Laboratório da traição – Vida Gay

Dos 11 anos somados de relacionamentos que considerei sérios, traição foi um ato que não entrou no meu currículo. “Ficha limpa” e o melhor: sem “rabo preso”.

Rabo preso: eis uma condição que sempre evitei ao máximo em minha vida, do estado de corrupção como está descrito no Wikipedia – “ato ou efeito de se corromper, oferecer algo para obter vantagem em negociata onde favorece uma pessoa e prejudica outra” – principalmente quando o outro nem faz ideia.

No caso da traição em um relacionamento, titio explica: a “negociata” é nada mais, nada menos que o sexo com o terceiro; o “oferecer algo”: o corpo. Os “favorecidos” são o traidor e o amante. O “prejudicado” é o outro parceiro que compõe o casal perante os grupos sociais.

As pessoas que traem, pelo menos entre os gays, tem uma incrível mania de afirmar que o companheiro faz o mesmo sem nunca saber se de fato acontece. Fica aquela coisa no ar, subentendida, e se faz e até se repete, naquele patamar de “fazer de novo é burrice”. Já ouvi até que esses atos melhoram a relação! Gente, quanta ladainha! (RISOS).

Como ser humano, passível de meus próprios “demônios”, cometo também meus pecados, pecados esses definidos pelo senso moral e pelo julgamento alheio como se encontra expresso por aqui, em posts recentes que apresento meu lado “carniça”. Dou a cara para bater e que se foda. Mas, contudo, todavia, traição não.

Até os meus demônios preferem agir protegendo seus rabicós.

Do ponto de vista espiritual, visão que tenho compreendido mais nos últimos dois anos, traição – apesar de ser um dos tons do erro humano – é uma falibilidade mais complexa; justifica o limbo que é a Terra. É corrupção e, se a ideia fosse dar exemplo perante a sociedade num sentido da retidão pela conduta, tal corrupto não poderia nem se quer reclamar de nossos políticos. Mas, humanos, falastrões e metidos que somos…

Perdi recentemente um amigo – de uma amizade de mais de 10 anos – justamente por ter sido testemunha de um punhado de relatos de sua corrupção frente a um relacionamento de mais de 5 anos. E o problema é que em nenhum momento manifestei alguma contrariedade, antipatia ou rejeição perante suas negociatas. Talvez ele esperasse isso de mim diante tamanha intimidade, mas não fiz. Talvez ele quisesse ouvir minhas pronúncias de alerta sobre os caminhos que estava escolhendo.

Mas consenti, já que privilegiei a amizade em detrimento a seus feitos. Não queria assumir o papel do “Papa”, do moralista onipotente que nunca cometera erros. E o bode expiatório, para ele “surtar” e se distanciar foi justamente a minha espiritualidade: sabe quando a própria pessoa não aguenta, não suporta e não sustenta o fato d’eu saber de tantos atos corruptos e, no final, se sentindo ameaçado e exposto, se agarra a um primeiro subterfúgio para justificar (alienadamente) um distanciamento? Pois bem, foi o que ele fez.

Fico pensando se ele aguentaria estar junto eu, ele e seu namorado num hipotético encontro social. O oportunismo sugeriu a fuga. Fácil.

A minha sorte, e digo sorte no sentido de uma proteção superior, é que ele provocou essa situação justamente em meu momento de exercício intenso de desapego, de revisão, do desenvolvimento de minha espiritualidade, de olhar para o passado, filtrar aquilo que já não mais funciona para a pessoa que sou hoje e colher os frutos mais graúdos das minhas escolhas. A autosuficiência que vibra nesse momento resolveu bastante coisa nesse caso.

No meu laboratório da traição fica uma coisa certa: traição não é somente uma fraqueza humana. É também uma fraqueza da alma. E quem trai, normalmente desdenha ou repudia as visões da espiritulidade. Costuma se manter afastado desses assuntos porque, no final, não bancaria. Porque no canto da intimidade tem medo. E é mentira quando diz que não acredita.

Nesses recentes últimos dias, depois da minha viagem ao Rio de Janeiro, voltei com a minha intuição aguçada. Tive dois insights/previsões e uma delas posso revelar aqui pois tem bastante a ver com um Blog denominado “Minha Vida Gay”: na segunda-feira liguei para meu ex-namorado pois estamos partilhando de um mesmo projeto de trabalho juntos. Precisávamos definir melhor o briefing e acertar a mão para a apresentação ao cliente.

Durante a conversa, de súbito, tive tal “insight”. Como se alguém soprasse ao meu ouvido (coisa que inclusive já averiguei para entender qual é) algumas palavras espontâneas e racionalmente incertas: “Você já está namorando com cicrano? Pelo menos ficando vocês estão, né? (…)”. Meu ex ficou atônito e, diante o desconforto, rapidamente entrei no assunto do trabalho.

Na quarta-feira meu ex confirmava minhas questões. Confesso não ter ficado chateado com seus pulos. Afinal, a decisão do término veio em comum acordo e tenho relatado em detalhes o quão vivaz está a minha vida depois da decisão do rompimento. Em outras palavra, a escolha veio no tempo certo. O “problema” a mim é que os “insights” as vezes me pegam de surpresa. Mas nada que já não esteja sendo trabalhado.

Amanhã de madrugada parto para a cidade mineira de Carrancas para me privilegiar indo antes dos carnavalescos e voltando apenas na quinta-feira. Tenho certeza que o contato com a natureza, cachoeiras e lagos darão uma limpada na “carniça” depois de tantas baladas, corpos e saunas nos últimos meses (rs). Mais um motivo para ficar atento a tal espiritualidade.

Voltando ao título do post, que poderia se chamar “ensaio sobre a traição”, resolvi fazer diferente porque – na prática – nunca desenvolvi tal ato. Mas fora de mim, casos aqui e ali pululam para minhas observações:

O traidor prefere preservar o porto seguro social, desde a fachada ao consolo confortável da existência do par. O consolo pode ser emocional, intelectual ou material. Quando são os três, o problema é bastante grave, a dependência é evidente e a corrupção tende a ser ampla.

Mas quem sou para dizer sobre tal gravidade, no momento que tal relação não me pertence? Não me pertence, mas sei que pululam. A mim sempre foi mais fácil terminar a trair.

O traidor normalmente tem um quociente de inteligência alto (basta ver como são articulados, mentalmente ágeis e sabem ter assunto) para equilibrar o quociente emocional que é baixo. O “quociente espiritual” nem se fala. É ridículo (rs). É viver um desequilíbrio.

Eu, japonês ou whatever, prefiro batalhar pelo “caminho do meio”.

De todas as falhas humanas – que inclusive justificam o nosso próprio estado medíocre – a traição me parece ser a mais problemática. Poderia dizer que é uma doença da alma e, como doença, pode ficar crônica.

Traição nos leva às complexidades da existência. Estamos aqui para revelar a simplicidade. Mas quem disse que todos nós somos capazes de abandonar essa contramão? Bem-vindos ao planeta Terra.

9 comentários Adicione o seu

  1. Black and Rainbow disse:

    Esse lance de intuição é foda! Sei muito bem como é, acho que quanto mais centrado o indivíduo está, com maior frequência e clareza virão os insights. Sobre aqueles que traem não sei bem o que pensar a respeito, nunca traí e acredito que nunca fui traído, mas tenho uma certa descrença em relação as consequências negativas de quem age levianamente.
    Bom “retiro espiritual” pra ti, também queria muito fugir desse caos todo de carnaval, mas infelizmente os meus compromissos me impedem…
    Até mais.

  2. Ali disse:

    Texto Maravilhoso!!

    Bom retiro MVG,curte bastante toda essa “transcendência”.
    Abraços!

  3. Gustavo disse:

    [Post excluído a pedido do leitor]

    1. minhavidagay disse:

      Fala Gustavo,
      meus comentários dispensam justificativas já que te mandei o e-mail para avisar sobre esse post e que não seria diretamente a você.

      No meu ponto de vista a sua traição teria algumas isenções e explico o por quê: o tal “macho” sofre ainda mais por haver uma total familiariedade com o modelo social heterossexualizado e, ao mesmo tempo, o desejo de resolver intenções homossexuais. Em que nível está esse conflito? Definitivamente não sabemos ao certo.

      E sim, existe um conflito assim como com os bissexuais e a sociedade – da maneira que foi configurada – vai cobrar do “macho” ou do bissexual estar lá ou cá. Todos esses pontos são pesos excedentes que passam longe do homossexual. Os gays hoje se restringem, basicamente, a aceitação como gays ou não. O “macho”, de certa maneira, será taxado/driscriminado tanto no universo hétero como no gay (como você mesmo pode ver por aqui).

      Agora, a mim, critico diretamente a “minha classe” mesmo, nesse post. Estamos cada vez mais com um lugar ao Sol, ao lado do heterossexual, e de certa forma já temos a “faca e o queijo na mão” – pelo menos nas grandes capitais – para exercer nossa emancipação e autonomia. Mas mesmo assim, independentemente da nossa sexualidade, a traição é um ato recorrente, intrínseco na personalidade de alguns indivíduos.

      Enquanto o “macho” não é amplamente compreendido, não dá para saber se a traição não é uma consequência inevitável do próprio modelo “macho”. Agora, no modelo homossexual ou heterossexual, a traição seria claramente evitável. Não precisamos trair para termos nossas experiências gays ou heterossexuais. No seu caso, traição acaba sendo também uma condição de um mecanismo para que você promova suas experiências. Entende a diferença?

      O fato é que sexualidade é muito mais diversa ou segmentada do que o nosso senso moral gostaria de se assegurar. Agora a traição, quando claramente desvinculada da sexualidade (seja homo ou hétero), e quando praticada sob essa desculpa da falibilidade humana, merece toda minha crítica como feita no post.

      As nuances são sutis, mas o que eu tenho refletido é isso: o “macho” que tem seus lampejos de experiências homossexuais se apropria da traição como parte de um mecanismo. Em outras palavras, não vai dar para o “macho” ser “macho” se incondicionalmente não trair. Mesmo solteiro, como o caso do “macho” que eu pego de vez em quando, existem questões com seus casos ou ex-casos com mulheres. Agora, como gays ou heterossexuais, não precisaríamos trair. Traição não faz parte necessariamente de um mecanismo para possibilitar a experiência sexual.

      Abs,
      MVG

      1. Gustavo disse:

        [Post excluído a pedido do leitor]

  4. Jonathan disse:

    Super adoro esse blog. Ler esses textos me inspiram de uma maneira muito grande. Abraço e continua escrevendo e ajudando muitos!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Jonathan!

      Direto das minhas “mini férias” em Carrancas, MVG. :)

      Bjo

  5. Wicked disse:

    Se o traidor é feliz desse jeito, vá fundo.

  6. Migrannte disse:

    Bem, acredito que depois de tantos diálogos e reflexões pouco tenha sido dito sobre a pessoa traída (seja numa relação hetero, homo, bi ou o nome que quiser dar) e talvez (somente talvez) essa pessoa é que deveria estar no centro do debate quando abordamos o assunto.
    Para mim, parece inconsequência se deter em questões de ordem filosófica ou ética sobre a traição quando efetivamente a outra pessoa não sabe que está sendo traída. De maneira direta: não é dado a ele/ela o direito de escolha frente à situação impossibilitando-o/a de decidir se quer ou não permanecer naquela relação que pensa ser monogâmica. Acredito que se existe um acordo tácito entre duas pessoas dizendo que não haverá a presença ou espaço para outrem, seu descumprimento deve ser anunciado (de maneira clara e eloquente) posto que havia sido pactuado previamente entre as partes. É honesto, justo, e, sobretudo, sincero, fazer com que o outro tome ciência dos atos daquele/a que se diz fiel.
    Por fim, vejo a traição como uma forma sorrateira e ardilosa de dominação. Subjuga-se o outro, seus sentimentos, suas esperanças, sem que ele/ela tenha a possibilidade de se defender ou mesmo se libertar daquela condição que não tem ciência. Creio que ludibriar ou enganar deliberadamente uma pessoa é o contrário de amá-la.

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