Relato gay – As diferentes maneiras de se lidar com a sexualidade


Uma vez já comentei sobre meu amigo “Ding”, ex-namorado de outro amigo, o “Tablito”. Ambos namoraram durante seis anos e preservam uma forte amizade hoje em dia. Referência importante para mim, vindo de amigos mais velhos.

Ding tem seus 40 e poucos anos, daquele cara que viveu (e ainda vive) intensamente desde muito jovem, quando essa coisa de ser gay era – definitivamente – muito mais limitador do que hoje. Ding é eternamente novo de espírito e, apesar da idade, é aquele que sempre topou ou idealizou nossas viagens mais aventureiras, com muito contato com a natureza e um desprendimento material importante para se praticar de vez em quando.

Dos muitos amigos gays que fiz nos últimos anos, poucos são aqueles que realmente tenho retomado contato ativamente. Como o meio gay é um ovo bastante pequeno, de codorna, coincidentemente encontrei o “Charosk” e um outro amigo na mesma quarta-feira dessa semana. Sai para jantar com a “ONG MVG” que está se formando, entre eles o Paulo, o Sammy e, agora, o “Hey” e estavam lá, nas bandas do “quadrilátero da Paulista”, esses dois amigos, em momentos diferentes.

Ontem estive no Bar da Dida com o Ding, “base” que sempre nos acolheu muito bem para idelizar nossas viagens e desenvolver centenas de papos intimistas regados de cerveja. O lugar estava abarrotado, noite predominantemente de sapas, mas apresentando alguns belos exemplares de homens da nossa comunidade.

Falávamos sobre projetos atuais e futuros, sobre a vida e sobre nossas realidades. Certa hora, tarde da noite e diante de algumas de minhas provocações, Ding começa a passar seu relato sobre a sua nova-antiga experiência com um peguete-marmita. Nova porque já tinha ouvido algo sobre esse peguete recentemente. Antiga porque a relação se estabeleceu há mais de sete anos.

Foi no chat do UOL que meu amigo conheceu tal rapaz. Tudo começou com um primeiro encontro de apresentação: jovem casado, sarado, lindo e que na primeira noite com meu amigo ficaram (apenas) assistindo um filme pornô, cada um se masturbando, lado-a-lado no sofá.

Os anos – e um senso de preservação de saúde e cuidado muito grande de ambas as partes – foi conduzindo a relação, que foi bastante “asséptica” no começo, para uma “foda fixa”, ou “pau amigo”, ou “marmita” ou qualquer nomenclatura que possa se designar aquele relacionamento que se restringe, basicamente, ao sexo fixo mas sem maiores compromissos além da própria foda. Modelo que, sim, quando se está solteiro é bastante comum entre os gays (e porque não dizer entre os heterossexuais?).

Durante esses sete anos, meu amigo tem uma “parceria de amante” com um cara que hoje está com 35 anos, é delicioso, lindo, sarado e casado nos moldes tradicionais da heterossexualidade.

Puxa vida, pensei comigo: “está aí, vindo até a mim sem pedir licença, novamente, o assunto que virou pauta nos posts ‘be gay or not be gay’ tão recentemente”. Mais um caso verídico, real, que se perdura há quase uma década.

Ding conheceu o rapaz pela Internet pouco tempo depois do término do namoro com o Tablito, relação homossexual e homoafetiva que deve-se reforçar: durou seis longos anos. De lá pra cá, Ding chegou a ficar com um ou outro rapaz; lembro até de um deles que se aprochegou uma vez que estávamos na Dida. Moço bonito, que começava a ter uma história de namoro com meu amigo, mas que – no final – não foi até a décima página pela pura falta de afinidade.

Enquanto Ding ia me relatando suas experiências sexuais mais atuais com sua “foda fixa”, de fato comprovado por meio de mensagens de celular que eu li (e dei altas gargalhadas com o teor das trocas), veio à tona novamente o assunto tão fresco e recentemente comentado em ambos posts citados.

O sexo entre eles, hoje, está cada vez mais “avançado”, numa história que dura longos anos com um tipo de fidelidade. Chegaram a trocar algumas vezes testes de DST durante todo esse tempo, quando Ding assumia uma história com outro alguém.

De frente ao meu amigo Ding, 40 e poucos anos, totalmente emancipado e uma referência de vida de tempos em que eu estava nas fraldas, aquela conversa me provocou a lançar meu moralismo para longe, bem longe novamente, e me aproximou de novo a essa realidade: homens que vivem amplamente a heteronormatividade mas que destinam uma pequena parte de seu tempo para o sexo com outro homem.

Ding me deixou bem claro sua crença: “todas as pessoas são ‘bissexuais’ desde sempre. É a sociedade (diga-se a moral, a religião e a cultura) que nos joga em caixinhas”. Não tenho forças nem vontade para negar. Principalmente que, agora, sei dessa história de quase uma década. Não se está falando de experiências furtivas e pontuais. São anos de envolvimento.

Hoje, entre ambos, assume-se uma intimidade. Seus encontros raramente acabam somente na foda. Sete anos (ou mais) representa um acúmulo de horas juntos. Se torna inevitável saber das vontades e expectativas um do outro.

Em determinado momento o questionei sobre a esposa do rapaz (eis meu lado moralista querendo matar a curiosidade da parte que realmente pega nessas relações). Ding me respondeu: “Nesse tempo, não sei de nada a respeito da mulher, nunca perguntei e ele nunca falou nada”. Fiquei perplexo.

Além da questão que obviamente se levanta de novo, sobre a existência de tais homens que vivem a caixinha da heteronormatividade mas que transam outros homens, existe um outro ponto bastante em evidência aí, embora nas entrelinhas: a capacidade do homem gay de dividir de maneira natural o sexo da afetividade. Num cenário repleto de sapas, como foi a noite de ontem e sabendo que o Ding tem dezenas de amigas sapas, foi inevitável a comparação comportamental, de como a mulher gay, ou sapatão, ou racha vincula sexo e sentimento. Bastante diferente do homem gay, quando sexo e envolvimento afetivo podem ter uma divisão mais natural quase em todas as circunstâncias. Isso a mim, é também uma realidade, vivida, sentida e constatada recentemente com meu ex-namorado.

Por falar no ex e nesse meu processo atual de nova compreensão de mundo, das relações e das pessoas, posso arriscar a dizer que meu relacionamento, mais uma vez, terminou pela moralidade. Ficou evidente que o desejo sexual não existia mais. Mas existia companheirismo, envolvimento e carinho. Poderíamos, sim, ter partido para aventuras sexuais acordadas, mas a moralidade não nos permitiu. Partimos para o rompimento. Não é reclamação nem desabafo. Hoje, é apenas uma constatação que chega pela consciência. Águas passadas não movem moinhos.

Mais uma vez, esse post (e a mim) não serve para julgamentos morais, sejam os filosóficos ou religiosos, diante dos desejos e comportamentos das outras pessoas. Estou aqui, na vida solteira para – além de curtir, rever o que já foi visto nas baladas e nas ruas – buscar entender um pouco mais de mim depois de 11 anos somados de relacionamentos homoafetivos, sob um mesmo modelo normativo, moral. O Blog MVG tem aberto demais a minha cabeça sobre a diversidade sexual, me permitindo seguir por abstrações, sem a forte pressão da minha própria moralidade. É importante dizer: não sou eu no papel o “homem que trai a esposa”. Estou livre desse “rabo preso”.

Hoje tem noite na Yacht Club. Pretendo ir de carreira solo, embora saiba que o amigo Paulo vá com mais uns conhecidos. Combinamos de deixar para nos encontrar furtivamente pois essa seria a minha primeira experiência dentro de uma balada sozinho (fora a sauna que já fui nesse período um punhado de vezes). O que sei é que o padrão comportamental “Yacht Club”, apesar de muito gostoso, divertido, numa casa linda, de música boa e pessoas belas, é papel passado e repassado a mim. Nada mudou nesses anos, fora os nomes, fora as caras.

O novo, a mim, diante dos mesmos cenários, sou eu mesmo.

12 comentários Adicione o seu

  1. Ali disse:

    Ai ai ai, olha os “machos” aí de novo geeeente!! kkkkkkk

    POR ENQUANTO,não mudo nenhuma vírgula do que eu disse e afirmei nos posts anteriores,e essa história do seu amigo com o carinha,somente prova que é ponto pra mim e pra minha teoria.

    Acho que me fiz entender antes.Não julgo as PESSOAS,julgo os ATOS QUE PREJUDICAM TERCEIROS e tem a única função de produzir mais e mais mentiras.
    Não tenho nada a ver com a vida particular ou pública de ninguém. Por essa mesma razão,eu me reservo APENAS a fazer julgamentos morais e éticos,que nada mais são do que visões filosóficas e existencialistas particulares do mundo e das pessoas que me cercam. Até onde eu saiba,isso não prejudica NINGUÉM,o que realmente prejudica é o MORALISMO como você falou MVG, isso é coisa de fanático religioso que não tem nada o que fazer.
    Como você bem sabe,eu não sou assim!
    Hellooo,eu sou gay e transexual,já se esqueceu?! kkkkkkkkkkkkk
    Se eu quisesse ser um mínimo se quer moralista,estaria sendo absurdamente incoerente e hipócrita, cuspindo no prato que eu como.

    Abraços!

    Ps: Além do mais senhor MVG,eu ainda estou esperando aquela listinha dos seus filmes favoritos pra gente poder trocar figurinhas.Bjos!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Ali!
      Que listinha?

      Acho que eu esqueci…rs rs rs

      :P

      Perdão! Pode retomar o assunto?

      Bjo,
      MVG

  2. Ali disse:

    KKKKKKKKK
    No problem!
    É que eu tinha te pedido em um comentário de um post,que eu já nem me lembro qual era,que você fizesse uma lista com os seus filmes favoritos.
    Você tinha dito que era uma boa ideia e disse que iria fazer ela.
    Era isso rsrs

    1. minhavidagay disse:

      Ah sim, então vamos lá.
      Não tenho um filme predileto e tenho um gosto que vai do “trash pop” ao cult:

      – Laranja Mecânica / 2001 / O Iluminado;
      – A série do Poderoso Chefão;
      – Star Wars, todos;
      – Trilogia do Senhor dos Anéis / O Hobbit;
      – Silêncio dos Inocentes / Hannibal;
      – Desenhos da Pixar no geral;
      – O Último Samurai / Minory Report;
      – Sociedade dos Poetas Mortos;
      – Jornada nas Estrelas.

      São esses que me vêm a memória de bate pronto…

      1. Ali disse:

        Interessante MVG!
        Estou um pouco sem tempo agora,mais depois eu te respondo e trocamos figurinhas hehe

        Saga Jornada nas Estrelas? Saga Senhor dos Anéis? Saga Star Wars?

        #Nerd Feelings! É isso mesmo produção?! kkkkkkkk

      2. minhavidagay disse:

        Nerd não! Geek… geek é in. Geek está dominando o mundo, ahahahaha :P

  3. Caio disse:

    Bom, se eu fosse me relacionar com um cara comprometido com uma mulher só faria isso se ele fosse bem interessante e com o objetivo de apenas sexo. Não me envolveria mais profundamente com alguém dividido, ainda mais com uma mulher. E como ele também disse, eu não iria querer saber da vida dele com a mulher. No máximo poderia perguntar como ele se sente assim, se ele realmente gosta pelo menos um pouco da relação ou se se casou por medo ou algo do tipo. Isso só para saber um pouco de alguém que vive assim, já os problemas dele, que fiquem só com ele.

    ps: Também gosto da maioria dos filmes que você citou, e acredito que outros também possam ser parecidos baseando-se nos gêneros apresentados. Hummm, temos algo em comum neste aspecto rs.

  4. eu não sei, acho que tenho uma personalidade de sapa então, pois ainda não consigo ver nada de interessante em simplesmente ter uma noite de sexo desvinculada de qualquer sentimento. Não quero ser moralista (mas sei que isso palpita dentro de mim de maneira não intencional). É muito interessante a experiência de seu amigo, especialmente por ser um raro exemplo de maturidade em meio a um tipo de relação que me parece quase surreal ou altamente triste… Se encontrar quase uma década com outro homem e isso ser incapaz de gerar um sentimento de responsabilidade e de amor, simplesmente estou pasmo rs

    1. minhavidagay disse:

      Tudo depende da relação entre ideal (não realizado) VS. experiência (realizado), amigo Dan.

      Temos ideais e a natureza de um ideal é do algo ainda não atingido. Depois de vivido, nem sempre os ideias se formam como esperado. O que se forma é a experiência.

      Somos um acúmulo de experiências quando nos permitimos vivenciar. E, acredite, as vivências nos transformam, modificam ideais e, invariavelmente, nos trazem tal maturidade. Maturidade que, as vezes, se expressa em autocontrole e autoconhecimento.

      Bjo,
      MVG

  5. Márcio disse:

    Interessante o seu post!Aliás adoro tudo que você escreve!Mas voltando aqui,no meu caso vou completar 10 anos de namoro com um cara que amo demais,meu companheirão pra tudo.Namoramos uns 7 anos de forma “tradicional”,mas propus para ele de vez enquanto apimentarmos nossa vida sexual com uma terceira pessoa e confesso que foi maravilhoso,bom demais.Geralmente é alguém que não faz parte do nosso convívio social.Sinceramente não imaginava que eu iria me abrir para tais experiências e muito menos ele porque ambos moramos em cidade de interior onde tudo é mais complicado!
    Aproveitando o comentário quero lhe dizer que sou seu fã MVG,por favor não nos abandone,rsrs….
    Bjo!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Márcio!

      Super agradecido pelos elogios!

      Bom ter uma referência de alguém que optou, junto com o namorado, de abrir a relação. São as diferentes formas do gay se relacionar, fugindo um pouco da cartilha.

      Beijo,
      MVG

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s