A vida de um gay solteiro – Quase 37 anos

Mês que vem faço 37 anos e acho que é a primeira vez que o sentimento de se estar sozinho e solteiro não abre um buraco no meu peito, gerando aquela inquietação tão comum que também justificou os 11 anos somados de relacionamentos afetivos. Quando estaria solitário em casa, escrevendo um post no Blog as 18h de um sábado? Há alguns anos atrás compareceria na Praça Benedito Calixto, vivendo a intensidade e o calor da pré-balada.

Fica evidente, aqui pelo Minha Vida Gay, que o tema “namoro gay” é de longe um dos Top 3 dos posts mais lidos e procurados. Tem muito gay querendo criar a condição de um relacionamento sério e mais duradouro e confesso que relacionamento é um ponto de referência para muitas das minhas ações na vida pessoal. Quando também não influenciou a minha profissional, no momento que sabia que – ao final do expediente ou depois de um dia cheio e estressante – poderia contar com aquela pessoa certa para que no mínimo pudesse ouvir meus desabafos. Só um exemplo.

Isso está mudando bastante hoje em dia e atenção: para mim.

Aproveitando e complementando o post anterior (que gerou bastante polêmica e um monte de julgamentos sobre a minha pessoa – rs) resolvi contar uma história aqui do meu “Lado A” e do meu “Lado B”, considerando o “A” como o que é normativo, da conduta esperada pela sociedade, do tal do caráter e comprometimento com a própria vida e o “B” como minha faceta subversiva que transgride um pouco com os valores-macro-morais dessa sociedade que está cheia de expectativas sobre cada indivíduo. Tudo isso, narrado por alguém que vai chegar aos 37 anos, que é gay e que – na medida da própria vivência – sabe separar o que é “ser gay” de “ser qualquer outra coisa”.

Lado A do MVG

A sociedade cobra, exige ou simplesmente pede para seguirmos num ritmo de vida. São os estudos, as expectativas dos pais, o trabalho, o crescimento financeiro, a realização pessoal, o relacionamento duradouro e comprometido, a fidelidade perante as pessoas, o cuidado com a saúde, as amizades, a retidão, a conduta transparente, dentre outros valores morais, culturais, filosóficos (e religiosos). O meu ritmo é mais ou menos esse, resumidamente:

– Sou formado desde o final de 1999 pela ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo. Sou bacharel em comunicação social e comecei a vida profissional como estagiário não remunerado no Estúdio de Vídeo da faculdade. Fui o melhor aluno de criação da minha turma durante os 4 anos, o que me garantiu indicações de emprego nas empresas de ex-alunos e professores antes de montar a minha própria;

– Antes de escolher por uma profissão, sabia que minhas opções estavam entre humanas e biológicas. Acreditem: prestei para arquitetura, publicidade e veterinária. Mas como eu tinha aquela boa preguiça para estudar, passar na ESPM seria a última esperança no ano do vestibular. Lembro bem dos testes e da redação. Testes incríveis de conhecimentos gerais, de Ginger Rogers e Fred Astaire a filmes de Bernardo Bertolucci. Assuntos que sempre me envolvi. Passei;

– Embora os estudos nunca tivessem sido o meu forte até o primeiro ano do colegial (só não fiquei de recuperação no pré porque era impossível – rs), desde pequeno sempre tive aptidão para desenhar e escrever. A música (principalmente o piano) sempre foi algo que me atraiu. Quando meu pai percebeu que eu era capaz de tirar alguma canção de ouvido, comprou um dos melhores instrumentos na época e me colocou para estudar. A regra era o seguinte: “te dou o teclado, mas você vai ter que se esforçar para ficar bom nisso”;

– Jovem ainda, com 13 ou 14 anos, via minha mãe na cozinha, preparando almoços saborosos e morria de vontade de aprender a fazer meus pratos prediletos: arroz e feijão. De tanto que insistia, aprendi com essa idade a fazer comida, hobbie que se mantém até hoje, claro que com pratos bem mais variados;

– Os meus 23 anos foram um grande marco na minha vida, inesquecível. Foi o ano que iniciei minha empresa, foi ano que assumi a minha homossexualidade a mim mesmo e foi o ano que tive meu primeiro relacionamento afetivo que durou quase dois anos. Tudo junto e misturado;

– Os meus 27 anos também foram outro grande marco na minha história: foi o ano que chispei da casa dos meus pais, assumi um “casamento” de morar sob o mesmo teto com outro homem. Meu pai ficou um ano sem falar comigo (não porque eu era gay ou estava “casando”, mas porque estava saindo de casa contra a sua autorização) e meu sócio sairia da empresa para trabalhar com a esposa no Japão. Eu tinha exatos R$ 3.000,00 na minha conta, apenas;

– Sou empreendor há praticamente 14 anos. Não satisfeito com uma empresa, montei uma escola de música que está lá, firme e forte, com mais de 100 alunos e uma produtora de áudio que também segue para seu sétimo ano de vida;

– Dos meus 23 anos para hoje são praticamente 11 anos somados de relacionamentos homoafetivos. Sempre fui namorador, sendo que o último namoro durou praticamente 4 anos. Fomos referência de casal até para amigos heterossexuais. Éramos exemplo de amizade, companheirismo e desmistificação para a sociedade geral e tradicional do que é “ser gay”. Hoje em dia, ser referência de casal para quem é heterossexual não é nada sobrehumano: a juventude no geral não sabe namorar;

– Comprei a minha casa própria há dois anos, tenho carro, trabalho, tenho renda, cachorro e dezenas de despesas, funcionários, novo sócio (que começou como “voluntário” aos 16 anos – é irmão do meu ex-sócio – e continua comigo desde então), tudo, subsidiado pela estrutura que construi, sem depender de ninguém;

– Tive uma relação intensa e conflituosa com meu pai do dia que me dei conta de nossas diferenças até meus 32 ou 33 anos. Mas com muita insistência e com muita terapia, revi toda maneira de enxergá-lo. Ele fez o mesmo e minha mãe também se reposicionou perante a família. Hoje, deixei minha mãe no aeroporto de Congonhas. Foi para o Rio visitar meu irmão e passei o dia inteiro com meu pai. Ganhei um almoço e estivemos horas juntos conversando sobre a vida e vendo algo que comumente nos apetece: eletrônicos. Hoje, ele se conforma com a minha sexualidade. Foi praticamente uma década que levou para essa conformidade, o que não quer dizer aceitação. Mas, a mim, enxergando um cara de mais de 70 anos tolerando assim, já está de bom tamanho para quem se é pai, descendente de japonês e com essa idade;

– Tenho o Blog MVG que, como digo por aí, é meu lado social exercendo uma função de trazer clareza e referências para aqueles gays que não se entendem direito.

Lado B do MVG

Estar solteiro, emancipado, praticando exercícios físicos (há uma década) que me garantem uma saúde, resolvido com meus pais, resolvido com a minha própria sexualidade, fazendo terapia há anos-luz, com um emprego que vai crescer a medida que eu mesmo botar lenha e dinheiro no bolso, me sinto livre para exercer meu papel no “Lado A” da vida mas, também, me dá autonomia para me aventurar no “Lado B” que – do ponto de vista da emancipação do gay perante a sociedade – pode me “sujar” de esteriótipos e preconceito. Mas como disse, sou um livro aberto e, enquanto a sociedade nos cobra para virarmos “modelos de conduta”, apresentar e vender nosso “Lado A”, eu também me canso, discordo e preciso de minhas válvulas de escape para fugir da “caixinha”, rever meu senso de moralidade, principalmente agora que estou sozinho, sem namorado.

Daí é assim:

– Sou formado desde o final de 1999 pela ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo. A parte “bacana” está destilada no Lado A do texto. O que nem todo mundo sabe ou gostaria de saber é que foi na faculdade que experimentei pela primeira vez a maconha e o loló (lança perfume). Boa parte dos meus amigos da ESPM (e fora dela) mantém o hábito da marijuana semanalmente. Esse hábito não nos faz melhor ou pior, mas creio que a área de humanas e – principalmente – a faculdade de comunicação, te aproxima um pouco dessa subversão aos modelos (brasileiros). Eu e meus amigos entendemos a maconha desse jeito, simples assim;

– Solteiro, me permito aproximar de pessoas e situações diferentes das expectativas do meu “Lado A”, da “caixinha” esperada e bastante valorizada por aqui. Eu tenho uma sede particular de conhecer pessoas diversas. Nesse período de 3 meses, transei com um bissexual, revi algumas pessoas da noite – que o Lado A costuma chamar de “underground” ou “alternativo” -, estou revendo o conceito que atribui até hoje para o “macho” (homem que gosta de transar com homem e não se sente gay), tive momentos que saboreei alguns “aditivos” além da maconha, fui a sauna, usei metodicamente o Grindr/Hornet no segundo mês após término, transei, revisitei algumas das baladas mais “gayistas encaixotadas” que São Paulo pode oferecer e estou repetindo um pouco de tudo isso a medida que tenho vontade, a medida que as coisas vem ou vão;

– É claro que nesse período não estou apenas subvertendo, negando meu “Lado A” para exaltar meu “lado B”. Seria dispensável dizer que tenho passado muito mais horas com meus pais, farei uma viagem para conhecer a casa do meu irmão e da minha cunhada no Rio, vou assistir de novo o Show do Elton John por lá e, no Carnaval, vou fugir do circuito-das-carnes que prevalece na capital para um canto escondido e solitário, em meio a natureza, cachoceira e ar puro de Minas Gerais.

Mas o que acontece é o seguinte: estou com quase 37 anos – o que equivale a 37 anos de vivências – e o problema não é o que subverte. Os problemas são dois:

1) Daqueles que vivem e adentram o “Lado B” individual, viciam, tornam-se compulsivos e descontrolados e não conseguem sair para rever seu “Lado A”. Perdem a autonomia, perdem-se de si. Desses já falei aos montes por aqui no MVG, com uma postura moral rígida e a maioria dos leitores tende a concordar. Para esses não há “luz” no “Lado B”. Quando o “Lado B” se torna o único, a vida passa a ser obscura, mesmo. Mais até que obscura, diria que suas vidas tornam-se extratificadas, segregadas e limitadas. Mas essas pessoas existem, estão lá nas ruas, nas saunas e nas baladas;

2) Daqueles que temem assustadoramente o “Labo B” pela convenção social (que notoriamente conforta e manipula), são até “cabaços” ou ingênuos e que não fazem ideia da visão de mundo que adquirimos quando nos deparamos com essas experiências. Nunca ou quase nunca estiveram lá para falar, mas temem incondicionalmente porque a sociedade (por intermédio de dezenas de ferramentas) vendem essa imagem do que pode ser perigoso, discriminatório, periférico. Podem se sentir culpados se permitirem essas entradas e, as vezes, se sentem sufocados por esses medos e outros.

Eu transito entre o Lado A e B com autonomia, agora solteiro. E gostaria de viver algumas dessas intersecções, mesmo namorando. É isso, somente isso e nada mais do que isso.

E tudo isso é difícil para se compreender por causa do senso moral individual. Faz tempo que tenho falado do exercício de abstração e eu, nessas práticas, tenho lançado minha moral para longe para ver o que pode vir de novo.

Quando vivi meu Lado B conscientemente pela primeira vez, foi um efeito de negação. Foi um término de relacionamento que me machucou, que me desestabilizou e que me fez sair do eixo, como disse mamãe (vide post do “Céu e infernos”). O momento que estou vivendo hoje é parecido, mas o fato de não existirem feridas ou orgulho (ou serem muito menores) faz tudo ser muito mais ameno.

Estou passando por um momento de mudanças, dentre tantas outras que já vivi. Estou revendo valores morais, as instituições (principalmente as familiares) e, talvez, depois desse processo eu volte a ser como era. Ou não: mude bastante e me reencontre sob outros novos valores. Já vivi do meu “Lado B” de quarta a domingo e cheguei a gastar R$ 1.000,00 num final de semana entre baladas, bebidas, drogas e jantares. Não me orgulho disso e não é a mesma coisa que estou vivendo hoje, pelamordedeus!

Para aqueles que se preocupam, estou bem longe de passar pelos meus “infernos de 2009/2010”. Fiquem tranquilos! Eu estou!

Para aqueles que se incomodam mediante a uma imagem/reputação criada pelo MVG a frente dos leitores eu digo: tenham paciência ou conformem-se. Isso é uma fase e o tom dos posts podem seguir assim por um tempo. “O ‘x’ do navegador é a serventia da casa” – simples assim.

E para aqueles que conseguem abstrair das próprias moralidades (e do apego ao “MVG Lado A”), sabem que tudo isso aqui é um processo de autoconhecimento. Uma busca interior, um reconhecimento, um processo pessoal de crescimento. Tenho 37 anos e aprendi a transitar entre Lado A e Lado B faz um tempo. Mas esse é um modelo particular.

Repito: sou humano, homem, gay, japonês, estou solteiro agora e é assim que funciono. Drogas, no caso, é só bode expiatório.

14 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Estou deixando este comentario as 2 e meia da madrugada. E’ bem tarde, mas não consigo dormir. Algo me angustia, aperta meu peito, me faz doer por dentro mesmo com a saúde perfeita. Agora ja me sinto melhor, por estar fazendo (olha o gerundismo ai gente) algo produtivo com meu tempo. Mas nada garante que tamanho desconforto não retornara mais tarde.

    Na minha cabeceira, li novamente o livro “Nunca desista dos seus sonhos” de Augusto Cury, um guru de alto ajuda que honestamente transita entre o interessado no bem alheio e o charlatão que tem apenas o dinheiro como interesse. Mas não e’ um bando de palavras bonitas de um livro que vai resolver os problemas internos que possuo. Por mais dificil que seja aceitar isto, o único responsável só pode ser eu mesmo.

    Voce comparou brilhantemente a distinção entre o Lado A e o Lado B, e, quanto aos grupos de pessoas representados, me encontro fixamente naqueles que tem maior dificuldade em desenvolver o lado A. Não, minha vida não se resume a festas e baladas, pois minha dependência financeira não permite isso. Mas se pudesse escolher sem restrições, provavelmente escolheria isso como projeto de vida, livre de responsabilidades e grandes feitos.

    E o motivo pelo qual o Lado A me causa tanta angustia e’ porque não me sinto preparado para ele. MVG, você já dedicou inúmeros posts a conhecida e depreciada geração Y, mas ha um detalhe que apenas nos, jovens de classe media-alta do século XXI, podemos enxergar: a angustia e a pressão de mantermos o mesmo sucesso que nossos pais tiveram. O Brasil mudou muito nas ultimas décadas, formando uma geração que tende a ter enriquecido rapidamente (nem sempre por mérito próprio), e gerado filhos que nunca conheceram as necessidades e as limitações. Mas ao mesmo tempo que isso nos fez sentirmos “especiais”, tambem gerou a preocupação em sermos tao bem sucedidos quanto nossos velhos foram. Eu sei que meus pais querem que eu seja ainda melhor do que eles. Mas como?

    Na sua historia de vida, meu querido japonês gay e simpatico, vejo muitas semelhanças com a do meu pai. A conquista de um sucesso inteiramente com mérito próprio, causada pelo espirito empreendedor, ambição pessoal e ate mesmo um pouco de sorte. Ele subiu na vida de forma astronômica, e hoje minha família tem acesso fácil a qualquer bem de consumo, uma educação de qualidade, etc. Como era de se esperar, fui criado para ser ambicioso e independente como ele foi.

    Mas eu não quero ser assim.

    Ai esta a grande ironia do destino. Talvez minha personalidade tenha se desenvolvido em represália a criação depressora que tive, repleta de brigas e autoritarismo. Me sinto independente para sair aos sábados, mas não para decidir o curso da minha própria vida. Porque minha vida ideal não tem grandes metas nem sonhos altos: apenas alguns amigos em um apartamento decente, em um relacionamento gay modelo, mas sem filhos, transporte publico no lugar de carros de luxo, e tempo para fazer hobbies como escrever livros e me dedicar as artes. O esforço e a rotina para abrir uma empresa, e administra-la, seriam, a meu ver, massacrantes. Estou fazendo faculdade de Direito porque existem muitas possibilidades dentro dele, mas já não tenho tanta certeza se quero seguir esta carreira no futuro. E isso com apenas uma semana de faculdade!

    Alcançar o sucesso e’ bom? Certamente. Mas ele não foi feito para todos. Mas a cada nova responsabilidade que surge com o passar dos anos, me sinto uma marionete constantemente manipulada e pressionada pela família e pela sociedade. Não posso me dar ao luxo de ser “mal sucedido”, e alias ja fui avisado que, com o fim da faculdade, terei de deixar o seio familiar rapidamente. Apesar de tamanha independência me deixar feliz, sei que corro o risco de ficar igual a um tio de 58 anos, claramente homossexual: reprimido, infeliz, vivendo na sombra dos pais e levando uma vida maçante e, infelizmente provavelmente, curta.

    Sei que pareço ser uma pessoa diferente daquela que relatou com prazer uma visita a SP, ou meu primeiro encontro amoroso no glamour de Paris. Mas como todo mundo, eu alterno entre momentos de prazer e angustia existencial. E infelizmente, quando tenho esses instantes de alegria, eles duram pouco: a euforia apos a relação sexual passou apenas dois dias depois. Afinal, a felicidade e’ como o carnaval: um momento de sonho e fantasias, que termina com a quarta feira. Palavras da bossa nova.

    Espero ansiosamente, e imagino se vira um dia, o momento em que realmente começarei a viver.

    1. Caetano disse:

      Nossa Gabriel que angustia, não conheço a tua realidade mas tu tem que procurar o que tu gosta, eu sei que é um comentário bem raso e clichê mas, diante das circunstâncias é o melhor pra tu. Já que pelo que entendi tu não faz questão de viver no luxo e glamour e sim no conforto e um não indissociavel do outro, sendo assim alugar uma apartamento ou morar numa republica não é algo impossivel pra ti, acertei? Acho que no teu caso é mais questão de postura, de abrir o jogo, vai prescisar de muita coragem.

      Mas se eu puder dá uma dica acho o seguinte: acho que tu ja pode começar saindo dessa facul e fazendo o que gosta, isso é uma forma bem sutil de mostrar [até pra ti] quem comanda o curso da tua vida. Talvez isso seja o primeiro passo.

    2. minhavidagay disse:

      É Gabriel,
      você é um exemplo de que nem sempre dinheiro trás felicidade, desmistificando um pouco a ideia de que grana é sempre sinômino de coisa boa.

      Confesso que esse seu estigma de estar a “sombra” de um pai extremamente bem sucedido é algo que reconheço em um amigo e numa outra amiga. O pai de um é ex-dono de uma das maiores agências de propaganda do país. O pai de outra é diretor comercial de uma gigante multinacional. Ambos, amigo e amiga, tem lá sua consciência de estar por baixo de uma “asa” de riqueza, que sim, veio por intermédio de muito trabalho e uma pitada de sorte.

      Longe de mim ser um milionário como esses pais, pelo menos não ainda, embora a obstinação e o esforço visem algo “sem fronteiras”. Costumo dizer que, para quem aprende a empreender e correr atrás com autonomia e resiliência, o céu é o limite.

      Posso afirmar que, tendo como referência esses dois amigos, cada um leva a sua maneira esse conflito ou questionamento de: “será que vou conseguir superar os feitos do antecessor (papai)?”.

      Curiosamente, na sexta-feira que passou estive a tarde inteira com essa amiga e falamos sobre o assunto. Vou replicar a você o que comentei a ela: o sucesso é algo muito subjetivo. Embora os pais sonhem que os filhos os alcancem ou os superem é fundamental cortar o cordão umbilical. Esse corte de cordão umbilical tange diversos aspectos que são particulares e individuais e noto que no seu caso (assim como desses dois amigos), o “poder” alcançado por seu pai é uma questão forte em detrimento a capacidade de você conquistar pelo menos o mesmo patamar socioeconômico.

      Poderia ser, por exemplo, o corte do cordão do desejo do pai querendo que o filho siga a mesma profissão, ou que o filho seja menos introvertido para lidar com a vida, ou que seja um esportista ou atleta, que jogue futebol com maestria, que torça pelo mesmo time, que seja alguém estudioso, que seja um “galinha” e pegue as meninas mais lindas, entre dezenas de expectativas que o “eu do pai” projeto no “eu” do filho ou da filha.

      A mim, tanto faz se o contexto é da mãe ou do pai em relação as expectativas para com filho ou filha.

      A fundo, depende menos o “tamanho material” do feito esperado. Depende praticamente da expectativa apenas, que faz o “fardo” de ser tão bem sucedido como o pai, ou que torça pelo mesmo time, ou que o filho seja catador, algo simplesmente de expectativa. Expectativa é expectativa.

      Cortar o cordão umbilical é importante em diversos sentidos em todas as relações de pais e filhos. O seu caso é um pouco diferente pelo simples fato de você fazer parte da ponta da pirâmide da sociedade, fazendo parecer uma diferenciação. Mas não é. A relação de desejos e expectativas de pais para com filhos tange igualmente todos, independentemente de classes.

      Ambos amigos já superaram os 30 anos e posso te afirmar que, com o tempo, e você pegando mais leve consigo mesmo e aprendendo a lidar com uma suposta “pressão” direta ou indireta, vai saber administrar mais essa cobrança interna e externa. Você só tem 19 anos, não é verdade?

      O problema é menos da cobrança externa e é muito mais da cobrança interna. Porque é a cobrança interna que vai intensificar a externa. Funciona assim para todos (e nos parece tão claro quando o assunto é a homossexualidade. É a mesma coisa para tudo: relação de expectativas externas e cobranças internas para diversos âmbitos da vida).

      Pegue leve com você, Gabriel, viva o presente e busque não dar tanto peso para o que vem de fora, no caso, as expectativas dos seus pais. Note o quanto você se cobra e, de repente, o quanto de diferente você quer para a sua vida.

      A relação entre pais e filhos não deveria ser de um tipo de rivalidade de modelos de vida. Não nasci numa família milionária, mas tive um pai me cobrando sobre dezenas de aspectos. Dezenas mesmo e de uma maneira “militarmente nipônica”, dá para imaginar?

      O tempo passou, cortei meus cordões e divido muito bem hoje o que sou e o que quero do que meu pai é o que ele quis e conquistou. Se dependesse do meu pai, acabaria sendo funcionário público, coisa do tipo! Você, de repente, gostaria de ser apenas um funcionário público. No final, não é a mesmíssima coisa?

      Tenho certeza que você tem características de ambos, pai e mãe, que te possibilitem ter um crescimento na vida. Você tem a base material para isso, educação e – acima de tudo – sua própria personalidade (que ainda está descobrindo qual é e se leva um tempo enquanto tivermos pais tão referenciais em nossa vida).

      Você é UBER novo ainda. Suas preocupações são legítimas, dignas daquele que gostaria de atender à expectativas de pessoas importantes para a vida. Mas respeite-se também, dê tempo ao tempo, viva mais o hoje e amanhã. Se for diferente, é porque você não é seu pai, nem sua mãe. Ter uma incrível reputação no trabalho e, consequentemente com poder capital, não quer dizer propriamente felicidade.

      Tenho dois amigos que estão aí, aprendendo a encontrar seus próprios caminhos. Um deles, de certa forma, aceitou sua condição e vive da riqueza do pai. A outra, preferiu seguir com as próprias pernas e vive uma vida material sem grandes luxos. Ambos felizes.

      Você ainda se encontrará. Mas por hora, tão novo assim, deixe fluir!

      Abraços,
      MVG

  2. Caetano disse:

    kkkkkkkkkkk MGV cara eu adorei esse post! Pelo que tenho lido acho que tu nunca tinha se exposto assim de uma forma tão crua! Foi necessario pra dar uma esclarecida na galera! Adorei saber que toca piano e tem até uma escola de música kkkkkkkkkk MGV aprovei

    Agora tocando na essência do post, acho o que soltei no post anterior. Infelizmente as “perpetuas’ estão por todo canto, para nos controlar e tentar puxar nossa felicidade. Mas talvez não seja nem essa a intenção da turma que criticou, acho que é mais imaturidade e falta de criticidade mesmo, pois faltou discernimento para enxergar o blogueiro como um homem normal. Eu acho engraçado que quando criança eu sempre fui muito observador e esclarecido, com 12 anos eu ja entendia o “Lado B” [que na verdade é o Lado A, a expressão “lado b” é só pra enfatizar uma parte oculta nossa] como algo do ser humano, algo mega natural e hoje tenho que buscar essa compreensão de pessoas com 25/26 anos. Talvez pela biblioteca de meu pai…hoje vejo a importância dela na minha vida.

    Mas continuando eu acho que as perpetuas daqui ainda sao mega novos, porque tem uma hora que voce percebe que tem que ficar onde se sente melhor, e não no local reservado para ti, e isso nem sempre vem na juventude. Então se for assim eu relevo. Porque moralidade na internet não dá! ;D

    Esse lance do gay recriminar o outro que vai numa sauna ou cinemão é bem de perpetua mesmo. Vale lembrar que a perpetua era uma mulher que criticava aquilo que não podia fazer [por bloqueio ou prática].

    Acho legal quando tu fala dessa autonomia, que não deve ter sido fácil, e que ao meu ver foi conquistada mais pela abertura psicologica que tu se deu do que pela estabilidade financeira, pois deve ter muitos caras bem sucedidos bloqueados por aí. E é isso que eu acho melhor no blog e foi o que eu aprendi e julgo legal: que é ser permissivel, eu sei que não é fácil, mas também é algo que tem que ser tentado. Entender o outro e o sistema, a si mesmo e tentar lhe entender mo meio disso tudo, como funciona a coisa…. é um passo pra nos tornamos mais humanos e entendermos melhor nós mesmo a partir da figura do outro, pois como humanos temos algo em comum independente da sexualidade.

    1. minhavidagay disse:

      É mais ou menos por aí, Caetano! rs

  3. Caetano disse:

    MGV queria mais relatos/informações de bissexuais kkkkkkkk Nunca mais saiu com outro não? :D

  4. lebeadle disse:

    Eita MVG querido, é a luta de cada dia. O importante é que você sabe do lado B, pois às vezes vivemos tanto no lado A que ficamos cegos para o outro lado, essa visão é a sua experiência, conseguir enxergar e domar a força estranha e usá-la em seu favor, é uma forma de se construir, estética de si, uma educação sentimental na qual a análise deve ter tido uma grande importância.
    Esse negócio da maconha me lembrou um festival de curtas que eu participei. Os assuntos tabu são sempre satanizados. Veja bem, lá pelas tantas entrou um curta de cujo nome não lembro – eram vários,um atrás do outro – tinha três takes, um mostrava uma suruba em uma casa, na parte superior, e focava em três caras se pegando; cortava então para um culto satânico e depois um outro corte e passava pra um show do Rolling Stones no Hyde Park em memória de Brian Jones,acho, onde tocava a música ‘Sympathy for the Devil’, e então ficava transitando por essas três sequências; conclusão homossexualidade é coisa do demônio pois transgride as regras, então deve ser controlada, sufocada, criminalizada – vide os casos da Rússia e Uganda – pra não acabar com a ordem sexual pois os gays tenderiam a ter um apetite incontrolável e quebrar com as regras e ainda influenciar os demais não-gays para esse mau caminho. Tudo falácia e exageros construídos sobre a ignorância e o temor a tais assuntos. Assim também com aqueles que experimentam drogas recreativamente, muitos não acreditam ser isso possível, que tenderá ao vício, à loucura, a drogas cada vez piores, etc.
    Tudo isso pra dizer que é complicado encontrar o equilíbrio, pra ilustar com aqueles exemplos algo mais etéreo como que até pra encontrar equilíbrio de pensamento, pra se assumir gay é complicado porque esse discurso do terror geral faz com que o fato de ser gay vire a pior coisa do mundo e mesmo quando se descobre racionalmente que não é ainda tem a parte emocional massacrada que fica presa a tanta coisa.

    1. minhavidagay disse:

      Sob esse seu ponto de vista, Le Beadle, acho que estamos num movimento pró-gay tão ativo que qualquer outro elemento que possa ofuscar nossa emancipação (perante julgamentos morais particulares) de frente a sociedade sofre uma pressão contra.

      Ser gay é uma coisa, fumar maconha é outra, ser pedófilo é uma terceira, contrair HIV é uma quarta, ser rico é uma quinta, ser pobre é uma sexta e assim por diante. Já vivemos um momento de esclarecimentos para fazer essas divisões, ou melhor, aqui no MVG seria bom exercitar essas divisões.

      Não faz muito tempo atrás que eu achava que ser gay e ser japonês era sofrimento em dobro. E quanto mais a gente divide, me parece, mais esclarecido ficamos.

      Basicamente isso.

      Abraço,
      MVG

  5. Fernando disse:

    Lado A e lado B, entao tá!

  6. Caio disse:

    Bom, eu não curto drogas e não preciso delas para me divertir, para ver o mundo com outros olhos (apesar que muitos que as usam conseguem isso das mais inusitadas maneiras rs) e para aguentar as pressões. Posso muito bem curtir a vida com tudo o que ela me oferece de modos diferentes. E nem por isso sou moralista, travado e muito menos careta. Aliás, MVG pelo sentido que você deu a esta última palavra no post anterior, dá a entender que quem não fumar um baseado sequer caracteriza-se como sendo um, é isso? Bom, se for, discordo de você.

    Abraço.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caio,
      não foi isso não – rs.

      “Bode expiatório”, no sentido de ser a desculpa para – muitas vezes – encobrir nossas inseguranças. Para o medo do desconhecido, do “Lado B” de cada um que alguns trazem para a consciência, outros não. Do lado primal, animalesco, fugidio, amoral.

      A combinação sauna (promiscuidade) e drogas (escape) traduz um lado da natureza humana que a gente – na maioria das vezes – quer negar. Mas temos. Não sou santo. Imagine o “céu e inferno” que foi narrado em um post, agora, narrado em alguns relatos? É um pouco disso, bem menos louco do que foi. Mas é isso, presente, parte (e repito: parte) do meu aqui e agora.

      Você acompanha o MVG há bastante tempo. O Blog se formou enquanto namorava e, assim, na minha cabeça, o animalesco estava lá, mas estava longe de mim. Sai de determinados lugares para estabelecer e estabilizar um namoro (em cima daquilo que naquela época eu considerava psicologicamente administrável / tolerável).

      Sempre tive um senso moral muito forte de “frear” algumas vivências da minha solteirice enquanto namorado. São as tais concessões. Algumas acertadas, no sentido de se conceder mas não reprimir. Outras, talvez, reprimidas que me fizeram falta. Estou ainda avaliando o que é o que, o que foi realmente concedido e o que reprimi de fato.

      Agora solteiro, pela primeira vez vocês estão conhecendo até onde eu posso ir, em minha vida pessoal sem namorar, numa busca particular, mas preservando o “livro aberto” que é o Blog.

      É uma vontade de ter mais clareza de quem sou. Super filosófico mesmo, assim como a grande maioria dos conteúdos por aqui.

      Normal termos alguns conflitos. Você conheceu até hoje o MVG namorando e está notando pela primeira vez até onde vou solteiro, para o “bem” (lado A) e para o “mal” (lado B) e, no final, é tudo para o bem. Para o crescimento.

      Enquanto namorava, a grande maioria dos posts tinha um caráter motivador e inclusivo: “gente, dá para ser gay, viver em família e fazer com a homossexualidade seja apenas um detalhe perante a normatividade”.

      Agora, estou retratando mais a fundo a outra faceta de ser gay, do animalesco e fugidio que neguei enquanto namorava.

      Achei que deveria te dar uma satisfação em retribuição a sua assiduidade. E pode discordar ou concodar, discordar de novo e concordar outra vez.

      Estamos exercendo também as singularidades e as diferenças. Só não quero me sentir julgado, no sentido de me colocarem em caixinhas só pelo simples fato de ter saído da caixinha que outrora as pessoas se identificavam e agora, talvez, não tanto mais.

      A vida gay foi o que vivi. Trouxe as motivações, as elaborações e os incentivos para cá. A vida gay é também o que estou vivendo, talvez, aquele lado que a gente quer negar, do esteriótipo, do “feio”, do “sujo”. Mas é também. Repito: também. E eu aprendi a transitar aqui e acolá.

      Essa jornada, de transitar em caixinhas, a mim é muito válida. A mim, rompo com a parcialidade das coisas, revejo conceitos. Consigo pensar em novas intersecções para, quem sabe, um novo modelo de relacionamento.

      Não temos a obrigatoriedade de seguir a normatividade, o que é “limpo”, o que é “bonito” para o hétero. Mas sei que queremos nos mostrar “limpos” para facilitar a inclusão social, a aceitação por sermos gays.

      Busco ponderar.

      A mim todas essas “novas” vivências fazem bem, embora a convenção diga que algumas coisas fazem mal. Mas sou eu, 37 anos, emancipado e nem papai me segurou – rs.

      Abraço,
      MVG

  7. Andri disse:

    Achei bastante interessante o seu post … Foi o primeiro que li (até o momento) … Parabéns pela sinceridade! Você é hoje uma pessoa que ainda consegue se colocar no lugar do outro, ou vive estas situações escondendo das pessoas suas reais intenções? Pergunto isso pelo fato de sentir que posso chegar a este mesmo estagio pq nunca namorei e já tenho uma certa idade … Gostaria de ser mais vidalouca sem machucar os outros, ou enganar … Existe essa possibilidade?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Andri!

      Eu diria que “o que um não quer, dois não fazem”. Com o tempo você consegue aprender a reconhecer a não usar pessoas. No meio do caminho, como solteiro, você sempre vai encontrar aqueles que vão querer algo mais sério com você, e outros que vão entrar na “dança” da curtição também. Claro que não existem isenções totais nesses “jogos”, e você mesmo pode acabar gostando mais de alguém. Mas a vivência a experiência ajuda a você saber com quem dá pra curtir e aqueles que se você curtir pode acabar machucando.

      Temos que aprender sobre nossos freios e quando dá para soltar mais a cordinha.

      Um abraço,
      MVG

  8. Julio Santiago disse:

    legal, pois é, vivo sozinho neste mundo, não consigo nem namorar. Com quase 50 anos, adoro viver, pena que o tempo passa rápido, pena que há muita maldade na face da terra. Vivo sozinho porque desde pequeno pus na minha cabeça que jamais me casaria. (Até tinha pensado em ser padre, mas desisti, rsrs). Bom, estou sozinho mas não sou infeliz. Só quero fazer o bem, pois do bem vem a felicidade. Coisa boa da vida é ser feliz. Minha primeira relação sexual aconteceu aos 36 anos, com um rapaz de 22 anos). Brincamos umas 16 vezes, mas claro que sabia que ele era galinha. Nunca me iludi, e continuei a viver transando com outros, e hoje estou aqui pensando seriamente em viver uma vida sem sexo. Não me cobro mais e nem ligo para as críticas alheias. A vida é pra ser vivida sem pressão, sem comparação, sem arrogância, e isso é bom. Se não consigo me apaixonar, então paciência. Gostei da frase: aceita que dói menos!! rsrs…. é isso aí,

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