tenham como ideal ou atrativo, ou muitas vezes por eu ser japonês, além de tentativas frustradas, ou até mesmo a minha personalidade introvertida. Nada contra relacionamentos mais sérios, mas na fase que estou, quero vivenciar diversas experiências, mas por enquanto não desejo nada firme. Mas o que mais me aflige são os momentos em que vejo oportunidade de saciar tais desejos mas não consigo. Num âmbito mais profundo e psicológico, parece que não sou aceito como sou perante os outros, dando um aspecto até de rejeição.

    Por mais curioso que possa ser, a vida nos dá certas lições inesquecíveis, mas que ainda insistimos em não aprender. Uma delas foi esperar, pois esperando podem vir fatos inesperados. Foi assim com meu primeiro beijo, tanto heterossexual, quanto o homossexual. Porém, por teimosia, insisto em ir pelo lado oposto, tentando “caçar” com minhas próprias mãos, para depois me arrepender de não ter alcançado nenhum resultado… Mesmo perguntando a outras pessoas o que acham de mim, dizendo qualidades, por eu ser alto e magro etc… Isso não faz melhorar o ego de ninguém ( isso não desprezar elogios de ninguém!) , apenas deixa-nos mais confusos sobre nós mesmos… É isso.

    1. minhavidagay disse:

      Olá L. Jun!
      Tudo bem?

      Muitos questionamentos, hein? Vou tentar ajudar a te esclarecer por partes. Como você bem sabe, não sou psicólogo, mas sou um observador. Tenha então meus questinamentos abaixo apenas como referências e não como referências absolutas, ok?

      Vamos lá:

      – sobre você gostar de curtir um “escurinho no cinema”, muito bem. Nada contra e boa parte dos jovens gostam do mesmo. Continue com essa vontade, desde que não vire uma compulsão, uma obrigação ou um vício! Baladas devem ser um plus na vida, dentre outras diversões possíveis;

      – você lança duas afirmações: que talvez não siga um padrão de beleza, do ideial e o sentimento negativo de ser japonês. Daí vem a pergunta: até que ponto ambas afirmações não se interseccionam? O quanto será que você não se sente inferiorizado por ser japonês e, consequentemente, não se sinta nesse tal padrão? Note que a grande maioria das pessoas não são modelos ideais / padrões de beleza. Existe uma grande diversidade física nas baladas e você é somente mais uma delas. Existem dezenas de pessoas dentro da mesma balada que se atraem por orientais. Não seria, então, essas duas afirmações frutos de um mesmo autopreconceito?;

      – Quando você diz: “num âmbito psicológico parece que não sou aceito como sou perante os outros”: será que você não é aceito (externo) ou você mesmo não se aceita por “fantasiar” que não faz parte do padrão (interno). Algo me diz, de novo, que seu autopreconceito acaba definindo as percepções alheias sem mesmo saber se isso é real. Numa situação de uma balada com mais de 300 pessoas (ou mais) é praticmanete impossível alguém não se sentir atraído por você. Lembrando que os “padrões de beleza” estão mais na nossa cabeça. Por experiência própria, gordinhos, altos e magrelos, peludos, maduros, entre outros foram dos padrões de beleza – todos – podem ter algum sucesso na balada no momento que existe a autoconfiança;

      – Dúvida: quando você está na balada e alguém te olha, mesmo que você não se sinta atraído, você retribui o olhar? Ou rapidamente se sente intimidado e abaixa o olhar ou vira o rosto? Já experimentou retribuir olhares mesmo para aqueles que não te chamam tanta a atenção para ver o que acontece?;

      Esperar pode ser algo bastante louvável, desde que você não esteja esperando por puro exercício de frustração, por achar que “atuar” não traga resultados. A espera é válida quando se está em paz com a própria condição de espera e não no aguardo de que algo aconteça. Acho bastante válido atuar quando você deseja que algo aconteça, mesmo que se tome um fora ou que as coisas não saiam do jeito que se espera.

      Para isso acontecer, é importante sua autoestima estar “no lugar” e ter a consciência de que nem todas as investidas geram resultados esperados. A não ser que você fosse um “padrão de beleza” e, mesmo assim, nem sempre a pessoa desejada te enxerga com tal! Percebe a relatividade do “padrão de beleza”?

      É importante você olhar para um “espelho” e se questionar: eu me enxergo real ou eu me enxergo sobre os critérios do que as pessoas dizem que é real?

      O papo é bastante subjetivo mesmo. Mas só assim você trabalha a relação do seu consciente VS. inconsciente que, acredite, nos influencia a todo momento!

      Qualquer coisa me escreva mais.

      Valeu,
      MVG

      1. Lucas jun Watanabe disse:

        Gostei muito da resposta! Fez-me refletir muito sobre algo que estava invisvel dentro de mim: o autopreconceito. O preconceito que tanto batalho a cada dia para excluir de minha mente e assim aceitar as diferenas. s vezes, a gente merece tomar um tapa na cara e perceber a realidade que nos cerca… Foi isso que ocorreu, e, talvez, um dos tapas mais bem dados a mim na minha vida. Realmente, a questo da beleza algo to subjetivo, que mascara ns mesmos, criando iluses e fantasias, ou, deformidades, fazendo de ns um rob que s segue as ordens dessa nossa prpria armadilha. Por falar nisso, antes de responder a este post/email, vi um vdeo muito bom que relata exatamente essa questo, principalmente como a sociedade nos enxerga e como ns nos enxergamos. Aqui est o link: http://www.socialfly.com.br/videos/18-2-pessoas-descrevem-a-mesma-mulher-para-um-artista-o-resultado-final-vai-te-fazer-refletir-eu-prometo. Apesar de falar sobre mulheres, esse tema pode ser tambm visto pela tica masculina, uma vez que para assuntos relacionados diretamente ao ser humano, no importa o sexo/ gnero da pessoa.

        Voltando s reflexes anteriormente ditas, levar tempo at que eu destrua esse autopreconceito dentro de mim, mas no desistirei de alcanar esse objetivo. Como disse uma das participantes, ” eu tenho um trabalho a fazer comigo mesma.” E assim seguirei a minha vida.

  3. Lulu disse:

    Geração Y – Uns dizem que é a partir de 1977, 78, outros 1980 :/ Vá entender…
    http://www.pucsp.br/estagios/entendendo-geracoes-veteranos-boomers-x-e-y

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lulu!

      Geração Y começa por volta de 1980. Ter uma data certa é errado pois essas mudanças são processuais. Quem nasceu em 1997, como eu, tem um pouco de X r um pouco de Y.

      Quem escreve sobre o assunto, coloca o começo dos anos 80 como o marco inicial da geração. Mas não tem como dizer que, quem nasceu no final dos anos 70, também não pegou alguns aspectos dos Y.

      Acho melhor não se prender a uma data específica, mas a um período.

      Abraços!

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