Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre o ciúme

Ah, o ciúme… sentimento complicado que enruste tantas questões. Sentimento tão presente na vida dos casais e namorados gays.

O ciúme é muito saudável quando dosado. Quando colocado de uma maneira íntegra e legítima, porém leve.

Ciúme é um efeito da preocupação que se tem em ser menos interessante que fulano ou cicrano. Esse é o grande problema do ciúme: está sempre envolto de comparações com outros.

Ciúme nada mais é do que sintoma de sentimentos de insegurança em relação a alguém. Por vezes, uma falta de confiança de si, seja num aspecto estético, intelectual ou material. Uma sensação de inferioridade em relação a características alheias (a beleza, o intelecto ou o status de alguém a qual nos comparamos). E normalmente teremos ciúme justamente daquele que nos chama a atenção pelos exatos motivos: beleza, intelecto ou condição material.

Teremos ciúme também por vezes idealizar alguém que na realidade não é incrível, fabuloso e completo. Ninguém é tudo isso fora das telas, mas as vezes a gente quer acreditar.

Vira e mexe a gente foge de namoros para escapar do ciúme; isso quando alguém já viveu e não soube controlar. Mas fugir do ciúme é um engano pois é o mesmo que evitar um problema que não está resolvido e que só se acerta enfrentando.

Ciúme é diferente de possessividade. A pessoa ciumenta é aquela que se compara com um “rival” nos aspectos citados acima (ou em outros) e no fundo se sente abaixo. Assim, tem a ver também com a baixa autoestima. É como se a relação legal entre seu namorado e fulano de tal tivesse uma qualidade ou um brilho diferente. Daí, o ciúme.

O ciúme é confuso. Nos irritamos com o ente querido e nos desequilibramos em relação ao terceiro. A gente nunca sabe de qual parte gera tal sentimento. Porque não vêm das partes. Vem de dentro. Por isso, tudo é bode expiatório para quando temos ciúme.

Já a pessoa possessiva quer ter o controle sobre a outra. Por causa de ciúme ou de outros motivos advindos de inseguranças, quer definir com quem a pessoa deve andar, que horas se deve enviar mensagem, como se deve falar, se agir, entre dezenas de outros atributos que – no imaginário do possessivo – são as suas regras para se sentir seguro. E pode ser algo explícito ou velado. Entre um e outro, ficaria com o explícito. O possessivo tende a querer as senhas de celular, Facebook e e-mail. Priva o outro da própria privacidade!

De ciúme e posse todos nós temos um pouco, apesar de querermos negar veementemente que essas qualidades não nos pertencem! O ideial, para o crescimento e o bem estar individual é que as pessoas assumissem, ou melhor, encontrassem o lado ciumento e/ou possessivo que cada um é para saber dosar.

Muitas vezes queremos negar esses sentimentos para não ter que afirmar que nos colocamos inseguros em relação ao outro, a pessoa querida, ou o namorado. Ciúme tem muito da necessidade de atenção, de ser foco da pessoa que se quer. O ciumento precisa de um tipo de pedestal mais alto.

Ciúme e egoismo caminham juntos. Mas o ciúme é reação, assim como o egoismo. O ponto central tende a ser sempre as inseguranças.

Ciúme não se manifesta apenas por causa da existência de uma hipotética ameaça de um pessoa. No momento em que um indivíduo demanda de atenção, o ciúme pode aparecer diante do carinho dado a um cachorro, a um objetivo, a uma casa, ao trabalho ou em qualquer situação que se estabeleça um comparativo de atenção para quem é ciumento. Claro, dependendo totalmente do nível de insegurança que a pessoa tenha.

Ciúme e posse estão envoltos de regras individuais e, quando bloqueia a vida do outro, pode sinalizar problemas.

Extirpar o ciúme é algo impossível. Principalmente para aqueles que não o assumem. Mas no momento que nos reconhecemos como pessoas ciumentas, o exercício de controle de tal sentimento passa a ser possível.

Sabe aquela pessoa que trai, contrariando toda lógica por ser justamente ciumento? É porque, no fundo, talvez seja tão inseguro e acredita tanto em suas fantasias, que acaba cometendo o ato para não se sentir por baixo. Eis a lógica do ciumento, que o faz altamente egoísta.

Ciúme bem dosado é um ótimo tempero. E é algo humano que não temos condições de arrancar. Agora, quando excessivo ou inconsciente, é tóxico.

2 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Disse tudo. E vejam só o que o ciúme exagerado faz: http://acapa.co/politica/sargento-da-pm-nao-aceita-fim-do-relacionamento-mata-excompanheiro-e-depois-se-mata/2/14/23751. Este é apenas um casinho no meio de muitos outros que rolam por aí.

    Abs.

  2. Black and Rainbow disse:

    Ciúme é um tema bem delicado em qualquer relação, já vi casais minarem os seus relacionamentos devido a esta insegurança. E comigo também já aconteceu. É algo instintivo, mas que, como você disse, dá para controlar a partir da aceitação da existência dele. Só tenho duvidas se, de fato, pode ser considerado um tempero, o vejo mais como uma erva daninha numa horta, onde sabemos da existência dela e ficamos de olho para que ela não tome conta de todo o território, mas no fundo sabemos que a nossa horta estaria bem mais bonita e saudável sem ela.

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