Momento de heteronormatização dos gays?


A inclusão dos gays na sociedade anda transformando nossos próprios hábitos se for comparado com a nossa realidade até as décadas de 80 e 90. Falo isso para aqueles que realmente estão metendo as caras, rompendo com o autopreconceito e se permitindo levar a realidade homossexual para si, para famílias, trabalho, relacionamento e amigos. Não podemos descartar que muitos de nós (sentido inclusive da existência do MVG) se sentem tão acoados e perdidos em relação ao próprio contexto, que fazem ainda parte daquele grupo de gays enrustidos, de sexualidade velada e do sofrimento por serem gays. Esses ainda estão aproveitando muito pouco.

Numa grande capital como São Paulo, ser gay hoje e ser hétero é quase a mesma coisa, ou para aqueles que buscam se autoafirmar já é bastante possível. Embora ainda existam focos de discriminação e homofobia (contraponto até lógico nesse cenário “pró-gay” que, quanto mais aparecemos, mais grupelhos contra se manifestam), a liberdade de ir e vir, andar de mãos dadas na rua, beijar, abraçar em lugares públicos está cada vez mais corriqueiro, normativo.

No âmbito público é assim que tem acontecido, talvez ainda em bairros mais exclusivos da cidade, mas num fluxo que vem se expandindo.

No âmbito privado, familiar, sou um exemplo real da inclusão social que se reflete na vida de muitos gays que procuram uma certa normatividade. Para contextualizar, além dos diversos posts espalhados pelo Blog MVG, posso relatar resumidamente meu último namoro, que durou quase 4 anos (um “marco normativo” para quem é gay).

Apesar das dificuldades de aceitação de meu pai, meu ex-namorado entrou em meu contexto familiar a ponto de estar eu, ele, e meus pais num jantar de aniversário do meu próprio velho. Como casal, nos encontramos dezenas de vezes com a minha mãe, da coisa de passeios pela cidade, conversas, almoços e jantares em casa e qualquer simples hábito da relação familiar que pudesse nos reunir.

Por outro lado, da parte da família do meu namorado, lidei com aproximadamente 60 parentes (entre tios e primos que se vêem com alta frequência). Hoje já posso revelar que era uma família tradicional, predominantemente matriarcal, de origem italiana e – por haver tal tradição – é indispensável citar que o machismo entre os homens era (e é) um culto em evidência. Indispensável citar, numa situação que formarmos pela primeira vez o casal gay entre eles. Indispensável citar também que uma das primas namorava um negro que não era bem visto pela família.

Dizem que os japoneses são fechados. Balela. Os italianos quando cultuam sua preservação são a mesmíssima coisa.

Imaginem agora: eu, japonês e gay entrando num contexto em que meu ex-namorado assumiu ineditamente sua homossexualidade e, a tira colo, eu chegava como namorado perante 60 pessoas. Teve um momento, do encontro com determinado tio, que as primas ficaram amedrontadas com o fato de como ele poderia reagir quando me visse pela primeira vez. Confesso ter me sentido num palco, numa mistura de prazer (pela minha personalidade de enfrentamento) e desconforto por ver os olhares alheios como espectadores dando audiência para a minha própra vida. Uma exposição necessária (pelo meu namorado), embora desnecessária (para a minha individualidade).

A briga foi bastante boa (rs), no sentido de uma pessoa com a minha personalidade que enxergou todos aqueles integrantes reunidos e colocou como propósito o bem estar do casal. Já era bastante sabido que o vínculo de meu ex com a família era (é e possivelmente será) muito forte.

Entrei no grupão, me misturei (sem perder minha integridade, embora existisse uma “força estranha” querendo me colocar num quadradinho – rs). Dentre 60 pessoas, todas foram bastante receptivas a ponto de ouvir da irmã do meu ex e de seu marido, numa última festa e quase num sentido premonitório do término, que “eu era aceito porque era eu e que todos, sem exceção, me adoravam”.

Foi tudo muito bonito e honrado. Tenho consciência da minha parte que ajudou a abrir espaço em nossa vida como um casal gay, naquele contexto específico (pois já frequentei outros contextos familiares).

Mas confesso que a normatividade está longe de ser um mar-de-rosas. Eis um lado da balança.

Vamos ao outro:

O triste, embora triste para eles mesmos (e não pra mim), foi ter que lidar com outros hábitos sufocantes desse tipo de contexto normativo tradicional:

– o diz-que-me-diz enraizado na cultura;

– a necessidade ímpar de ter que colocar a própria família num patamar acima das famílias alheias;

– as primas que, no fundo se odeiam, mas que na frente uma das outras alargam sorrisos;

– a forte inflluência da “matrona” na minha relação buscando dar opinião em muita coisa da minha vida e da vida do casal;

– o exibicionismo da diferença de classes entre os tios e tias (dos mais bem sucedidos em detrimento aos mais humildes);

– o culto ao passado – de encaixotar e taxar as pessoas de como eram antigamente – e não enxergá-las como são hoje;

– uma notável dependência entre eles;

– o sentido periférico dos agregados da família;

– uma certa “obrigação” de ter que comparecer;

– e a supervalorização do matriarcalismo, formando até filhos homens “bonzinhos”.

Bom citar que não é porque sou gay que gosto de me afeiçoar pela mãe no altar. Patriarcalismo ou matriarcalismo são bostas, a mim. O bom e seguindo o que conquistei com meus pais é um tipo de fraternidade entre pais e filhos, lado-a-lado, side by side. Sem expoentes, sem pesar para um lado. Acho bastante retrógrado e problemático (psicologicamente falando) pai ou mãe forçarem seus filhos a colocar um ou outro num tipo de superioridade incontestável. Uma coisa é ensinar valores de respeito quando o filho é pequeno, de respeito aos mais velhos. Outra coisa é querer forçar uma imagem soberana quase onipotente e indiscutível.

De repente, olhei para a minha própria família, pequena, INDEPENDENTE, sem tanta polaridade hoje, de jogar na mesa os problemas e não viver de recalque e notei, nela, a minha inspiração de vida.

O namoro terminou por inúmeros desgastes que, da minha parte, acabaram me brochando. Daí, um belo dia depois do término meu ex veio falar um lance que, a princípio deveria me encher o ego, mas que me trouxe mais lucidez sobre esse contexto normativo. Sua irmã chegou e disse a ele: “Tem certeza que você vai terminar? Sabe que você não vai encontrar uma pessoa como o MVG, né?” – se referindo a um punhado de coisas: o fato de ser trabalhador work-a-holic, ter certa estabilidade financeira, da aceitação perante a família e, sim, de fazer parte daqueles gays “apresentáveis” sob os critérios, listas e expectativas de tal família normativa.

Sem notar, minha “ex-cunhada” colocou meu ex-namorado para baixo (em relação a mim) que possivelmente é o pior de tudo isso, mas está lá fincado nessa cultura.

Não foi muito diferente de quando terminei com meu ex-marido e seus pais vieram falar comigo. Lembro bem a minha “ex-sogra” dizendo: “ai, você jura que não vai dar certo entre vocês? Você sabe como meu filho é. Não sei se vou aguentar”.

Ambas me deixaram perplexo com essas posturas vindas da tal e tão desejada normatividade. A primeira, dando valor a condição material do “dote” e até egoísta no que diz respeito a minha “boa reputação” ou a reputação acertada perante a grande família. A segunda, desesperada por ter que aceitar “de volta” o filho tão “temperamental”, atacado.

Isso é também a normatividade.

Está aí um post para fazer um balanço. Sei que dessas famílias tradicionais o Brasil tem milhões. É vivenciar para saber e comprar aquilo que realmente apetece a cada um, individualmente.

Isso é prática, gente. Não são devaneios.

Eu realmente acho que se meu ex fosse menos apegado a sua “tradicional família brasileira” a relação poderia ser bem diferente.

8 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Muito interessante sua análise sobre a heteronormatividade e sua influência para nós, complementando o que você já tinha dito antes em outras postagens.

    Bom, não sei, mas pelo o que entendi, a Wong Foo queria que você expusesse sua visão sobre essa mudança de comportamento de muitos gays que não eram, mas que recentemente estão se tornando mais “heterossexualizados”, isto é, buscando ter uma postura mais masculinizada. Será que era isso? kkkkkkkkkkkkkkk

    bjo.

    1. minhavidagay disse:

      Eita!

      A mim, heteronormatização implica num grupo comportamental vasto, que não exclusivamente o jeito masculino ou feminino de ser!

      Vamos aguardar o Wong Foo se expressar… rs.

  2. Bruno disse:

    Heteronormatividade é um apelo. Por mais que há pessoas e pessoas que juram de pé junto que não desejam esse estilo de vida, no fundo, talvez no fim das vidas gostaria de se ver estabilizado, com uma vida tranquila a dois.

    Muitas vezes me pegava pensando “Pfff, se fosse hétero tudo seria mais fácil”, justamente pensando na heteronormatividade. Parte de evitar tentar lutar por isso, acredito que vem da própria luta. Ela não acaba, terá que sempre ter argumentos, conversas infindáveis. Isso cansa e uma vez com o pé dentro, fica difícil uma válvula de escape.

    Muitas vezes não é nem medo, é simplesmente pra evitar fadiga. Falando isso parece até egocentrismo e falta de respeito por quem age em prol dessa inclusão social, e talvez até seja mesmo. Mas quando vejo o quanto é longa a estrada para que essa utopia de sociedade que REALMENTE não se importa mais com orientações sexuais, dá vontade de parar de seguí-la.

    (Não se desanime quem luta contra. Isso é só minha visão e ela é completamente passível de erros!)

    1. minhavidagay disse:

      Realmente, Bruno…
      …a gente “sonha” em viver a tal da heteronormatividade, ou simplesmente a normatividdade inclusiva. Mas teremos que passar pelos dois lados da moeda de se conviver com famílias, parentes e o julgamento, a comparação, que é cultural; a fofoca que é enraizada em muitos contextos familiares.

      Ser gay já é uma questão para muitos. Não bastasse isso, as vezes, precisamos nos submeter as tais normas como explicitei por aqui.

      Como gays, desejamos chegar nesse “ideal”, sonhando e esperando que viver a normatividade resolva todos os nossos problemas. Mas o grande problema, que não muda, é o convívio com o tempo e quando se começa a adquirir a intimidade familiar. Pais, mães, irmãos e parentes do outro – na tal normatvidade – normalmente entram no pacote quando assumimos um relacionamento. E deixa o tempo passar, a intimidade se estabelecer para ver como algumas coisas começam a pegar. Pegam e muito quanto mais tradicional (traduz-se voltada a ela mesmo) é a família.

      A normatividade está cheia de vícios, sob forte influência de nossa cultura latina-apostólica-romana-cristã, que não vai impactar somente no simples fato de sermos gays. A coisa é bem mais ampla e só dei uma pincelada por aqui das características (negativas) que mais se evidenciaram em 4 anos de namoro.

      A gente julga tanto a permissividade e a promiscuidade que é uma das facetas da vida gay. Eu mesmo já fiz bastante disso quando namorava e vivia amplamente a normatividade. Mas, daí, o tempo passa, a gente vai entendendo as pessoas de nosso convívio e – mesmo que sem querer – envoltas no modelo tradicional, as pessoas não percebem que existe, na mesma proporção, um tipo de permissividade e promiscuidade moral dentro do núcleo familiar. Porque, a mim, a cultura classista dentro de uma família (comparando reputações entre irmãos e sobrinhos), a hipocrisia de estar todo mundo junto em sorrisos e a distância em críticas altamente venenosas, depreciativas mesmo, o “rabo preso”, entre outros, não deixam de ser permissividade e promiscuidade.

      Esse tipo de prazer por se sentir superior ao outro, dentro da família, é uma putaria bem suja ao meu ver.

      Mas, esse é meu ponto de vista formado pela vivência. Não tenho essas situações na minha família e aprendi em casa a jogar as cartas na mesa, mesmo que doa um pouco por um tempo.

      No final, cada um é cada um. Sei que também estou julgando um modelo. Mas estou apontando para posturas recorrentes na tal da normatividade. O post veio para esclarecer e não para dizer o que é certo ou errado, bom ou mal. Cada um escolhe seu caminho.

      Valeu pelos seus comentários.

      Beijo,
      MVG

  3. Felipe disse:

    Normatividade = palavra mais quente…rs…Você está obcecado por esta palavra…rs

    1. minhavidagay disse:

      Dessa vez não fui eu, Felipe! Foi o leitor Wong Foo que pediu e me inspirei nesse texto! rs

      Me dá uma colher de chá, vai… :P

  4. lebeadle disse:

    O seu belo relato dá esperanças a quem ainda não enfrentou o lado família da vida gay; afinal deve ser diferente de tudo o que se projeta para si o enfrentamento com a realidade, com o fato de encontrar todas aquelas pessoas e ter de suportar seus olhares, julgamentos, pensamentos e ainda sobreviver depois disso e ter de repetir e repetir esse confronto (haja estômago!).

    1. minhavidagay disse:

      Oi Le Beadle,
      claro que se eu for colocar na balança, tivemos muito mais coisas boas do que esse punhado de hábitos / manias comportamentais viciantes das famílias tradicionais brasileiras.

      Mas o post serviu para que nós – gays – façamos um balanço porque a tal heteronormatividade não é um mar-de-rosas nesse ritmo de querermos nos “heterossexualizar” socialmente. Como se isso fosse resultar na “glória divina”, na “perfeição”.

      Em outras palavras, problemas sempre vamos ter. A mim, a homossexualidade é uma das menores delas hoje. A questão é a relação humana mesmo, que é a dádiva e ao mesmo tempo o veneno.

      O ser humano é antagônico. E a nossa cultura nos influencia demais, muito além do que podemos imaginar.

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