Todos homens gays em momentos diferentes de vida

No último final de semana resolvi escolher no Netflix um seriado gringo, hábito que adquiri com meu ex-namorado. Optei por “Grey’s Anatomy” pelas lembranças que tive dele comentar. Ao contrário do comportamento dos términos comuns, quando a gente abandona ou descarta músicas, lugares e hábitos que se cultivavam com o ex, pela pura prática de esquecimento, não é o que acontece no meu caso. Eu incorporei alguns hábitos com satisfação e está aí a valia de um relacionamento. Mas isso é só um detalhe para esse post.

Grey’s Anatomy me inspirou para escrever esse texto de hoje e diz respeito a transitoriedade e diferenças de momentos de vida. Para isso, vou me apropriar de vivências que tenho com os amigos Paulo, Sammy, Fernando (e a minha), todos conhecidos por intermédio do Blog Minha Vida Gay e que estão correndo atrás de suas vontades e desejos, sob o aspecto da própria autoafirmação da homossexualidade, ou melhor, da vida como um todo.

Estamos falando de expectativas, desejos e realizações como gays (e além) já num momento em que, cada um em sua medida, têm saído de suas bolhas existenciais da normatividade VS. ser gay.

As emoções de Paulo, mesmo que inconscientemente, tem o impulsionado – acima de tudo – a querer romper com os modelos herdados em sua educação familiar e religiosa. É um tipo de momento de negação, quando se olha para trás e quer se fazer tudo diferente, ou melhor, somar vivências novas a pessoa que era até então. As vezes é difícil entender o “querer somar”, para os olhares mais tradicionais ou contidos.

Tem transitado fortemente entre “cair na gandaia”, explorar ao máximo os tipos físicos vindos do Hornet, se redescobrir e descobrir o outro sexualmente, conhecer as baladas (no momento menos intensamente), a sauna 269, ver e rever seu senso estético e o valor que dá para isso. E o trânsito se dá porque, vez ou outra nesse frenesi, o pegamos num desejo de construir um relacionamento.

Mas não é só isso: saltou de asa delta esse final de semana no Rio de Janeiro, assunto que foi pauta com o pai, naquele sentimento de estranheza pelo filho estar “mudando tanto”, ou melhor, rompendo com o modelo de normas e condutas estabelecido outrora dentro de casa. Tem interesse em pular de paraquedas e deve fazer esse ano uma viagem para um daqueles lugares espiritualizados, antes habitado por incas, maias, astecas ou derivados.

E além disso, tem participado ativamente de um projeto social específico, que é uma iniciativa sem fins lucrativos com todo jeitão norte-americano de ser, de ajudar a criar condições habitáveis de moradia e saneamento para quem não teria condição nenhuma. Uma bela iniciativa, por sinal.

Tem se revisto 360 graus e, se a gente olhar com viés, dá a impressão que está enlouquecendo. “Enlouquecendo” sim, mas está num processo de autoconhecimento invejável. A energia potencializada de uma certa vida normativa que o deixava na “sombra” está formando um aventureiro. Não das aventuras banais, superficiais e clichês, mas de uma altamente nobre e louvável: uma busca de si mesmo; uma busca de superação. Intenso, mas esse é o amigo Paulo desde o primeiro e-mail que recebi.

Normalmente o alerto para duas coisas apenas: o cuidado com as DST’s e as drogas. Somente. Quem sou eu para dizer, que já convivi com ambas! (rs). Mas aí entra naquele quesito: “Faca o que eu digo, não faça (tudo) o que já fiz” – rs.

Paulo hoje é assumido para seus pais, irmãos e ex-namorada. Se não me engano, tem uns primos que sabem também. A mãe tem aceitado com mais fluidez. O pai ainda tem barreiras que – na minha opinião – o tempo irá derrubar.
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Os sentimentos do amigo Sammy o levaram para outras águas. Chegou a experimentar as baladas, algumas aventuras sexuais quando esteve em NY o ano passado, mas foi numa conversa no aplicativo de relacionamento Tinder que se aproximou do seu maior desejo: formar um par.

Quando o conheci, vivia algumas crises: uma baixa autoestima por ser japonês (prato cheio para o meu “laboratório” – rs), casos mal resolvidos de tentativas um pouco frustrantes com alguns caras e um autopreconceito por ser gay bastante evidente. Buscava um certo alívio junto a igreja católica. Mas, claro, foi suficiente apenas por um tempo.

Tinha um desejo muito intenso de encontrar alguém que o apaixonasse e que fosse também intensamente correspondindo. Eis que no final do ano de 2013, se sentindo um pouco só e desiludido sobre a possibilidade desse encontro, conheceu a pessoa que seria seu futuro namorado pelo app.

Conversaram com boa frequência durante dias até o momento de realizar o encontro na travessa da Rua Augusta com a Paulista (se não me engano) e lá mesmo, como num filme de romance, não conteram as emoções e os desejos: se beijaram naquela esquina, cenário inevitavelmente inesquecível para meu amigo.

Acredito que o Sammy esteja realizando todos os “desejos da alma” com o primeiro namoro, aquele que a gente costuma lembrar pra sempre.

Está buscando bastante segurança e paz na relação, o que já o estimulou algumas vezes a tentar revelar sua homossexualidade para seus pais.

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O amigo Fernando trouxe para o meu conhecimento, desde o primeiro encontro, um forte apego e um grande conhecimento do cristianismo. Com 14 anos – até de pais contrariados – resolveu ingressar na religião com forte devoção. Sabia desde muito pequeno, 7 ou 8 anos que sua atenção estava mais voltada por meninos. Mas a gente sabe que nessa idade – pelo menos os jovens de antigamente – os desejos ainda são muito mais pueris.

Aos 20 ou 21 anos viveu na pele a intensidade dos hormônios e foi aí que começaram os momentos mais difíceis de crise com a sexualidade.

Conhecendo o Fernando mais intimamente agora, tive a nítida impressão de que se fez de um tipo de “personagem” reativo, duro, sério perante pais e colegas de trabalho. No penúltimo encontro veio com roupas formais, camisa, calça e sapato. Conversamos por horas. Brinquei com ele que aquilo, de roupas “quadradinhas” poderia mudar um pouco. No último encontro veio com uma camiseta bem descolada, vermelha, com paterns e ícones em branco.

Das conversas que tivemos, sugeri o Grindr e relutou mas aderiu. Já quase teve um encontro, mas não sei mais dos capítulos até o momento.

É filho único e há 45 anos conduz sua vida com os pais.

Os passos são mais miúdos, mas são a frente e isso faz toda a diferença.

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Eu, meus queridos leitores, vivi um grande amor durante 4 anos. Sinto hoje que foi muito mais amor do que paixão, daquela coisa juvenil de perder o controle, de tirar o fôlego e a razão e de esperar uma mensagem ansiosamente. Foi algo sereno que, obviamente tiveram intesidades, crises e brigas pois isso também dá a plenitude num relacionamento.

A relação se desgastou com o tempo, numa sociedade hoje que não nos impõe mais uma condição de “ser pra sempre” depois que há apatia e o distanciamento. Não chegamos nesse nível, mas parecíamos “velhos” no namoro.

Não houve traição, nem discórdia, nem lamúrias para definir o fim e isso faz uma diferença sem tamanho, embora terminar mal as vezes nos dê impulso para “cair na vida”.

Hoje, apesar de não viajar mais juntos – como os leitores mais assíduos têm acompanhado – reestabelecemos novamente um bom contato. Bom não na frequência, mas na naturalidade de querer bem, sem ruídos.

Estou aqui, solteirão, revendo bastante coisa que já vi, me permitindo viver experiências novas que outrora não me chamavam a atenção e percebendo que, depois de mais de uma década como gay, um punhado de relacionamentos duradouros e mais um punhado de madrugadas em noites fervidas, dá sempre para colher algo novo no mundo pelo simples fato de – alguns de nós (e na verdade a maioria) – mudarmos nosso olhar em cada fase da vida.

A satisfação individual é algo conquistável e alcançável. Acreditem. Mas não depende do MVG, do Fernando, do Sammy ou do Paulo. Depende de cada um consigo.

Vamos viver?

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