Minha Vida Gay – 23 anos, saindo do armário e iniciando uma empresa


O leitor Wellington solicitou um tema de post e cá estou com um novo texto para tentar apresentar intersecções dos meus 23 anos, saindo do armário e iniciando minha primeira empresa, sem contar o namoro que pintou (e durou 1 ano e 11 meses) junto de tudo isso.

Meus 23 anos definitivamente foram um marco na minha vida por todas essas situações que anunciavam um novo ciclo, para quem acredita em ciclos. É interessante trazer essas memórias e lembrar que um dia, eu, com quase 37 anos hoje, já tive um dia 23! Dá para acreditar, caralho – rs?! A gente quando é novo assim, é gay e imagina a vida acima dos 30 anos costuma ter uma sensação de desespero, de que a velhice chegou e que a vida perde a vitalidade. Confesso que fui um desses que, aos meus 23 anos me projetava muito velho quando passasse a marca dos 30. Bom é ver que esse tempo chegou e me sinto muito mais satisfeito e realizado do que os 23! :) A gente aprende a ter um controle maior sobre a própria vida.

O sentido de maturidade, de “horas de vôo”, traz a mim muita segurança. Essa sensação é ímpar. Esperem e comprovem.

Mas voltando ao tema, com a tal idade dos 20 e poucos anos, a minha vida era muito parecida à retrada na música do Raimundos, “Vinte e poucos anos”. Eu tinha ingenuidade e energia suficientes de “ir muito mais além”. Parecia que toda vontade contida e potencializada dentro de mim (da homossexualidade reprimida na adolescência e da sensação de vida não vivida por toda essa contenção) explodia de uma vez, de maneira bem intensa, impulsiva e – sim – ingênua, impactando definitivamente minha vida pessoal e profissional e fazendo a pessoa que sou hoje. Sou muito prático e na juventude não aceitava nada a ideia de “vai com calma” ou “ir aos poucos”. Hoje falo muito disso para os amigos que tem 20 e poucos anos – rs. Mas no meu tempo era “eu e Deus”. Não tinha ou não deixava ninguém meter o bedelho.

Ter feito ESPM não me isentou dos percalços, cagadas e atropelos de um jovem assumindo a própria empresa sem nenhuma preocupação se iria dar certo ou errado, sem planejamento nem plano de negócio. A mim, a coisa tinha que ir na raça (na ingenuidade e com uma boa pitada de sorte). Eu era “cabeçudo”, ainda sou, mas na época não sabia canalizar as energias – rs.

Ter um pai altamente temeroso (por mim), excessivamente protetor, era também meu impulso “do contra” para realizar minhas próprias vontades. Repudiava o excesso de preocupação e cuidado. Ele, apesar de poder, não me ajudou em nada, quando não me “atrapalhava” tentando, sem querer, minar tal projeto.

Sou ainda da geração que pegou um pouco dos movimentos políticos cantados pela Legião Urbana e pelo Barão Vermelho, por exemplo. Vivi minha infância na época dos protestos das Diretas Já (pelo fim da ditadura) e toda aquela ideologia política fazia parte das informações que eu digeria. Posso dizer, então, que o espírito de certa rebeldia tinha bastante a ver comigo e me influenciava muito. Sozinho, descobri o movimento da Tropicália e, aí, “fudeu” de vez. Eu queria viver uma contracultura!

Curiosamente, levei toda essa energia à ideologia da empresa, basicamente tentando provar que um “porra louca, maconheiro e sem vergonha” (o primeiro adjetivo falado muito pelo meu pai – rs – e os demais pela Legião) poderia provar para a sociedade, para os colegas da faculdade e, principalmente para meu pai, que eu poderia seguir por um caminho diferente. Diferente de tudo que minha avó repassou para papai e que ele queria me repassar.

Primeiro que a Internet estava começando e nenhum dos meus amigos se atreviam a entrar nessa área (era terreno incerto). Ah, o ineditismo fazia meus olhos brilhar! Segundo porque, se dependesse do meu pai, era para eu trabalhar numa multinacional, ter carteira registrada e seguir um plano de carreira. Quiçá um funcionário público seria melhor! Nada disso me dava orgasmos. Eu queria mesmo criar minha própria empresa. Nisso sim eu sentia um tesão. Fui atrás do meu tesão – rs.

Não posso negar que a soma da minha personalidade, com a minha vontade de “revolucionar” e a vontade do enfrentamento das tradições materializadas basicamente em papai foram os combustíveis principais para dar o primeiro passo. Não fiz pesquisa, não estudei mercado e não usei de nenhum planejamento. Neguei até os ensinamentos da minha faculdade.

Os três primeiros anos da empresa foram difíceis, para se criar um lastro de clientes, para se cair as muitas fichas da administração de um negócio. Eu era um simples designer, “operador de Macintosh” que sabia usar bem as ferramentas e fazer um “design legal”. As vezes, fumava um baseado para fazer a tal da “arte legal”, mas como os Beatles afirmaram, usar drogas e criar são coisas que não combinam. Pelo menos a mim nunca funcionou, embora o experimentalismo tenha sido extremamente válido! rs

De maneira tão informal e inocente, eu e meu sócio levamos o negócio por três anos. Quando eu estava entre os 26 e 27 anos, meu sócio vinha com a notícia que iria embora para o Japão com a esposa. Ela não tinha se encontrado profissionalmente, mesmo com a formação de fonoaudióloga, e – de fato – a minha/nossa empresa estava apenas começando a pagar bem as contas, ou seja, tirávamos apenas uns trocados. Minha mãe, naquela época, me subsidiava. Ok, tive um mãetrocínio para as coisas básicas de um jovem de classe média. Ela notando meu pai virando as costas para minha “aventura de empresário” sentia-se no dever se fazer o contraponto.

Começamos sem investidor, sem esses conceitos modernos de “startup”, sem pai nenhum para ajudar a por uma lenha. Tudo começou com dois projetos. Pastamos, comemos capim e o tal “pão do demo” e a necessidade fez todas as ocasiões: fui aprendendo sobre controle financeiro, gestão de pessoas, infraestrutura, atendimento, o poder da indicação, prospecção de clientes e – acima de tudo – marketing. Eu era “o cara” de criação durante os 4 anos da faculdade. De repente, aquilo que fiz desdém (do marketing) foi o bálsamo para ajeitar todo o negócio. Estava lá, negado mas guardado no subconsciente.

O tempo passou e estou aqui, há 14 anos atuando como empreendedor. Não sou rico, mas pago todas minhas contas e sobra alguma coisa para usar com os prazeres individuais (Lado A e Lado B – rs). Tive mais duas empresas como citei pelo Blog MVG recentemente.

Costumo dizer que minha inclusão na vida de empresário começou as avessas: primeiro me joguei (sem medo de ser feliz e sem pensar na chance de dar errado) e depois fui aprender as técnicas administrativas, na prática. Nesse jogo “porra louca” que criei pra mim, acabei me forçando a descobrir minhas aptidões e ser, pelo menos, medíocre naquilo que não tenho dom nenhum.

Imaginem vocês, leitores, que aprendi a viver me jogando? Daí, começa a fazer sentido do por quê eu estimular tanto a vocês se jogarem mais, as saírem de suas caixinhas, a reverem valores de suas próprias normatividades (olha aí, Felipe, a palavrinha “quente” de novo – rs). As teorias, os devaneios, os pensamentos e planos no papel fazem parte daquilo que todo mundo de bom senso faz (rs). Tudo isso se encontra em cursos, em terapias, aconselhamentos de pais ou amigos de confiança, ou em consultorias.

Mas para a teoria virar prática depende exclusivamente desse impulso pessoal.

Encarar com certa segurança o “fator risco” no ato de empreender é uma das características que faz um empreendedor. De alguma maneira levo um pouco disso para a vida também porque, começar uma empresa aos trancos e barrancos como foi e estar inteiro depois de 14 anos, nos faz mais corajosos. Preferi primeiro tomar os tapas.

Se a gente notar as biografias de grandes empreendedores, a gente vai identificar que em alguns momentos todos fizeram cagadas incríveis, no sentido do lançamento de um produto fracassado como foi o Windows Vista do Tio Bill, viver a beira da falência como aconteceu com a Ford do Henry Ford, criar uma empresa viajante como foi a NEXT do Steve Jobs, sugerir o lançamento de um XBox One com travas malucas e assim por diante. Por mais que os planos de negócios estejam teoricamente perfeitos e alinhados, na hora que se dá início ao jogo, muita coisa aparece fora do lugar. Isso é empreender e a gente só aprende a antever erros ou falhas vivendo o empreendedorismo. E o empreendedor tem que estar totalmente aberto, sensível e atento aos desejos do seu consumidor.

A relação é simples: quem gosta de ser funcionário, CLT e objetiva plano de carreira busca segurança e lida mal com sentimentos de insegurança e imprevistos num próximo mês. Faz sentido, certo? Quem gosta de empreender sabe lidar melhor com o sentimento da insegurança. Posso até dizer que mudanças me dão prazer. A grande maioria tem medo de mudanças.

Por que Amyr Klink, que viveu 100 dias entre o céu e o mar virou consultor de reputação para empresas? Simples: durante 100 dias, sozinho e num barquinho ele teve que enfrentar seus medos mais assombrosos.

Em outras palavras, estamos falando de coragem. O curso vai dar uma base. A faculdade o mesmo. O plano de negócio vai traçar ideias a curto, médio e longo prazo (funcionará como um roteiro) e a experiência antes de se ter um negócio vai dar uma mínima bagagem. Mas até aí, tudo isso é necessidade fundamental para qualquer profissional hoje em dia. Para virar empresário precisa de tudo isso (e de preferência primeiro isso e não ao contrário como fiz – rs) para depois olhar para os próprios medos e enfrentá-los.

Gente, não é exatamente isso que a gente faz com a nossa homossexualidade? A aceitação nada mais é do que o resultado de práticas corajosas e a conquista de segurança do que se é: GAY.

Ao invés de se jogar na balada, conceito muito fácil para quem vive o mainstream, a minha sugestão é outra: se joga para a vida! No geral. E corram atrás daquilo que traz felicidade.

Parafraseando novamente o Steve Jobs:

“Não deixe o barulho da opinião dos outros abafar sua voz interior. E mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.”

Caraca! Não é o Steve Jobs dando conselhos para o gay que ainda não está resolvido?! Ou será um conselho profissional?

Tanto faz. O que importa é despertar a coragem.

9 comentários Adicione o seu

  1. eri/recife disse:

    Se tem uma coisa que eu sou é covarde. Devo ter uma virtude ou outra, mas nada que o medo não sufoque. Depois de apanhar muito descobrir que se sofre mais tentando fugir do que encarando de uma vez. Sou fóbico social e uma das nossas maiores características é o orgulho, mania de perfeição. E como a perfeição é inalcansável vem a insegurança, o medo de dar o primeiro passo.

    Agradeço todo dia por estar na casa dos 20 e ainda poder fazer algo por mim mesmo. tenho horror de viver em função da subsistência e garantia da aposentadoria. Quero empreender, não necessariamente em um negócio, mas em mim mesmo, construir uma trajetória, seguir o que traz tesão. Excelente texto; Esse tipo de orientação dificilmente é oferecida por pais/educadores/instituições de ensinos. Seria bastante útil.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Eri!

      Muito obrigado pelos elogios. Espero que o MVG seja um incentivo para sua superação nos diversos níveis de fobia. E é isso mesmo: você tem 20 anos. Não se cobre tanto em perfeições.

      Busque fazer o bom ao invés do ótimo.

      Um abraço,
      MVG

  2. Wellington disse:

    Primeiramente quero muito agradecer por atender minha sugestão.
    A princípio achei que o post teria um caráter egoísta, por talvez refletir uma necessidade minha. Diante das minha incertezas, mas você maestramente conseguiu transformar o post em algo que novamente atinge td mundo.
    Como já disse outras vezes, e reitero (agora com mais convicção ainda) que sua vida se assemelha bastante a minha. Tirando o seu lado B que é mais aflorado que o meu e a questão do seu pai de certa forma contrariar sua atitude, meus pais sempre me apoiaram e até indicam diversos clientes :)
    Bom adorei saber que o seu projeto começar a empresa foi uma coisa meio jogada, e que foi fluindo com o tempo, pois estava começando a achar que tinha sido uma atitude precipitada, que eu me joguei sem pensar, etc.
    Acho que a minha sócia e eu tbm devo um muito obrigado por me motivar a prosseguir,pois é justamente isso que eu quero pra mim.
    A visão de funcionário público me atrai um pouco pela questão do salário, mas morro de medo de ser aquela pessoa frustada que não vê nenhum dinamismo no trabalho, e não me vejo trabalhando do mesmo jeito e com a mesma coisa por trinta anos. Na minha empresa tenha muito mais liberdade, ainda que essa liberdade não tenha chegado, afinal começo de carreira a gente aceita td. kkkkkkk
    Adorei saber q os primeiros anos foram andando aos trancos e barrancos, pois me encontro meio assim, mas não posso dizer que não previa isso. E um ponto positivo é que a empresa esta melhor do que o previsto.
    Fiquei triste com apenas uma questão, você disse que não esta rico. Poxa montei a empresa pra ser um Donald Trump da vida, kkkkkkkk
    Mas quem sabe vc não fica rico em breve, e ai me estimula novamente a prosseguir, pq a tão sonhada riqueza vai chegar. kkkkkkkk
    Acrescento ainda que fiquei com uma invejinha da época musical em que td isso se deu na sua vida(Barão Vermelho e Legião Urbana <3). Minha adolescência e juventude tem sido pobre na questão musical, ao menos na minha opinião, por isso ouço musica de velho :/
    Qto a questão da velhice ao trinta não sinto isso. Acho que os trinta é de certa forma o ápice da vida, pois estaria com saúde e aparência jovial e uma estabilidade financeira maior(pelo menos espero que eu consiga os dois), mas sei que todas as fases da vida tem seu lado bom e ruim. Basta saber explorar o lado bom, oq de certa forma eu sempre busco fazer, e tenho obtido exito.
    Por fim, minha diferença com você é que eu abri a empresa aos 23 e aos 24 me assumi, achei mais poético, e mais ilustrativo me declarar gay aos vinte e quatro ;)
    Sucesso em todas os segmentos, profissional, pessoal, e sei lá quais outros
    Obrigado de novo pelo post
    Beijos
    Wellington

    1. minhavidagay disse:

      Valeu, Wellington! ;)

      Confesso não querer ser uma pessoa emasiadamente rica, a ponto de ter que frequentar a high society brasileira e me tornar um alienado. Pois, bem ou mal, um alto enriquecimento acaba nos aproximando de pessoas iguais e me incomoda um pouco ser mais um daqueles que a gente vê por aí. Mas enquanto isso, é colocar lenha nessa fogueira!

      Beijo,
      MVG

      1. Wellington disse:

        Por nd. Obrigado vc pelo post
        E eu meio que sempre idealizei esse lance da fortuna e tal, e de certa forma acho que ainda que eu fosse muito rico isso não transformaria a pessoa que eu sou. É claro que você acaba diante de uma realidade fora da sociedade, mas sempre haverá algo pra fazer você colocar o pé no chão.
        Eu estou bem longe de ser rico(droga!, kkkkkk), todavia vejo algumas pessoas que ganham um salário mínimo. E me pergunto como.? Essa questão da miopia social, acontece mesmo quando não temos muito dinheiro, pois de verdade não consigo imaginar uma pessoa vivendo com um salário mínimo.
        Claro que eu acho extremamente tosco alguém menosprezar outro por condições sociais, mas acho que isso tem mais a ver com caráter da pessoa do que com a conta bancária, pois se uma pessoa que vive com dois salários mínimos pode desprezar a que vive com um enquanto uma pessoa muito rica não faria.
        Não sei se consegui me expressar oq eu queria
        E por fim é sim por lenha na fogueira.
        PS.: esqueci de comentar que ontem não sei por qual motivo revi o post da música que você fez para o seu ex. E por conta disso retiro oq eu disse sobre a pobreza musical nas últimas décadas. Aquela música é incrível!
        Bjs
        Well

      2. minhavidagay disse:

        Poxa, Well, assim você me deixa constrangindo…rs

        Muito obrigado. :)

        Bjo,
        MVG

  3. Wellington disse:

    Desculpa MVG, a ideia era deixa-lo lisonjeado e não constrangido, mas acho que constrangido também serve ;p
    kkkkkk
    Bjs,
    Well

  4. Caetano disse:

    “Quando os pais e a sociedade dizem o tempo todo que é preciso conseguir, conseguir, conseguir, massacram os filhos. É inescapável errar…Aprender a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo… Hoje os filhos se tornaram um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem a sua vida. Não é justo que além de carregarem o peso das próprias dificuldades, os filhos também tenham de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles…”

    Jean-Pierre Lebrun

    1. minhavidagay disse:

      Perfeito resumo da liquidez das novas gerações!

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