Minha Vida Gay – Superando o autopreconceito

Autopreconceito. De certa forma todos nós temos algum, seja o pau torto, aquela pinta no rosto, a magreza, os cabelos que não são volumosos, os pêlos, o tom da pele, a altura e assim vai. Até os belos têm aquela insatisfação com algo que pode ser uma ponta ou um poço de inseguranças. A gente acha que não, mas tem.

Entre os gays isso não seria diferente. Homens tem uma natureza visual, de se atrair fortemente por esse sentido. Quanto mais um indivíduo se apega ao visual, maior a tendência de ser exigente (ou noiado) assim consigo.

O meu maior autopreconceito, como já relatei em alguns posts anteriores, era o fato de me sentir inferiorizado por ser japonês. A coisa de ser oriental, diferente dos padrões gerais do ocidente que predomina no Brasil, me enchia de inseguranças desde muito jovem. E foi assim, inconsciente por longos anos, coisa que fui superar (no sentido de superação mesmo) há aproximadamente dois anos, durante o último namoro.

Meu ex teve a mínima influência nos meus processos de rever essas questões de me achar um “japa gay” menos que os outros. Esse é um tipo de coisa que a gente resolve assim: “me, myself and I” – porque quem se sente inseguro por ser assim ou assado, por causa de uma pinta ou por ser japonês não são os outros. Mas é totalmente a maneira que enxergamos em nós tal “problema”.

Esse autopreconceito gerou até hoje algumas barreiras. Até então não tinha ficado com nenhum japonês ou mestiço. Há anos atrás o bloqueio era tanto que não conseguia me sentir atraído e achava que era aquela coisa – “simplesmente não me atrai” – e ponto. Mas com o tempo, o “ponto” foi virando “ponto e vírgula”, depois “vírgula” e me peguei atraído por orientais. Que coisa, não?

Sim, que coisa. A gente vive e percebe até mudanças desse tipo. Mais do que mudanças, eu diria aberturas, resoluções e permissões.

Quando me senti superado eu namorava. E, claro, não iria ficar caçando japonês para dar vasão a tal novidade na época (rs).

Daí, fiquei solteiro e – na mesma medida – não coloquei essa caça como propósito. Nem lembrava que poderia ser um propósito para falar a verdade.

Mas ontem, no “escurinho do cinema”, um menino chegou perto de mim. Naquela penumbra parecia o “Junior da Sandy” (rs). Ele me olhava e eu o olhava e a coisa esquentou. Fui até ele e logo beijamos. E beijamos mais, muito mais. Até uma hora que falei: “não consigo te ver direito”. Ele: “quer ir mais pro claro?”.

Nem acreditei quando vi: era um japonês e parecido com o “Junior da Sandy”! Mestiço para ser mais preciso, mas com nome japa e sobrenome também. Juro que ergui os dois braços assim: \o/ e disse: “Finalmente estou beijando um japa!”.

Moço novo, recém formado em desenho industrial no Mackenzie. Papo vai, beijo vem e foi o primeiro que eu dei as coordenadas para o Facebook depois que terminei o namoro. Fiquei empolgado com a situação, não no sentido de namoro sério, mas por que não de uma potencial amizade?

Não tenho super expectativas, mas nem quero pensar a respeito também. O ganho para mim está no sentido da superação: meu autopreconceito já não é mais o mesmo.

E realmente, esse foi o fato mais marcante até agora. Mas tenho que confessar que estar solteiro e ser um japonês gay – agora, bem resolvido por ser japonês – tem dado outras cores as minhas aventuras sócio-sexuais (rs).

Um cara, quarentão, chegou ontem também e disse assim: “com todo respeito, preciso dizer que você chama atenção”. Embora não fizesse meu tipo, dessa vez acreditei (ou tive um outro olhar para aquela cantada), sem achar que era um mero xaveco.

O post de hoje parece até um exercício de autoafirmação. E até é em certa medida (mas não me odeiem por isso). Mas vai além: é a clareza de que estou superando uma insegurança, um bloqueio que me conduzia para o mesmo caminho ou estado todas as vezes. E que em alguma medida (nem quero racionalizar qual é essa medida) me abre novas portas, novas experiências e – acima de tudo – uma satisfação mais ampla comigo mesmo.

O exemplo de exercício de autoconhecimento e de práticas por intermédio desse autoconhecimento está aí. Para o oriental gay (ou não) que quiser se referenciar.

15 comentários Adicione o seu

  1. Wicked disse:

    Que bom que superou, MVG.

    Em meu caso do preconceito e o autopreconceito, o meu choque disso tudo é a descoberta. O pensamento, uma frase, uma atitude, whatever, que eu faça sem ter a mínima noção do que eu esteja fazendo seja algo preconceituoso. Daí de repente aquele lampejo de consciência “Eu estou sendo preconceituoso”.
    Claro que vem aquela velha máxima que todo ser humano tem preconceitos, mas mesmo assim é duro lidar que somos tão… Sabe?
    Acredito esse lampejo ser o primeiro sinal pra futuras mudanças, se a pessoa o quer fazer.
    Outra coisa que queria falar é que eu, atualmente, não sei mais dizer o que é de meu/seu gosto preferencial do preconceito. A diferença. Qual a linha limite entre o que é preconceito do o que é gosto pessoal? Um cara não curtir japoneses, gays afeminados, negros, brancos, passivos, ativos,magros, musculosos… gosto pessoal ou preconceito???
    Voltando pra nós mesmos: nossos ditos defeitos. Seria meus considerados defeitos meus preconceitos comigo ou meu gosto pessoal sobre mim me falando o que não gosto?

    Freud explica? keekekekekeke

    1. minhavidagay disse:

      Oi Wicked!
      Preconceito é quando você reprova ou desgosta de algo ou alguém sem um conhecimento mais aprofundado ou a definição de um conceito mais amplo.

      Por exemplo, no meu caso, eu não curtia japoneses pois os rotulava mentalmente com um punhado de deméritos (que projetava de mim).

      Isso funcionou no plano do inconsciente por anos, até a primeira atracação por um, quando o aspecto estético da raça já não era mais suficiente em relação a outras características da pessoa.

      Deixei de projetar uma ideia preconceituosa e passei a conhecer na prática, superando uma primeira imagem ou um rótulo pré-estabelecido.

  2. Vinicius disse:

    Cara, eu tenho um autopreconceito comigo por ter algumas marcas de espinhas no rosto, isso me incomoda demaaaais, mas não me acho feio por isso, sou até bonitinhos rs.

    Quem tem olho puxadinho é outro nível haha.
    Um abraçasso.

    1. minhavidagay disse:

      Isso ai, Vinicius! :)

      Valeu pela apreciação!

      Um Abraçaço do tipo Caetano Veloso!

  3. Wong Foo disse:

    Nossa MVG, que cinema é esse? Cinema comum?

    1. minhavidagay disse:

      “No escurinho do cinema” foi um eufemismo, Wong Foo. Apenas para designar uma “balada” sem ter que dizer “balada”.

      Foi uma referência a uma música da Rita Lee chamada “Flagra”.

      “No escurinho do cinema, chupando drops de anis. Longe de qualquer problema, perto de um final feliz (…)”.

  4. Caetano disse:

    Acho que meu auto-preconceito está na minha monografia :D que até hoje não consegui concluir e ainda estou na peleja, lá vai mais um semestre….não aguento mais essa traça. Mas esse semestre sai, questão de honra!

    Oh Lord!

    1. minhavidagay disse:

      Ahahah… tá bom, Caetano!
      Já pontuei seus possíveis autopreconceitos naquela troca de comentários. Além da sua monografia. ;)

      1. Caetano disse:

        UUUUUUUUU

        Mas eu tô por dentro dos “preconceitos” homem. Como voce disse “quem não tem”?

        MVG…me tira uma duvida, ou mito, é verdade que japoneses têm uma forte atração por melanina?

      2. minhavidagay disse:

        Nossa… essa é meio nova, Caetano. RS

        Eu não costumo andar muito com japas (isso deve mudar), mesmo porque qdo eu tomo sol, fico moreno.

        Não sou branco a ponto de ficar um pimentão.

        Agora, se você quis dizer se japonês gosta dos negros, varia muito. Não acho que seja uma regra tal qual dizem que loiro(as) se atraem por negros(as) e vice-versa.

        Ainda, dependendo do nível de tradição da família oriental, existe um preconceito geral com todas as raças, que não a japonesa.

        Eu já fiquei com negros. Meu “ex-marido” era “mestiço”, de pai negro e mãe italiana.

  5. Caio disse:

    kakakakakakakakakaka, imagino como deve ter sido a cena de você levando um susto e ficando surpreso pelo cara ser japa.

    Bom, mas a verdade é essa mesmo, por sermos imperfeitos sempre sentimos que há uma vazio a preencher, algo a melhorar. De certa forma isso nos ajuda a não estagnar na vida e a evoluir, mas por outro lado podemos nos cobrar muito a ponto de comprometer nossa autoestima e até mesmo a saúde física.

    Herdei do meu pai o perfeccionismo. Sempre quero fazer tudo muito bem feito e me cobro muito. As vezes a pior retaliação por algum erro, mesmo que bobo, o maior castigo, é o meu mesmo. Eu mudei muito com a reflexão de alguns anos, mas ainda é preciso mudar mais um pouco para que isso não mais me afete negativamente.

    Em relação ao corpo, eu ainda quero mudar um bocado e estou lutando para isso, mas é difícil, tem momentos que o esforço é enorme, mas o resultado pífio, aí dá aquele desânimo. Mas, em relação a antes, tem dias que me olho no espelho e vejo que gosto de mim mesmo, ainda que em outros parece que muda tudo, sendo que continuo o mesmo rs. Mas já coloquei na cabeça que há um teto, senão sei que seria perigoso passar a vida toda nessa busca pelo impossível. E ainda bem que falta bem menos para alcançar esta realização do que faltava há 3 anos atrás quando comecei a mudar drasticamente. Afinal, além de você se sentir bem consigo mesmo, é ótimo ouvir que é bonito dos outros e fazer aquela cara de modesto, sendo que na verdade o ego agradece né :D

    1. minhavidagay disse:

      Muito bacana sua declaração, Caio!

      Você poderia escrever para o Blog, lançando algumas reflexões para que eu e outros comentassem, assim como fiz com o Enzo que sumiu por um tempo.

      O que acha?

      Beijabra,
      MVG

  6. Caio disse:

    Puxa amigo, desculpe desapontá-lo, mas vejo que acabaria te deixando na mão. Sabe, nos últimos tempos eu ando muito desmotivado e muito cansado emocionalmente, e por causa disso até um pouco fisicamente as vezes. Faltam inspirações na minha vida, algo que gere uma mudança que volte a me animar. Terminei o curso universitário quase esgotando a mente e até agora ainda não me recuperei. Acho que por causa de muitas pretensões e poucas realizações :( As vezes até consigo escrever esses textinhos, mas mais porque tenho o empurrão dos temas e palavras que você coloca. E ainda que seja sobre assuntos que vivo, que já vivi e que fazem parte daquilo que eu até tenho um bom conhecimento, é quase que o mesmo que escrever um trabalho universitário com muita pesquisa rs.
    No momento vou ficando por aqui na caixa de comentários, quem sabe eu tenha uma inspiração e algo mude por aqui, aí posso dar uma ajuda rs.

    Não fique bravo comigo. <3

    bjo

    1. minhavidagay disse:

      Fica tranquilo, Caio!
      Foi apenas uma sugestão / convite. ;)

      Bjo!

  7. lebeadle disse:

    É bom estar na luta de superar os próprios preconceitos e ter a humildade de expô-los aqui, como forma de provocar um bom debate e também é claro que reforça a autoestima (os sentimentos humanos andam meio que misturados, diria até que parecem com o tipo de pessoa que Sócrates descreve em O Banquete, aquelas do mito de que éramos unidos um ao outro pelas costas e os deuses, por ciúmes, nos separaram e,desde então, estamos a caçar a outra metade, seja ela homem ou mulher, infelizes até acharmos esse complemento).
    O que me chama particularmente a atenção nessa história é a questão da amizade entre gays solteiros sempre se iniciar com algo físico, um beijo no caso, algo que acredito corrompe o verdadeiro sentido de uma amizade que deve se basear em um amor fraternal e não erótico.

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