Minha Vida Gay – A relação com os pais


Numa relação entre pais e filhos, quando todos são heterossexuais, aparentemente os problemas e os prazeres durante a vida são os “normais” e dá aquela impressão de que, quando o filho é gay, o “ser gay” é um plus que pode ser um desastre na relação familiar.

Em certa medida sim: quanto mais tradicionais, moralistas e religiosos são as famílias, maior a tendência dos pais tratarem a homossexualidade do filho com mais dificuldade e intransigência. Mas isso é teoria lógica pois na prática mesmo, alguns casos mais surpreendentes, de reações positivas, já se manifestaram por aqui. Seres humanos, além de lógicos, são feitos de sentimentos.

Fora os aspectos tradicionais, moralistas e religiosos, o filho gay, no contexto familiar, tem aquela impressão de que saindo de casa, se emancipando financeiramente, conseguirá superar os mais desafiadores obstáculos. Mais uma vez, na teoria é isso mesmo: construir seu próprio canto, ter sustento pelo próprio trabalho e ter a liberdade de ir e vir nos dá uma sensação de autonomia.

Porém, ainda existe um outro aspecto importante nesse processo da saída das casas dos pais: com o passar do tempo aprendemos a dividir o “eu próprio” do “eu do pai” e do “eu da mãe”. Em outras palavras, quando vivemos juntos de nossa família por muito tempo (ou o tempo que confere a segurança necessária para partir para a vida solo) misturam-se muitos os valores e expectativas de mãe, pai e filho. Quando saímos e sob a influência do tempo e vivências individuais, passamos a nos reconhecer sem mais tantas influências, descobrimos o que o “eu” deseja e que até mesmo difere dos desejos de pai e mãe como pessoas.

Conseguimos enxergar com mais clareza nossas personalidades que, em alguns aspectos, serão diferentes da personalidade do pai e da mãe. E, em outros sentidos, notaremos semelhanças irrefutáveis das características que herdamos.

Acredito mesmo que esse processo de “separação de valores, ideais e desejos” acontece de maneira muito mais clara (e possível) apenas quando o filho sai do mesmo teto dos pais, pelo simples fato de que a autonomia nos faz lidar com diversos aspectos da vida que – outrora – teríamos pai e mãe para dar um mínimo de suporte. A parte de viver glórias e frustrações sem o conforto familiar nos faz enxergar com mais clareza a nós mesmos.

Esse é um aspecto importante e funciona para os filhos no geral. Quando o filho é gay, a única “diferença” é que poderá desvendar a própria sexualidade livre, por exemplo, dos horários para se estar em casa, do dinheiro para poder sair, das questões de com quem se está saindo, entre outras dezenas de preocupações, cuidados e zelo dignos de quem se é pai e mãe! No final, até essa diferença é igual para todo e qualquer filho.

Eis um aspecto. O aspecto que nos dá a impressão de corte no cordão umbilical, aquele que nos parece fazer tão adultos como nossos pais.

Mas, para “infortúnio” das nossas teorias, existe um outro cordão relacionado nessa história toda de emancipação. E a mim, podemos até negar nesse sentido, de liberdade dos pais. Mas negar, possivelmente, vai acarretar mais sofrimento, desconforto e limitações.

A família é e será para sempre, para todos nós, a referência inicial e principal do que entendemos como família. Poderemos reinventar modelos pessoais ou seguir uma cartilha muito parecida. De qualquer forma, mãe, pai e até mesmo irmãos serão pessoas existentes para toda a vida.

Como gays, na maioria dos casos, faz bastante sentido a espera para se sair da casa dos pais para poder viver com mais autonomia (principalmente as vivências que tangem a nossa homossexulidade). Por outro lado, existe um sentido de coexistência com nossos pais, de se estabelecer um equilíbrio mínimo de sentimentos. Alguns fogem dessa responsabilidade e até entendem que a tal emancipação da saída de casa já resolve todos nossos problemas. Mas isso é um engano que faz pai e mãe virarem uma eterna “sombra” (ou um “canto de equilíbrio”), dependendo de como se resolve ou não se resolve.

O meu caso vem para esclarecer: sai da casa dos meus pais há praticamente 10 anos. Conquistei minha emancipação financeira e meu trabalho, desvendei minha sexualidade e minha homoafetividade livremente a ponto de casar com outro homem, já fiz da minha casa um “motel”, aprendi a trocar o chuveiro (rs), a ter custos com faxineira e funcionários, a ter que cuidar da minha cachorra sozinho, a pagar IPTU e IPVA todos os anos, a ter que me virar com um resfriado, a cozinhar e lavar a louça, a ter que repor papel higiênico quando acaba, a tirar o lixo nos dias certos e vou a qualquer momento para qualquer lugar, longe dos olhares dos meus pais que – fatalmente, se estivesse na casa deles – viriam com as dezenas de preocupações naturais. Apenas alguns exemplos dos deveres e dos prazeres dessa “emancipação esperada”.

Por outro lado, meu pai e minha mãe estão lá, existentes, arcabouços de parte do que sou hoje, resplandecentes, com seus valores e sentimentos. Inevitáveis, perante os filhos e vice-versa mesmo com a distância física. Diante deles e a frente da minha homossexualidade, das duas uma: negaria meu pai mediante sua “eterna” rejeição, quase como um inimigo ou “concorrente dos meus valores”, elemento que me encheria sempre de orgulho, uma pseudo indiferença (e frustração) ou batalharia para a coexistência, num senso superior de permissão das sentimentalidades.

Aceitar meus pais como são foi minha chave.

Porque a verdade é essa, amigos leitores: por mais que a gente esteja “nem aí” para o que os pais possam achar ou deixar de achar, a gente está “muito aí”. Essa é uma verdade, mesmo que não seja clara ou consciente.

Podemos sim negar a vida toda e jurar de pé junto que a nossa emancipação nos garante a estabilidade livre da “sombra” dos pais. Mas, fruto desse pensamento equivocado, teremos que lidar com as influências que essa negação / rejeição trará em nossos próprios relacionamentos afetivos e para a vida no geral: durante anos me fiz líder das minhas peripécias para – diretamente – provar para meu pai a minha capacidade. Só mais um exemplo.

Enquanto vivos, temos a chance de “batalhar” por um sentido mútuo de coexistência, aceitação e respeito. Eu escolhi por esse segundo o que, invariavelmente, afeta a maneira que me relaciono com meus pares e com as pessoas no geral. Afeta a maneira que lido com a própria vida. Demorou praticamente uma década para estabelecer essa hamornia com meu pai, mas cá estou, vivo, para deixar o registro e o quanto pai e mãe me provocaram (subjetivamente) por longos anos da minha vida. E ainda provocam.

Amigos leitores: pais e mães podem ser “sombras” ou um sentido superior de coexistência. A questão é que eles são inevitáveis e acreditem: vai depender muito mais da gente do que deles mesmos. Escolham seus caminhos e saibam que, irrefutavelmente, a escolha trará influências na maneira de se viver.

Posso afirmar até que para sermos gays bem resolvidos precisamos nos resolver, sim, com nossos pais. Sooner or later.

A tal da emancipação, longe do teto dos pais, as vezes não deixa de ser fuga. Ok?

7 comentários Adicione o seu

  1. eri disse:

    Excelente texto, me caiu como uma luva; Realmente conviver é um desafio, ainda mais nas relações pais/filhos que envolvem tantas encenações de papéis, expectativas aplicadas, cobranças da sociedade, convívio forçado, idealizações; Seres ligados pelo acaso. Não bastasse isso, temos o acréscimo do fator Gay.

    Emancipação ou fuga, espero que não custe a chegar minha vez. Já abandonei a universidade pelo curso exigir demais, não permitir que eu consiga alguma renda, além de ser longo. Pensava o que seria de mim se no meio do curso, sem um tostão, meu pai descobrisse minha sexualidade e me colocasse para fora de casa. Tenho fobia social e nem imagino como sobreviveria com poucos amigos e dificuldades de comunicação. Por outro lado, ser um gay sem educação não traz boas perspectivas, como aconselham meu namorado e meu ex (grande amigo).

    Agora vou tentar ingressar em um curso mais curto, longe de ser o dos meus sonhos, mas que me trará possibilidades de crescimento não só intelectual, mas social. Oportunidades de conviver, trabalhar, conhecer mundos e pessoas. E quem sabe com uma graduação, expreriência profissional e de vida, conseguir alguma renda que me permita sonhar sem tanto medo.

    Admiro sua garra MVG, de batalhar cerca de uma década para atingir um ponto de equilíbrio com seu pai, parece muito compensador. Lembro de ler aqui no blog o post “Pai, eu sou gay” e achei enriquecedor. Vou levar como meta, mesmo que a princípio fugir seja mais tentador (Mas talvez não seja fugir, só adiar para erguer ‘bases de apoio’, por precaução rs)

    1. minhavidagay disse:

      Oi Eri!
      Entendo totalmente esse adiamento. Muitos preferem assim, deixando as casas dos pais, suas cidades, mas acabam adiando tanto e tanto que não resolvem a relação com pessoas que são inevitáveis (de vínculos e sentimentos), os pais.

      Por isso, adie, mas cuidado para não deixar de lado! ;)

      1. eri disse:

        Só vi a resposta agora… Pode deixar, vou me vigiar.

  2. Caio disse:

    Se emancipar é muito bom, ajuda a você ter mais controle sobre sua própria vida, faz você crescer em vários sentidos e te dá essa liberdade que você citou. Claro, não podemos fazer isso só para fugir dos pais, mas para construirmos nossas vidas a nosso jeito. Quanto a relação com meus pais, ela é ótima, porém quero sair de casa pela liberdade. Como na maioria das decisões que tomamos há o bônus e ônus. Nesse caso o primeiro é representado pela maior autonomia e o segundo por termos que fazer de tudo em nosso novo lar e não termos mais a comida e a ajuda da mamãe hahahaha. No presente momento poderia até continuar aqui com meus véios, isso se tivesse minha própria grana para sair e ir aonde quero, seria mais fácil. Mas do jeito que estou as vezes sufoca e eles não percebem isso, pois em suas cabeças acham que estão apenas cuidando e ajudando.
    Bom fds.

  3. Matheus disse:

    Fugindo um pouco do assunto, esse tema me faz lembrar do enredo de Frozen.

    1. minhavidagay disse:

      O que é Frozen? Seriado?

      1. Matheus disse:

        A animação mais recente da Disney. Uma das protagonistas tem um poder visto como perigoso, não sabe controlar e em um momento resolve se isolar pra poder vivê-lo em plenitude. Mas solitariamente. E isso não funciona também.

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