Minha Vida Gay – Desmistificando o Rio de Janeiro

Faz tempo que o Rio de Janeiro era uma mira para visita. Meu irmão vive na cidade maravilhosa há mais de 5 anos e eu tinha a impressão de que a violência e aquela aura da falta de delicadeza do carioca poderia ser uma realidade constante, em qualquer lugar.

Cheguei no Rio na quarta-feira com a desculpa de ter em mãos dois ingressos (para mim e para minha cunhada) para o Show do Elton John no HSBC Arena e, assim, a certeza que minha “mini férias” se conceberia em terras cariocas. Dito e feito. A perfomance de EJ foi três ou quatro vezes melhor do que no ano passado em São Paulo, o artista estava muito mais animado, fiquei ainda mais próximo do palco dessa vez e posso afirmar que o público, que lotava a arena, estava muito mais envolvido.

Até o momento, de cinco táxis que peguei, três deles reproduziam Jazz e Bossa Nova em suas rádios. O povo aqui, por enquanto, tem sido mais solícito do que mal educado. O ar de maresia e boemia se interseccionam muito bem. É uma metrópole grande e populosa como São Paulo mas com a exuberância de praias e paisagens que – agora – fazem-me compreender o encanto dos estrangeiros que, sim, estão por aqui aos montes. Não tanto como em NYC, mas com muitos deles por aí.

Vir aqui de “carreira solo”, como é meu caso (embora esteja muito bem hospedado na casa de meu irmão e de minha cunhada), não tira a sensação de estar bem acompanhado. Coincidentemente, uma amiga sapa da ESPM esteve por aqui e quinta-feira nos encontramos na famosa Rua Farme de Amoedo em Ipanema, a Frei Caneca do Rio de Janeiro.

Rua Farme de Amoedo. A Fei Caneca do Rio de Janeiro.
Rua Farme de Amoedo. A Fei Caneca do Rio de Janeiro.

Sem muita referência de onde tomar um Chopp, sentamos no bar To nem aí logo que avistamos nossos semelhantes na Farme. Ela acabou de terminar um namoro de 6 anos e fazia 1 mês e meio que estava solteira. Caso parecido comigo que estou hoje uns 3 meses nessa brincadeira do solteiro.

Pudemos confabular sobre a vida – havia anos que não nos viámos, achamos diferente o contato rolar no Rio – e celebramos o encontro afortunado no calçadão de Ipanema por volta das 20h. Falamos sobre a vida gay, do ponto de vista dela que é mulher e eu que sou homem.

Curiosamente e por parte dela, veio à tona a questão que já levantei aqui, sobre “heterossexuais” que gostam de transar com semelhantes do mesmo sexo. E eis que para minha surpresa minha amiga trouxe um discurso bastante interessante, de suas vivências atuais – e por assim dizer – frescas e graúdas.

Está ficando com outras duas mulheres. Ambas também casadas no melhor padrão heterossexual. Uma das moças tem forte viés a homossexualidade; existe não só o envolvimento sexual como também o afetivo pela minha amiga. E a outra, seguindo os moldes comuns dos homens que gostam de transar com outros homens mas não se sentem gays – padrão que costuma polemizar quando é assunto por aqui – tem hora marcada com a minha amiga exclusivamente e objetivamente para o sexo.

Cá fiquei pensando que, no momento que tomo ciência da existência de mulheres que também assumem esse comportamento, o tal do “macho” que pratica tal sexo com outro “macho” talvez não o faça pela exclusiva postura machista.

————————————

Estava pré-combinado em minha chegada ao Rio o encontro com o “Gustavo”, leitor do Blog MVG, 30 e poucos anos e que se manifestou outrora por e-mail sendo também um dos “machos” em seus casos. Ontem, sexta-feira, marquei um almoço com um primeiro “espécime” do tal homem que transa com homem mas não se sente gay. Fomos ao Centro e comemos uma bela feijoada na Lapa.

Muito solícito, o Gustavo me apresentou alguns pontos de referência, como o Teatro Municipal e o famoso Circo Voador, referência importante a mim quando o assunto é o rock nacional de Cazuza e Legião Urbana.

Fui seu primeiro contato de alguém que conhecera virtualmente. Logo questionei como ele encontrava outros caras para seu sexo furtivo e me explicou que simplesmente rola alguns olhares trocados na rua e uma famosa “patolada”, que nada mais é que uma coçada de saco em si, quando o outro retribui com o mesmo movimento e logo formalizam a pergunta: “tem local?”.

Achei bastante curioso e prático. Típico do ser masculino – rs.

Gustavo ainda não experimentou penetração. Beijou outro homem mas confessa não curtir muito. O mesmo para o sexo oral. O que gosta mesmo é de uma troca de punheta.

Teve um punhado de casos assim, passageiros e que ele afirma não passar de 10 minutos. Pelo menos, na fase atual de suas experiências furtivas de hoje.

A mim, mais importante do que as experiências com outros homens – que corresponde a momentos para atos de sexo homo – foi ter conhecido a pessoa que ia além das fantasias e dúvidas sexuais confidenciadas comigo. Um cara comum que não corresponde somente a uma sexualidade. Na mesma medida que ele desmistificava o MVG – que imaginava ser “magrinho e nerd” (rs) – eu desmistifiquei um pouco do tal “macho” pela sua representação. Um cara desenvolto para falar, aberto, carioca, bem resolvido e que tem levado a questão para sua esposa na medida do possível.

Se esse modelo comportamental vai se desenvolver para ele, permanecerá como está, se apagará ou revelará uma homossexualidade no futuro, difícil de saber. O que senti e que afirmo que é o mais importante de tudo é que a pessoa que é o Gustavo está levando a situação com equilíbrio. Sem grandes angústias, paranoias ou inseguranças. Sem arrependimentos, traumas ou nervosismos. E isso, seja para um “macho” ou para um gay enrustido acaba sendo a solução: estar bem e feliz consigo.

————————————

Não poderia deixar de adentrar uma Balada GLS por aqui. Resolvi conhecer a Fosfobox que teria noite de House. R$ 25,00 de entrada com nome na lista pelo site + consumação. Paguei a entrada antes e troquei dinheiro por fichas correspondentes às bebidas. Tão “maneiro” esse jeito de fazer balada, que nos afasta das filas monstruosas na hora de ir embora!

Fosfobox - Balada Alternativa GLS foram dos rotuláveis na Siqueira Campos - Copacabana.
Fosfobox – Balada Alternativa GLS fora dos rotuláveis, na Siqueira Campos – Copacabana.

Balada boa com uma cultura alternativa. Quem pensa que gay aqui no Rio só anda na beira da praia, tem músculos e faz a linha “Garoto de Ipanema” está enganado! Eu mesmo me enganei (rs) e vi na Fosfobox gente bonita mas não necessariamente do perfil midiático.

Com essas e outras experiências realizadas aqui na cidade do Rio de Janeiro, pude desmistificar muito daquela imagem suburbana, malandra, favelada e de arrastão que a mídia de massa nos vende todos os meses. O Gustavo, por exemplo, “mero conhecido” pelo MVG foi muito anfitrião para as horas que se prestou a me apresentar parte da cidade.

Posso afirmar que o universo cultural é muito mais diversificado e os hábitos por aqui são muito mais livres, de bater perna, dos que os nossos em SP. Paulista adora ficar no quadrado: dentro do carro, dentro do shopping, dentro do bar ou da balada. As pessoas, aqui no Rio de Janeiro se desenvolvem e se reconhecem muito mais na rua. As praças, que são muitas, estão repletas de pessoas até a noite.

Ipanema e Copacabana são dois bairros que nunca desligam. E sim, tenho que afirmar que a beleza e o ar menos “encapotado” dos garotos por aqui oferecem um outro tipo de beleza. Sair do centro (meu irmão está na Tijuca), cruzar o túnel Rebouças e partir para o avistamento da Lagoa Rodrigo de Freitas dá um sentido diferente ou diferenciado para quem está acostumado com a vida em grandes metrópoles. Apesar de super povoado (praticamente nada diferente de São Paulo) e com dezenas de favelas renomadas, o Rio de Janeiro reserva ainda algum poesia que me faz entender melhor os grandes músicos da MPB e suas inspirações.

Como primeira visita ao Rio, deixei o lado turista de ter sede pelos pontos fotografáveis tão manjados e senti melhor o que é ser carioca, ao lado de meu irmão, de minha cunhada, do Gustavo, com minha amiga na Farme e dentro da Fosfobox.

Importante citar também que o pai da minha cunhada e sua esposa estiveram presentes até hoje nesse meu período de férias. O “E”, além de proporcionar passeios ótimos e agilizados de carro pelas praias do Rio de Janeiro, é alguém que sempre teve contato com amigos gays e pôde desenvolver boas conversas sobre o tema da homossexualidade com abertura. Falamos de ex-namorados da minha cunhada que são gays (assunto que poderá virar post qualquer dia desses), falamos de seu amigo e trouxemos outros assuntos de maneira bastante esclarecida.

Tudo muito maneiro! :P

12 comentários Adicione o seu

  1. Fernando disse:

    Conheço este lugar e não acho nada demais! Como não curto praia e corpos desnudos, pra mim tanto faz, tanto fez, este clima de maresia! Acho meio clichê este lance de bossa nova, apesar de reconhecer que se trata de música brasileira palatável e politicamente correta para mostrar aos estrangeiros!

  2. Gabriel disse:

    MVG, apesar de não ter me encontrado com você, fico feliz que, ao contrario do que eu esperava, a impressão que você teve do Rio foi positiva. Eu tenho a teoria que os habitantes da cidade X são os que menos gostam da cidade X, pois quando você habita um certo local, tem que conviver com os problemas que ele apresenta, de transito, de pobreza, etc, todo santo dia. Na minha humilde opinião, os turistas são fascinados pelo Rio pelo estilo de vida “exótico” que ele possui, tanto que a grande maioria que vem morar aqui (mas ainda são muito poucos em relação ao que poderia ser) dificilmente voltam para o pais de origem. Infelizmente, esse estilo de vida não e’ pra mim, ao ponto de as vzs pensar que nasci na cidade errada. Gosto de cinemas, museus, teatros (e baladas GLS claro), e nossas autoridades altamente competentes ajudam muito a manter o Rio sem as qualidades que São Paulo possui. O que ja deveria ser feito a muito tempo e’ um trem bala ligando o Rio a SP em poucas horas de viagem, facilitaria muito a minha vida independente de onde eu resolvesse viver. Mas estamos no Brasil, ne? (estádios inúteis em lugares desnecessários, por outro lado…)

    Mas enfim, o que mais me chateia no Rio e’ a falta de espaços GLS em comparação com outras cidades do Brasil. O povo daqui e’ muito conservador ainda (só e’ liberal pros gringos, oque incentiva a prostituição), e esse distrito gay de Ipanema e’ basicamente tudo que temos a oferecer nesse quesito. Ja fui ao To nem Ai duas vezes com amigos, e se algum conhecido gay de internet pudesse me encontrar fora dela, adoraria marcar o encontro la. Mas ainda não fui na fosfobox, e apesar de todos falarem bem dela, ainda não tive a chance. Meus pais sabem que la e’ uma boate gay, o que apenas piora as coisas. Vejo amigos homossexuais, as vzs mais novos do que eu e nem um pouco independentes financeiramente, indo la com freqüência, o que me deixa solitário. Ja estou cansado de shopping e cinema. Vamos ver se a faculdade ajuda, ou as provas atrapalham mais ainda rs.

    Bom, chega de reclamar. Ainda tenho o carnaval durante 9 dias, e uma pena que não deu pra nos vermos, mas eu perdoo porque você ja tinha outras coisas marcadas antes, e eu demorei pra saber da sua vinda ao Rio. Espero que, com minha família fora da jogada, eu consiga aproveitar algo vagamente parecido com a liberdade. Tenho uns planos em mente, mas te conto no privado.

    Ate a próxima,
    Gabriel

    1. minhavidagay disse:

      Poxa, Gabriel!

      Eu pensava que você estivesse intimidado para me encontrar pelas questões com seus pais, por isso não te procurei.

      Mas não tem problema. Volto ao Rio e pelo visto quem vai te levar na balada no Rio sou eu, eheheh.

      Falamos em breve e logo respondo seus e-mails. Fiquei de “férias” do MVG.

      Beijo!

    2. Caio disse:

      Puxa Gabriel, assim como você reclamou da falta de espaços GLS no Rio, já tinha lido outros comentários por aí dizendo o mesmo. Se for assim mesmo tão precária a situação, então imagine nas demais capitais Brasil afora (isso sem falar das cidades de médio porte). Afinal Rio e Sampa são as maiores cidades, então…Aqui é que é triste, a cena é pequena e ainda está decadente rs.

      Abraço.

  3. Caio disse:

    Nossa mas esse Gustavo é meio estranho, para mim é claro. Independente do que ele considera ser eu não ficaria com um cara que não faz nada na intimidade: não gosta de beijar, não gosta de pegação…ahh acho isso muita limitação. Não me sentiria bem nem um pouco se estivesse com um cara assim. Bom, mas ele é quem sabe né o que lhe agrada. Assim como eu não sou obrigado a ficar com um homem assim, ele também não é obrigado a fazer o que não gosta.
    E quanto ao Rio, assim como você até um tempo atrás em que pouco sabia sobre a cidade também tinha certos receios. No entanto, isso nunca apagou minha instigação em querer conhecer, principalmente depois que busquei novas informações e fiquei sabendo que os caras são bem quentes, com certeza melhores do que os daqui eles são rsrsrs. Quando der vou me realizar.

    MVG, pensei num tema para postagem: homens assexuais no caso que gostem de homens (homoromânticos) ou aqueles homos que não fazem sexo por certos motivos, mesmo gostando ou sabendo que podem gostar. Não sei se você têm algum conhecimento sobre o assunto, mas acho que é algo a se pensar, afinal poderia ajudar quem é ;)

    Abs e bom domingo.

  4. lebeadle disse:

    MVG estou aqui curtindo teu relato de férias. A Farme de Amoedo é também a rua onde morou Gal Costa nos anos 70 e a praia em frente é onde os jovens desbundaram nas dunas do barato onde ficavam discutindo política, fumando e só saiam quando o sol se punha, o que era causa de saudações com aplausos, foi no verão de 72.
    Será que é possível ter o equilíbrio desse Gustavo? Viver mais objetivamente, de fora para dentro, sem tropeçar a todo momento nos escrúpulos, superando os fantasmas da cabeça e se equilibrando com as mensagens que vem da razão e do mundo exterior (às vezes mais ameno que o interior…) ?
    Essa “fêmea” é um barato. Tem que dar samba, digo,post;
    No mais beijos, abraços e espero que como a Greta Garbo da peça, não acabemos todos no Irajá…Que os santos gays Baco e Sérgio nos livrem dessa!

  5. Gustavo disse:

    E aí MVG!!
    Achei “maneiríssimo” o post! Espero que vc tenha se divertido muito por aqui!
    E lendo assim, tb me acho um bicho muito estranho! kkkkkkkk
    Só pra esclarecer alguns pontos:
    – a patolada pode ser bem mais que uma coçada no saco! Aliás, quanto mais firme a “pegada na mala”, mais declarado fica o gosto pela coisa! rsrs
    – o que disse sobre o beijo foi q os caras que já beijei ficam só naquele beijo de filme pornô, um querendo engolir o outro…kkk… acho que falta um pouco do beijo mais sensual, lento, e tal… mas pode ser só um problema amostral mesmo!! rsrs
    – e sobre o sexo oral… pow… realmente achei muito sem graça chupar piroca!! kkkkkk… Me amarro em receber, e faço pq sei que os caras curtem tb! Mas, sinceramente, prefiro as texturas, cheiros e dobras da genitália feminina!
    Mas, de qq forma, vou continuar fazendo!! Quem sabe não mudo de opinião?!?!!? kkkkkkkkkkkkk
    Da minha parte, foi um grande prazer conhecê-lo, ver que não é nem o magrelinho nerd, nem a gueixa cor de rosa!! rsrs
    Fico feliz de termos passado – por acaso – pelo Circo Voador, e isso ter sido tão marcante pra vc! Quando vier de novo, tamos aê!
    Grande abraço

    PS: Caio, eu gosto de pegação sim!!!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gustavo!

      No final eu saquei bem qual é da patolada – rs. No sábado a noite estava passeando pela Tijuca, sozinho, e um cara que vinha cruzando pela rua, lançou um olhar fulminante e deu uma pegada no saco digno de preliminar de filme pornô! Ahahahah

      Na hora lembrei de você!

      Talvez isso seja um código dos “machos” cariocas! Não tive nenhuma referência semelhante por aqui ainda.

      E valeu mesmo! Não devo demorar para voltar ao Rio e a gente vê se marca algo!

      Abração,
      MVG

    2. Caio disse:

      Gustavo, apenas esclarecendo, o que eu escrevi em relação a você não foi de forma alguma para te difamar. Simplesmente coloquei meu ponto de vista em relação a qualquer um que seja como você (baseando-se no que foi relatado). É que não gosto de me envolver sexualmente com homens que não curtem beijar, e também não fazer o que você disse não gostar de fazer. E repito que você tem total direito de não fazer o que não gosta. No caso somos apenas destoantes em relação a gostos.

      Abraço.

      1. Gustavo disse:

        Tql Caio! Nao entendi como difamação tb não!
        Na verdade meu comentário pra vc era pra ter sido bem-humorado tb, mas acho que não ficou claro!! Faltou um “rsrs” no final… rs
        abs

  6. Gustavo disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkk
    Aprendendo na prática!!!
    E aí, alguém tinha local??? kkkkkkkkkkkkkkkk

    1. minhavidagay disse:

      Nãooo! A cidade está em obras, muitas obras! Ahahaha

Deixe uma resposta