Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre a timidez


timidez

Hoje vai rolar um “grande encontro” reunindo sete conhecidos (me incluindo) por meio do Blog Minha Vida Gay. Conheci na sexta-feira passada e no domingo, respectivamente, o “quinto” e o “sexto” meliante – rs.

Quando deixo de ser o MVG e passo a ser um nome, uma fisionomia, um jeito de me comportar e uma maneira de lidar com as pessoas presencialmente, o que era imaginado passa a se configurar de uma maneira real.

É bastante interessante perceber a reação de cada um e já ouvi desde que eu pareço uma “pedra, frio e racional demais”, “um ser iluminado” a um “cara divertido, espirituoso”. Gargalhadas já também expressaram algum adjetivo que não tomou forma, ficou apenas na risada e ficou assim, subentendido. Eis o ponto de vista daqueles que me encontram. É bom humanizar o tal do MVG de vez em quando!

Do meu ponto de vista, das minhas percepções, o que vejo é a diversidade. Primeiramente que hoje estarão reunidas pessoas de 22 anos até 45. Eu fico no meio, com quase 37 anos. Depois, que é o verdadeiro barato de tudo isso, é que vão se juntar pessoas de histórias e hábitos bastante heterogêneos. Metade são orientais e a outra parte gaijins (a maneira que o oriental chama o ocidental).

Cada um tem caminhado num ritmo, nessa estrada que é a nossa própria homossexualidade, dentre tantas outras estradas que devemos caminhar.

Por fim, e não menos importante, alguns que há um ano atrás estavam dentro da “casca de ovo”, eram pintinhos, se tornaram galos (ou galinhas – rs) e estão namorando. Olham para trás, vêem a pessoa que era e – hoje – existe um novo sentido de existência. Outros, já até namoraram e já lidam com a sexualidade como uma parceira que caminha lado-a-lado faz um tempo. E para alguns, tudo isso de “ser gay” é novo a si e para os familiares próximos. Estão aprendendo a dividir o joio do trigo. Tem a insegurança batendo aqui e ali, mas também a vontade de estar junto nessa “ONG MVG”. Está tudo bem.

Percebo também que o fato de ser gay é meramente um detalhe mediante as diversas condições e desafios que a vida nos coloca durante o tempo. Claro que para a maioria daqueles que acabaram de sair do armário, parece que a homossexualidade assumida e todas as vivências deccorentes dessa assunção, vira o principal pilar da vida. Essa euforia, êxtase e deslumbre dura, no final, a medida da persondalide de cada um. A fase autoafirmativa, como gay, pode durar meses ou anos.

Nossa personalidade é extremamente representativa em todo esse processo. O “grande guarda-chuva” que nos sustenta é no final a própria personalidade, que vai dar o tom, a voz e a maneira que lidaremos com os estudos, o trabalho, a relação familiar, a vida social e a própria sexualidade. E um desvendar particular e legítimo.

As vezes, a gente assume para si, assume para os pais, começa a liberar o radar, vive até a normatividade mas, no final, tudo parece igual. As vezes, e na maioria das vezes, o mundo fica mais colorido e parece que uma pedra muito grande é lançada de nossas costas. Tudo isso varia conforme as nossas expectativas e o nosso olhar para as coisas.

No final e a mim, o melhor resultado é quando “ser gay” é apenas uma partícula.

No momento em que nos assumimos gays, diretamente acreditamos que o convívio social (seja afetivo, familiar ou de amizade) irá se estabelecer ou se reestabelecer em um estalo. Mas não é assim que funciona. Estar bem consigo, como gay, é 50%. Os outros 50% não quer dizer que as coisas, as pessoas e o “mundo” chegarão até você reconhecendo todas suas virtudes e qualidades, compreendendo sua “nova cabeça” e aceitando de braços abertos. Não é assim. Os outros 50% é, de novo, cada um tendo que avançar de maneira pró-ativa, da mesma maneira que buscamos avançar em outros aspectos da vida.

Avançar significa conquistar o bem estar próprio, acima de tudo.

Daí, as vezes, a gente começa a brincar num Grindr da vida achando que todos que a gente vai puxar conversa irão corresponder. Você está lá, ávido para descobrir o beijo, o abraço e o sexo. Ávido para descobrir o outro. Mas, mais uma vez, você vai notar que as pessoas são mais voláteis do que se imagina. Vai descobrir que até parecem ser mal educadas por só se manifestarem quando querem. Vai descobrir que, acima de tudo, até pelo Grindr é necéssario aprender a se relacionar.

Temos então que descobrir a lidar com EXPECTATIVAS VS. REALIDADE. Suas próprias expectativas e as expectativas dos outros. O desejo de querer fazer amizades, o desejo de se sentir incluso, o desejo de querer namorar!

Mas com quem namorar? O que devo buscar? É a atração física? E o nível de maturidade? Sou eu?

Daí as vezes a gente se acha tímido, calado e fechado. Mas a gente não é tímido, calado e fechado porque a gente é gay ou porque um dia fomos reprimidos /enrustidos. A gente é tímido, calado e fechado por causa, de novo, de nossa personalidade! A gente esquece que “ser gay” é a mera atração por outro do mesmo sexo e tenta colocar outras atribuições só para justificar nosso estado.

E dá para mudar isso?

Certamente dá. Eu me considero tímido, calado e fechado (pelo menos me considerava quando era adolescente). Quem conhece o MVG pessoalmente vai imaginar o contrário. Mas digo que aprendi a rever essas características pelo próprio exercício de viver.

ENSAIO SOBRE A TIMIDEZ

A timidez é uma contenção. Muitas vezes é sintoma do medo/insegurança que temos de nos relacionar. Relacionar, nada mais é que a apresentação de si para o outro e vice-versa. E se não houver alguma troca mínima dessa apresentação não se configura o relacionamento.

A timidez é um sentido humano de proteção, do resguardo ao que é privado ou íntimo (por ser descendente de japonês, posso dizer que somos muito hábeis nessa coisa, de cuidar bem do íntimo e do privado, mas costumamos ter mais dificuldade para lidar com o jeito público da cultura geral brasileira).

A timidez, mais do que a insegurança de lidar com o outro, é o medo de expor a si mesmo.

Insegurança de tornar mais público o “eu” privado. Podemos achar que não somos belos suficientes, podemos achar que não temos assunto, podemos nos achar vazios, podemos achar que somos gays (e está aí o “ser gay” de maneira deturpada).

O primeiro passo para melhorar a timidez é reconhecer o “eu” positivo e não supervalorizar o “eu” negativo. Entender que o “ser gay” não é positivo nem negativo. É ser.

Gay não é um adjetivo.

Talvez não sejamos bonitos como o ator da novela, nem articulados como o professor da faculdade. Mas como seres sociais precisamos aprender a nos relacionar. E, sim, enquanto para alguns o ato de se comunicar é meio inato, para outros é apreendido.

Algumas crianças são falantes (fui um desses), de se comunicar naturalmente com seus coleguinhas e com adultos. Outras crianças são mais caladas e fechadas. Mas, geralmente, na adolescência – quando passamos a perceber o mundo de referências e comparações, o mundo que vai exigir que a gente se posicione em algum lugar na sociedade – normalmente os gays (ainda enrustidos) passam a se conter mais, a exercer a tal da timidez (seja factual, seja a proteção). E daí, o tempo vai passando e a necessidade interna vai nos cobrar. Timidez perante o mundo é uma coisa. Ser gay perante o mundo é outra.

Pois, veja bem, estamos num ritmo “pró-gay” tão intenso nos últimos anos que o gay que não entrar nessa frequência está perdendo seu tempo. Notem como a sociedade é cruel: apesar de alguns se sentirem estimulados pelo ritmo, outros se sentem pressionados.

Mas não tem jeito. Cruel ou não, o mundo gira desse jeito desde que é mundo e ninguém é Deus para modificá-lo. O esforço de romper com o sentido individual da timidez se faz necessário até aquela medida que nos deixe em paz com as inseguranças correspondentes.

Durante muitos anos protegemos nossa homossexualidade num perfil tímido. Mas e quando esse modelo não faz mais sentido? Como fazer?

A primeira coisa é separar a timidez da homossexualidade. A segunda é tirar o gay que se é da categoria de adjetivo. Gay é ser e não qualidade ou estado. E a terceira é a experiência pela vivência. Relacione-se, mesmo que no começo não se saiba o que dizer.

A timidez pode ser legítima se vier da personalidade. Mas sei bem da timidez como proteção do que se é privado.

10 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Exato MVG. Muitos gays fazem esta associação de timidez e retração, bem como o fato de terem grandes dificuldades na vida com a orientação sexual que apresentam. De certa forma, tudo parece e até pode ser mais difícil por sermos fora do padrão, que não é apenas o comum, mas é tido como imposto. Mas neste caso não é, pelo menos não somente.

    Posso dizer que comigo não foi bem assim e não vivi esta associação. Sempre fui muito tímido e ainda sou um bocado, dependendo da situação. Na minha adolescência então nem se fala. Porém aos poucos fui evoluindo ao ponto de até chegar a ficar seguro o bastante para fazer perguntas na sala de aula rs (nossa, veja só o quanto eu era tímido).

    Vejo que hoje tudo isso foi fruto da minha auto repressão, devido inúmeros fatores, incluindo o modo de criação de superproteção dos pais, a alta dependência deles e o catolicismo. Ou seja, não foi simplesmente porque sempre fui homossexual, apesar de só ter me dado conta disso aos 16. E digo mais, se eu fosse heterossexual, minha vida poderia ser até mais complicada rs.

  2. Jorge disse:

    nossa, até me assusto só de pensar no dia em que eu conhecer alguém, sou muito tímido, na escola eu falo muito pouco por que tenho medo de me expor e dar muita pinta, já tentei me soltar um pouco, mas acho melhor não, não combina nada comigo kkk, enquanto muitos estão saindo com amigos ou na balada, eu fico no meu quarto escutando música e lendo sites como o seu (a propósito, muito bom o site), mas só quando não tem ninguém em casa, e por isso já me da uma ansiedade, só de pensar nessas situações de ir em baladas, dançar e essas coisas. Resumindo sou gay enrustido, tímido, nerd, tem coisa pior? >.<

  3. Wellington disse:

    Poxa fiquei com uma invejazinha dessa reunião
    Quero ser parte dessa “gangue” ou como vc diz “ONG MVG”
    Qto a timidez nunca me considerei tímido, desde criança já era um tagarela, até sofria um “bullying” por falar demais.
    Nunca fiz o papel introvertido, essa caraterística só existia qdo tratava-se da minha sexualidade(tanto qdo “bancava” o hetero, qto agora).
    Portanto concordo que o timidez não tem absolutamente nada a ver com ser gay ou não, mas pode ter grande relação em como vc lhe da com isso.
    Talvez superar a timidez nesse aspecto demonstra uma efetiva e completa aceitação, então espero caminhar para esse sentido
    Um grande abraço e ótima reunião com a galera.
    Well

  4. Thiago disse:

    Muito bom o assunto. Timidez demais pode complicar o convívio social. Como foi dito, a timidez pode estar associada a medo e insegurança, e isso pode e/ou deve ser tratado, no ponto de vista terapêutico. Ser introvertido, introspectivo ou ser reservado quanto as suas particularidades absolutamente não significa que somos inseguros ou temos medos.
    O “ser gay” pode se configurar de muitas formas, levando em consideração os padrões e estereótipos. Numa visão mais “simples”, ser gay é apenas ser alguém que se relaciona sexualmente e afetivamente com alguém do mesmo sexo. Culturalmente, o termo “gay” nos remete a imagens, tipos e formas de ser e agir muito variadas, dos mais ridículos aos mais engraçados. A interpretação de cada um sobre o termo “gay” é como faz o indivíduo agir diante diversas situações. Acredito que esta nova geração de jovens já tem outras percepções sobre “ser gay”. Como se diz no título “gay não é adjetivo”, creio que seja esta nova galerinha que vai conceber essa idéia. Será que “gay” como adjetivo não é somente fruto da mentalidade preconceituosa a qual ainda temos alguns ranços?
    Gays tímidos, são o grupo de pessoas pertencentes ao grupo de pessoas em geral tímidas. Cada um com sua natureza, essência e vivência. Cada uma com uma maneira de ser, cada tímido com sua tímidez e em seu próprio contexto. Que existem os tímidos que assim são por reprimirem sua sexualidade, não são poucos. Bem como também, são pessoas que como outras, são tímidas por reprimirem traços de sua personalidade ou mesmo seu próprio “eu”, e nada que tangencie a sexualidade.
    Bem, este é o meu texto com opinião. risos

  5. Vinicius disse:

    Eu não sei na verdade quem eu sou

    Timidez sempre foi uma característica minha. Fui numa festa que se paga a entrada com meu irmão e vários amigos dele, (todos héteros) não conhecia nenhum deles por isso falei pouco com eles.

    Depois de grandes doses de Vodka misturada com refrigerante minha timidez foi embora e já estava falando com todo mundo. Como todo grupo de garotos sempre rola aquela de “quem pega mais mulher” tive que tentar ficar com uma menina para não desconfiarem de mim, juro que tentei, mas não consegui.

    No dia seguinte acordei com uma angustia horrível dentro de mim por tentar forçar uma coisa que não faz parte da minha realidade.

    Não adianta forçar uma coisa que você não é!

    Desculpe pelo desabafo, mas eu precisava disso.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Vinicius!

      Não adianta forçar mesmo. Temos que ser o que somos sem forçação.

      Isso que você sentiu se chama ressaca moral, que é normal. Muitas vezes bate na gente quando extrapolamos ou nos contemos demais em situações como baladas.

      Para evitar a ressaca moral, é bastante importante achar seu ritmo. E não fazer as coisas “obrigado” por cobranças sociais de grupos.

      No meio gay é a mesmíssima coisa. Você sair com amigos e, não ficar com alguém, é como se fosse algo punitivo.

      Viver em sociedade é isso, é uma merda na verdade – rs. Temos que seguir um padrão de conduta para não ser taxado.

      Com o tempo, com a vivência e com o amadurecimento, cumprir essas “regrinhas comportamentais” não fará mais sentido nenhum e tal senso de reputação será de você para com você mesmo.

      Um abraço
      MVG

  6. lebeadle disse:

    É, a timidez como máscara pode ser massacrante; não é simples fazer a transição. Hoje depois de muita luta, idas e vindas, é que começo a vislumbrar pessoas positivas na vida gay, incluindo você MVG a quem tenho o prazer de conhecer aqui pelo blog e acredito que teria a mesma felicidade em conhecer pessoalmente. Esse negócio do tempo é um conflito, uma hora a gente diz: “que nada, vai dar tempo, os caras também estão envelhecendo, todo pé encontra seu sapato” e na outra quando vê a vida passando, o povo se divertindo dá uma vontade de ir também, mas no meu caso aprendi que tenho que respeitar meu ritmo, avançar sem me ferir absurdamente como já fiz de outras vezes.

  7. eri disse:

    Depois da postagem anterior sobre coragem, esse texto vem como um excelente complemento.

    Realmente a timidez envolve uma penca de fatores, e o medo de se mostrar aos olhos julgadores do outro é um dos principais. Eu já era muito tímido, incapaz de abrir a boca em uma aula e perguntar (como nosso amigo caio aqui); mas é inegável o quanto me descobrir gay só agravou a situação. A homossexualidade tem uma dimensão monstruosa no início, como você descreve. Foi um desafio me expor pela primeira vez a alguém. Um parceiro. Teve momentos em que me sentir sujo, vunerável, altamente exposto. E então descobri que não é bem assim. Por trás do peso que o termo tem no início, a “relação gay” é só uma interação como qualquer outra.

    Tenho sufocado esse lado, e ao menos hoje, diante de outro gay/parceiro, só pesa a timidez típica, desvinculada da minha insegurança sexual. Próximo passo é conseguir o mesmo em relação à interação com amigos e parentes.

  8. Daniel disse:

    Muito bom seu texto MVG ! Como dizem os Smiths ( minha banda predileta até hj) em “Ask” : ” Timidez é legal, mas a timidez pode te impedir de fazer coisas que você gostaria de fazer (ou dizer).” Realmente, a timidez pode até ter um certo charme, pois atrai um certo mistério, mas na verdade, ser tímido pode atrapalhar muito a nossa vida !
    Falo isso pq era muito tímido e reservado na adolescência, tinha pouquíssimos amigos e não me relacionava muito com as pessoas na escola. Para completar, eu era cheio de “grilos” na cabeça, me achava feio, estranho e sabia que era gay, mas achava q ninguém se apaixonaria por mim. Cheguei a namorar uma menina e tudo, talvez para me achar mais “normal”, mas rolou por pouco tempo. Fiquei séculos sem namorar, fiz terapia de grupo e individual e um belo dia decidi q iria tentar ter alguém ( na vdd fui mais safadinho e pensei “não vai mais me faltar homem rsrsrs). Me apaixonei por um amigo q não se assumia e ficamos ( e hj ele está com uma mulher !), dps conheci meu primeiro namorado, o segundo, um ficante e conheci meu namorado/marido atual com quem estou há uns 6 anos.
    Dps de tanto tempo , percebo q temos q que nos assumir sim, não só como gays ou bi, mas como pessoas que somos, termos orgulho de quem somos mesmo com defeitos e aprendermos a nos arriscar. Hoje sou bem menos tímido (inclusive sou professor) e a vida foi me ensinando assim à como vc MGV ,a perceber que certos complexos e grilos são coisas só da nossa cabeça e que a opinião das pessoas com tempo passa a não importar muito . Não dá para perder tempo com o q ou quem nos faz infeliz ! Como dizia Belchior “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Grande beijo ! Sou seu fã!

    1. minhavidagay disse:

      Belo relato, Daniel!
      Muito obrigado.

      Um beijo,
      MVG

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