O prazer pelo imprevisível

Já que sai um pouco da rota com o post dedicado ao Philip Seymour Hoffman, não custa nada continuar um pouco assim, nessa autonomia possível quando se tem um Blog.

Em conversa furtiva com o Sammy, fizemos nossos breves updates sobre os últimos dias. Meu amigo acaba de assumir sua homossexualidade e seu namoro para um parente importante (que ainda não é o pai, nem a mãe) mas que aproxima sua realidade para níveis significativos de definição e resolução.

Apenas uma informação de boa relevância (a mim) para não sair tanto do contexto do Blog Minha Vida Gay. Ver os “amigos do MVG” (virtuais e reais) darem seus pulos é o próprio sentido do Blog e parte da minha própria realização.

Falamos em seguida sobre viagens e comentei que a minha para o Caribe, que seria o divisor de águas “psicológico” entre 2013 e 2014 não veio pelos motivos narrados aqui. Embora suportável, estou com aquela sensação de que um contato com a natureza me falta para sentir que meu ano realmente começou, mesmo tendo essa prazerosa e inédita virada de ano em São Paulo como também relatei por aí.

Trata-se de algo ritualístico e quem acredita um pouco nas coisas dos Orixás, da espiritualidade individual, da solitude com a natureza e de energias não poderia passar batido. É meu caso.

Embora tenha o show da “Tia Eltona” de novo e muito em breve, fugindo um pouco de SP, ir para outra capital não me traz o contentamento esperado. Somente no Carnaval, fugindo da rota, que poderei desfrutar da solitude de espírito. E foi essa sensação, enquanto narrava ao Sammy, que lembrei de duas aventuras importantes na minha vida. Viagens que, na medida do possível, me deparei com o imprevisível pelo simples fato de não saber o destino. Não houve pesquisa, nem recomendações.

A primeira, que não narrarei demais hoje, aconteceu na época da faculdade, antes dos 23 anos quando eu e mais quatro amigos aproveitamos um feriado prolongado, preparamos as mochilas e elegemos aleatoriamente uma cidade qualquer num dos guichês do Terminal Tietê. Nos deparamos com uma pequena cidade chamada Sivianópolis, bem no feriado de seu aniversário.

A segunda foi um pouco depois que havia terminado meu casamento. Abri o mapa de estradas do Brasil, foquei em Minas Gerais e apontei para um lugar aleatório ao Sul: Aiuruoca, que significa “ninho de papagaio”, coisa que fui saber apenas quando cheguei na cidade.

Juntei um grupo de amigos, suficientes que coubesse num FIAT Idea com conforto e partimos. Meu pai havia sugerido para pegar a estrada pela Dutra, pela vista e pela aventura na serra. Partimos de madrugada.

A viagem durou 10 horas ou mais pelas paradas que fizemos em um punhado de cidades que cruzávamos, daquelas pequenas, cujo conceito de igreja central predomina em nossos interiores por aí.

Ao chegar em Aiuruoca, com o Sol poente, seguimos pela rua principal que acabava numa estrada de terra. A luz duraria no máximo uma hora ou duas e, na iminência de seguir rumo, sem saber onde parar, fizemos uma votação e a maioria topou por seguir.

Estrada difícil, cheia de buracos e erosão. Avistamos placas de pousadas no meio daquele “nada” que nem se quer imaginaria que seria “tudo”. Quando me dei conta estávamos em meio a um vale, rodeados 360 graus por montanhas e o famoso “Pico do Papagaio”, aquele mesmo que subiríamos em 8 horas de caminhada (2 mil metros de altura) num segundo retorno para saber que – de alguma maneira e independentemente das raízes religiosas – existe esse certo Deus grandioso que nos torna menor do que grãos de areia. O mesmo sentimento que tive ao me deparar com o “Perito Moreno”, glaciar onipotente, em El Calafate – Patagônia Argentina.

Escolhemos pela “Pousada Pé da Mata” que se avistava ao alto no pé da serra. Tive a proeza de atolar no seco quando dois cavaleiros que passavam pela estrada ouviram nossos pedidos de ajuda e colaboraram para o empurrãozinho.

Ao chegar na entrada da pousada a Elaine veio nos receber com a maior estranheza do mundo: “quem seria esse japonês com uma cambada de jovem sem lenço nem documento chegando assim sem reserva?” – lembraria ela com bom humor depois, em outros retornos ao meu retiro.

Aiuruoca é um dos 20 ou 15% da mata do Brasil que ainda permanece original. Viver os passeios por lá, entre cachoeiras, trilhas, pequenos animais locais como saguis, poços naturais e vistas deslumbrantes não é diferente do que eu fazia com meu avô em Toque-Toque Pequeno até o final da década de 80. O que fazer com um céu estrelado que quase pode-se tocar? Ou que fatalmente, ao admirá-lo durante 30 minutos, é possível contabilizar estrelas cadentes sem grandes esforços?

“Caminhando contra ao vento, sem lenço, nem documento”, partimos estrada a fora para uma viagem ao desconhecido. Chegamos em Aiuruoca pela pura prática do imprevisível e, além de desfrutar da boa comida mineira, de momentos indescritíveis de contato com a natureza, fizemos uma amizade com os donos da pousada que passa de sete anos e nos garante um cantinho nesse tal “ninho de papagaio”.

E parar para pensar que sou um indivíduo que me permito viver tais experiências com amigos (que inclusive já levei ex-namorados nessas trips, em tempos diferentes) mas também me dou o direito para ferver na balada (ou na sauna) na caixinha quadradinha e mais homo possível. Me permito acompanhar meus velhos pais aos sábados em almoços aqui ou ali, fazendo o papel de filho trintão em meio a um casal de uma média de setenta anos. Tenho diálogo e assunto com amigos de 45 ou 60 anos e o mesmo com os de 20 e poucos, assumidos, meios assumidos ou recém saídos do armário. Mantenho contato frequente com amigos do colegial (héteros) e certo contato com amigos da faculdade (também héteros). Vou para Patagônia Argentina, na ponta extrema do mundo para tomar um vento gelado em Ushuaia, mas também entro numa Armani em plena 5a. Avenida em Nova Iorque. Pego carrapato, mas matenho Hugo Boss no armário.

Definitivamente, gente, só vive em alguma caixinha social e confortável quem quiser. O fascínio da vida (e acho que a Clarice Lispector concordaria comigo) é pelo diverso imprevisível.

Saibam entrar nas caixinhas. Mas saibam sair delas e dos circuitos que tão – “sedutoramente” – nos envolvem. Arrisquem-se a viver outras caixinhas, sem ser aquelas que aparentemente nos confortam tanto e vez ou outra nos parecem tão sufocantes.

A vida é muito curta para reduzirmo-nos, por exemplo, em nossa sexualidade ou nas modas ou nas “verdades” dos grupos. A felicidade individual, repito, depende muito menos da aprovação do outro.

5 comentários Adicione o seu

  1. Ali disse:

    Uhmm… Olha só que tremendo “Bon Vivant” o MVG está se mostrando!!

    Parabéns pequena folha,somente tome cuidado com os vendavais.

    Concordo com você MVG,de que o imprevisível seja uma dádiva em nossas vidas,ele nos ensina a não termos medo dele,nos permitindo darmos passos cada vez maiores em nossas vidas,mesmo que na maioria do tempo ele não se revele para nós e permaneça na espreita de quem deseje encontrá-lo cara a cara um dia.

    Mas exite algo chamado INCERTO ou INCERTEZA,que é diferente do imprevisível.Esse sim não está nem aí pra o que você faça,ele quando menos se espera puxa nosso tapete e caímos feito trouxas no chão,alguns inclusive nem ousam mais se levantar depois disso.
    O pior de tudo,é que ao contrário do imprevisível,com a incerteza nós permitimos sermos derrubados e escolhemos pela queda!

    Por isso te questiono MVG:
    Você não tem nem um pouquinho de medo ou receio da INCERTEZA??

    Já percebi que você é um grande admirador do imprevisível,assim como eu também sou,mas com relação a INCERTEZA,como é que ela entra nessa história? Se é que ela entra rsrs

    Abraço!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Ali!

      Um tanto filosófica essa sua pergunta. Confesso ter ficado uns minutos pensando para elaborar um ponto de vista (rs).

      Eu diria que o imprevisível não tem “rabo preso”. Ele é livre e irremediável. Já a incerteza, ou a grande questão da incerteza é o sentimento de expectativa que é criado sob um senso moral, do rolar bem ou do rolar mal.

      Para o imprevisível, a lacuna da expectativa é preenchida na medida que o imprevisível se torna uma realidade, quase que instantaneamente.

      Por exemplo: estou dirigindo numa rua tranquila, não noto que tem um prego, passo por cima e fura um dos pneus. Não há tempo de viver uma expectativa positiva ou negativa pois o imprevisível se torna real imediatamente e não dá brechas para a expectativa se manifestar.

      Já o caso da incerteza, tem “rabo preso” com o futuro, com o senso moral e com fantasias.

      Por exemplo: fiz a prova da FUVEST. Estudei razoavelmente mas não sei se passei. Nessa situação, a incerteza anda em comunhão com a expectativa e o resultado (real) pode ser positivo ou negativo.

      Por um lado, eu diria que a melhor incerteza é aquela que permitimos tratar como algo imprevisível em alguns casos para nos isentar dos sentimentos de expectativas que muitas vezes nos consomem. Por outro, a incerteza – apesar de estar de rabo preso – é aquela que invariavelmente nos impulsiona a agir ou a nos imobilizar.

      Entre agir ou imobilizar, a mim vale o clichê: “arrependa-se daquilo que vc faz e não do que deixou de fazer”.

      Porque o fazer, realizar, mesmo que possa haver arrependimento depois é aquele que nos faz crescer, superar, vivenciar e amadurecer.

      Claro que o senso moral de cada um é o “grande juiz” para tudo isso.

      Eu tenho as minhas incertezas durante a vida pois lidar com isso é algo humano. Para algumas eu ajo, para outras eu aguardo e para uma terceira eu “lanço a Deus” que nada mais é que entregar para o imprevisível que nos tira o desconforto da expectativa.

  2. Fabiano disse:

    Prezado MGV,

    Descobri seu blog algum tempo atras, quando estava no auge do conflito sobre a minha sexualidade, o que me trouxe uns seis meses de uma depressao profunda. Felizmente, superada essa fase mais complicada, continuo acompanhando seus posts e me identificando, quase sempre, com as coisas que escreve.

    Ainda não consegui superar todos os conflitos internos, talvez nunca consiga rs, mas estou progredindo mt!

    Saiba q me incluo na cota das pessoas para as quais vc, suas ideias e seu blog, fizeram a diferença e contínuam fazendo.

    Obrigado!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Fabiano!

      Muito obrigado pelas considerações. Fico muitíssimo feliz em saber que, mesmoque distante, o MVG tem ajudado a trazer referências e um pouco mais de paz na sua vida como homossexual.

      Um forte abraço,
      MVG

  3. Caetano disse:

    Bem legal essa questão entre inesperado e imprevisível! \o/

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