Comportamento gay


Me colocando no lugar do amigo Fernando Lima, que está iniciando sua vida homoafetiva e suas primeiras experiências de interesse também sexual por outros gays, é notável a necessidade de um tipo de malícia, jogo de cintura e até mesmo um técnica para lidar com as pessoas (no caso, pretendentes gays).

Me refiro a um jogo comportamental, de conquista, das expectativas particulares e das exigências externas.

Estou partindo do pressuposto que, apesar de muitos jovens (e não tão jovens assim) estarem desencanados e solteiros, a grande maioria – no fundo – procura por um relacionamento afetivo e, normalmente, ideal (ideal conforme o imaginário individual define).

É muito comum encontrarmos alguns padrões comportamentais de escolhas, fruto do idealizado e do imaginário de homens gays e que têm correlação direta com aspectos da psique humana:

O jovem gay que procura o gay maduro

É bastante comum gays mais jovens, de 18 a 25 anos, procurarem por parceiros maduros, de 28 a 45 anos (ou mais). O ideal de segurança traduz diversos aspectos do inconsciente do gay jovem em relação da figura do gay mais velho: maturidade emocional, estabilidade financeira, nível intelectual, sobriedade, entre outros valores. Conversando ontem com Fernando, deixei claro que alguns gays (assim como algumas mulheres) buscam se relacionar com outros homens tendo em vista – consciente ou inconscientemente – uma estabilidade financeira, um apoio material. Não coloco em julgamento essa predileção, mas minha viência na rua deixa bastante claro que alguns gays buscam se relacionar por esse motivo, dentre os outros citados.

Na psicologia, falando até de uma maneira bem rasa (já que não sou psicólogo) o jovem gay que tem o pai ausente, apático ou distante desde pequeno, projeta na figura do homem gay adulto as expectativas de um pai que não teve. Nessa imagem reside uma segurança imaginária. É como se fosse preencher com o homem mais velho a lacuna de um pai que não foi presente. As vezes preenche, as vezes não, mas de certo se é um relacionamento pleno, questões inerentes à relacionamentos virão.

O gay maduro que procura o jovem gay

Se existe o novo que procura o velho, consequentemente existe o velho que procura o novo. É bastante comum perceber o sentido inverso, quando homens mais velhos, de 30 ou mais projetam seus desejos em gays mais jovens. No meu ponto de vista existem dois motivos principais para isso:

1 – A partir de uma certa idade, na faixa dos 30 anos, o gay passa a perder uma vitalidade natural que se intensifica ainda mais com a chegada dos 40 anos e assim por diante. Como sabemos, a medida que envelhecemos, o sentido de solidão vai se tornando mais presente principalmente no contexto da vida gay que não há grandes expectativas para casamentos e filhos (esses assuntos são muito atuais e o gay brasileiro em geral não se sente preparado). É natural o despertar de um certo tipo de “Complexo de Peter Pan” quando a maturidade chega e o gay busca preservar sua jovialidade projetando-se na figura do gay mais jovem;

2 – Uma boa parte de homens gays, quando adolescentes e de hormônios turbinados, reprimem a realidade homossexual pelas velhas e conhecidas questões de autopreconceito, conflito, inseguranças, rejeição, enfrentamento social e etc. Podemos dizer que “deixam de viver a adolescência”, engolem os desejos ao invés de exteriorizar e vivem um tipo de sensação de “juventude perdida”. Mais velhos, buscam compensar essa lacuna de “adolescência perdida” identificando-se e atraindo-se por gays mais jovens.

A busca por relacionamento gay com a mesma faixa de idade

Existe aí, além da atração física por pessoas da mesma faixa de idade, o sentimento ideal de que vai se compartilhar dos mesmos assuntos, terão os mesmos gostos e poderão formar um tipo de “irmandade”. Isso são idealizações de dentro para fora (assim como nos casos anteriores). Alguns casais passam até a se vestir parecido e ter o mesmo corte de cabelo. Alguns se aproximam até mesmo pela semelhança física.

Mas de fora para dentro, existe o ideal da autoimagem: é estranho andar na rua ou estar entre amigos com alguém muito mais novo ou muito mais velho. “O que as pessoas podem pensar? (Porque, no fundo, eu acho estranho quando vejo alguém mais novo com alguém mais velho e vice-versa). Parece que não combina”.
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A influência de padrões e cobranças externas (dos modelos sociais, repertoriais e religiosos) são praticamente inevitáveis. Eu e Fernando conversamos bastante ontem sobre o magnetismo dos modelos estéticos, da moda, da mídia, dos ideais de poder aquisitivo, da cultura de status, da maneira que cada um projeta a ideia de um jovem gay e um gay maduro, que direta ou indiretamente – esses padrões – estão querendo nos conquistar a todo momento. E cada um “compra” ou deseja esses sonhos até um limite que é próprio.

Nossos gostos e preferências sobre aquilo que nos parece dar segurança são também construídos. Também são influenciados para sertirmos que estamos dentro de algum contexto seguro e identificável.

Mas se são construídos, podem ser remontados? O quanto conseguimos não ser “encantados” pelo marketing das coisas? O quanto há de autonomia ou de alienação?

Ficam sempre essas perguntas, a mim que estou sempre revendo meus modelos de relacionamento e aos gays que estão se iniciando nessa história de ser gay.

5 comentários Adicione o seu

  1. eri disse:

    Acho que a tendência é muito grande em aceitar o homossexual reformulado para um padrão de comportamento social mais brando, menos impactante, mais tradicional. A idealização do casal gay monogâmico e, mesmo que não imposto a princípio, da mesma faixa etária. Um casal gay que não causa, bichas retraídas e politicamente corretas!

    Por sorte atualmente tenho um parceiro de 43 (eu tenho 21), universitário como eu, com quem compartilho assuntos, gostos e inquietações compatíveis, fugindo da visão pré-definida de que casais de idades diferentes vivem em “dimensões” pouco relacionáveis. Não temos um vínculo papai/filhinho, ou qualquer coisa do tipo. São só mais duas vidas que se ligam, independente de um ou outro achar que não existe combinação. Afinal, há quanto tempo escutamos que pessoas do mesmo sexo não se combinam? E quanto se sofreu e se sofre até hoje por causa desse “senso estético”…

    Mas nem sempre tive uma relação assim. Com meu anterior (e primeiro), precisei apelar pra convencê-lo de que não tinha interesses financeiros, não queria “presentinhos”. Com o tempo percebi que ele já foi tão usado por outros gays jovens que passou também a usá-los; Aos poucos, desacreditou em interesses sinceros de afeto, desejo, companheirismo. Até hoje, em conversas ocasionais, eles diz que depois de mim só resta pagar guris para se aliviar sexualmente.

    Acho que a principal diferença entre os dois é que o atual, diferente do anterior, é mais resolvido, não leva uma vida hetéro normativa e é grande questionador das convenções, até por ocupação (É psicólogo e estuda filosofia).

    Enfim, o que quero acrescentar nesse debate é que mentalidades diferentes ou mesmo maturidade pesam mais que diferença de idade. E recorrentemente um gay mais vivido pode ter a cabeça tão cheia de entraves e traumas que não é capaz de manter uma relação saudável. Infelizmente com a idade é mais difícil deixar da zona do conforto. Mas creio que os idosos saidos dessa geração atual terão uma ligação menos tempestuosa com os jovens gays:

    1-Menos coroas gays em casamentos de fachada, com medo de se envolver ou serem descobertos. E também menos coroas com juventudes roubadas.

    2-Menos meninos e meninas gays que, desassistidos pelas famílias e rejeitados pelos postos de trabalho, optam pelo sexo por interesse financeiro.

    Aí sim, quem sabe, cada relação independa de idade, cor, educação, condição finaceira… Sem generalizações, cada casal (ou trio, quarteto…) sendo um mundo a parte de complexidade, individualidade, ineditismo!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelo comentário, Eri!
      Muito válido suas reflexões sobre o post.

      Um abraço,
      MVG

  2. JAJR disse:

    Ainda sou um jovem gay na casa dos 18/21 anos, faz 1 ano que resolvi abrir o jogo dentro da minha família sobre minha sexualidade (contei de forma espontânea, foi uma das promessas de que fiz de final de ano, foi na virada de 2012/2013… rs) Enfim… meu grande medo é quando a idade chegar, momento que internamente muitas pessoas se cobram lá no futuro, em ter uma relação estável com alguém, particularmente tenho medo de ter meus 30/40/50 anos e ainda estar sozinho, não ter aquele “amor diferente” ou simplesmente “aquela companhia”, diferente de se ter amigos e o amor da família.
    Porque como referência tenho a grande maioria dos rapazes gays na faixa etária acima dos 40/50+ e ainda não se encontraram na vida amorosa, pior ainda é quando a “beleza” já não é a mesma de um jovem com seus 18/25 anos e o indivíduo torna-se “descartável” para as outras pessoas, sendo que a real preocupação é se preparar para uma vida menos agitada sem toda aquela ferveção, e encontrar alguém do mesmo sexo para começar a viver aquela vida de “casado”.

    1. minhavidagay disse:

      Oi JAJR!
      Tudo bem?

      Essa preocupação que você tem co 18/21 anos é puro exercício de ansiedade! rs. Não se preoucpe. As coisas tendem a acontecem, mas claro, se você for pró-ativo e correr atrás. Temos que ser autores de nossas vidas e conduzí-las de tal maneira a buscar realizações pessoais, que inclui uma parceria com um namorado no futuro, quando você tiver 30/40/50.

      Muitos jovens da sua idade cria expectativas sobre os 30, sobre os 40. Mas tenha calma. Quando você chegar velhar que “velhice” não é desesperador. As vezes, muito pelo contrário, é muito mais pleno que os 18/21!

      Um abraço,
      MVG

  3. Caio disse:

    Bom, num primeiro momento eu gosto de homens mais velhos pelos motivos que você descreveu, mas também pela beleza, acho muitos maduros lindos e gostosos rs. Ainda não sei se levaria a frente uma relação de compromisso com um cara bem mais velho, tipo mais de 15 anos. Mas creio ser possível, vai do envolvimento, da pessoa em si. Um cara mais novo já não me interessa tanto, pelo menos não no momento. Mas não descarto um envolvimento caso surja a oportunidade.

    Assim, eu vejo que no momento presente o mais indicado para um namoro, caso fosse rolar um, seria alguém até mais velho, mas em média com 5 anos a mais do que eu. Já para lances casuais dos 18 ao 60 tá valendo hehehe. Não sou daqueles que podem até gostar, mas só por causa da idade não deixam acontecer. Apesar de ter minhas preferências voltadas a um meio termo, não descarto me envolver com os extremos da barra de idade, o que importa é o homem como um todo e não só um detalhe ou outro.

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