Minha Vida Gay – Ensaio sobre a solteirice e a solidão


Digo que a solteirice e a solidão são companheiros íntimos, embora existam tantos casais formados cujos integrantes se sentem sós.

Digo também que a solteirice tem um sentido bastante diferente para dois grupos de pessoas: (1) aqueles que nunca ou quase nunca formaram um par e (2) aqueles que já formaram par por longos anos e hoje se encontram sozinhos.

Para o primeiro grupo, o sentido da solteirice se divide em dois outros subgrupos: daqueles que fazem da solteirice um tipo de impulso para – na maioria do tempo – estar entre amigos, fazer amizades, estar com a família, buscar pessoas novas para se agrupar, estar na rua e exercer a maior parte do tempo possível o sentimento de socialização. Para outros, a solteirice leva à introspecção, um tipo de reclusão social, as vezes até a um fardo ou a uma vitimização. Os extrovertidos tem a solteirice como um projétil para se socializar. Os introvertidos tem a solteirice como um tipo de alimento para a sua introspecção que pode ser em leituras, com filmes, seriados, músicas, instrumentos e assim por diante.

A bem da verdade é que todos nós temos um pouco de extrovesão e introversão. Pender para um lado ou para o outro não deve entrar num campo de qualidades, do que é melhor ou pior. Temos que respeitar nossas porções.

Do segundo grupo, aqueles que já construíram vivências e experiências em par também sabem o que é estar sozinho mesmo se relacionando e, talvez, percebam o estar solteiro com outro olhar. E desse segundo grupo podem haver extrovertidos e introvertidos, para tirar o mito de que o introvertido não consegue formar par. Estar calado nem sempre é pecado. Pra falar a verdade, nos tempos de hoje, é até ao contrário.

A extroversão e a introversão passam a ter menos peso em relação ao estar só depois que se vive um ou mais relacionamentos com profundidade. Lembrando que profundidade é diferente de intensidade. Para a profundidade se vai lento, é como se fosse um mergulho vertical em alto mar, onde se nota o compasso da respiração, o que se está a volta e se pode sentir a água atravessando nossos movimentos, as correntes frias e quentes, o som do coração.

A intensidade, e a maioria sabe do que estou falando, é como uma explosão.

As vezes, depois de vivências em relacionamentos, floresce um sentimento de autosuficiência que gera um tipo de prazer e posso até afirmar que tal plenitude promove momentos de picos de êxtase por esse tipo de conquista, da autosuficiência. Talvez tenha até uma pitada de algo espiritual, mas certamente tem algo de desenvolvimento humano, evolução e crescimento.

É muito comum as pessoas hoje em dia buscarem por outras para se sentirem felizes. E na verdade, apesar de ser tão comum e acontecer com a maioria de todas as idades, a felicidade não está no que projetamos no outro; a felicidade nunca será o outro. É por isso que as vezes, mesmo junto de alguém, nos sentimentos sozinhos. É por isso também que muitas vezes os relacionamentos terminam ou, provavelmente, mal começam. O outro não deve ser a fonte de nossa felicidade, muito menos de dependência, seja emocional, intelectual ou material. Para quem visa essa consciência.

Claro que isso é uma filosofia. Pelo menos é a que tenho buscado para mim, independentemente da minha orientalidade.

Não tem jeito. O caminho tende a ser igual para todos: precisamos aprender a nos relacionar bastante, mais de uma, duas ou três vezes para nessa caminhada encontrar o sentimento da autosuficiência. A prática é definitiva para a qualidade de vida, sob todos os aspectos.

A idade possivelmente também conta porque na trajetória a gente vai aprendendo a domar algo muito comum, humano e frequente: a carência. Estar carente de um outro é uma falta de consideração e segurança consigo. A vivência, sobre a influência do tempo, acaba nos ensinando dessas coisas.

Carência afetiva e emocional pode ser algo ameno mas também pode ser um tipo de pesadelo. Pode ser uma alavanca para nos projetar na vida – para correr atrás de tapar nossas fendas emocionais – mas também pode se manifestar como um exercício da pura infantilidade e prisão em outros casos.

Solteirice só acaba funcionando bem quando o “tanque” de autosuficiência está mais cheio que o da carência.

Ter um par parece ser a garantia segura para sermos felizes. Mas quase nunca é assim, a não ser nos casos utópicos das almas gêmeas que se encontram. No mundo real existe um esforço superior para nos bastar, que tem muito a ver com o famoso conceito do “amor próprio”. Mas não acho que todo mundo entende direito desse tal “amor próprio”. Eu também estou procurando saber mais.

Relacionamentos podem ser bengala por longos e longos anos. E o pior acontece quando damos conta já com rugas. Ou talvez, nem seja tão pior assim. Talvez as rugas indiquem o tempo certo de quem as aguardou chegar.

Entendo que a felicidade só faz sentido quando é compartilhada, parafraseando o filme “Into the Wild” (Natureza Selvagem) que é o puro retrato do exercício da solidão (e da solteirice). Mas existe um limiar sutil e delicado entre o estar feliz somente com a existência de um outro, no caso, o par e o ser feliz consigo. O primeiro é dependência que a mim é ruim. O segundo é a independência, quando um par se forma por outros e outros valores. Os tais amadurecidos que as vezes são tão subjetivos que só compreendemos depois de amadurecer.

A indendência emocional, na maioria das vezes, é um tipo de luz que vai brilhar apenas para aqueles que se esforçam para encontrá-la.

Temos que ser agradecidos, principalmente, pela existência de nossas próprias famílias. Que não são as famílias daqueles que nos acolhem, mas as nossas próprias. Podemos agradecer também pelos amigos, daqueles de encontros furtivos cuja relação só se estabelece em locais ou situações específicos a aqueles que levamos por anos durante a vida.

Solidão é diferente de solitude. A solitude não se compara a ninguém, não nos gera ansiedade, nem nos classifica.

Solitude tem muito do respeitar o aqui e o agora. Tem muito a ver a estar em paz consigo.

No final, sobre solidão e solitude, é necessário praticar.

8 comentários Adicione o seu

  1. Wong Foo disse:

    Eu com 19, assumido, tive apenas um relacionamento de um ano à 2 anos atrás e desde então não sai com ninguém. Acho importante tirar um tempo pra si, mas o problema é que parece que quanto mais o tempo passa mais difícil parece ser sair da solidão, o que se complica ainda mais pra quem mora no interior ou não curte aplicativos/baladas.

    Mas nada que um pote de sorvete não resolva, rs

    1. minhavidagay disse:

      Oi Wong Foo!
      Apenas 19 anos?! =O

      Puxa vida… não se preocupe que muitas águas vão rolar ainda, ehehehe.

  2. Jotabê disse:

    Tenho 30 anos, estava em um relacionamento de 5 anos (entre idas e voltas) e resolvi (emos) terminar não por falta de amor, mas porque acredito que assim como um relacionamento te oferece coisas boas, também tira de você muitas coisas boas. E ficava sempre com a sensação de que não vivi coisas esperadas para a minha idade. Talvez por ter começado minha vida sexual gay efetivamente aos 23 anos ( o Chris Martin também, rs) acho que precisamos viver a solteirice de maneira plena e não entendê-la como uma espera, algo transicional entre um relacionamento e outro. Decidi que até os 35 não pretendo conhecer ninguém com o propósito de me casar. Na solteirice vivemos os sabores do risco, os dissabores da decepção, o medo do novo, em momentos intensos e construtivos. A solidão faz parte, mas os mecanismos que podemos usar para superá-la também.
    Ah, o Chris Martin começou a vida sexual aos 22, admito.

    1. Guardian disse:

      prezado JB, aqui é “Guardian”. Assim como vc, sou um homem de 30 anos que começou sua vida gay aos 23 anos tmb!rs. Mas certamente este não é motivo pelo qual gostaria de pedir a vc um canal de comunicação para trocarmos idéias. Essa minha vida de recém solteiro é extremamente nova pra mim e reconheço que o processo de aceitação não está nada fácil! Sua forma madura e tranquila de encarar a vida, (abrir mão de um relacionamento estável em prol de uma vida livre, cheia de riscos, não é pra qualquer um!) me fez pensar que vc talvez pudesse me auxiliar neste momento, através de um contato virtual absolutamente despretensioso. Caso seja de seu interesse também, avise-se que mandarei um endereço de email pra vc! Desde já, um forte abraço!

      Guardian

      1. JB disse:

        Oi meu querido, claro q sim, mande e-mail… Abraço

    2. guardian disse:

      Pode entrar em contato pelo seguinte email: guardiansantos@gmail.com

      Desde já agradeço a sua disponibilidade e aguardarei seu contato! Grande abraço, queridão!

  3. Guardian disse:

    Para alguem que se acostumou a estar em relacionamentos estáveis, a solteirice parece assustadora. Estou passando por isso neste momento. Sei que nao vai ser fácil, mas estou me propondo a namorar “comigo mesmo” por tempo indeterminado, sem buscas, e com a confiança de que um dia, quando eu menos esperar, a vida me supreenderá com alguem q queira seguir na mesma direção q eu, ao meu lado. Como também nao sou baladeiro e não curto os instrumentos de caça hj em dia disponíveis, estou certo de q terei êxito em meus propósitos. Abraco a todos. P.S.: conheci o blog esses dias e to adorando! ;)

  4. Toni disse:

    Relacionamento estável? O que é isso? Aos 25 anos, já aceitando minha condição sexual/afetiva, nunca soube o que é um relacionamento estável. E olha que já namorei 4 vezes, e um desse durou 2 anos e meio (e também foi o mais conturbado). O último, e mais intenso, durou 2 meses e 17 dias (eu acho). Lendo o seu texto me veio agora a pergunta: como vou saber o quanto é bom estar solteiro se não tive o prazer de ter um bom e longo relacionamento? É preciso provar os dois lados pra chegar a alguma conclusão, não? Ultimamente venho repensando alguns ideais que mantenho comigo, por exemplo: casar e construir uma vida a dois. Mas, quanto mais vivo nesse meio gay, mais percebo que esse “american dream” só existe para casais héteros. Ok. Eu sei que essa minha frustração está sob influência do término do último namoro (que saudade dele). Mas, poxa, que coisa! Não sei mais no que acreditar. Por esse motivo, resolvi me afogar nos estudos e iniciei um relacionamento sério com livros, apostilas e vídeo aulas. Perdi muito tempo e energia depositando carências e esperanças em pessoas/relacionamentos e acabei esquecendo de mim. Falha minha, somente minha. Imaturidade também. Não me ensinaram na escola como eu deveria agir nessas situações. Agora eu sei. É isso. Ao menos, serei um velho rico, sozinho, mas rico.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s