Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre o companheirismo


Companheirismo. Palavra que muitos gays almejam mas passam longe de compreender de maneira mais ampla o seu significado. Não que no meio heterossexual esse sentido esteja diferente: numa sociedade cada vez mais líquida e individualizada (pelo menos nas grandes capitais), o senso de companheirismo anda sendo muito pouco praticado e, consequentemente, o próprio significado tem se perdido por aí, em casos esparsos num contexto muito mais privado.

Tudo bem que uma grande parte hoje quer favorecer e cultivar a individualidade, o crescimento profissional e a independência. Mas confesso sentir que, em quatro paredes, quando não se tem mais papai ou mamãe para mimar e confortar e se vive livre, em muitos momentos a necessidade da existência de um outro que forme o par se torna importante.

Não é muito diferente da música do Queen que diz assim: “Just one year of love is better than a lifetime alone”.

Alguns filhos gays sofrem do excesso de zelo dos pais. E acaba sendo pior do que melhor pois os cordões umbilicais postergam o amadurecimento dos jovens hoje em dia. Os próprios “pais modernos” hoje se separam muito mais facilmente. Ou quando não se separam, muitos nem dormem mais na mesma cama, apenas para preservar um tipo de reputação social. E claro que existem aqueles que estão décadas juntos e conseguem reinventar a própria relação. Mas a referência de companheirismo anda bem “flexível” hoje em dia! (rs)

Para aqueles que sonham e desejam realmente um relacionamento afetivo, o companheirismo é – incondicionalmente – um fator definitivo para se construir um namoro.

E em que nível se dá esse companheirismo?

Em diversos. Mas acima de tudo, se dá quando o gesto de companheirismo vem, sem pedir licença, sem ter que mostrar que determinado gesto é esperado. O efeito surpresa (ou natural) define a qualidade – e posso até arriscar em dizer – a durabilidade de um relacionamento.

Pequenos gestos fazem a diferença. E são os pequenos que irão contar quando um relacionamento se estabelecer.

De repente, um resolveu preparar um almoço. Automaticamente se espera que o outro lave a louça. E, o que enobrece o gesto, é a pró-atividade de realizar sem pedir, sem que apenas um faça o “serviço completo” para que apenas um lado seja idolatrado. Claro que, as vezes, um “serviço completo” é digno. Mas num contexto de jovens tão “especiais” e mimados, tal “serviço” pode virar um mal hábito. Parece tão primário falar isso, mas a vida real exige a divisão de tarefas.

Fazer pequenos agrados fora de datas comemorativas específicas me soa algo bastante interessante nesse ponto. Pagar um jantar, dar um presente fora de época, mandar flores, ou qualquer outra atitude criativa e inusitada enriquece a relação. Mas é necessário cuidar: não exagerar nos agrados porque, como disse, o limite entre surpreender e mal acostumar é bastante tênue!

O namorado ficou doente e precisa passar no médico? Seja o primeiro a se manifestar para fazer companhia. Além desse ser um gesto de companheirismo, mostra consideração e educação.

Mesmo quando se está ficando com alguém, mesmo que seja apenas uma curtição, acho bastante digno responder a todas as mensagens de celular mesmo que se responda depois de algumas horas ou dias. Se a resposta demorou dias, é muito justo mandar um pedido de “desculpa pela demora” simples, sem grandes formalidades. Mais uma vez, os sensos de educação, companheirismo e respeito se interseccionam. E quando não há o interesse é 1000 vezes melhor dizer que não se tem interesse do que deixar as pessoas no vácuo, cozinhando, como se fosse uma possibilidade aqui ou ali quando bater a depressão/tesão!

Companheirismo é também uma atenção dada ao outro. É o contrário de apresentar apenas as próprias necessidades e desejos e esperar que o outro supra. Companheirismo é troca, diálogo.

Companheirismo é um tipo de arte. É a arte de enxergar o outro, entender suas pequenas demandas humanas e suprí-las. Um exemplo básico: se o seu namorado tem um cachorro – e normalmente quem tem cachorro tem um envolvimento emocional como filho – mostre-se zeloso pelo animal. Já vi situações de pessoas se colocarem enciumadas, como se o bicho fosse um concorrente de atenção! Se você sem querer rivalizar, acho muito difícil de “ganhar” essa disputa! E vai bater direto e de frente na aura do companheirismo.

Companheirismo normalmente não combina com competitividade e rivalidade. Como gays, homens ou meninos que temos uma natureza competitiva, precisamos prestar bastante atenção e não descuidar com esse tipo de coisa. A competitividade numa relação acontece muito quando um idealiza o outro e quer se tornar “igual” em algum aspecto. Existe uma diferença sutil entre admiração e querer se tornar parecido, querer provar algo de capacidade para o outro. E tudo isso depende da forma/maneira que a relação se estabelece e o cuidado que se tem para que a competitividade não vire um mal hábito entre o casal. Aquela admiração que se teve no começo pode se transformar num veneno.

Farei ainda um ensaio sobre o ciúme e a possessividade. Mas penso que seja válido uma colocação aqui: acho que o ciúme é um tempero que, se bem dosado, nada mais é que a demonstração do gostar. Mas esse tal sentimento deve estar sempre abaixo do companheirismo. Ciúme pode ser outro veneno.

Companheirismo é um cuidado mútuo, e é mútuo, não tem jeito. Aquele que demanda de muitos cuidados em relação ao outro precisa de terapeuta!

Companheirismo também diz sobre o respeitar da individualidade de cada um. Não somos iguais, grudados e nunca seremos. Podemos ter diversas afinidades, mas a vida nos enche de outras obrigações e responsabilidades que são particulares. O senso de companheirismo sabe quando existem outras prioridades que não o próprio namorado. Aliás, namorado que tem a necessidade de se colocar como prioridade é muito, mas muito chato!

Durante um relação duradoura, é notável que as pessoas passem por fases diferentes; as pessoas mudam com o tempo. E quando não mudam o suficiente para acabar com o sentido da própria relação, o sentido de companheirismo também se transforma. Nesse ponto, seria ideal que os valores do companheirismo se reciclassem e se renovassem, acompanhando as mudanças das próprias pessoas que formam o par.

Companheirismo diz respeito a jogar na mesa as tais DR’s. DR faz parte de relacionamento, gente. Vejo muitos casais gays frustrados em aspectos do namoro e normalmente bate na falta de desejo sexual que acaba entre o casal. Alguns pularão suas respectivas cerquinhas, alegando que o outro também faz sem realmente nunca saber. Não sei ainda se esse caminho é o mais digno – inclusive – para o senso de companheirismo. Mas fica assim para refletir, cada cabeça a sua própria sentença.

Companheirismo é a amizade, é uma história de um cobrir o outro quando necessário. É ideal pensar num tipo de fraternidade porque quando a paixão acabar, e se não vier o amor sublime (coisa que todo mundo quer mas que quase ninguém encontra – rs), a amizade tende a ser um dos fortes alicerces para a relação se sustentar.

Eis o meu ensaio sobre o companheirismo.

7 comentários Adicione o seu

  1. eri disse:

    Depois de ler sobre a importância dos pequenos gestos em um relacionamento, só me resta terminar de uma vez a leitura do trabalho da faculdade de meu parceiro, no qual ele se dedicou tanto. Até porque, como vi em um anime dia desses “Para se ganhar algo é preciso pagar na mesma medida. Se não tem determinação para abandonar acaba perdendo tudo”. No meu caso, renunciar a preguiça em nome do amor rs

    P.S. Gostei bastante da parte sobre praticar o respeito mesmo durante a curtição. Ficar só pelo sexo/divertimento não implica em objetificar o outro indivíduo. Afinal não deixam de ser companheiros na busca de um objetivo em comum, por mais breve que seja.

  2. Wellington disse:

    Adorei o ensaio :)
    Concordo plenamente que um dos pilares básico do relacionamento, é o companheirismo, pois ele é o reflexo de uma série de qualidades que buscamos na outra pessoa.
    E também faz parte deste companheirismo, não se anular por completo, destacando também a importância da individualidade, portanto hoje a maior dificuldade não é achar alguém companheiro, mas alguém que consiga equilibrar o companheirismo com o individualismos, ambos necessários para o relacionamento.
    Claro que se há companheirismo, consequentemente deve haver compreensão e por sua vez respeito ao espaço do outro. Portanto acho que eles não são antagônicos, mas se complementam.
    Por fim, acho importante que o companheirismo seja mútuo, pois já vi vários casais em verdadeiras batalhas, para ver quem serve e quem é servido, e acho isso uma puta estupidez. Pois neste caso não há vitoriosos, apenas derrotados. Acho que vence quando há um equilíbrio, em que ambos servem e são servidos, sendo o vencedor o relacionamento saudável.
    Abraços
    Well

  3. Pode parecer estranho, mas vou usar esse texto como base pra melhorar meu relacionamento (não é namoro e nem amizade, apenas uma relação intensa) com uma mulher. Rs

    Sei que ninguém tem nada a ver com isso, mas precisava comentar sobre isso.
    Agradeço pelo texto MVG, bem esclarecedor.

    Abraços do CR!!

  4. ADOREI!!! E ME IDENTIFIQUEI PRINCIPALMENTE NESSE SENTIDO: O namorado ficou doente e precisa passar no médico? Seja o primeiro a se manifestar para fazer companhia. Além desse ser um gesto de companheirismo, mostra consideração e educação.

    Mesmo quando se está ficando com alguém, mesmo que seja apenas uma curtição, acho bastante digno responder a todas as mensagens de celular mesmo que se responda depois de algumas horas ou dias. Se a resposta demorou dias, é muito justo mandar um pedido de “desculpa pela demora” simples, sem grandes formalidades. Mais uma vez, os sensos de educação, companheirismo e respeito de interseccionam. E quando não há o interesse é 1000 vezes melhor dizer que não se tem interesse do que deixar as pessoas no vácuo, cozinhando, como se fosse uma possibilidade aqui ou ali quando bater a depressão/tesão!
    TÔ GOSTANDO DE ACOMPANHAR SEUS RELATOS…

  5. minhavidagay disse:

    Obrigado, André e benvindo ao MVG! :)

  6. Max disse:

    Olá, adorei o artigo pois veio em um momento bem oportuno pra mim. Estou com alguém há 4 meses. Ele sempre foi carinhoso, no inicio aparecia com presentinhos ou lembrancinhas inesperadas. Desde o inicio eu sabia que eu queria namorar, ter uma relação séria, mas depois de 2 meses, ainda não tínhamos conversado sobre as expectativas um do outro. Numa festa, um amigo nos perguntou se estávamos namorando e ouvi dele a seguinte explicação “ah a gente não quer rotular oq estamos vivendo”. A gente quem? Nunca tivemos essa conversa, eu queria rotular sim, adoro rotular oq estou vivendo, preciso classificar. Então depois disso resolvi pergunta-lo e ele disse que não queria rotular, pq quando o fazia sempre dava errado e contou que tinha um trauma do ultimo relacionamento. A gente acabou brigando feio essa vez pq me exaltei, etc… E prometi que não ia mais tocar no assunto. E assim se passaram mais dois meses e ele não toca nesse assunto nem a pau, mas internamente ainda me incomoda, pq eu não sei oq ele espera da nossa relação, as vezes tenho a impressão de que pra ele é só uma garantia de sexo, com algum esboço de comprometimento. Mas oq eu quero é uma relação de companheirismo, com mais profundidade. O fato é que depois do episódio da nossa conversa em que acabamos brigando, eu tomei um certo medo de DR com ele, porém continuo tendo duvidas sobre o quanto ele sente por mim e o quanto espera da relação, ainda mais depois de certa ocasião em que estávamos bêbados, eu solteira um ” eu te amo” e ele me deixou no vácuo, RS. Vcs tem algum conselho?! Alguma ponderação? Abraço. Obrigado!!!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Max,
      tudo bom?

      O que posso te dizer é o seguinte: talvez vocês precisem conversar e ter mais DR’s (rs). Lembre-se que DR não é fugir do controle, perder a cabeça e agir impulsivamente. Discussão de relação, a princípio, é uma conversa, ok? Relacionamento, sem conversa, como lancei no post do Facebook, não é um relacionamento! Vira e mexe, durante uma relação, precisamos aprender a colocar os “pingos nos i’s” das situações que nos incomodam. E, de novo, “pingos nos i’s” não quer dizer briga, exaltação e conflito. Pode vir no formato de uma simples discussão, de uma conversa.

      Outro ponto, acho que tanto você como seu namorado precisam aprender melhor o sentido, na prática, da palavra concessão. A questão do rótulo é realmente problema para algumas pessoas que acabam projetando traumas e experiências ruins nas palavras. É como se uma palavra, do tipo, “namoro”, virasse uma maldição. Mas sabemos muito bem que não existe mandinga ou mágica. A gente que encana mesmo. E, ao mesmo tempo, sinto que você só “ADORA” rótulos porque você está nessa situação de cobrança, querendo muito que sua história assuma o nome “namoro”. Mas, se você não estivesse sob esse contexto, talvez o peso dos rótulos amenizassem também.

      Relacionamento, Max, serve para tudo isso. Pra gente aprender a ceder aqui, conceder ali e, de fato, aprender que não é fácil. E com tempo, pelo menos, a gente aprende a fazer mais SIMPLES.

      Um abraço,
      MVG

      Além disso,

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